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A S EXCELÊNCIAS INTELECTUAIS

2.1 A ÉTICA

2.1.2 A S EXCELÊNCIAS INTELECTUAIS

dotadas de continência devem necessariamente ter desejos fortes e maus, pois se os desejos são bons a disposição que nos impede de segui-los é má, de tal forma que nem toda continência é boa; se, ao contrário, os desejos são fracos e não são maus, nada há de admirável em resistir-lhes, e se são fracos e maus, nada há de notável em resistir-lhes também neste caso.93

Quanto à bestialidade, esta é o extremo do distanciamento do homem das características que se fazem considerá-lo como tal, não havendo como se falar em excelência ou deficiência pela proximidade, mas sim na proximidade deste tipo humano com as feras. Assim, a alienação, a covardia, a intemperança e a irascibilidade, quando levadas ao excesso, são consideradas condições bestiais ou mórbidas.94

Tendo por base o que foi até aqui exposto, restam demonstrados os principais elementos que se referem à virtude moral, os quais acabam por ocupar boa parte da teoria ética do Filósofo, faltando apenas tratar sobre as questões da amizade e do prazer em sentido ético, que serão feitas em momento posterior devido à sua importância ao tema.

Cumpre agora ressaltar os principais aspectos referentes às excelências intelectuais no pensamento de Aristóteles.

estudos incluídos na educação enciclopédica são úteis para alcançarmos a excelência”95.

Em Aristóteles, para se discutir as virtudes intelectuais é importante ter-se por base que existem duas faculdades racionais, uma nos permite contemplar as coisas cujos primeiros princípios são invariáveis, outra às coisas passíveis de variação, denominando-se a primeira capacidade como faculdade científica e à outra calculativa.96

Quanto à faculdade científica a primeira forma de excelência a se destacar é o conhecimento científico (episteme), o qual se direciona ao conhecimento das coisas que são verdadeiras. Este tipo de conhecimento, conforme Aristóteles já tratou nos Analíticos (especialmente nos Analíticos posteriores) procede por duas vias, por meio da indução se estabelecem os universais, enquanto que pelos silogismos são os avanços feitos a partir dos universais.

A episteme se refere a um tipo de conhecimento que pode ser ensinado, pelo qual busca-se identificar algo que já é existente e verdadeiro. Assim, um homem possui conhecimento na situação em que “[…] tem uma convicção a que chegou de certa maneira, e conhece os pontos de partida”97. Neste ponto, inclusive, volta-se àquilo que Aristóteles já destacou no livro I de sua Metafísica, de que a sapiência consiste no conhecimento das causas das coisas.98

A arte (techné) por sua vez, diferencia-se por ser uma disposição relacionada com a criação, envolvendo assim um modo de raciocinar que traga algo de novidade àquilo que é feito pelo artista. O ponto de novidade surge a partir do intelecto do artista, sendo por este motivo considerado como algo artístico.

O Estagirita conclui assim que:

Toda arte se relaciona com a criação, e dedicar-se a uma arte é estudar a maneira de fazer uma coisa que pode existir ou não, e cuja origem está em quem faz, e não na coisa feita; de fato, a arte não

95 LAÊRTIOS, Diôgenes. Vidas e doutrinas dos Filósofos Ilustres. Tradução de Mário da Gama Kury. 2. ed. Brasília: UnB, 1977. p. 136.

96 ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. p. 114.

97 ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. p. 115.

98 ARISTÓTELES. Metafísica. p.7.

trata de coisas que existem ou passam a existir necessariamente, nem de coisas que existem ou passam a existir de conformidade com a natureza (estas coisas têm sua origem em si mesmas). Já que há diferença entre fazer e agir, a arte deve relacionar-se com a criação, e não com a ação. De certo modo, aliás, o acaso e a arte se relacionam com os mesmos objetos […]”99.

A terceira excelência intelectual apresentada pelo Estagirita é a sabedoria prática, também chamada de prudência (especialmente pela tradição posterior a S. Tomás de Aquino) ou discernimento (phronesis), que diz respeito à capacidade de deliberar bem acerca do que é bom e conveniente para si mesmo.

Trata-se, portanto, de uma excelência ligada à faculdade calculativa da alma e que se caracteriza por saber dentre as várias situações que surgem diante do indivíduo escolher aquela que é a mais adequada, a que gera mais ganho existencial, portanto, o modo mais virtuoso de se agir.100

Justamente por esta característica é que se destaca que a phronesis diz respeito à situação existencial do momento, a algo que é variável, que hoje pode ser vantajoso e amanhã não mais sê-lo, o que a torna diferente do conhecimento científico, da intuição ou ainda da sabedoria filosófica como se verá ainda. “O discernimento deve ser então uma qualidade racional que leva à verdade no tocante às ações relacionadas com os bens humanos”101.

Destaca-se ainda que esta forma de excelência intelectual possui íntima relação com a sabedoria política, diferenciando-se deste pois na prudência visa-se o que é o melhor ao indivíduo que raciocina, enquanto que pela sabedoria política se busca aquilo que é necessário, útil ou agradável à todos aqueles que compõem a polis.

Ademais, a sabedoria prática identifica-se ainda com outras espécies de conhecimento prático relacionados com o próprio indivíduo, dentre este rol Aristóteles destaca a economia doméstica, a legislação, a deliberativa (ou política) e por fim a judicial (de onde pela origem latina identifica-se a origem do termo iurisprudentia), se referindo à sabedoria prática nestas específicas áreas, seja

99 ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. p. 116.

100 ROSS, Sir David. Aristotle. p. 223

101 ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. p. 117.

na arte de adquirir, usar e vender os bens, seja na fixação do que é o melhor para uma cidade, seja na deliberação das questões de urgência desta mesma polis ou no modo de se decidir da maneira mais adequada.102

Se o conhecimento científico discute as coisas universais e necessárias, buscando identificá-las, o conhecimento demonstrado pelo raciocínio científico é derivado, parte dos primeiros princípios. Todavia, nem pela via da indução, nem pelos silogismos, se faz possível alcançar estes primeiros princípios, razão pela qual deve haver outra espécie de excelência intelectual que possibilite ao homem acessar este conhecimento. Destaca Aristóteles (o mesmo pode ser colhido na Metafísica, no tratado De Anima e nos Analíticos posteriores) que estas verdades primeiras e invariáveis pelas quais se parte ao conhecimento são captadas pela intuição, também chamada de intelecto (nous).

Por fim, destaca-se como a última das virtudes intelectuais a sabedoria filosófica ou sapiência (sophia), pois a partir desta não apenas se conhece o que decorre dos primeiros princípios (nous), como também se possui uma concepção verdadeira sobre estes próprios primeiros princípios, os discute como objeto de estudo próprio. Tem-se assim que a sabedoria filosófica é uma combinação do conhecimento científico com a intuição, sendo “[…] uma combinação da inteligência com o conhecimento – um conhecimento científico consumado das coisas mais sublimes”103.

Restam assim apresentadas as principais excelências intelectuais para o homem, sendo todas elas de extrema importância ao homem que busca construir um tipo de vida total. Todavia, nem todas elas obrigatoriamente devem ser desenvolvidas pelos homens para se tornarem felizes, apesar de que, se o saber filosófico, conforme foi dito, dizer respeito às coisas mais sublimes, sem este não se poderá viver o tipo de felicidade mais sublime que existe.

Dentre as virtudes aqui apresentadas a mais importante para a orientação da conduta humana é a sabedoria prática, visto que o seu

102 BITTAR, Eduardo C. B. Curso de Filosofia Aristotélica: leitura e interpretação do pensamento aristotélico. p. 1.069.

103 ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. p. 118.

desenvolvimento possibilita a construção da reta razão, a qual orienta o indivíduo a saber querer (tendo em vista a ideia de vontade) aquilo que é adequado, que é ético, agindo de modo corretamente. Pela sabedoria prática discute-se o que é justo, nobilitante e bom para as pessoas.

Exemplificando esta relação, Aristóteles apresenta os casos de Anaxágoras e Tales, este último famoso pois supostamente ao caminhar admirando os céus, na busca por compreendê-los, acabou por cair em um buraco que estava à sua frente, dizendo que estes homens possuíam sabedoria filosófica e nisso conheciam coisas extraordinárias, difíceis e até divinas, mas não possuíam a sabedoria prática, motivo pelo qual ignoravam aquilo que lhes era mais vantajoso.

Porém, tendo em vista que a prudência busca levar o indivíduo ao conhecimento das verdades morais, com vistas a tornar esta uma pessoa boa, este não terá qualquer utilidade para as pessoas que já forem boas, surgindo para estas outros tipos de necessidades racionais que já não são meramente supríveis por uma adequado tirocínio nas coisas práticas.

Tendo em vista estas considerações, quanto às virtudes intelectuais e sua relação com a ética conclui-se que sem a sabedoria prática não é possível ser bom e, consequentemente justo ou ético, nem é possível possuir este discernimento adequado sem a construção da excelência moral. Apesar disso, não se pode elevar a sabedoria prática à categoria de maior das virtudes intelectuais, pelo contrário ela é a mais básica e serve de abertura para que o homem já excelente moralmente e com um raciocínio minimamente adequado possa se abrir às formas de conhecimento mais profundas e sublimes.

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