2.1 A ÉTICA
2.1.1 A S EXCELÊNCIAS MORAIS
Segundo Aristóteles, pelo exercício reiterado de uma ação boa, esta ação é adquirida como parte do próprio indivíduo, fazendo assim que este se torne um homem excelente neste aspecto. Não é por outro motivo que Aristóteles, na Reth., destaca que os hábitos podem ser considerados como uma segunda natureza do homem. Segundo o pensador:
Os hábitos são igualmente agradáveis, porque o habitual é já como que uma segunda natureza. O hábito assemelha-se de algum modo à natureza: ‘muitas vezes não está longe de sempre’. A natureza tem por objeto o que acontece sempre; o hábito, o que acontece muitas vezes.75
Portanto, o ser humano, ao se manter em exercício reiterado de uma ação virtuosa, após certo transcurso temporal virá a ter este tipo de atitude como parte sua, como um modelo de ação próprio daquele que pratica, neste sentido, um hábito, que faz deste homem um homem virtuoso, porquanto pratica ações virtuosas.
74 BITTAR, Eduardo C. B. Curso de Filosofia Aristotélica: leitura e interpretação do pensamento aristotélico. p. 1.019.
75 ARISTÓTELES. Arte Retórica e Arte Poética. Traduzido por Antônio Pinto de Carvalho. 17.ed.
Rio de Janeiro: Ediouro, 2005. p. 70.
Não basta, todavia, saber que as excelências no plano moral são adquiridas pelos hábitos, faz-se necessário logo em seguida definir qual é o critério do agir humano, para que então se possa ter noção também das vias pelos quais a conduta moral resta destruída, seja pelo excesso, seja pela falta.
O Estagirita considera que as várias formas de excelência moral possuem relação com as ações e emoções, sendo que em ambas encontra-se ínsita a dimensão do prazer e do sofrimento. Ao contrário de Platão, que via na dimensão do prazer algo a ser evitado, por afastar o indivíduo da formação de sua alma, que seria a parte mais importante, para Aristóteles ambos os pontos não são de todo condenáveis, porém o critério ético encontra-se na mediania, no meio-termo (mesotés) entre o excesso e a falta em cada ação ou emoção. É neste sentido que a virtude moral faz com que os homens ajam da melhor maneira possível e que disponham mais completamente para fazer o bem, para tanto faz-se elementar se conformar o agir humano com a reta razão, a disposição racional para se agir conforme aquilo que é virtuoso.
Considera assim Aristóteles:
Depois de haver reconhecido que a virtude é esta maneira de ser moral que nos faz agir do melhor modo possível e que nos dispõe do modo mais completo que pode ser para fazer o bem; depois de ter reconhecido que o bem supremo na vida consiste em se conformar com a reta razão, quer dizer, que é o que ocupa o justo meio entre o excesso e a falta relativamente a nós, é imprescindível reconhecer também que a virtude moral é para cada indivíduo em particular um certo meio ou um conjunto de meios, no que concerne a seus prazeres e às suas penas, às coisas agradáveis e dolorosas que se possa sentir. Algumas vezes o meio estará somente nos prazeres, em que se encontram igualmente o excesso e a falta; em outras somente estará nas pena, e algumas nos dois juntos.76
76 “Después de haber reconocido que la virtud es esta manera de ser moral que nos hace obrar lo mejor posible, y que nos dispone lo más completamente que puede ser para hacer el bien; después de haber reconocido que el bien supremo en la vida consiste en conformarse con la recta razón, es decir, que es lo que ocupa el justo medio entre el exceso y el defecto relativamente a nosotros, es imprescindible reconocer también que la virtud moral es para cada individuo en particular un cierto medio o un conjunto de medios, en lo que concierne a sus placeres y a sus penas, a las cosas agradables y dolorosas que se pueda sentir. Unas veces el medio se hallará solo en los placeres, en que se encuentran igualmente el exceso y el defecto; otras sólo se hallará en las penas, y algunas en los dos a par”. ARISTÓTELES. Moral a Eudemo. In: ________. Moral: La gran Moral.
Moral a Eudemo. Traducción de Patricio de Azcárate. Madrid: Espasa-Calpe, 1976. p.142.
Neste ínterim, Aristóteles explana que existem três objetos de escolha (o nobilitante, o vantajoso e o agradável) e três objetos de repulsa (o ignóbil, o nocivo e o penoso), encontrando-se no percurso em busca dos três a luta do homem para dominar seus prazeres, luta esta que, segundo Heráclito, é mais difícil do que a luta contra a própria cólera.77
Para conseguir domar a própria alma, ou melhor, a parte da alma irracional, que é esta que se relaciona com os objetos de escolha e com os de repulsa é necessário, assim, a reiteração de ações virtuosas, pois pela prática destas é que o homem se torna virtuoso. Assim:
As ações, portanto, são justas e moderadas quando são como as que o homem justo e moderado praticaria, mas o agente não é justo e moderado apenas por praticá-las, e sim porque também as pratica como as praticariam homens justos e moderados. É correto, então, dizer que é mediante a prática de atos justos que o homem se torna justo, e é mediante a prática de atos moderados que o homem se torna moderado; sem os praticar ninguém teria sequer remotamente a possibilidade de tornar-se bom.78
Aristóteles destaca ainda que dentre as manifestações da alma, consideradas como as emoções, as faculdades e as disposições, a excelência moral diz respeito apenas à última. Não se considera como emoção visto que não se considera um homem bom ou mau com fundamento em suas emoções, mas em sua excelência ou deficiência moral (vício), motivo pelo qual também não somos louvados ou censurados pelas emoções. Outrossim, também não se considera alguém bom por sua faculdade de sentir as emoções, visto que a faculdade é algo que se possui de natureza. Resta assim, logicamente, que as virtudes dizem respeito às disposições da alma e, de um modo mais específico, se trata da disposição relacionada com a escolha das ações e emoções que devem ser escolhidas, por serem boas, sendo estas, o meio-termo entre o excesso e a falta.
A excelência moral, então, é uma disposição da alma relacionada com a escolha de ações e emoções, disposição esta consistente num meio termo (o meio termo relativo a nós) determinado pela razão (a razão graças à qual um homem dotado de discernimento o determinaria). Trata-se de um estado intermediário, porque nas várias formas de deficiência moral há falta ou excesso do que é
77 ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. p. 38.
78 ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. p. 40.
conveniente tanto nas emoções quanto nas ações, enquanto a excelência moral encontra e prefere o meio termo. Logo, a respeito do que ela é, ou seja, a definição que expressa sua essência, a excelência moral é um meio termo, mas com referência ao que é melhor e conforme ao bem ela é um extremo.79
Em razão disso, ao se considerar a excelência moral como uma disposição relativa à escolha das emoções e ações a serem vividas/praticadas, considera-se somente as emoções e ações voluntárias, visto que somente estas serão louvadas ou censuradas. Quanto às involuntárias, estas “[…] são perdoadas, e às vezes inspiram piedade”80. Em razão disso, outro ponto a ser considerado na questão das excelências morais são os atos voluntários.
São involuntárias as ações praticadas sob compulsão ou por ignorância, portanto, quando o princípio do movimento possui origem externa ao agente, não havendo contribuição deste ao ato, sendo pelo contrário influenciado por este, movido, não há, por conseguinte, a dimensão moral envolvida.
Quanto à ignorância, considera-se que tudo aquilo que é feito por ignorância é não-voluntário, sendo involuntário somente aquilo que causa sofrimento e pesar. Neste mesmo sentido, o Estagirita considera a diferença entre agir por ignorância e agir na ignorância, exemplificando-se este último caso com a situação de uma pessoa embriagada ou encolerizada que age sem saber o que está fazendo e na ignorância.81
Em sentido contrário, são voluntários os atos que são objeto de uma escolha no momento de serem praticados, o indivíduo racionalmente opta por agir de determinado modo, tendo em vista um fim específico que almeja alcançar, sendo assim responsável por todas as conseqüências decorrentes deste ato. Por este motivo, conclui Aristóteles que: “[…] as palavras ‘voluntário’ e ‘involuntário’
devem ser usadas com referência ao momento da ação […]”82.
Dentre o âmbito do voluntarismo, pode-se especificar ainda mais a posição da excelência moral com a concepção de escolha, sendo que esta
79 ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. p. 42.
80 ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. p. 49.
81 BROADIE, Sarah. Ethics with Aristotle. New York; Oxford: Oxford University Press, 1991. p. 127.
82 ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. p. 50.
envolve o uso da razão e do pensamento no sentido de se buscar algo que seja um bem àquele que está a escolher. Por isso, escolhe-se aquilo que é objeto de nossa deliberação, tendo-se ainda que somente se delibera sobre coisas que são relativas a nós mesmos (ninguém delibera sobre coisas eternas, nem sobre fenômenos que ora ocorrem de uma maneira, ora de outra, nem sobre eventos fortuitos, nem sobre todos os assuntos que interessam aos homens se, neste caso, não haja relação conosco), que se encontram ao alcance do indivíduo. Delibera-se sobre os fins sobre o qual se intenciona agir e, definida a finalidade, toma-se então a escolha, implicando esta, no ato voluntário do agente, com todas as responsabilidades que este agir envolve.
Então, como o objeto da escolha é algo ao nosso alcance, que desejamos após deliberar, a escolha será um desejo deliberado de coisas ao nosso alcance, pois quando, após a deliberação, chegamos a um juízo de valor, passamos a desejar de conformidade com nossa deliberação.83
Destaca-se neste ponto uma intersecção entre o âmbito das virtudes morais e das intelectuais, visto que a construção de uma racionalidade reta, que possua a capacidade a escolher o que é bom e deixar de escolher o que não é envolve, mais do que a aquisição de bons hábitos, também uma formação intelectual para tanto.
Tendo por base o que foi até aqui exposto, é extremamente importante para a investigação do conceito de Justiça destacar que para Aristóteles o indivíduo é plenamente responsável por aquilo que faz voluntariamente, visto que ninguém é feliz contra a vontade, mas a desgraça pode ser voluntária. Deste modo, o homem é o princípio gerador de suas ações e, por este motivo, plenamente responsável pelas mesmas. Conforme destaca Hutchinson: “Até nos casos onde nossa possibilidade de escolha é restringida por circunstâncias desfavoráveis, nós permanecemos responsáveis por aquilo que escolhemos fazer […]”84.
Não poderia ser por outra razão que este assunto possui íntima relação com a prática jurídica, visto que pune-se os autores de maldades e exigem
83 ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. p. 56.
84 “Even in cases where our range of choice is restricted by unfavourable circumstances, we remain responsible for what we choose to do”. HUTCHINSON, D. S. Ethics. In: BARNES, Jonathan (Ed.).
The Cambridge Companion to Aristotle. New York: Cambridge University Press, 1996.
deles uma reparação se o fizeram voluntariamente, sendo desresponsabilizados nas situações em que tenham agido sob compulsão ou ignorância (considerada nestas ainda o quanto que o agente influiu para o alcance do resultado, pois pune-se uma pessoa se ela for considerada responsável pela ignorância, como nos casos de embriaguez voluntária, pois a origem da ação está no próprio homem, bem como pune-se as pessoas que ignoram dispositivos de leis ou conhecimentos específicos de sua área de atuação que deveriam conhecer, pois presume-se que estava ao alcance destes não ser ignorantes, havendo portanto responsabilidade no evento)85, havendo íntima relação com a atual noção de dolo e culpa no âmbito da Ciência Jurídica, conforme inclusive se verá mais adiante ao se falar sobre a Justiça em Aristóteles.
Ao findar estas considerações preliminares, Aristóteles passa a tratar então sobre cada uma das espécies de virtude no plano moral, apresentando- se, neste ínterim, inicialmente a coragem e a temperança (moderação), virtudes que disciplinam a parte irracional da alma.
Quanto à coragem, meio termo entre o medo e a temeridade (ousadia), esta é considerada a capacidade de agir quando é devido e não agir quando não é devido “[…] o homem corajoso escolhe e enfrenta as coisas porque é nobilitante agir corajosamente, ou porque é ignóbil não agir assim”86.
A temperança, por sua vez, é o meio-termo no tocante aos prazeres do corpo, mais precisamente ainda em relação àqueles prazeres que os outros animais também sentem, parecendo por isso servis e bestiais, sendo estes os que envolvem especialmente os sentidos do tato e do paladar e, dentre os dois, mais ainda com relação ao tato (em relação aos alimentos, à bebida e às relações sexuais)87.
Portanto, a temperança é a capacidade de racionalmente controlar os impulsos, buscando-os quando é devido e evitando-os quando não for devido praticá-los. A pessoa intemperante (concupiscente) sofre mais do que deve
85 ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. p. 57, 58.
86 ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. p. 62.
87 ARISTÓTELES. Moral a Eudemo. In: ________. Moral: La gran Moral. Moral a Eudemo. p. 53.
quando não consegue as coisas agradáveis, sendo neste sentido a falta do prazer fonte de sofrimento, enquanto que o temperante não sofre com a falta de coisas agradáveis, nem por abster-se delas.88
No livro quarto trata-se sobre as virtudes relacionadas à administração dos bens e das honras, coisas que também são elementares para a construção de uma vida Ética, visto que esta ciência envolve tanto o desenvolvimento das capacidades pessoais, quanto à aquisição de bens externos que nos possibilitem sermos felizes. Nesta parte da obra trata-se sobre as virtudes da liberalidade, da magnificência e da magnanimidade.
A liberalidade é o meio-termo em relação à riqueza, a capacidade de adquirir e gastar, vender e doar bens, quando é devido, sendo tais pessoas louvadas por “dar e obter riquezas”89, sendo a prodigalidade e a avareza o excesso e a falta de tal virtude.
Já a magnificência relaciona-se aos atos que têm a ver com os gastos, porém de maior monta que os da liberalidade, tratando-se de um dispêndio consentâneo com seus objetivos e em grande escala. Seus opostos são a mesquinhez e a vulgaridade.
Por último, a magnanimidade (megalopsychos) relaciona-se com grandes objetivos. Trata-se, assim, dos atos dotados de grandeza, relacionando-se somente àqueles em que há preparação para tal.
Considera-se magnânima a pessoa que aspira a grandes coisas e está à altura delas, pois quem aspira a grandes coisas sem estar à altura delas é insensato, mas nenhuma pessoa dotada de excelência moral é insensata ou tola90.
Outro aspecto elementar o estudo da excelência moral se refere às disposições morais a serem evitadas, objeto de estudo do livro VII da Eth.
Nic., mesmo texto utilizado no livro VI da Eth. Eud., sendo três estas espécies de
88 ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. p. 68.
89 ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. p. 71.
90 ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. p. 78.
disposições: a deficiência moral, ou vício (kakía), a incontinência (akrasía) e a bestialidade (theriótes).91
Estas se referem a três gradações reprováveis da atitude humana, tendo por contrários: do vício as virtudes, da incontinência a continência e da bestialidade, enquanto maior proximidade aos animais irracionais, um tipo de arete moral sobre-humana, a espécie heróica e divina louvada pelos poetas gregos.92
Quanto ao vício, conforme se tratou anteriormente, este se refere ao excesso e a falta nas mais variadas disposições onde o homem age voluntariamente, sendo por isso medidas a serem evitadas.
Assim, o principal objeto de estudo deste livro acaba sendo a definição da continência e incontinência, que se referem especialmente à busca do ser humano pelo prazer, diferenciando estas da temperança e da intemperança, visto que o homem continente não obrigatoriamente é virtuoso.
O homem incontinente é aquele homem que busca o prazer por não possuir a capacidade de conter esta tensão, o que é marcante no próprio termo que em grego akratós, ou seja, a ausência de domínio de si próprio. Como este indivíduo não escolhe buscar o prazer, mas é impelido pelos seus impulsos orgânicos a fazê-lo, não se considera este como um intemperante, visto que este último opta por buscar o prazer, sabendo que naquele momento ele não é devido, o que é muito mais reprovável.
O continente, neste ínterim, é aquele que, apesar de possuir desejos fortes e maus, consegue segurá-los. Pela característica de possuir estes desejos, este é diferente do temperante, que por sua disposição racional consegue conter estes impulsos.
Outrossim, se a continência pressupõe que se tenha desejos fortes e maus, as pessoas moderadas não terão continência, nem as pessoas dotadas de continência serão moderadas, pois as pessoas
91 BITTAR, Eduardo C. B. Curso de Filosofia Aristotélica: leitura e interpretação do pensamento aristotélico. p. 1.075.
92 ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. p. 29.
dotadas de continência devem necessariamente ter desejos fortes e maus, pois se os desejos são bons a disposição que nos impede de segui-los é má, de tal forma que nem toda continência é boa; se, ao contrário, os desejos são fracos e não são maus, nada há de admirável em resistir-lhes, e se são fracos e maus, nada há de notável em resistir-lhes também neste caso.93
Quanto à bestialidade, esta é o extremo do distanciamento do homem das características que se fazem considerá-lo como tal, não havendo como se falar em excelência ou deficiência pela proximidade, mas sim na proximidade deste tipo humano com as feras. Assim, a alienação, a covardia, a intemperança e a irascibilidade, quando levadas ao excesso, são consideradas condições bestiais ou mórbidas.94
Tendo por base o que foi até aqui exposto, restam demonstrados os principais elementos que se referem à virtude moral, os quais acabam por ocupar boa parte da teoria ética do Filósofo, faltando apenas tratar sobre as questões da amizade e do prazer em sentido ético, que serão feitas em momento posterior devido à sua importância ao tema.
Cumpre agora ressaltar os principais aspectos referentes às excelências intelectuais no pensamento de Aristóteles.