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1.5 O corpo e santidade

1.5.2 A salvação

Notamos que, na Baixa Idade Média, o caminho de salvação era paradoxal. Com as mudanças socioculturais, o caminho para Deus foi-se refazendo. Vemos posturas que refletem a visão do primeiro milênio, compartilhada principalmente por monges e clero, e o emergir de novas atitudes, principalmente nos novos líderes religiosos que provinham do meio popular.

Em todas elas, constata-se, de maneira geral, a presença da Igreja como única mediadora da salvação. Contudo, como dito acima, não podemos deixar de notar que o homem da Idade Média se tornava cada vez mais autorresponsável, vale dizer: corresponsável pela sua salvação.

A Igreja é a única a distribuir os sacramentos, o homem não pode se salvar a não ser pela Igreja e graças à Igreja. Ao mesmo tempo, entre os clérigos, e também entre os leigos, existia uma forte aspiração a uma relação direta, individual, com Deus. Isso passava por formas de devoção que podiam se assemelhar de um indivíduo para o outro, mas que no conjunto fundamentava-se no caráter pessoal de cada um69.

Pela forte rigidez das camadas sociais que se formaram na Idade Média ao longo do primeiro milênio, o ser humano estava vinculado a seu grupo, a seu feudo e, de maneira mais forte, à Igreja e aos aspectos religiosos. Era efetivamente um homem religioso. Nessa realidade, Deus habitava não somente no céu, mas tocava e dirigia também a história do homem.

A sociedade feudal era de estrutura tão granulosa, formada de grumos tão compactos que todo indivíduo que tentasse se libertar do estreito e muito abundante convívio que constituía então a privacy, isolar-se, erigir em torno de si sua própria clausura, encerrar-se em seu jardim fechado, era imediatamente objeto, seja de suspeita, seja de admiração, tido ou por contestador ou então por herói, em todo caso impelido para o domínio do “estranho”70.

69 LE GOFF, O Deus da Idade Média, p. 88.

70 DUBY, Georges. A emergência do indivíduo. In: DUBY, George. História da vida privada: da Europa Feudal à Renascença. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. v. 2. p. 528-646. p. 529.

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A individualidade estava subjugada ao coletivo. Contudo, a partir do século XI, começaram a aparecer pessoas que buscavam se desprender de seu agrupamento. E foram vários os fatores que proporcionaram o despertar de tal mudança. Podemos citar de maneira geral: a reforma gregoriana, as cruzadas, o aumento da população, o crescimento do comércio e o fortalecimento das cidades. Na medida em que se davam tais mudanças, a busca da salvação também ganhava novos contornos.

A liberdade que se respirava nos burgos oferecia ao indivíduo maior possibilidade de escolha. Os comerciantes percorriam longas distâncias em busca de mercadorias para vender no comércio local. O próprio pai de Francisco de Assis, Pedro Bernadone, buscava tecidos na região da França71. As rotas de mercadoria e centrais de comércio propiciavam um ar de liberdade. Junto a isso foi se concretizando a reforma gregoriana que tinha, entre outras coisas, fortalecido a imprescindibilidade dos sete sacramentos e da confissão individual para a salvação. Crescia a consciência da necessidade de se fazer penitência. Muitos vestiam roupas vis ou se tornavam mais caridosos para com pobres e leprosos. A salvação contava cada vez mais com o esforço do indivíduo. Como vimos, a confissão individual despertava o homem medieval para a busca pessoal de penitência. A Igreja continuava sendo a mediadora sem, contudo, comprometer o papel de cada fiel. Também os movimentos de renovação acrescentavam outros aspectos às transformações.

Observa-se que ao mesmo tempo em que a Igreja se apresentava como mediadora da salvação, também prescrevia elementos de busca personalizada de salvação para os fiéis. A imposição de penitência pela autoridade eclesiástica suscitava, portanto, a busca pessoal por santidade. A prescrição do recurso aos sete sacramentos e da obrigatoriedade da comunhão, ao menos uma vez por ano, pela Páscoa, inseria-se definitivamente a necessidade do alimento espiritual como forma da presença de Deus no corpo daquele que comungava. E, assim, a eucaristia torna-se fundamento para uma atualização da encarnação.

A eucaristia remete-nos ao corpo sofredor de Cristo. Das alturas dignou-se Deus descer ao ser humano, encarnando-se no seio da Virgem Maria. Deus é corpo e corpo- eucarístico, corpo doado, pão do céu que alimenta todo homem, salvando-o. A eucaristia santifica o corpo e o salva. O próprio Francisco diz em seus escritos:

Ó filhos dos homens, até quando estareis com o coração duro? Por que não reconheceis a verdade e não credes no Filho de Deus? Eis que diariamente ele se

71 Cf. LE GOFF, Jacques. Homens e mulheres da Idade Média. São Paulo: Estação Liberdade, 2013.

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humilha, como quando veio do trono real ao útero da Virgem; diariamente ele vem a nós em aparência humilde; diariamente ele desde o seio do Pai sobre o altar nas mãos do sacerdote. E assim como ele se manifestou aos santos apóstolos na verdadeira carne, do mesmo modo ele se manifesta a nós no pão consagrado72.

A salvação se dá por intermédio da Igreja, porém, na experiência de Francisco a salvação também “exige um empenho ativo para estarmos atentos à humildade de Deus que se esconde na frágil carne humana comum, nas pequenas criaturas e em todos os elementos da criação”73. Passa a existir algo a mais na relação com Deus. Despertava no meio dos leigos a responsabilidade pessoal pela salvação. Mesmo que a Igreja continuasse sendo a intermediária os novos grupos, como também Francisco e sua fraternidade, não ficavam restritos aos templos e aos ritos, mas a salvação poderia também ser buscada entre os pobres como ainda, seguindo os vestígios de Deus na criação, pois cada criatura revelava seu amor.

O homem medieval era aberto à realidade sagrada em todas as suas dimensões.

Mesmo que a vida fosse precária, a morte era uma passagem e não um fim. O brilho divino na criação era a antessala da eternidade, ainda que fosse o sofrimento e a morte.

Quando ninguém duvida de um outro mundo, a morte é uma passagem que deve ser celebrada em cerimônia entre parentes e vizinhos. O homem da Idade Média tem a convicção de não desaparecer completamente, esperando a ressurreição. Pois nada se detém e tudo continua na eternidade74.

O corpo que se esvai não é fim, mas recomeço. Veremos que a experiência da salvação na ótica franciscana, tendo suas raízes no medievo, nos remete à terra, ao despojamento de todas as coisas, assim como fez o Filho de Deus. A morte não é negação do corpo, mas sua plena afirmação: o homem vai a seu Senhor. Disse Francisco no Cântico do Irmão Sol:

“Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa, a morte corporal, da qual nenhum homem pode escapar”75. A morte, limite da vida humana em um corpo que definha, pode ser assumida e tornada caminho de salvação.

2 Contexto sócio-histórico de Francisco de Assis

Até aqui tratamos de aspectos religiosos da Idade Média. Agora, queremos considerar as mudanças socioeconômicas que ocorreram no período. São fatores que devemos levar em

72 Adm 1,14-18.

73 DELIO, Ilia. The Humility of God: a franciscan perspective. Ohio: Franciscan Media, 2005. p. 9.

74 DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. São Paulo; Fundação Editora da UNESP, 1998. p. 122.

75 Cnt 12.

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consideração na compreensão da experiência teologal de Francisco de Assis. Realizando esse segundo panorama, poderemos, com maior facilidade, nos aproximar da região geográfica e da personalidade de Francisco de Assis.

Várias características religiosas e sociais medievais que fazem parte desse contexto de Francisco se encontram imbricadas. Nosso objetivo aqui, no entanto, é realizar recortes significativos para pesquisa, na medida em que possibilite uma maior compreensão da experiência franciscana.