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CAPÍTULO 2 A FENOMENOLOGIA DE MICHEL HENRY

2.5 Martin Heidegger

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“Reduzir o ser, pelo contrário, ao pensamento que se pode ter dele, inclusive a esse pensamento mais essencial que se lhe une em sua copresença e conveniência originária, é puro idealismo”56. Com isso, chegamos a uma conclusão que precisa ser reflexionada:

Se nossa relação com o ser não é uma ek-stasis – e é aqui, no final das contas o que quer dizer a psicanálise –, se ela não reside no pensamento nem em seus diferentes modos, então não podemos mais entregar-nos inteiramente a esse pensamento, cuja errância, aliás, pouco importa, e o destino do indivíduo não é mais, de modo algum o do mundo57.

Sigmund Freud, como um legítimo herdeiro tardio, pois aqui já estava em crise a tentativa das ciências e da filosofia, de tudo conter em si, pela transcendência, vislumbra de forma significativa a vida. Mas, como Descartes, recai mais e mais na sede da obj etividade.

Na medida em que Freud apresenta a psicanálise como novidade, vê a necessidade de colocá- la entre a metodologia científica, pois como bom neurologista, formado nas ciências, não via outra forma de apresentar seu achado a não ser na linguagem do mundo.

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não ter senão um só e mesmo reino, uma mesma essência: “A tanto aparecer, tanto ser”62. Logo, o aparecer somente se dá no horizonte do mundo, da representação, no distanciamento da própria vida. Aqui percebemos o quanto a fenomenologia de Heidegger tem por base a estrutura do pensamento grego. O fenômeno analisado – o aparecer – se torna a verdade originária como uma coisa posta, uma representatividade.

Encontram-se reafirmadas, com uma força e uma clareza exemplares, a identificação do fenômeno mais originário da verdade como o aparecer do mundo e, ao mesmo tempo, uma descrição muito precisa da maneira como esse aparecer aparece: como esse Ek-stase do “fora de si” que “são”, identicamente, mundo e tempo63.

As críticas estabelecidas por Henry, nos levam a questionar sobre o pensamento gnóstico nos desdobramentos da fenomenologia de Heidegger. Em que sentido? No sentido em que o ser projeta um eu na existência para ser cultivado, desenvolvido. Nessa concepção, percebemos um espiritualismo que rejeita a vida em sua imediaticidade, em sua carnalidade, do sofrer e do alegrar-se. Sempre estamos aquém daquilo que deveríamos ser. A proposta do cultivo do ser na existência, acaba por nos afastar da vida mesma.

No horizonte do mundo, do lançar do ser humano num lá fora, mesmo que seja com categorias belas e arrojadas de conceitos, essa filosofia ocidental demostra repúdio a vida.

Nessa filosofia não se trata mais dos amores e das dores, do alegrar e das paixões, dos sofrimentos e dos sonhos que são encarnados de homens e mulheres. Tal filosofia se tornou espiritualista, pois retira o ser humano de sua carne. Tornou-se perversa, pois “sem deixar perceber inocula em nós o pior dos venenos contra a vida, a saber, o de tentar nos convencer por meio de belas teorias e práticas que os sofrimentos e as alegrias não valem a pena serem vividos por si sós” 64. Nela, não temos mais coração, não podemos ser frágeis, não podemos rir ou chorar, por mais que essa filosofia trate da vida fática, ela permanece no dizer sobre. A vida passou a ser resumida em sua imagem, num conceito, no aparecer do mundo, no Dasein.

Tal aparecer desvia de si com tal violência, lança pra fora com tanta força, não sendo nada além que esta mesma expulsão originária de um Fora, que tudo isso a que ele dá a aparecer não pode jamais ser outra coisa, com efeito, senão o exterior no sentido terrível do que, posto para fora, expulso de certo modo de sua Morada verdadeira, de sua Pátria de origem, privado de seus bens mais próprios, se encontra agora abandonado, sem apoio, perdido – a presa desse isolamento a que Heidegger tinha de entregar o homem por ter feito dele, enquanto “ser no mundo”, um ser deste mundo, nada mais65.

62 Ibid., p. 42.

63 Ibid., p. 58.

64 RIBEIRO JUNIOR, A sabedoria do trauma e a fenomenologia material de Henry, p. 50.

65 HENRY, Incarnation, p. 60.

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A tendência representativa sempre tende a sair da carne, para dizer que capturou aquilo que é inapreensível: a vida em sua efetividade. “A fenomenologia das relações que se estabelecem entre a consciência e os ‘dados’ à consciência, nomeadamente os afetos, passa por uma fenomenologia de apropriação em Freud como ainda em Husserl e Heidegger”66. Estão todos presos na concepção grega de conhecimento. Esse somente se dá no posto diante de, no ob-jetar, no pensamento. É preciso então, na proposta de Henry, rever a filosofia ocidental e assim, a fenomenologia.

A obra de Michel Henry não pretende comentar um ou outro aspecto da fenomenologia, mas revolvê-la nos seus princípios e método, mostrando como é que desde Descartes até Husserl e Heidegger é a vida na materialidade do seu puro aparecer que nos dá acesso a si mesma e não as ilusórias formas de apreensão dela, formas de acesso ao real67.

Para Henry, a fenomenologia histórica comete o erro de se estabelecer num monismo ontológico. Só acha verdade a partir da ideia de fenômeno dos gregos. Porém, se a tarefa da fenomenologia é ir à essência, por que então ela fica presa apenas na descrição das coisas e não na busca da essência? Em Heidegger, esse monismo ontológico fica evidenciado quando se nota o ente como um mediador entre o ser e a realidade.

O ser se retira para o nada na medida em que se abre no ente. Como a luz - metáfora por excelência da compreensão ocidental da fenomenalidade – ele é o desejo do ente onde se reflete para, assim, iluminando outra coisa, cumprir seu destino essencial.

Essa estrutura ontológica, segundo Henry, caracteriza toda a metafísica desde os gregos até a própria fenomenologia, e é por ele denominada “monismo ontológico”68.

Na revisão da fenomenologia, proposta por Henry, veremos como que nossa leitura da experiência teologal de Francisco ganhará outro carácter daquele do olhar heideggeriano realizado por muitos franciscanos, principalmente no Brasil. Tema que abordaremos mais especificamente no terceiro capítulo desse trabalho e que constitui um dos pontos importantes dessa pesquisa: propor uma aproximação fenomenológica dos textos de Francisco, para além de gnosticismos embutidos nas leituras heideggerianas e/ou psicológicas.

Antes de adentrar na inversão fenomenológica mais especificadamente, precisamos fazer uma menção a um autor que Henry dedicou parte de seus estudos. Sabemos que Henry

66 Ibid., p. 29.

67 MARTINS, Apresentação, p. 27.

68 FURTUADO, J. Luiz. A filosofia de Michel Henry: uma crítica fenomenológica da fenomenologia. In:

Dissertatio Revista de Filosofia. v. 28. 2008. Disponível em:

https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/dissertatio/article/view/8855. Acesso em: Nov. 2019. p. 232.

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foi pesquisador não somente da filosofia, mas de diversas áreas. Um místico da Idade Média chamou sua atenção: Mestre Eckhart (1260-1328).