CAPÍTULO 2 A FENOMENOLOGIA DE MICHEL HENRY
4.5 O esquecimento da Vida
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autogeração da Vida absoluta habita a vinda a si de cada vivente, de modo que a vinda a si de cada vivente encerra em si a geração do Arqui-Filho na autogeração da Vida absoluta e não é possível senão por ela”132. Quando há o esquecimento dessa origem, o homem cai na ilusão de se achar originador de si mesmo.
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por ele mesmo, o homem se perde nas coisas, no horizonte do mundo. Como uma ilusão que o encanta e hipnotiza, fica aquém de si, até ao ponto de negar sua própria origem. “O homem esquece a sua condição de Filho da vida para se deter no uso e no exercício dos poderes que encontra em si. O homem orienta-se, dispersa-se sobre as coisas, sendo estas o objeto do seu cuidado”136. Ele acaba por roubar um lugar que não lhe pertence: de Deus, da Vida Absoluta.
A partir de Henry, notamos que a pre-ocupação com coisas do mundo, prende o ser humano no horizonte do mundo. Ele deveria ouvir as palavras do Evangelho que diz: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18,3). Poderia sim, ocupar-se das coisas do mundo, com gratuidade e espontaneidade, sem achar que encontrou a verdade, ou sem se apegar à própria criação e ser grato por ter o poder – que a vida concede – de realizar tais obras.
Envolvido consigo mesmo, a pre-ocupação idealista, ocupa o lugar da vida, jogando-a no esquecimento. Como diz Henry:
Porque a Preocupação é a do mundo, ela se torna destituída no princípio da capacidade de dar aquilo com que ela se preocupa. O que ela dá, ela suprime imediatamente no movimento mesmo pelo qual ela se preocupa. Só o dá destruindo- o, na forma do que ainda não é, ou do que já não é e que, desse modo, não será jamais. Só o dá na forma de um irreal, qualquer que seja a forma tomada por este:
lembrança, espera, imagem, simples conceitos137.
Nossa pre-ocupação, como a palavra mesma diz, nos ocupa antes que percebamos outra Ocupação Originária, que é a vida, que se ocupa de si mesma. Tal percepção de Henry é tão assustadora para nosso apego às representações no horizonte de um mundo, que somos acometidos de ansiedade em vislumbrar que nossos construtos não carregam a verdade em si, mas são meros acenos de uma manifestação, de um poder, mais primitivo, deixando-nos sem chão em um mundo criado por nós que se tornou uma ilusão.
A relação do ego consigo na preocupação consigo, relação em que, lançando-se fora de si para si, o ego nunca atinge nada além de um fantasma, alguma possibilidade – torna-se rico, poderoso, prestigioso – que ele se impor por tarefa a ‘realizar’, mas que precisamente nunca será real enquanto ele se relacionar com ela na Preocupação138.
Ilusão transcendental do ego é a nomenclatura que Henry deu ao esquecimento do ego da Vida. Para o autor, quanto mais o ego oculta a Vida, mais ele se lança ao mundo, estando
136 Ibid., p. 73.
137 HENRY, C’est moi la vérité, p. 184.
138 Ibid., 181.
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disponível a todas as coisas. Parece um disparate dizer que o ego esquece de seu fundamento, pois equivaleria a dizer que não enxergamos a nós mesmos. Porém, mesmo que se procure enxergar o ego com o ver do mundo, continua-se numa ilusão. Como vimos anteriormente, isso ocorreu na tradição filosófica e, mais recentemente, nas escolas psicanalíticas. Tentar apreender a vida em imagens, em belas categorias transcendentais.
O sistema conceitual laborioso das filosofias, por um lado, e as investigações das ciências positivas, por outro, com suas metodologias complexas e elaboradas, só podem desviar o homem do que ele verdadeiramente é, a ponto de fazê-lo perder toda noção do que ele é e, ao mesmo tempo, toda confiança em si mesmo, toda e qualquer forma de certeza139.
O homem afasta da verdade de seu ser, constituindo o ego como centro de todas as coisas. E onde ele reina, não há espaço para a originalidade da Vida e sim, negação. Pois, segundo o próprio Henry, “quanto mais o ego estiver preocupado consigo, mais sua verdadeira essência lhe escapará. Quanto mais ele pensar em si, mais ele esquecerá sua condição de Filho”140.
E quando esquecemos a Vida na vida intelectual? Para Henry, tanto a filosofia quanto a teologia, são da ordem do pensamento. Nisso, elas se equivalem. Contudo, quando se coloca a Vida como origem, o pensamento pode, assim, em postura de reconhecimento humilde, tornar-se recolhimento, para que a vida venha a si mesma e possa não cair na absolutização dos conceitos. Aqui nasceria a verdadeira experiência teologal: deixar que a Vida seja ela mesma. A nossa linguagem seria mais afetiva e humilde, como alguém que dança diante do mistério, pois percebeu que antes dela existe a Linguagem da Vida. Mas, isso é tema para o próximo capítulo.
5 Encarnação e Alteridade
A encarnação, sermos nós mesmos na Vida, sem ficarmos presos em representações do lá fora do mundo, nos remete também para a alteridade. Para que possamos compreender adequadamente essa realidade, dentro da fenomenologia de Henry, retomemos alguns pontos já refletidos neste trabalho.
139 Ibid., 169.
140 HENRY, C’est moi la vérité, p. 182.
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A vida é o seu fardo, mas também a sua possibilidade. Uma possibilidade de impossível assenhoreamento. A experiência fenomenológica desta impossibilidade é sentida como o que resiste aos quereres do eu que desta forma se sente passivo em relação a si mesmo. Em si experiencia o que não se deixa transformar no que ele mesmo quer: experiencia um outro querer, uma alteridade. Mas esta é uma alteridade que o torna possível não como o espelho de si, mas como si, como o que advém de si mesmo, uma vez que o eu é constituído por essa passividade, ou, diria antes, o eu é habitado pela passibilidade de si141.
Um outro querer que só vem dessa ipseidade que não pode desatar-se, deixando de ser um si. É uma ipseidade graças à autodoação da vida, na Vida Absoluta. As relações humanas devem partir dessa realidade originária. Na Fenomenologia da Vida, se resgata a verdadeira condição do outro. “Quem afirma que não há lugar para o outro na fenomenologia henriana, mas não estabelece com ele mais do que um diálogo de surdos, uma vez que é essa mesma a intenção da fenomenologia da vida: que o outro se revista da dignidade perdida”142. Henry coloca os fundamentos das relações na Vida Absoluta.
A relação dos Sis transcendentais viventes está neles antes deles, em sua possibilidade transcendental precisamente, no processo da vida absoluta em que eles vêm a si em que permanecem enquanto estão vivos. É porque são viventes numa única e mesma Vida, sis na Ipseidade de um único e mesmo si, que eles estão e podem estar uns com os outros nesse “estar com” que os precede sempre, que é a Vida absoluta em sua Ipseidade originária.143