densos em um único documento episcopal, muito menos dar as respostas e ações necessárias para as reformas quando não se tem a autonomia para tal. Apresentaremos reflexivamente as temáticas de maior alcance para a pesquisa revelando alguns vazios epistemológicos do Documento. Os desafios que a Conferência de Aparecida não abordou compreendem temáticas também importantes para entendermos as barreiras metodológicas e eclesiais às quais as Conferências estão sujeitas. Por fim, vale-nos um diálogo a partir da visão do primeiro capítulo, das perspectivas de aggionamento do Vaticano II, os direcionamentos das Conferências de Medellín e Puebla, bem como as ideias centrais dos autores apresentados.
Desde uma perspectiva ampla, o capítulo objetiva refletir sobre a teologia discipular construída em Aparecida e inter-relacionada com a história eclesial na América Latina. No que concerne à sua especificidade, o capítulo visa analisar prospectivamente os dinamismos da teoria e prática, da realidade eclesial e as perspectivas pastorais da Igreja latino-americana, chegando a reconhecer a validade e atualidade da Conferência de Aparecida para a conversão eclesial e pastoral. No contexto de um mundo globalizado e pluricultural o essencial do ser cristão, discípulo e discípula, apresentar-se-á como elemento identitário e universal para a pertinência da prática eclesial de comunhão e participação no mundo em que vivemos.
principais perguntas existenciais dos seres humanos frente ao sofrimento, à dor e a morte, bem como frente ao seu relacionamento familiar e social.
Responderá aos sinais dos tempos ... 122
O novo sujeito da ação evangelizadora da Igreja, que chamamos de discípulo, surge de um encontro com Jesus Cristo. A caminhada solidificada na relação de amizade e fidelidade ao Mestre é acrescida de um ideal profundamente fecundado pela mensagem do Reino de Deus, Reino da Vida, manifestado em Jesus e em sua vida totalmente entregue.
A teologia do discipulado em Aparecida constrói-se com base teológica na automanifestação de Deus em seu Filho Jesus, que chama homens e mulheres para serem seus seguidores, amigos e amigas, unidos pela intimidade de vida, mensagem e destino comum.
“Ser discípulo é estar com ele (Mc 3, 14a), criar solidariedade e comunidade, abrir-se para a missão ao serviço do Reino e assumir, se preciso for, o mesmo destino do Mestre (Mc 3, 14b)123”.
Jesus, com suas palavras e ações, inaugura o Reino de vida do Pai. No mistério pascal, o Cordeiro de Deus se faz salvação para nós e o Pai sela a nova aliança e gera um novo povo (143). Ao chamar os discípulos, Jesus lhes dá uma missão: anunciar o Evangelho do Reino a todas as nações. [...]
A missão consiste em partilhar a experiência do acontecimento do encontro com Jesus Cristo, testemunhá-lo e anunciá-lo de pessoa em pessoa, de comunidade a comunidade, e da Igreja aos confins do mundo (145).124
A temática da Vida de Jesus Cristo para os povos da América Latina e Caribe se apresenta como o substrato fundamental para aprofundarmos a compreensão do ser cristão, ser discípulo e discípula na visão da Conferência. “Somos chamados à vida, chamados pelo próprio Deus como pessoas de sua confiança, conforme seu projeto e para seu projeto que é vida para todos...”125. O Reino da Vida é a proposta de transfiguração da realidade continental.
O discipulado em Aparecida é em favor da vida.
O chamado de Jesus é à vida plena para os povos e abarca a complexidade da história no “Continente da Esperança” ampliando o sentido da existência aos que andam desnorteados.
“Diante de uma vida sem sentido, Jesus nos revela a vida íntima de Deus em seu mistério mais elevado, a comunhão trinitária” (DA, n. 109). O conteúdo expresso da mensagem de vida intra-divina Jesus apresenta na sua práxis histórica, como sua própria vida doada,
122GRINGS, 2007, p. 47.
123 FERRARO, Benedito. O discipulado como seguimento do Jesus histórico. In: AMERÍNDIA (Org.).
V Conferência de Aparecida: renascer de uma esperança. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 97.
124 BRIGHENTI, 2007, p. 21.
125 PANAZZOLO, 2012, p. 88.
abraçando opções que geram vida. A marca discipular deverá ser a marca da vida plena para todos, principalmente para os desassistidos para os quais a busca da vida digna é prioridade vital. Esse discipulado que defendemos ultrapassa as cercas das religiões e chama para a comunhão de vida. “...Espera-se que tal integração se faça sobre o fundamento da vida, do amor e da paz. Em belo parágrafo, na perspectiva do Reino atuando no Continente, a Igreja se propõe a dedicar-se ao serviço da unidade e da fraternidade de nossos povos...”126.
Outras características teológicas do discipulado em Aparecida são desdobramentos da mensagem de vida que a própria pessoa de Jesus, seus gestos e opções oferecem como caminho metodológico para a reinterpretação do ser cristão em nossos dias. O Documento vai partir de Jesus Cristo, no encontro pessoal com Ele. Essa referência ao cristocentrismo e à pessoalidade do encontro nos remetem à relação existencial entre pessoas capazes de construir vínculos de amor, gratuidade e alteridade para a vivência na comunidade de fé. O discipulado contém na sua gênese a experiência íntima da vida de Jesus na vida em comunidade.
A vivência comunitária é característica do discipulado, pois o discípulo vive e propaga a sua experiência de encontro com Jesus Cristo na comunidade eclesial e para fora desta comunidade como Boa-Notícia a todos os povos. O compromisso de partilha de vida na comunidade garante a identidade da comunidade eclesial. Não se faz caminhada discipular sozinho e sem o entrelace das mãos que auxiliam no ritmo da caminhada, que socorrem os que ficaram pelo caminho, que alimenta os que jazem sem forças. A certeza que Jesus Cristo caminha com os discípulos forma comunidades comprometidas e atuantes para a transformação das sombras que afligem as comunidades eclesiais.
... Só unida a Cristo, primeiro e maior anunciador do evangelho do reino, a comunidade eclesial é capaz de responder ao Kairós. A unidade vivida na comunidade vinha da presença sempre vivificante de Cristo Ressuscitado.
‘Sempre em contato com Cristo presente, na comunidade eclesial se renova constantemente, alimentando-se do pão divino da Palavra de Deus e do Pão da Eucaristia, no sacramento da unidade e da caridade’ (DV 12; LG 7). 127
Em Cristo a alteridade e a gratuidade serão o caminho que conduz para o reconhecimento da práxis cristã originária na atualidade do mundo globalizado e plural. O discípulo de Jesus Cristo será reconhecido no mundo pela prática da gratuidade, pela capacidade de incluir o excluído, sair de si e doar-se. O olhar voltado para o outro revela o compromisso dos discípulos com a caridade universal entre os irmãos e o testemunho contra o
126 LIBANIO, 2007, p. 113.
127 BARAUSSE, 2013, p. 50
indiferentismo e o subjetivismo egoísta que reina na contemporaneidade. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora - DGAE – para a Igreja do Brasil, destacam a alteridade e a gratuidade como as atitudes fundamentais originárias do discipulado, manifestando outros desdobramentos consequentes do ser discípulo comprometido. Com sua práxis encarnada na realidade o discípulo testemunha a vida de Jesus em sua vida a partir do encontro com o outro, no respeito, na tolerância, na partilha de vida e dos bens, na entrega da própria vida como fez o Mestre.
O discípulo missionário encontra nas atitudes de alteridade e gratuidade as marcas que configuram sua vida à de Jesus Cristo, que, “sendo rico, se fez pobre para nos enriquecer com sua graça” (2Cor 8, 9) e que veio “para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mt 20, 28). Aí se encontra a fonte de duas atitudes fundamentais: alteridade e gratuidade. A alteridade se fundamenta na encarnação e se refere ao outro, ao próximo, àquele que em Jesus Cristo, é meu irmão e minha irmã, mesmo estando do outro lado do planeta. As diferenças convidam ao respeito mútuo, ao encontro, ao diálogo, à partilha e ao intercâmbio de vida e à solidariedade. A gratuidade encontra no mistério pascal sua máxima expressão e sua fonte permanente. A vida só se ganha na entrega, na adoção... (DGAE, n. 11).
A cruz de Jesus e sua entrega filial torna-se convite para a transfiguração da cruz dos pobres, dos doentes, dos refugiados, dos alienados politicamente, dos sem perspectiva de vida. O discipulado em Aparecida é serviço gerador de vida e redenção para a humanidade sofrente. O compromisso com a causa dos pobres, a dignidade inalienável do ser humano e a libertação integral do homem e da mulher diante das estruturas injustas e excludentes do poder formam a dimensão profética do discipulado. “... não é possível lutar contra a injustiça sem comprometer-se no combate de Cristo, que, ao longo de sua vida fez uma clara opção pela causa da dignidade da pessoa humana”128. “As condições de vida de muitos abandonados, excluídos e ignorados em sua miséria e dor, contradizem a este projeto do Pai e desafiam os cristãos a maior compromisso em favor da cultura da vida” (DA, n. 358).
Outra característica do discipulado desenvolvida em Aparecida é a alegria pascal. A alegria é fruto do encontro com Cristo que transfigura a vida dos discípulos pelo Espírito.
Essa alegria é pascal, pois mesmo que a realidade mostre sombras geradoras de morte e desafios que parecem impossíveis de ultrapassar, a vida trazida por Jesus é mais forte. “A alegria do discípulo não é um sentimento de bem-estar egoísta, mas uma certeza que brota da fé, que serena o coração e capacita para anunciar a boa nova do amor de Deus” (DA, n. 29).
128BARAUSSE, 2013, p. 145.
Viver com Cristo e alimentar-se da Palavra e da Eucaristia fará o discípulo abrir os olhos para a realidade que o cerca e transfigurar essa realidade com a oferta do projeto de Deus manifestado na vida oferente de Jesus para todo homem e mulher. “Não ardia em nós o nosso coração quando ele nos falava no caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24, 32).
Desta maneira, o discipulado em Aparecida encontra sua originalidade no essencial do ser cristão, ser discípulo, seguidor no caminho da vida em constante interação com a realidade desafiadora e o compromisso da fé transformadora destas mesmas realidades, sem afunilar-se ideologicamente na autopreservação eclesial ou no proselitismo religioso.