O encontro com Jesus Cristo através dos pobres é uma dimensão constitutiva da nossa fé em Jesus Cristo. Da contemplação do rosto sofredor de Cristo neles e no encontro com Ele nos aflitos e marginalizados, cuja imensa dignidade Ele mesmo nos revela, surge nossa opção por eles. A mesma união a Jesus Cristo é a que nos faz amigos dos pobres e solidários com seu destino... (DA, n. 257).
No discurso inaugural da V Conferência o Papa Bento XVI afirmou que está implícita na fé cristológica esta opção da Igreja. O Papa Francisco confirma esta moção evangélica:
“Por isso desejo uma Igreja pobre para os pobres [...]. Somos chamados a descobrir Cristo neles [...] e acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles” (EG, n. 198). O discípulo missionário ao olhar a realidade latino-americana e caribenha compreende que a sua missão é semelhante à parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37), que vendo aquele homem caído à beira do caminho, ferido e agonizante, fez dele seu próximo, demonstrando ativamente seu amor.
Aparecida reconhece também como lugares teológicos do encontro com Cristo a piedade popular, a vida comunitária orante, o culto mariano e aos santos, nas mais variadas expressões. As devoções, procissões, vias-sacras são um “tesouro de fé” que deve ser conservado e aprofundado com a busca da formação bíblico-teológica111. Os bispos reconhecem a piedade popular como uma “... maneira legítima de viver a fé, um modo de se sentir parte da Igreja e uma forma de ser missionários, onde se recolhem as mais profundas vibrações da América Latina...” (DA n. 264). É uma espiritualidade que penetra na existência e simbolismo do povo de Deus que neste Continente receberam a primeira evangelização.
A devoção mariana é uma grande realidade no Brasil e em toda a América Latina.
Maria como a primeira discípula é modelo para os homens e mulheres que rezam ao seu Filho Jesus. A valorização da piedade popular e suas devoções foi uma grata surpresa que aponta dimensões teológicas imprescindíveis para a análise da realidade Latino Americana e sua religiosidade devocional.
Diante dos inúmeros desafios percebidos na realidade latino-americana foi preciso olhar para Jesus e recomeçar a partir do encontro pessoal com Ele, sua Pessoa, sua vida. Um processo itinerante, pessoal e comunitário é apresentado baseado na vida de Jesus e seu relacionamento com os discípulos e discípulas. Uma grande contribuição para a reflexão sobre o itinerário do seguimento foi a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a América realizada em 1997 sob a convocação do Papa João Paulo II.
Com a temática “Encontro com Jesus Cristo Vivo, Caminho para a Conversão, a Comunhão e a Solidariedade na América”, esta reunião dos bispos aprofundou na Igreja a dinâmica essencial e existencial do encontro com Cristo delineando o processo itineral. Esta reapresentação da fé movimentou a vida eclesial no início do novo milênio procurando desenvolver a consciência de comunhão e participação dos fieis na missão de Cristo e a nova evangelização para os novos tempos da América Latina. O Documento de Aparecida (n. 11- 12) citando a Carta Encíclica de Bento XVI, “Deus Caritas est” aprofunda a temática:
Trata-se de confirmar, renovar e revitalizar a novidade do Evangelho arraigada em nossa história, a partir do encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo, que desperte discípulos e missionários. Isso não depende tanto de grandes programas e estruturas, mas de homens e mulheres novos que encarnem essa tradição e novidade [...]. A todos nos toca recomeçar a partir de Cristo, reconhecendo que “não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva”.
O encontrar-se com Cristo é o elemento primeiro e fundante daquele que ouvindo a Palavra da Vida, opta pelo seguimento. Aquele que se deixa encontrar faz a experiência sublime e profunda da amizade com o Mestre. Não é contato qualquer, mas uma relação entre pessoas capazes de doar amor, semelhante à relação intra-trinitária, fazendo opções de vida conscientes que mudam os rumos da história, da vida pessoal e comunitária. “A partir do dom do encontro com Jesus Cristo, estamos chamados a viver em seu seguimento em comunidade de irmãos, para configurar-nos com Ele e continuar sua missão ...”112. O encontro é o ponto de partida do processo itineral.
Encontrar-se com o Mestre é ouvir seu chamado à conversão (Mc 1, 12-15).
Corresponde a uma resposta livre de fé e adesão ao projeto de Deus. É o próprio Cristo quem chama para formar comunidade de amigos e amigas reconciliados, caminheiros ao calvário e
112 VALDERRAMA, José Luis Fernández de. À Luz de Aparecida... Pastoral para a Comunhão Missionária. Bogotá: Edições CNBB, 2008, p. 26.
à sua glória. Foram chamados para se vincular mais intimamente à Pessoa dele. O vínculo com Cristo possibilita a conversão para o projeto da Vida de Deus. O discipulado consequentemente é metanóia, processo transformador e formador, integrador e além- fronteiras, pois dilata o coração do discípulo para o serviço.
No Documento de Aparecida a conversão acompanha um processo contínuo de participação na bondade de Deus, onde o discípulo e a discípula experimentam a mudança de atitudes nas etapas. “É um processo em quatro etapas – experiência pessoal de fé, vivência comunitária, formação bíblico-teológica e compromisso missionário da comunidade eclesial como um todo, constituindo-se como um ‘poderoso centro irradiador de vida’”113. Configura- se como uma conversão permanente aos valores do Reino na dimensão pascal da imitação de Cristo114 carregando a cruz. A conversão é atitude divina, sacramental, em consonância com a abertura do ser humano para a relação filial do amor de Cristo, no Espírito Santo.
Continuamente enviado por Ele, prosseguimos com o Espírito, a caminhada cristã.
A dinâmica de Jesus é formar no caminho. Por isso pedagogicamente o processo itineral é delineado, mas não se coloca como um esquema rijo, mas como uma realidade cheia de dinamicidade, onde o homem e a mulher são chamados a fazer comunhão. Esta comunhão é a adesão ao projeto do Reino que é vida plena e integral, comunhão com a Igreja de Cristo, que animada pela força do Espírito é sinal deste reino que começa aqui, na dinâmica do passado, quando fazemos memorial da fé, do presente, quando atualizamos os mistérios de Cristo e no futuro, quando nos colocamos em marcha para clamar: “vem Senhor Jesus”.
A comunhão com Deus e os irmãos na Igreja são manifestos na solidariedade. “A Igreja é comunhão no amor. Esta é sua essência e o sinal através do qual é chamada a ser reconhecida como seguidora de Cristo e servidora da humanidade ...” (DA, n. 161). O Documento de Aparecida convida a todos os batizados e os homens de boa vontade a fazer uma revolução da solidariedade no Continente da Esperança, tornando-o também o Continente do Amor.
A comunhão ultrapassa a realidade eclesial e chega até os lugares antes não pensados.
Uma comunhão de vida com todos os seres, com toda a obra da criação, com as religiões
113BRIGHENTI, 2007, p. 05-06.
114 O livro de Tomás de Kempis, “Imitação de Cristo” na linha da Devotio Moderna se diferencia da visão de imitação como seguimento que Aparecida destaca. Aparecida, pelo contrário, apresenta o mundo e suas relações como dom de Deus para que o homem e a mulher encontrem sua vocação à vida plena na realidade que os cerca. Tomás de Kempis, na sua realidade, aconselha a fuga do mundo, das paixões e da realidade tomada pelo pecado. Leonardo Boff apresenta comentários ao Livro V da Imitação de Cristo, veja-se: KEMPIS, Tomás de. Imitação de Cristo e Seguimento de Jesus. Trad.
Leonardo Boff. Livro V. Petrópolis: Vozes, 2016.
cristãs e não cristãs, numa atitude de acolhida e respeito, reapresentando a proposta de Jesus para a unidade. Muitos rostos do Continente foram apresentados em Aparecida, todos são abraçados pelo Mestre da Vida, que os chama à comunhão de vida.
O envio é a categoria que completa o ciclo mistagógico discipular. Ser enviado não é objeto de subjetividade, mas uma investidura genuinamente atribuída por outro. O discípulo não testemunha em seu próprio nome, mas anuncia uma experiência que marcou profundamente sua existência. O próprio Cristo envia seus discípulos para a realidade do mundo, anunciando que a morte não tem a última palavra sobre o Reino da vida do Pai. “Ao participar dessa missão, o discípulo caminha para a santidade. Vivê-la na missão o conduz ao coração do mundo ...”. (DA, n. 148).
O Reino da vida do Pai sempre será o ponto de chegada do processo itineral discipular.
Por isso, os discípulos são enviados a testemunhar a experiência do encontro com Cristo, e a partir dele se lançam na dinâmica de fazer discípulos em comunhão com a Igreja. A formação dos discípulos é parte integrante de todo o itinerário de crescimento da fé, tomada de consciência de ser batizado e missionário. Formação que se dá pessoalmente e comunitariamente no protagonismo do Espírito Santo.