processo que foi inventado um novo si e um novo mundo. As leis de funcionamento cognitivo de Padeiro foram modificadas. Portanto, muitas de suas mudanças não foram experimentadas objetivamente, porque não se tratava de novos modos de colocação do problema: surgiram, concomitantemente, um novo sujeito cognoscente Padeiro e um novo mundo cognoscível por Padeiro.
Isto é válido também para o auxiliar/aprendiz, porque ele pode experimentar novas formas de atuação profissional, e experimentar novos modos de atuação. Sem, contudo, perceber a mudança. Ambos experimentavam, ensaiavam, esticando seus respectivos gêneros profissionais.
E, assim, existiu, no trabalho de Padeiro e de seu auxiliar, um trabalho de re- organização do trabalho (e desta dialogia), que assegurava a transfiguração da organização do trabalho oficial, a fim de fazer face ao imprevisto. E fica claro, aqui, como afeto e cognição são, ora um ora outro, origem e causa do desenvolvimento, conforme apontado por Vigotski (apud CLOT, 1999b). Percebe-se como as diferentes funções de descrever e fazer tornaram- se, alternadamente, função central no sistema psíquico “confeccionar pão”. Confeccionar pão era o significado que integrava aqueles gestos. Este sistema de atividades passou por um diálogo visando a construção (e apropriação) de um gênero de ofício. Foi no diálogo que o sentido daquele fazer (e do não poder fazer, do não fazer) pão foi modificado. O sentido foi engendrado pela vida.
não só por meramente falar, mas também por escolher os temas, selecionar os assuntos, enunciados e entonações, inclusive piadas sobre os assuntos, etc.) foi utilizado para atravessar o gênero Padaria, estilizando a Padaria, para enriquecê-la. Enriquecê-la utilizando um dos tipos de enunciados principais no gênero de conversa-de-homem, tipo de enunciado que é utilizado principalmente para introduzir um tipo diferente de amenidade: a pergunta. Solicitar descrever.
E este descrever não era um descrever tão somente. Estava articulado, na última parte de seu processo, a uma linha de fuga58 que abria as possibilidades de aquela descrição não encerrar-se em si. Esta linha de fuga iniciava com uma pergunta: “o que podemos fazer para lidar com isso?”. Esta linha articulava-se com a atividade de fazer pães, posto que se tratava da descrição de gestos possíveis neste contexto. Junto a isso, abriu-se a possibilidade de a atividade de descrever afetar a atividade de fazer pães, posto que o descrever re-abria as normas do fazer. E a atividade de fazer já afetava o descrever, porque o suscitava. Fizeram ritmo. Abriram aquele fazer para outra coisa: confeccionar, que é não apenas um fazer com base em regras rígidas, mas também falar sobre os limites do gênero. E re-abrir estes limites, no sentido de sua expansão. O confeccionar é um fazer inventivo.
Mudanças importantes constituíram o confeccionar. O falar, constituindo-se enquanto território, abriu o código de normas do fazer. Porque falar sobre o imprevisto é falar sobre os limites deste código. O fazer se desestabilizou. Abandonou antigas normas. Descodificou-se.
Descodificação que ocorreu correspondente a uma (re)territorialização: habitar novamente a padaria, construir uma postura para lidar com as coisas, uma margem minimamente sustentável de incerteza frente às infidelidades do meio. Ao mesmo passo, construía novas normas. E a repetição tornou a fala, pouco a pouco, especializada. Diminuíram os assuntos que eram abordados. A conversa-de-homem cedeu a outro tipo de conversação, mais especializada. Com a invenção de novas normas59, a atividade de Padeiro tornou-se mais potente. Liberou-se daquele meio rígido que lhe era necessário para fazer os pães.
Desterritorialização(da padaria) que ocorreu correspondente a uma (re)codificação(do ofício).
Durante as diversas vezes em que era executado o descrever, percebeu-se o atravessamento da atividade de Padeiro pela atividade de outros. E vice-versa. Na cotidiana sucessão dos afazeres, resolvendo estes imprevistos (que estavam sempre atravessados pela atividade do outro), pôde-se constituir um conjunto de ‘agires’ junto ao outro. E o mesmo
58 Ver capítulo 3.
59 Em um exercício da capacidade normativa (CANGUILHEM, 2001)
quanto ao que se refere aos materiais e ferramentas. Compondo aquilo denominado anteriormente enquanto contrapontos territoriais e, depois, paisagens melódicas, quando estes agires (aqui, os agires em relação à atividade do outro60) estavam organizados entre si. E também os agires em relação a si tomaram organização, nestas problematizações-resoluções, formando os motivos territoriais e personagens rítmicos. O personagem é rítmico porque é o ritmo o que vem primeiro: a diferença entre as repetições periódicas dos meios. É, o ato do ritmo, o ato de existir enquanto sujeito, marcando diferença em relação àquilo que consiste enquanto alteridade. É, o ritmo, o primeiro a definir um sujeito cognoscente e um mundo cognoscível. É a partir da diferença que esta estratificação sujeito-mundo é criada.
Isto é pertinente à diminuição de crises, apontada pela esposa: estes motivos territoriais e personagens rítmicos foram improvisados desde um inicial agenciamento territorial. Assim, o forjar de novas constantes construía normas que estavam voltadas, sobretudo, para a expansão da construção de sentido da situação para além do “eixo-doença”, do modo-transtorno mental grave. E, como a crise – de angústia ou psicótica – é algo sempre além das possibilidades de ação do sujeito, o gênero de ofício presente no hospício não tem instrumental voltado para a produção, pelo sujeito, de novas práticas. A crise é o que resta de inacessível à cognição do sujeito. É a simples presença da conversa-de-homem que começa a produzir transformações: ele agora exercita um ser potente, dotado de conhecimentos profissionais, e capaz de agir no mundo. A conversa-de-homem pressupõe isso. E ela traz estas pressuposições em seu exercício.
Esta conversa-de-homem, quando no inicial descrever,abria o agenciamento territorial para um agenciamento social breve, acontecendo o forjar dos supracitados motivos e contrapontos. A figura do interlocutor pôde entrar no território. A função de fazer pães foi posta em jogo com a função de descrever. A função de descrever abre o agenciamento territorial para um agenciamento social – conversa-de-homem. Em repetição, fazer e descrevertornam-se, por contaminação recíproca, o sistema de atividades confeccionar e descrever. O confeccionar é um fazer com condições de reabertura, condições estas que implicam sua articulação com o descrever. Por fim, mas não menos importante: é nestas mudanças na atividade que o interlocutor tornou-se auxiliar.
Em um modo de relação que consistia na consideração do outro enquanto legítimo outro em coexistência com alguém, Padeiro quis dar algo em troca: transmitir, enquanto mestre, porções do segredo da Padaria. O descrever deve tornar-se ensinar. Agora é o
60 Bem como os agires em relação ao objeto, que é sempre objeto em meio à atividade do outro.
descrever que se abre, no jogo com o fazer, uma vez que sempre há um imprevisto, mesmo que o confeccionar já o tenha resolvido, cabe ao ensinar não apenas descrever, mas averiguar se a transmissão de coordenadas foi adequada. O agenciamento social reterritorializa-se no ofício. E o confeccionar abre-se de maneira interessante: deve dizer aquilo que não tem condições de ser dito: como amassar o pão, por exemplo. Isto já acontecia antes, quando do descrever, mas agora não é uma atividade que faz parte do ofício, mas que é constituinte do mesmo. O auxiliar tornou-se a figura do aprendiz – e Padeiro, Mestre-de-ofício.
Fica claro, com o auxílio do conceito de ritornelo, que os dois movimentos distintos da Transformação do Padeiro (1° movimento, recuperação do gênero; 2° movimento, surgimento de outro gênero) correspondem a mudanças de sentido da atividade. Correspondem a movimentos de inventividade, o segundo mais visível que o primeiro.
Cabe, agora, investigar esse de relacionar-se com o outro e com a situação de trabalho que se descobriu estar presente durante todo o processo, tornando possível as transformações nos fazeres de padeiro e estagiário. No sentido de proceder essa investigação, o próximo capítulo mobilizará a Biologia do Amar, proposta por Maturana (MATURANA;
VERDEN-ZÖLLER, 2004), realizando uma análise deste modo de relacionar e suas implicações para o processo analisado, em seguida articulando esta análise com as anteriores.
5 O AMAR, O BRINCAR E O PADEIRO
Trata-se, aqui, de apresentar a Biologia do Amar, proposta por Maturana (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004; MATURANA, 2008), articulando-a com pesquisas anteriores (NOGUEIRA FILHO, 2005; 2008). Busca-se neste movimento averiguar as possíveis contribuições de conceitos desta proposta — especificamente, os conceitos de amar e brincar — para a compreensão dos “modos de compreender/intervir sobre o trabalho”, na perspectiva de uma Psicologia do Trabalho Inventiva (NOGUEIRA FILHO, 2008).
A escolha desse referencial deve-se ao fato de, em pesquisa anterior (idem), ter-se percebido que o conceito de amar é fértil para pensar a vitalidade do gênero61 de atividades profissionais. Tenta-se, a partir disto, descobrir possibilidades a partir dos conceitos amar e brincar enquanto ferramentas metodológicas.
Maturana também pensa a vida a partir do movimento. Para ele, a vida é vivida em um fluxo emocional, fluxo este “(...) que constitui, a cada instante, o cenário básico a partir do qual surgem nossas ações” (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004, p.29). Para este autor, são nossas emoções que determinam, a cada momento, o que se faz ou se deixa de fazer. Isto porque, ainda segundo ele, a cognição apóia-se em fundamentos emocionais. Ele propõe, com o conceito de amar, que um tipo específico de emoção foi o fundamento do humano.