A cada inesperado no trabalho de Padeiro, era-lhe até então convocado pela terapeuta
“falar sobre a sua angústia”. Isto porque os profissionais que ali estavam operavam em um registro que entendiam como sendo o de profissionais de Saúde Mental. Acontece que incitações, neste caso, vinham do seu trabalho; contudo, representando-se como profissionais de Saúde Mental, entendiam ter como foco agir sobre a angústia do Padeiro. Havia um pressuposto, no agir dos profissionais de Saúde Mental, de que cada acontecido pudesse ser compreendido por seu gênero de atividades profissionais. Assim, restava ao Padeiro, paciente, receber a resolução de outrem. No gesto técnico ali exercido, Padeiro restava
instrumentalizado na relação, como algo que pode auxiliar, via produção de sintomas, o trabalho da Saúde Mental.
Como foi dito em texto anterior (NOGUEIRA FILHO., 2009), neste ‘caso clínico’, tudo começa com a conversa-de-homem. Em um espaço onde era considerado enquanto legítimo outro, foi mais fácil experimentar o linguagear – não temia tornar-se delirante ou em crise (ou ser ‘interpretado’ enquanto tal). Este perigo estando fora das possibilidades de emergência de sentido, o falar torna-se mais fácil, posto que não é mais um fazer periclitante.
É, a conversa-de-homem, conversa prosaica, diálogo que coloca o outro enquanto legítimo outro. É um ‘papo’ que não tem finalidade outra que não constituir-se enquanto tal, exercer/exercitar diálogo, não sufocando a potência de vida que existe no conversar. Na conversação cotidiana, conversa comum, foi possível tecer improvisações, palpites, perguntas, concordâncias – que acontecem em quaisquer conversas. Discordava-se, perguntava-se, avisava-se, concordava-se. Seu discurso era autorizado, fora da conversa-de-hospício (mesmo que em um serviço que seria alternativo), onde seu discurso era tornado objeto da atividade do outro. Com discurso autorizado, quer-se dizer que o mesmo não era tomado e interpretado enquanto sintoma, não era retirado da corrente dialógica de onde surgiu, e para onde remete.
Estava colocada a possibilidade concreta, ali, de (co)operar enquanto legítimo outro. E esta conversa era vivida no presente de sua realização. Engendrava-se, na conversa-de-homem, um brincar. Essa conversa-de-homem, repetidas vezes, estabilizou o emocionar que implicava.
O amar, estabilizado pela conversa-de-homem, lhe possibilitou arriscar novas formas de lidar com o outro. Aos poucos, Padeiro abordou outros assuntos na conversa. E o fez não como psicótico, mas como simples vivente humano, homem. Não mais emitia informações para a elaboração de um quadro sintomático ― colocava, junto ao / com o outro, problemas de homem, conforme supracitado. Na construção do sentido, em diálogo com o outro, houve a expansão de domínios cognitivos não-orientados para o lidar com o sofrimento. Não era a doença, mas sim a vida comum, que era o eixo da criação dos problemas. Está, nesta conversa-de-homem, a origem de ambos, amar e brincar, nas definições propostas por Maturana, como acima apresentado.
A conversa-de-homem foi se tornando conversa-de-padaria: em outras palavras, este brincar foi, pouco a pouco, transposto para a Cooperativa. A pessoa que conversava esta conversa foi para a padaria com ele. Quando incitado a descrever o que o afligia, dispunha de um outro para dialogar com ele. E, uma vez a relação de consideração do outro enquanto legítimo outro já instalada, entende-se que se constituiu uma Zona de Desenvolvimento Potencial. Além disso, há uma mudança no domínio subjetivo da experiência: esta não está
mais restrita à experiência-angústia, sobre a qual ele deveria fornecer material para trabalho dos operadores de saúde mental. De emergência de crise para imprevisto de trabalho.
O diálogo estava orientado para a “doença”, até então. E emergência de crise tem um sentido bem menos cotidiano que imprevistos de trabalho. O exercício de conversação cotidiana, somado a este pacto do fazer comum, tornava cotidiana a emergência do imprevisto, assim como sua lida. Lidar com o imprevisto tornou-se uma coisa diferente, pouco a pouco: uma vez operando o brincar, o imprevisto não comparecia enquanto uma obliteração dos resultados, posto que o fazer da padaria estava voltado não para seus resultados, mas sim para si mesmo enquanto processo de trabalhar. O imprevisto comparecia, então, enquanto mais uma variabilidade no fazer. Foram eliciados, então, outros sistemas de atividade para lidar com o imprevisto de trabalho. E o desprazer da descoberta, via mudança de sentido da descoberta, tornava-se prazer da descoberta. Tornou-se possível, então, as mudanças retratadas em outra análise do mesmo caso (NOGUEIRA FILHO, 2008).
Assim, a padaria torna-se mais profícua. Padeiro sente-se compromissado em dar algo em troca. Resolve ensinar o ofício. O auxiliar de padeiro, agora aprendiz de padeiro, iria interagir com o produto, o que complexificava a atividade de confecção dos pães. Mas, como se manteve o brincar, foi facilitado o gradual estabelecimento de novas atividades.
Em cada dia de trabalho conjunto, esteve presente aquilo acima conceituado como traço-ensaio: havia uma mútua consideração do outro enquanto legítimo outro, fazendo de cada dia não só experiência, mas experimentação, posto que a variabilidade da vida foi vivida em prazer. Prazer da descoberta. Atuando em ensaio, cada um tornava mais maleável o meio do outro, e as normas cognitivas do vivente tornaram-se mais livres para expandir-se, pois o meio estava menos inseguro. O meio tornou-se mais maleável, novas formas de agir foram experimentadas. É nesse processo que foi inventado um novo si e um novo mundo. Portanto, muitas de suas mudanças não foram experimentadas objetivamente, porque se tratavam de novos modos de colocação do problema: surgiram, concomitantemente, um novo sujeito cognoscente Padeiro e um novo mundo cognoscível por Padeiro.
Isto é válido também para o auxiliar/aprendiz, porque ele pode experimentar novas formas de atuação profissional, e experimentar novos modos de atuação. Sem, contudo, perceber a mudança. Ambos experimentavam, ensaiavam, esticando os limites de seus respectivos gêneros de atividade.