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A Visualidade: os aspetos da leitura da imagem

No documento ESTUDOS DE GÉNERO: (páginas 180-184)

TEÓRICO- METODOLÓGICOS

3.4 A Visualidade: os aspetos da leitura da imagem

códigos culturalmente significativos e que serão, de uma forma ou de outra, descodificados e interpretados pelo observador. É justamente este caráter decifrável e legível que tem conferido à imagem uma função de destaque.

Assim, em função de diferentes dimensões da vida em sociedade ela tem sido utilizada como elemento de um sistema de comunicação, ora protagonista ora secundário; ora simultâneo com outras formas de linguagem, como a linguagem verbal.

É possível afirmar que este é o cerne do crescente interesse científico da imagem enquanto instrumento de análise e estudo nas Ciências Sociais e Humanas, pois o seu conteúdo histórico, simbólico e cultural possibilita o descortinar de certas dinâmicas sociais e comunicacionais, contribuindo para um melhor entendimento do Homem em sociedade. Nessa perspetiva, discutiremos agora as teorias que envolvem a concepção da Visualidade e da Cultura Visual que aqui se integram como auxiliares no processo de leitura e descodificação da amostra de que o presente estudo se ocupa.

mas já possuía longa existência na História da Arte. Essa tendência foi influenciada pelo formalismo, fundamentado na teoria da Gestalt e pela Semiótica. A teoria do Gestalt ou psicologia da forma refere-se a um processo de dar forma, de configurar algo exposto ao olhar. Sobre o objetivo do Gestalt, Max Wertheime (1938) explicou que “existem conjuntos, o comportamento dos quais não são determinados por seus elementos individuais, mas onde o processo da parte é determinado pela natureza intrínseca do todo.” É o objetivo da Gestalt de determinar a natureza de tais conjuntos”. Na medida em que a imagem passa a ser compreendida como signo que incorpora diversos códigos, sua leitura e interpretação requerem o conhecimento dos vários contextos desses códigos. O ‘ensinar a ver’ revela-se insuficiente, tornando-se o ‘ensinar a ver e ler’ mais apropriados.

Rudolf Arnheim, na sua obra Art and visual perception, de 1977, fundamentou- se na leitura dos dados visuais e na procura da identificação de categorias visuais básicas, mediante das quais a percepção deduz estruturas que o produtor de imagens elabora através das suas configurações.

Arnheim (1977) catalogou as estruturas visuais em dez categorias: equilíbrio, figura, forma, desenvolvimento espaço, luz, cor, movimento, dinâmica e expressão. Através deste modelo, o receptor poderia descodificar nas imagens os esquemas básicos, utilizando as várias categorias até descobrir a configuração que, por si mesma, possui qualidades de expressão.

Posteriormente, a leitura de imagens foi teorizada por Donis Dondis, no livro A primer of visual literacy, 1973, na qual a autora introduziu o conceito de

“Literacia visual”. No estudo, Dondis (2003) propôs um sistema básico para a aprendizagem, identificação, criação e compreensão de mensagens visuais fundamentadas na sintaxe visual, evidenciando a disposição dos elementos básicos, como ponto, linha, forma, cor, luz, no sentido da composição. Tal compreensão estaria assim acessível a qualquer indivíduo, e não apenas aos especialistas da área.

Outras abordagens mais voltadas para o aspeto estético da leitura de imagens, nomeadamente de obras de arte, apoiaram-se nas investigações de Robert Ott (1984) e Abigail Housen (2005). Ott desenvolveu uma metodologia chamada de Image watching com o intuito de estruturar e facilitar a relação e compreensão do apreciador em relação às obras de arte. Já os estudos

de Housen (2005) partiram do pressuposto de que o entendimento num determinado domínio se faz em direção à maior complexidade do pensamento, configurando estágios desse desenvolvimento. Assim, as habilidades para a compreensão estética crescem cumulativamente à medida que o leitor vai evoluindo ao longo dos estágios: narrativo, construtivo, classificativo, interpretativo e recreativo.

Por seu lado, a Semiótica introduziu no modelo de leitura da imagem as noções de denotação e conotação. Segundo Roland Barthes (1990), o processo de representação da imagem e o conteúdo de sua mensagem têm dois aspetos. O primeiro é de cunho conotativo, no qual a imagem é portadora de uma codificação que faz referência a um certo saber cultural e a um determinado sistema simbólico. O segundo é de natureza denotativa, ou seja, em que a imagem possui um poder de representação do real (recorte da realidade), como a fotografia (Medeiros, 2011). Esse modelo vem sendo utilizado por diversos estudos acerca da leitura de imagens como elemento na Arte (Santibáñez, Valgañón, 2000), na Moda (Souza,2003; Barbosa, 2011) e na Publicidade (Barthes, 1990; Joly, 2001; Barrett, 2003).

Com a crescente presença do elemento visual na contemporaneidade, comprovado pelo surgimento de diversas correntes teóricas que contemplam o estudo das imagens, alguns estudiosos sugerem que vivemos numa sociedade ‘ocularcêntrica’ (Jenks, 1995). Isto devido à importância que a visão assumiu, possivelmente como resultado de um largo investimento nos meios técnicos e tecnológicos que encaram o olhar como sentido privilegiado, isto para além ainda da disseminação mediática. A cultura contemporânea corresponderia, portanto, ao resultado de um processo histórico que reflete um gradual fortalecimento da visão como sentido humano dominante (Mirzoeff, 1999; Messaris, 2001; Jenks, 1995).

Face ao atual quadro de aceleração da profusão das imagens e da sua polivalência e ambiguidade, parece-nos necessária a constituição de novas categorias epistemológicas que orientem a interpretação de outros modos de ver e experienciar a imagem na modernidade. Precursor dos estudos dos media e de sua a interferência nas sensações humanas, Marshall McLuhan foi (e é) o grande nome dentre os teóricos dos meios de comunicação. Em sua

obra “Understanding Media: The extension of man” (1994) na qual afirmava que os media servem para estender os limites do homem e do seu meio ambiente. Coloca os media como extensões ou prolongamentos musculares, sensoriais e cerebrais do nosso corpo. Para o autor, “os homens criam as suas ferramentas e estas ferramentas recriam o próprio homem” (Mcluhan, 1994, 22).

Para McLuhan, os meios de comunicação seriam educadores privilegiados dos nossos sentidos e promotores de novos comportamentos, daquilo a que na atualidade se denominaria como literacia mediática. A máquina mediática seria produto e, por conseguinte, produtora de novos ambientes culturais.

Dessa forma, a visualidade comunicativa torna-se mediação garantida pelo modo como o discurso imagético é construído e decodificado pelo receptor da mensagem. A intenção seria a de produzir um modo de ver no espetador que lhe forneça a possibilidade de não apenas “olhar”, mas, de efetivamente,

“ver”, não se tratando de ocultar ou falsificar a realidade. E para que isso ocorra, é preciso ensinar a ver. Isto é, torna-se necessária uma compreensão do modo como o discurso imagético organiza os signos que encena na montagem uma determinada espacialidade comunicativa. Dito de outro modo, é preciso treinar o olhar para que ele reconheça as diferenças. Tal teoria é conhecida por Alfabetização Visual (Arnheim, 1977; Dondis,2003;

Barbosa,2002; Rossi, 2006) e pressupõe qualificar o espaço a partir de um traço que o singularize e o transforme em lugar informado. Ou seja, ao se especializar através da organização e montagem de signos, compreender os significados imbuídos numa determinada cultura para “ver” e descodificar um determinado discurso imagético. (Macluhan,1994; Joly, 2005). Segundo John Berger, “ver precede as palavras. A criança olha e reconhece, antes mesmo de poder falar” (Berger, 1997:167). A visão dá o poder de ver as coisas e interpretá-las conforme a vivência de cada indivíduo. O significado de uma imagem muda de acordo com o que é visto num determinado contexto, seja temporal, social ou cultural.

Por seu turno, Joan Costa (1998) apresentou a diferença entre ver e visualizar imagens, na qual afirma que, enquanto o ato de ver está relacionado com o mundo visível, composto de uma realidade diretamente percebida, já a ação de visualizar faz “visíveis e compreensíveis ao ser humano aspetos e

fenômenos da realidade que não são acessíveis ao olho” (Costa, 1998:14).

Visualizar não seria, dessa forma, um resultado implícito do ato de ver, mas sim um trabalho que consiste em transformar dados abstratos e fenómenos complexos da realidade em mensagens visíveis.

Walker e Chaplin (1997) definiram a visão como o processo fisiológico, no qual a luz impressiona os olhos e a visualidade, como o olhar socializado.

Não há diferença entre o sistema ótico de indivíduos de diferentes culturas, mas há uma enorme diferença no modo de pensar, descrever e representar o mundo particular de cada cultura, o que consequentemente, dá lugar a diferentes sistemas de representação. Nesse sentido, é pertinente afirmar que para se ‘ler’ uma imagem, é necessário compreender os contextos particulares de cada cultura.

É possível perceber a imagem e a visão enquanto elementos vitais na construção das identidades individuais (e/ou coletivas) na cultura ocidental contemporânea, motivando a agenda científica para debates em torno do conceito emergente de Cultura Visual, que pretende refletir a centralidade da visualidade no pensamento científico (Mirzoeff, 1999, 2002; Walker e Chaplin, 1997). As questões que fomentam o estudo de uma Cultura Visual, nos diferentes saberes que se servem da imagem e da visualidade, contemplam objetos diversificados que vão desde a medicina, à arquitetura, passando pelas artes, pelos mass media, pela Publicidade, etc. Na cultura moderna, o nosso imaginário é fortemente estimulado visualmente, quer ao nível quotidiano, quer ao nível dos processos globalizados de produção e mediação simbólica. Assim se antecipa o assunto do tópico seguinte:

a exploração do conceito de Cultura Visual, sua compreensão e a sua aplicabilidade na contemporaneidade.

No documento ESTUDOS DE GÉNERO: (páginas 180-184)