DOS FEMINISMOS ÀS MASCULINIDADES
1.4 As correntes feministas
1.4.1 Feminismo Liberal
luz de teorias provenientes de um alargada diversidade de pensamentos e teorias disseminadas nas Ciências Sociais e Humanas.
predominante sobre a natureza humana. A sua maior preocupação era demonstrar que as mulheres eram tão ‘humanas’ quanto os homens (Tong, 1998) e assim merecedoras de igualdade. Para o feminismo liberal, o conceito de uma “boa sociedade” é a de uma sociedade justa que permite aos indivíduos o exercício da autonomia e a realização pessoal (Calás e Smircich, 1999:279).
Nessa perspetiva, o feminismo liberal afirmava que a subordinação das mulheres tem raízes em restrições legais que impedem a sua entrada na esfera pública. A pesquisa na abordagem liberal segue, de acordo com Burrell e Morgan (1982), epistemologias positivistas compatíveis com o paradigma funcionalista. Essa epistemologia é tida como ‘neutra’ quanto aos aspetos de género, e geralmente utiliza de metodologias positivistas, experimentações de laboratório e análises quantitativas (Calás E Smircich, 1999; Tong, 1998) Betty Friedan (2010) foi o grande nome desta corrente feminista enquanto fundadora da NOW (a Organização Nacional das Mulheres), mas também em virtude da sua aclamada obra, baseada na “mística feminina” que pressupunha um modelo de ser mulher pautado pela passividade sexual, na vida em função do homem e fincada na relação com a maternidade.
Esse estereótipo de ser mulher - fada do lar, esposa e mãe - é construído culturalmente, imposto à maioria das mulheres (Friedan, 2010). A autora constatou a partir das suas análises que existe um “problema sem nome”, apontado por mulheres reais que fazem de tudo para alcançarem esse ideal.
Para Friedan (2010), o problema permaneceu silenciado durante vários anos na mente das mulheres. Cada qual, na sua condição de gestora submissa do lar, lutava sozinha enquanto realizava as suas tarefas domésticas (Friedan, 2010: 17).
É a partir dessa premissa que Friedan (2010) criticou essa identidade feminina, bastante vincada com as visões essencialistas. A autora reivindicou que as mulheres são seres racionais que são distintas entre si, ressaltando a definição de mulher: uma construção social e cultural, não delimitada pelas questões biológicas. E afirmou ainda que a mística feminina é um problema comum a todas as mulheres e não apenas de uma ou outra classe social ou étnica.
Uma das discussões centrais do feminismo liberal são as distinções entre público e privado, em que “o privado” é usado para referir-se a uma esfera ou esferas da individualidade, enquanto “o público” se reporta a uma esfera ou esferas vistas como políticas e de coletividades. Muito frequentemente, os termos “público” e “privado” são usados sem que haja uma preocupação com a sua clareza e definição precisas; como se todos soubessem o seu significado independentemente do contexto em que os investigadores os empregam. No entanto, os estudos feministas têm tornado cada vez mais claras as duas principais utilizações envolvidas na maioria das discussões sobre o público e o privado. Segundo Okin (2008), a primeira refere-se à distinção entre Estado e sociedade (tal como propriedade pública versus privada), enquanto isso, a segunda diz respeito à distinção entre vida não doméstica e vida doméstica. A diferença entre estes dois usos, aponta Okin (2008:307), consiste no fato de a sociedade civil (Hegel apud Engels, 2000) na primeira dicotomia ser entendida como pertencente ao “privado” e na segunda como integrante do mundo “público”.
Wendy Weinstein (apud Okin:2008) desenvolveu uma analogia entre o conceito de público/privado e as camadas de uma cebola. Estes estão um para o outro tal como numa cebola, uma camada se sobrepõe a outra, que por sua vez estará dentro de outra camada e assim sucessivamente.
E explica o fato de algo, tido como público em relação a uma determinada esfera, poder ser considerado privado em relação a uma outra. Existem assim múltiplos significados e não o dualismo associado ao conceito. Nesse sentido, dá-se lugar às dicotomias de Estado/sociedade e não-doméstico/
doméstico (Okin, 2008:307). Nessa perspetiva, Okin (2008) optou por utilizar a segunda separação, “público-doméstico”, já que acreditava que é a permanência desta dicotomia que torna possível aos teóricos ignorarem a natureza política da família e a relevância da justiça na vida pessoal e, por conseguinte, grande parte das desigualdades de género (Okin, 2008).
Para as feministas liberais, a distinção existente entre público e doméstico é ideológica no sentido em que apresenta a sociedade a partir de uma perspetiva masculina tradicional, baseada em pressupostos sobre diferentes naturezas e papéis naturais de homens e mulheres. As investigadoras feministas têm argumentado que a divisão doméstica do trabalho, e especialmente a
prevalência da mulher na criação dos filhos, são socialmente construídas, e portanto são questões de relevância política.
A máxima feminista “o pessoal é político”, está na raiz das críticas feministas à convencional dicotomia liberal público/doméstico. Nicholson (1986) destacou como a questão “o quanto o pessoal é político?” constitui uma importante fonte de tensão no interior tanto do feminismo liberal quanto do socialista (Nicholson, 1986:19). O que acontece na vida pessoal, particularmente nas relações entre os sexos, não é imune à dinâmica de poder, que tem tipicamente sido vista como a face distintiva do político.
Stuart Hall (2005), referiu que a frase se tornou o slogan do feminismo porque as teorias feministas colocaram em xeque o sujeito cartesiano e questionaram as fronteiras entre o particular e o universal. Ou seja, o feminismo “politizou a subjetividade”(Hall: 2005:45). É pertinente destacar que os domínios da vida doméstica e não-doméstica, económica e política, não podem ser interpretados isolados um do outro.
O feminismo liberal tinha menos interesse em explicações das estruturas sociais e enfatizava (e ainda o faz) sobretudo a questão do preconceito, da discriminação com base no sexo, tidos como problemas de educação diferenciada, de socialização para os papéis sexuais, e lutava pela igualdade de direitos. Assim, revelava os estudos sobre a mulher no mercado de trabalho, na política e na educação. Entretanto, reivindicar a igualdade social entre mulheres e homens mostra-se uma pretensão frágil: quando Bell Hooks (2005) destacou que se os homens não são iguais entre si, dado viver-se sob a égide de uma “supremacia branca, capitalista e de estrutura de classes patriarcal” (2005:467), a autora questionou a que homem é que as mulheres têm a intenção de se equiparar. A autora considerou uma
“heresia” esse ideal de igualdade chamando “o homem ou a mulher” pelo singular, visto fazermos parte de uma sociedade heterogénea.
Muitas foram as críticas ao movimento feminista liberal, principalmente a estes pressupostos de igualdade defendidos pelo liberalismo. Entretanto, é pertinente ponderar que esses estudos estão por trás das políticas de ações afirmativas. O movimento e suas críticas apontaram para as desigualdades existentes, subsidiando a luta pelas políticas de ações afirmativas, e conseguiram inúmeras vitórias com as suas práticas. No
entanto, o feminismo liberal pouco ofereceu em termos de teorizações mais sofisticadas.