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3. CASAMENTO

3.3 Adultério

O adultério é um dos temas mais controvertidos na seara conjugal. A doutrina não é uníssona no posicionamento: se debruçam alguns autores no desenvolvimento da teoria da responsabilidade civil entre os cônjuges, ensejando entendimentos conflitantes. Muitos apontam que, indubitavelmente, é devida a reparação civil por danos causados em razão da quebra do dever de fidelidade, isso porque o ultraje à honra é indiscutível; entretanto, alguns juristas procuram relativizar a possibilidade de indenização nesse caso. De acordo com Antonio Jeová Santos,145 a hipótese de separação oriunda por infidelidade conjugal de um dos cônjuges dá azo à reparação por danos morais.

Cristiano Chaves Farias e Nelson Rosenvald negam que a prática de adultério, isoladamente, possa gerar dano moral indenizável, admitindo, contudo, no caso de publicidade do ato.146 O saudoso professor Yussef Said Cahali147 concluiu:

O dever de fidelidade tem um duplo aspecto: – material ou físico e imaterial ou moral, de forma que seu descumprimento se dá pela prática de ato sexual do cônjuge com terceira pessoa – que é o adultério – e, também de outros que, embora não cheguem à cópula carnal, demonstram o propósito de satisfação do instinto sexual fora da sociedade conjugal – ou quase adultério. A infidelidade pode ser material ou moral. Se consistir na prática de congresso sexual com terceiro, constitui adultério. Se não chega a esse extremo, concretizando-se em fatos que denunciam esse propósito ou constituem, sob esse aspecto agravo à honra do outro cônjuge, qualifica-se como infidelidade moral, justificando a dissolução da sociedade conjugal, sob o fundamento da injúria grave. O quase adultério é a situação em que o homem e a mulher, sendo um deles casado, usam das intimidades excessivas, que vão além da pura amizade, o que não é, por isso mesmo, aceitável na sociedade brasileira.

À guisa de exemplo, a Lei de Alienação Afetiva da Carolina do Norte, onde, após o fim de um casamento de 12 anos, Kevin Howard demandou contra o amante de sua ex-esposa e obteve, em 2019, uma indenização de $750,000 por acreditar na santidade do casamento. No caso em tela, o réu no processo foi considerado um “homewrecker”, (destruidor de lares) que intencionalmente seduziu a esposa alheia, tendo se aproveitado de uma amizade com o casal.

Segundo os advogados que defenderam a causa, o marido abandonado teve uma “vitória moral”, já que, possivelmente, nunca verá o dinheiro da indenização, apesar de que, o demandado assumirá um ônus real em qualquer propriedade que titularizar e o seu crédito será afetado negativamente.

145 SANTOS, Antonio Jeová. Dano moral indenizável. 7. ed. São Paulo: Juspodium, 2019. p. 195.

146 FARIAS, Cristiano Chaves; ROSENVALD, Nelson. direito das famílias..., cit., p. 89.

147 CAHALI, Yussef Said. Op. cit., p. 40.

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A responsabilidade civil por alienação de afeto (alienation of affections) embasada em um ato ilícito que poda uma pessoa casada do afeto de seu cônjuge. A Carolina do Norte é um dos 6 (seis) Estados norte-americanos que ainda permitem a responsabilidade civil por alienação afetiva ou a “fratura marital”. Os Estados do Hawaii, Mississippi, Novo México, Dakota do Sul e Utah também consentem. Vem a ser um remédio para restituir ofensas pessoais, consistentes na promessa de monogamia que consubstancia a maioria dos arranjos matrimoniais. Os Tribunais americanos consideram que o delito é de relevante interesse estatal, enaltecendo a ideia de que um relacionamento de longo prazo, como o casamento, não funcionará eficientemente sem sanções por má-conduta, dos quais o adultério é um exemplo.

Assim, a frustração do matrimônio por intermédio de um terceiro impacta no desenvolvimento psíquico deste e, na construção das relações afetivas, ensejando aí abandono afetivo conjugal.

No cotejo com a legislação pátria, para quem concebe a ideia do casamento como uma espécie de contrato, vale a proteção das partes (com base na boa-fé objetiva), como quando um terceiro contribui para o não cumprimento de uma obrigação, mediante a realização de um outro contrato, diferente do primeiro.

Há a possibilidade de o indivíduo, ofendido, pleitear contra o terceiro ofensor, mesmo não havendo avença entre eles. É o que traz o art. 608 do CC: “Aquele que aliciar pessoas obrigadas em contrato escrito a prestar serviço a outrem pagará a este a importância que ao prestador de serviço, pelo ajuste desfeito, houvesse de caber durante 2 (dois) anos.”

As relações de conjugalidade criam um “interesse específico” que pode ser protegido pela responsabilidade civil contra violações de terceiros, no caso de adultério. O casamento faz valer a mensagem moral à sociedade e a terceiros, pelas relações de conjugalidade embasada no afeto, na tutela da integridade física e mental dos membros. O art. 1.513 do CC148 abordaria como ilícito extracontratual o ato de intercessão do amante que frustre a vida familiar, diante do intuito do cônjuge abandonado em pleitear a reparação em face daquele que teria “induzido”

o outro cônjuge. Na doutrina brasileira prevalece a aplicação do princípio da subsidiariedade, o qual há a mínima interferência estatal na privacidade da família e à autodeterminação de seus componentes. No leading case sobre a hipótese, o Superior Tribunal de Justiça149 considerou que

em que pese o alto grau de reprovabilidade da conduta daquele que se envolve com pessoa casada, o “cúmplice” da esposa infiel não é solidariamente responsável quanto a eventual indenização ao marido traído, pois esse fato não constitui ilícito civil ou penal, diante da falta de contrato ou lei obrigando

148 Art. 1.513 do CC: “É defeso a qualquer pessoa de direito público ou privado, interferir na comunhão de vida instituída pela família”.

149 STJ, REsp 922.462/SP, rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 04.04.2013, DJe 13.05.2013.

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terceiro estranho à relação conjugal a zelar pela incolumidade do casamento alheio ou a revelar a quem quer que seja a existência de relação extraconjugal firmada com sua amante.

A cerimônia de celebração do casamento faz valer a mensagem à sociedade e a terceiros de que existe uma relação. O ato é uma forma notória de exposição da relação, consoante art.

1.533 do CC.150 O fato de o cônjuge ser abandonado no altar acarretou indenização, segundo a decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro:151

Apelação cível. Ação indenizatória. Dano moral. Violação dos deveres do casamento. Infidelidade conjugal. Adultério. Prova inequívoca. Traição gera dor, angústia, sofrimento, desgosto, revolta, constrangimento e se trata de ofensa grave. Dano moral configurado. (...)

Quanto ao princípio da afetividade, ainda que se viva em mundo totalmente globalizado, é no afeto que as relações familiares buscam o alicerce do crescimento da personalidade da pessoa humana. É na família que se encontrará o esteio da vida, refletindo a concretização dos direitos fundamentais para o crescimento comum. “(...) art. 5º, V e X, Carta política.

Art. 186 c/c 1566, incs. I e V, do CC. verba que comporta majoração diante da extensão da ofensa e capacidade econômica das partes além do caráter didático. A traição, que configura uma violação dos deveres de o casamento dever de fidelidade recíproca, respeito e consideração mútuos (art. 1566, I, do CC) gera, induvidosamente, angústia, dor e sofrimento, sentimentos que abalam a pessoa traída, sendo perfeitamente cabível o recurso ao Poder Judiciário, assegurando-se ao cônjuge ofendido o direito à reparação do dano sofrido, nos termos do art. 186 do CC. O direito à indenização decorre inicialmente de mandamento constitucional expresso, que declara a inviolabilidade da honra da pessoa, assegurando o direito à respectiva compensação pecuniária quando maculada (art. 5º, X, da CF). Verba compensatória deve ser fixada de conformidade com a extensão da ofensa, capacidade econômico-financeira das partes e caráter didático. Provimento parcial do primeiro apelo e improvimento do segundo.

A responsabilidade civil por abandono afetivo é matéria ainda recente em nossos Tribunais, mas já é possível a indenização por danos morais. Conforme estabelecido na decisão proferida pela 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro152 “no dia 20.10.2011, a autora, alegou que marcou casamento com o réu, contudo, esse não compareceu ao cartório na data do matrimônio, o que configura o dano moral.”

A Des. Claudia Pires dos Santos Ferreira compreendeu que o rompimento injustificado da promessa no dia do casamento ensejou danos morais e patrimoniais à parte abandonada no

150 Art. 1.533. Celebrar-se-á o casamento, no dia, hora e lugar previamente designados pela autoridade que houver de presidir o ato, mediante petição dos contraentes, que se mostrem habilitados com a certidão do art. 1.531.

151TJRJ, 6ª Câmara Cível, rel. Des. Claudia Pires dos Santos Ferreira, Apelação Cível 0000813-45.2010.8.19.0075, j. 20.10.2011.

152 Idem. “Indenização danos morais. Abandono no altar. Princípio da dignidade da pessoa humana. O noivo não compareceu, não dando qualquer satisfação, o que lhe causou vergonha e humilhação. em virtude de tais fatos, requer a condenação do réu a pagar danos materiais e morais. dor sofrida por J. B., em virtude do abandono no altar, deve ser indenizável, com fulcro no princípio da dignidade da pessoa humana.”

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altar. A sentença foi cintilante ao estipular a indenização a título de danos morais, uma vez que, de forma razoável e proporcional, entendeu o caráter punitivo e pedagógico, em virtude da extensão do dano ocasionado.

É um trabalho alcantilado a pessoa requerer amor em juízo, pois, a capacidade de dar e de receber afeto faz parte da relação mais íntima do ser humano, seus valores mais internos, impossibilitando o amor de sofrer influências de natureza histórica ou cultural, ser criado, adquirido ou produzido pelo Poder Judiciário.

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