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AFINAL, O QUE É SER CIGANO?

(2008) relata que no Rio de Janeiro existiram ciganos ricos; mas pobres eram a maioria.

Advindo de uma classe econômica mais baixa, alguns homens procuravam por razões práticas não serem imediatamente identificados. O autor narra

Já os homens, tal como se verifica nas pranchas de Debret de 1823, utilizavam roupas como quaisquer outros homens de suas classes sociais; pois para negociar não era interessante que fossem identificados como sendo ciganos. Era, portanto, uma estratégia de ocultação da identidade (TEIXEIRA, 2008, p. 67).

Assim, é preciso cuidar para que não se caia nas generalizações involuntárias de aspecto da vida, reconhecer os riscos de destacarmos assim os trajes enquanto comuns a todos eles, porque há também os que usam vestimentas sóbrias condizentes com as funções sociais que ocupam, uma vez que ascenderam a diversas profissões no mundo moderno.

O fato de não haver uma educação escolar diferenciada, intercultural e de qualidade corrobora para o abandono da sala de aula – mas não é o único dado à tradição da etnia –, deixando rastro de uma imagem imprecisa (negativa) dos ciganos; mas, não é apenas no ambiente escolar que essa se apresenta, ela ecoa e reflete a imagem do sujeito em toda sociedade. Em Miguel Calmon – BA, especificamente, mesmo vivendo no centro da cidade em casas próprias, na sua maioria, o cigano não possui representação nos diversos campos sociais para além de seu núcleo familiar – o que é comum em todo território nacional.

Ao questionar alguns membros desse grupo cigano sobre o que é ser cigano, revelou- se uma série de sentidos convocados pela formulação do conceito que eles têm deles próprios e determinados pela constituição daquilo que são. Quando os informantes 05Mm3b6 e 13Mm4a dizem sobre cigano – na atualidade – eles estão revelando uma historicidade, uma memória.

É raça antiga da gente, é porque meus avôs e bisavôs que nem conheci morava não sei aonde e a gente veio ‘praqui’ e nós nascemos e estamos aqui. Quase não há diferença nenhuma, brasileiro mora em casa e nós também mora em casa... A diferença é só na fala e os estudos (05Mm3b /Homem/ 50 anos).

Já a lei completa, já vem com os avôs que é cigano, o bisavô que é cigano, aí fica pro cigano também (Ex 01Mma /Homem/ 77 anos).

O fato de que há um já dito, de uma filiação de dizeres, de uma memória, de uma identificação em sua historicidade, de uma significância sustenta a possibilidade de todo dizer. As falas vão revelando também uma hereditariedade quando observamos a fala dos idosos, paralelamente a de um jovem de 14 anos “Ser cigano é uma coisa boa. Seguir a tradição, as regras dos avôs, respeitar os mais velhos e ter educação” (Ex 02 Mme / homem / 14 anos). Assim, em cada sujeito individualmente, pode-se deduzir que há uma relação entre o que se está dizendo e o já-dito, por isso, revela-se uma constituição de sentido e sua formulação.

Todos os sentidos já ditos por alguém, em algum lugar, em outros momentos, mesmo que muito distantes, têm efeito sobre a resposta do que é ser cigano. Tem-se uma gama de sentidos convocados pela formulação, dizeres de uma situação discursiva dada estarão disponibilizados; ainda que tais formulações tenham sido feitas e já esquecidas, elas determinam o que está sendo dito por cada membro dessa etnia, abordado nessa pesquisa.

6 No anexo, Quadro 1 – Características dos informantes da Bahia e Quadro 2 – Características dos informantes de Pernambuco, apresenta-se a codificação dos sujeitos da pesquisa marcando número, localidade, sexo, faixa etária e escolaridade.

Pra você ver nós somos ciganas porque temos o nome de cigana, mas nós nascemos no Brasil. Cigana é viajante, mas depois que Deus abençoou cada um tem sua casinha e nunca mais ‘nois viajô´. Cigana só casa com ciganos, mas os ciganos homens casam também com brasileiras. Tem diferença nas roupas, essa roupa que eu visto é o que Deus deixou pra mim (Ex 03 Mfa / mulher / 70 anos).

O ser cigano pelos sujeitos ciganos vai mostrando um pouco da sua história, da sua tradição das vestimentas e interrupção dos estudos, abarcando inclusive dificuldades da época nômade; mas também, vai despontando um discurso perpassado por outro, como em 10Mf2c, que baseia a crítica à vestimenta das outras mulheres num discurso das instituições religiosas.

Constata-se também que ao distanciar os ciganos das delegacias, a informate leva ao não dito, contrariando o fato hegemônico socialmente de que cigano rouba, corroborando para o fato de que a noção do sujeito é determinada pela posição, pelo lugar de onde ele fala.

É nossa cultura, eu amo nossa cultura porque um lado eles são unidos, quando um vê que um precisa dos outros, eles serve, não tem desunião, são tudo alegre, tudo feliz. É difícil um cigano ir preso numa delegacia por roubo, eles têm o movimento deles de agiota, mas toma quem quer, eles não obrigam, né? Se vem, dizem assim: o juro é tanto. Dá pra você? Se não der, nós não vamos brigar, tão livres, não estão tomando apulso. Não toma. Eu tenho um prazer de ser cigana porque a nossa cultura se veste bem. Eu fico terrorizada, eu fico num terror grande quando eu vejo uma mulher passar com o toco de short, saia curta, aquelas banhas descendo, para elas é tão bonito ali, mas não é bonito. Elas passam e quem vê está a coisa mais horrível. A pessoa se veste bem, a pessoa que tem caráter, tem honra e tem Deus. Deus ama aquela pessoa que se veste bem, Deus ama quem se veste com caráter, Deus ama aqueles que têm capacidade e não ‘veve’ se prostituindo, a pessoa que não ‘veve’ em mentira, a pessoa que não ‘veve’ no adultério, a pessoa que não ‘veve’ prejudicando os outros, não ‘veve’ desejando mal aos outros, não ‘veve’ levantando falso testemunho. Esse povo Deus ama, Deus guarda (10Mf2c / mulher/ 40 anos).

Quando o homem 02Mm1d fala do orgulho de ter as mulheres ciganas elogiadas pelas belezas das vestimentas, traz um efeito de sentido ligado a autoestima, uma vez que nesse ponto, apesar da constante discriminação que sofrem, “os brasileiros” têm algo para admirar na cultura da sua etnia. Ciganos gostam de exibir bons trajes, não medem gastos para isso; as falas das ciganas 08Mf1c, de 30 anos, e Ex 04 Mfe, de 15 anos, revelam a valorização do traço identitário a partir das roupas.

Ser cigano é bom, é uma tradição de cigana boa, não é igual a brasileiro... as ciganas vestem aquele vestidos e os povo fica olhando aí, cria aquele nosso ar. Tenho muito orgulho, “ó as cigana estão passando, as cigana são bonitas” (02Mm1d / homem / 26 anos).

É a tradição da roupa, do conversar, do jeito. Eu já disse muitas vezes isso (08Mf1c/

mulher / 30 anos).

É uma cultura, é um gesto da gente, da roupa. Eu gosto de ser cigana (Ex 04 Mfe / mulher/ 15 anos).

Observa-se que a baixa escolaridade, o não domínio da escrita como parte da cultura, frente a uma sociedade letrada que se impõe, acaba por silenciar esse sujeito. Embora no comportamento, nos trajes, na prosódia da fala, na observação e respeito aos mais velhos mantenha a identidade do povo; acaba, por outro lado, por ser passivo a inúmeros atos racistas e preconceituosos. Isto porque, na lógica do pensamento ocidental, de um lado temos o ser legitimado que precisa ocultar e silenciar o outro; do outro, encontram-se os inferiores, errados, anormais, que transitam na ilegalidade. Posta a separação, os ciganos acabam instaurados no espaço da inexistência, do não reconhecidos.

Idêntica a tantas outras, a representação socialmente construída dos ciganos é a maneira como eles pensam que outras pessoas os veem e avaliam-lhes. Dito de outra forma, a identidade do cigano é a ideia cultural sobre o status social de quem deveria ser e não de quem realmente é.

É a tradição da gente ser cigana mesmo. Há diferença na roupa da gente, a conversa, o jeito, o modo de viver (10Mf2c / mulher / 40 anos).

Ser cigano é uma pessoa de uma cultura diferente, de uma etnia diferente, onde possui seus valores, sua tradição, não é? Pessoas felizes, alegres, pessoas que respeitam o mais novo, o mais velho, né? (16Jm2j / Homem / 40 anos).

Os valores culturais fazem com que a autoestima do sujeito oscile a depender da posição ocupada na sociedade; todavia, vivendo o cigano à “margem da sociedade”, é difícil mensurar uma autoestima, uma vez que os ciganos não estão preocupados na interação social com outras pessoas – a não ser para comercializar – e também, a partir do que se observou na pesquisa, não se preocupam em promover mudanças. O ciclo social fecha-se no grupo da própria etnia.