A produção de cartas linguísticas, no século XIX, configura-se um domínio linguístico relevante, pois permite falar de um modelo cartográfico em Linguística, revelando interesse geolinguístico.
O resultado cartográfico permite também, por inovações metodológicas, acessar a perspectiva social da língua, saindo padrão monostrástico, monogeracional e monofásico, e torna-se bem significativo e relevante, permitindo, por hora, acrescentar dimensões pluridimensionais. Nesta pesquisa, verificou-se um caráter primordialmente diatópico, com a inserção de dados segundo a extensão territorial, mostrando a interferência geográfica na variação linguística, conferindo marcas nas comunidades por espaços físicos distintos.
A importância da diatopia está confirmada em Cardoso (2010, p. 48)
A preocupação diatópica, sejam porque os homens se situam, inevitavelmente, nos espaços, seja porque as línguas e suas variedade, pelas implicações culturais a que estão sujeitas e que indubitavelmente as refletem, têm um território próprio, ou seja, ainda, porque o homem é indissociável no seu existir e no seu agir, no seu ser e no seu fazer, tem sido uma constante nos estudos dialetais e desde os seus primórdios.
O padrão horizontal da diatopia (espacial) foi ratificado na maioria das cartas linguísticas usadas para análise de dados e as demais dimensões que seguem o padrão vertical (social) foram abordadas no texto das análises.
O planejamento cartográfico e edição da base foi de Djime Dourado Silva, a carta linguística foi produzida pelo Software Geração e Visualização de Cartas Linguísticas – SGVCLin.
Foram elaboradas sete cartas, representando a Rede de Pontos com a localização no espaço geográfico brasileiro e os resultados da variação diatópica, representando os dados obtidos em cada brinquedo/brincadeira. Apenas a Carta 2 aborda as variantes sociais.
Os dados linguísticos de cada brinquedo/brincadeira foram definidos como objeto de cartografia temática; com isso, objetivou-se oferecer, por meio das cartas, a visualização da variação diatópica dos dados. Todas elas estão apresentadas no capítulo de análise de dados e, em tamanho A4, nos apêndices O, P, Q, R, S, T, U.
A discussão da variação social só foi objeto de cartografação dos dados, em cambalhota, uma vez que ocorrências produzidas por homens ou mulheres (variação diassexual) e nas faixas etárias (variação diageracional) mesmo controladas, não produziram resultados distintos, nas outras lexias.
Os critérios definidos para a cartografia temática foram adaptados de Ribeiro (2012, p.
159), a saber:
(i) Representar as quatro lexias mais produtivas da amostra,
(ii) As ocorrências de outras lexias, apareceram como outras designações;
(iii) Considerar o critério de produtividade simples.
Por fim, nesta seção de análise, na parte destinada a cartografia, procedeu-se uma comparação direta e objetiva com os dados encontrados nas pesquisas de Ribeiro (2012) e Sá (2013), permitindo verificar se os itens lexicais encontrados nos grupos ciganos reaparecem nas mesmas áreas geográficas (ou não).
A pesquisa de Ribeiro (2012), em muitos momentos, serviu de parâmetro para o estudo: adotam-se critérios, quadros e tabelas como modelos e debruça-se sobre a análise dos dados, com o intuito de também apreender, em parte, a experiência vivida (e muito bem sucedida). A área do Falar Baiano percorrida pela pesquisadora revelou semelhanças em muitas das lexias encontradas no grupo dos ciganos, embora aquela pesquisa seja amplamente mais extensiva, com 57 localidades percorridas e 244 inquéritos gravados, obviamente, encontrou um número muito mais expressivo de variantes lexicais.
A pesquisadora utilizou-se das 13 questões que compõem a área semântico-lexical de Jogos e diversões infantis, realizando pesquisa lexicográfica das lexias documentadas e diversos tratamentos estatísticos para auxiliar na análise dos dados obtidos.
Sá (2013), na sua tese que resultou no Atlas Linguístico de Pernambuco – ALiPE, selecionou 47 cartas, das quais cinco interessam à comparação, por serem da mesma área semântico-lexical; o autor considerou os fenômenos mais recorrentes no estado com, no mínimo, duas ocorrências. Ressalta Sá (2013, p.178) que “[...] mesmo tendo sido aplicado todo o questionário do ALiB e as adequações culturais do Estado de Pernambuco, optou-se por enfatizar, a priori, alguns aspectos metodológicos [...] a partir dos quais, chegou-se a conclusão das cartas linguísticas.”
O pesquisador estabelece critérios diferentes dos adotados nesta pesquisa – baseada em Ribeiro (2012) – inclusive desconsiderando variantes que não constituam sinônimos do item em questão.
Buscou-se fornecer uma metodologia que situe, satisfatoriamente, os passos desta pesquisa; agora, a análise!
COCO MOLEQUE
Corre moleque, desce dessa goiabeira Que o dono vem na carreira, Querendo te derrubar Some no mato, pula cerca feito gato Sem sentir que é insensato Roubar fruta do pomar Ruma pro açude que eu sei que ele está sangrando Pra atravessá-lo nadando sem medo de se afogar.
Pescar piaba, onde o barreiro deságua Brincar de galinha-d'água, De pega e de mergulhar.
Depois jogar-se na enchente do desafio, Descer no dorso do rio,
Enfim, da ponte, pular.
Volta pra rua que a vida é só brincadeira É toca, barra-bandeira,
Peteca e rende-se-lá
É carrapato, burrica, jogo de bola Finca-pinhão, peia-sola,
Sinuca, bila, bilhar.
Terras alheias, roda, notas de cigarro, Garrafão, boim-de-barro,
Caverna, anel, guerrear.
Quebra-panela, pula-corda, academia Pau-de-sebo, caçar jia, correr na chuva a gritar.
Junta castanha-de-caju, joga pitelo, Na areia faz teu castelo Não deixa desmoronar.
Constrói, menino, teu carro de rolamento Faz tua pipa que o vento Te chama pra empinar.
Só não me venha brincando de esconde-esconde, Pois temo que fiques onde Eu não possa mais te encontrar.
Lamartine Passos
Fonte: Disponível em: https://www.letras.mus.br/moleque- doido/1057445/. Acesso em: 04 jan 2017.
5 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS