Por fim, alguns autores assinalam que, ainda que as gerações retratem as mudanças de ordem teórico-conceituais e políticas que se fizeram (e, ainda se fazem) presentes na configuração e legitimação do campo, essa perspectiva geracional não necessariamente significa a substituição ou supressão de uma geração em favor da outra, com as diferentes abordagens e modos de avaliar elas se complementam.
Segundo Cruz,
[...] Significa dizer que convivem muitas vezes, numa mesma proposta de avaliação, a perspectiva que compreende a negociação entre atores interessados e envolvidos (quarta geração) com as visões da avaliação que têm como ênfase o julgamento do mérito (terceira geração), a descrição da intervenção (segunda geração) ou mesmo a mensuração de efeitos (primeira geração), num arranjo de estratégias para compor a abordagem avaliativa, mediante o esforço de responder a uma ou mais perguntas avaliativas (CRUZ, 2015, p. 182)
socialmente legitimas sobre essa intervenção ou sobre qualquer um de seus componentes, com o objetivo de proceder de modo a que os diferentes autores envolvidos cujos campos de julgamento são por vezes diferentes, estejam aptos a se posicionar sobre a intervenção para que possam construir individual ou coletivamente um julgamento que possa se traduzir em ações (DUBOIS; CHAMPAGNE; BILODEAU, 2011, p. 44).
O ato de julgar ou avaliar para produzir informações, conhecimentos e subsidiar tomadas de decisões exige conexões que vão além do âmbito técnico-científico, uma vez que envolvem interações entre os campos político e burocrático (FURTADO;
VIEIRA DA SILVA, 2015; VIEIRA DA SILVA, 2014). Nesse sentido, algumas características das políticas, programas e serviços subsidiam e fundamentam o julgamento, como por exemplo, a disponibilidade e distribuição dos recursos, efeito das ações, custos e produtividade, adequação das ações segundo conhecimento técnico e científico, implantação das ações, características relacionais entre os agentes das ações, dentre outros diversos atributos que compõem a intervenção (VIEIRA DA SILVA, 2014).
Sobre o objeto da avaliação no campo da saúde, Novaes (2000) destaca que a avaliação pode ter como foco diferentes tipos de intervenções (políticas, programas, práticas e tecnologias), visto que a diversidade de conceitos e aspectos metodológicos e teóricos configuram sua complexidade. Segundo a autora, as diferenças de condições econômicas e sociais, de práticas políticas, das culturas organizacionais, explicam a incorporação dos diversos tipos de avaliação nesse campo.
Cabe ainda assinalar que, segundo Champagne e colaboradores (2011a), uma intervenção é um sistema organizado de ação composto por cinco componentes:
estrutura (dimensões física, organizacional e simbólica), atores, práticas, processos, finalidades e ambiente.
A estrutura abrange as dimensões física, organizacional e simbólica. A primeira corresponde aos aspectos financeiros, recursos humanos, técnicos, informacionais.
Já a organizacional abarca leis, regulamentos, regras, influências e compromissos. A terceira e última faz referência ao conjunto de crenças, representações e valores dos envolvidos na pela intervenção. Os atores são caracterizados pelo projetos, competências, visões e disposição para ação. As práticas, também denominadas de conduta dos atores, constroem a intervenção e são influenciadas pela estrutura. O processo corresponde ao conjunto dos processos utilizados pelos atores para
produzirem os serviços. Entende-se por finalidade os objetivos da intervenção e, por último, o ambiente que envolve os contextos físico, jurídico, simbólico, social, histórico ou econômico (CHAMPAGNE et al., 2011a).
O conhecimento sobre a aplicabilidade da tríade estrutura, processo e resultado na avaliação em saúde foi sistematizado por Avedis Donabedian (1980). Segundo o autor, o componente "estrutura" corresponde aos recursos humanos, aos instrumentos e recursos, bem como às condições físicas e organizacionais utilizados para prover os cuidados de saúde; o "processo", segundo componente da tríade, abrange o conjunto de atividades e práticas da atenção à saúde desenvolvidas na relação entre profissionais e a população atendida; e, por último, os "resultados"
seriam as mudanças verificadas no estado de saúde da população, atribuídas pelos cuidados recebidos (DONABEDIAN, 1980). Também poderiam ser considerados como resultados mudanças relacionadas com conhecimentos e comportamentos, bem como a satisfação do usuário decorrente do cuidado prestado (DONABEDIAN, 1988).
Hartz (1997, p.34) descreve “quatro objetivos oficiais da avaliação”. O primeiro é o objetivo estratégico, ou seja, o que contribuiu no planejamento e, consequentemente, na elaboração de uma intervenção. O segundo é denominado formativo, pois gera informação para melhoria da intervenção considerando que esta encontra-se em andamento; o terceiro objetivo, intitulado somativo, corresponde a determinação dos efeitos da intervenção, considerando a tomada de decisão sobre manutenção e/ou sua transformação ou interrupção; o quarto e último é descrito como fundamental por contribuir para o progresso dos conhecimentos, para a elaboração teórica (HARTZ, 1997).
Destaca-se que, quando a avaliação é realizada ao final de uma intervenção com o objetivo de prestar contas, a mesma é denominada somativa, enquanto a formativa é realizada concomitante à execução da intervenção, com a finalidade de aperfeiçoá-la (VIEIRA DA SILVA, 2014).
Quanto à tipologia, a avaliação pode ser classificada como normativa ou pesquisa avaliativa. A primeira consiste em fazer julgamento, comparando estrutura, processos e resultados com critérios e normas. Já a pesquisa avaliativa, cujo objetivo é fazer um julgamento ou avaliar a adequação utilizando métodos científicos, é composta por seis tipos diferentes de análise: estratégica, lógica, produção, efeitos, eficiência e de implantação (CHAMPAGNE et al., 2011a).
Segundo Champagne e colaboradores (2011a), a primeira possibilidade de análise é a estratégica, onde se avalia a pertinência da intervenção ou sua razão de ser, ou seja, se a intervenção está com objetivo explícito em relação a prioridade do problema e necessidades às quais foi direcionada. Já a análise lógica é outra forma de avaliar a adequação e suficiência entre os objetivos da intervenção em relação aos meios, recursos e serviços implementados para atingi-los; testa a validade teórica e operacional da intervenção. Por outro lado, a análise da produção estuda a relação entre recursos (meios) utilizados e a qualidade e quantidade dos serviços ou atividades oferecidas. Os efeitos são analisados para medir a eficácia da intervenção.
A análise da eficiência avalia a relação entre recursos e efeitos observados, compara as intervenções em relação aos resultados obtidos e os meios implementados, relação expressa pelos custos relacionados a consequência da intervenção. Já a análise de implantação, foco desta proposta;
[...] “tem por objeto as relações entre a intervenção, seus componentes e o contexto. Por implantação entende-se a transferência de uma intervenção no plano operacional, em determinado contexto político, organizacional e social.”
(CHAMPAGNE et al., 2011a, p.59).