3. ESTADO, HISTÓRIA E TEORIA NA AMÉRICA LATINA: PARA UMA
3.2. A guerra e os estados latino-americanos: a recepção da tese de Tilly
3.2.2. Sangue e dívida: a contribuição de M. A. Centeno
3.2.2.3. Alternativas internas
esse padrão não se repetiu alhures. Na Península Balcânica e na Europa oriental em geral, uma grande quantidade de conflito civil e internacional falhou em criar estados-nação coerentes e institucionalmente sólidos. Assim, as questões que indagamos sobre respectivas regiões precisam ser invertidas.
O verdadeiro excepcionalismo dos casos norte-americanos e europeus ocidentais precisa ser muito mais apreciado e levado em conta na metodologia do trabalho histórico comparativo. O destino da América Latina precisa ser normalizado e re-compreendido na ausência de um outro implícito”145 (CENTENO, 2002: 275).
De largada, é evidente que tal postura não se coaduna com o argumento principal de Centeno, cujo mote é empregar a teoria “belicista” para entender os estados latino-americanos. Com esse “giro de 180 graus”, a questão se inverte e o “falso universalismo” da “teoria geral” vem à tona. Dado que se baseia sobre a exceção, a relação entre guerra e desenvolvimento institucional não teria poder explicativo fora do contexto específico da Europa ocidental moderna (e eventualmente dos EUA); essa primeira alternativa implica a rejeição da tese bélico-extrativa no contexto latino- americano. Mais do que equivocada, ela é perniciosa (distorção graças ao “outro implícito”). Em determinado momento, o autor radicaliza esta rejeição: “todas essas qualificações me fazem duvidar sobre a utilidade de qualquer modelo parcimonioso de desenvolvimento estatal” – para em seguida relativizar sua afirmação – “isso não é necessariamente um argumento contra as qualidades generalizantes da grande teoria, mas um em favor da expansão dos exemplos que consideramos dignos de estudo e relevantes para nossa discussão”146 (CENTENO, 2002: 278). Simplificando, o que o faz duvidar de qualquer modelo generalizante é a insuficiência daquele que poderia ser considerado o melhor disponível. A conclusão teórica, pois, seria que tal modelo é epistemologicamente possível, mas de fato não existe.
Esta primeira alternativa tem o mérito de pôr em evidência a tendência das explicações estritamente belicistas em apreender a especificidade latino-americana em
145 Tradução própria: “It is time that we turn the analysis of state formation 180 degrees. The process that occurred most successfully in northwestern Europe beginning in the sixteenth century and culminating in the nineteenth was the true exception. 5 Nation-states were created there with particular characteristics that owed a great deal to initial historical conditions. This principally applies to the contribution made by war to this process. We do not need to cross the Atlantic to see that the pattern was not repeated elsewhere. In the Balkan Peninsula and in eastern Europe in general, a great deal of civil and international conflict failed to create coherent and institutionally solid nation-states. Thus, the questions we have asked about respective regions need to be switched. The true exceptionalism of western European and North American cases needs to be much more appreciated and taken into account in the methodology of comparative historical work. The fate of Latin America needs to be normalized and reunderstood in the absence of an implicit other”.
146 Tradução própria: “All these qualifications make me doubt the usefulness of any parsimonious model of state development. This is not necessarily an argument against the generalizing qualities of theoretical analysis, but one for expanding the examples that we consider worthy of study and relevant for our discussions”.
termos de ausência, escassez ou desvio frente a um paradigma que ora se apresenta como universal, ora como europeu. Contudo, ao fazer da crítica ao eurocentrismo o núcleo da argumentação, corre o risco de um esvaziamento substantivo: “nossa consciência sobre as limitações de qualquer discurso pode logo nos coibir de dizer qualquer coisa”147 (CENTENO & LÓPEZ, 2000: 15). A denúncia do viés eurocêntrico e do “falso universalismo” não pode ser confundida com uma explicação alternativa à dominante, sob o risco de se tomar a análise de discurso por produção de teoria. Esta não é, como sabemos, a contrapartida propositiva da crítica de Centeno e López-Alves ao eurocentrismo existente na sociologia histórica. Contudo, ao circunscrever o
“belicismo” como “verdadeira exceção”, esta leitura sofre da incapacidade de pensar
“qualquer modelo parcimonioso” sobre o qual possa se desenvolver o diálogo construtivo entre estudos de área e teoria geral.
Resta a segunda alternativa, extraída de um texto dez anos posterior ao “sangue e dívida” (CENTENO & FERRARO, 2013). Embora aqui os autores não se proponham um quadro teórico abrangente, encaminham algumas pistas para preencher o ponto cego detectado no argumento original. O primeiro elemento conceitual relevante é a ideia de
“precocidade” dos projetos nacionais latino-americanos, proposta inicialmente pelo historiador François Xavier-Guerra, como elemento de contato possível com outras experiências pós-coloniais ou de formação estatal tardia. Por ela, remete-se à discrepância entre as altas expectativas normativas depositadas nos estados independentes e a baixa capacidade institucional desses estados para atendê-las (CENTENO & FERRARO, 2013: 07). O fracasso institucional vulgarmente diagnosticado tem como pano de fundo essa “precocidade”, marca evidente da inserção tardia em um sistema interestatal constituído. Como contrapartida, esta situação gerava uma percepção na elite estatal de atraso relativo, e o imperativo de alcançar (catch up) em termos de progresso e modernização (CENTENO & FERRARO, 2013: 04-05)
Entretanto, percebe-se uma demarcação alternativa ao “sangue e dívida” quando essa necessidade de ajustar um modelo historicamente já existente de estado nacional (Europa ocidental) altera ou substitui a noção convencional de “fracasso”. Embora o teor do argumento geral ainda seja “pessimista” com relação à situação (“paper Leviathans”, “blind Leviathan”), ela assume uma clara preocupação diacrônica ao narrar o processo transformativo desses estados. Para fazê-lo, estipula quatro categorias que
147 Tradução própria: “Our awareness of the limitations of any speech may soon prevent us from saying anything at all”.
juntas conformariam a noção de capacidade estatal: primeiro, a territorialidade, entendida no sentido de imposição e controle estável sobre determinado espaço;
segundo, o poder econômico, englobando tanto a capacidade de regulação da economia quanto a capacidade fiscal; terceiro, o poder infraestrutural, entendido como sucesso relativo das políticas estatais, bem como sua abrangência social e geográfica; e, por fim, o poder simbólico, referindo-se aos elementos culturais da nacionalidade e da cidadania que sedimentam a obediência civil (CENTENO & FERRARO, 2013). É importante destacar que para os autores não há uma relação pressuposta de linearidade ou sequência entre elas.
Com relação ao primeiro ponto, os autores destacam que a acumulação de capacidade estatal no sentido territorial ocorre essencialmente até 1860, enquanto que a acumulação de poder econômico se concentra no período 1860-1930. Do ponto de vista teórico, o essencial não é tanto as balizas históricas (já bastante trabalhadas pela historiografia), mas sim o esforço em demarcar a existência efetiva do processo, em sublinhar a mudança – em oposição à obsessão das obras anteriores em verificar a estagnação e a permanência. Nas outras duas categorias, infraestruturais e simbólicas, os autores argumentam que os estados latino-americanos não desenvolveram capacidades significativas, do que extraem sua agenda normativa: estas lacunas deveriam ser preenchidas.
Essas prescrições são aqui secundárias. Mais importante é que, pela descompactação dos termos da “capacidade” ou da “força” do estado, os analistas puderam restituir ao processo uma dinâmica transformativa, uma história temporalizada.
Ao desvinculá-las analiticamente, pode-se conceber que houve concentração de capital e de coerção em determinados períodos históricos sem uma correspondente e necessária acumulação de poder simbólico (uma pulsante mística nacional) ou infraestrutural (capilarização geográfica do comando e do controle). A descompactação da categoria de
“capacidade” permite que as mudanças sejam assíncronas e não obedeçam a uma única trajetória cumulativa – o que favorece o entendimento de sua “historicidade inerente”.
Pela preocupação com o contexto e com os resultados, a ideia de “repúblicas do possível” (CENTENO & FERRARO, 2013) é conceitualmente mais promissora que a de “fracasso”. Embora os autores não o digam, parece correto pensar que todas as repúblicas são “do possível”, pois, ao contrário, do que mais o seriam?
Se estes são os ganhos desta abordagem, a perda mais significativa é a dissolução da pretensão teórica da argumentação. Delimitar balizas temporais e
descrever as mudanças é algo qualitativamente distinto de propor uma teoria explicativa a respeito. Não há senão indicações esparsas sobre os mecanismos causais que operam na concentração de cada uma ou de todas as categorias de “capacidade”, e tampouco é trabalhada a noção de variação de trajetórias. Vale lembrar que o mencionado “ponto cego” se refere a uma questão teórica (porque ocorreu?), e não empírica (o que ou como ocorreu?). Enquanto a primeira alternativa, se extremada, conduzia a uma fuga para a metalinguagem, a segunda tem a tendência de dissolver no empiricismo a pesquisa sobre a formação dos estados.