3. ESTADO, HISTÓRIA E TEORIA NA AMÉRICA LATINA: PARA UMA
3.2. A guerra e os estados latino-americanos: a recepção da tese de Tilly
3.2.4. Balanço: guerras fizeram estados e vice-versa?
(situações mais democráticas ou mais autoritárias, estados mais centralizados ou menos, conflitos majoritariamente urbanos ou rurais) é um insumo do próprio problema de pesquisa. Agora, cientes das contribuições originais de López-Alves para uma leitura bélico-extrativa da experiência latino-americana, podemos partir para um balanço de conjunto.
Para além dessa contradição, a interpretação estrita da causalidade entre guerra e estado – que consideramos o “argumento principal” de Centeno – encontra dificuldades justamente por negar o processo que tenta explicar. Em outras palavras, ao construir um raciocínio causal para a ausência ou fraqueza dos estados latino-americanos em geral, furta-se à questão de explicar o que causou os processos transformativos ou o desenvolvimento dos estados tal qual eles ocorreram, independente de suas virtuais deficiências em relação ao processo europeu. Esse paradoxo foi expressamente colocado pelo autor na imagem do “outro lugar” onde deveria ser buscada a explicação – presumivelmente, fora da agenda de investigação construída por Tilly, Mann e Giddens.
Nesse quadro, a interpretação estrita da teoria bélico-extrativa cria um impasse, nos seguintes termos: de um lado, a desvinculação empírica entre guerra e construção estatal empurra a pesquisa para fora da agenda original, refutando, assim, os termos da teoria em favor do “outro lugar” a ser buscado; de outro, a tentativa de reconciliação empírica empurra a interpretação para uma diferença de grau ou intensidade, aniquilando, assim, o tratamento da América Latina como desenvolvimento alternativo.
Como desdobramento lógico, temos que, no primeiro caso, seria possível sustentar empiricamente um argumento de tipo “guerras não fizeram estados na América Latina”, sendo eventualmente essa uma chave para entender a especificidade dessa experiência, ou mesmo para rastrear sua trajetória alternativa. Já no segundo caso, a pesquisa permitiria explicar por que os estados latino-americanos possuem, no presente e de forma geral, menos capacidades materiais e ideológicas que seus homólogos europeus, que lutaram guerras interestatais mais frequentes e intensas. Nos limites lógicos postos por ambos os casos, o argumento não permite ir à explicação das razões pelas quais e das variações com que a formação dos estados latino-americanos ocorreu historicamente. Em outros termos, não ataca as mesmas questões que mobilizaram a
“teoria geral”, o que torna o diálogo supostamente construtivo em uma conversa de surdos.
Diante disso, o aporte crítico de López-Alves foi recolocar em destaque a diversidade e a variação histórica latino-americana. Como o raciocínio de Centeno se volta à América Latina como um todo, o autor chega a cogitar superficialmente que a deficiência na formação desses estados seja um sintoma a mais da “dependência”, uma vez que afetaria indiscriminadamente todas as economias primário-exportadoras da região (CENTENO, 2002: 25-26 e 71). Antes de operar aqui como um conceito
propriamente dito, a dependência não é mais que uma vaga mélange das vulnerabilidades latino-americanas, em que a própria designação aspira a homogeneidade. López-Alves, por seu turno, descarta as por ele chamadas “teorias do modo-de-produção” precisamente por sua incapacidade de explicar a heterogeneidade (LÓPEZ-ALVES, 2000a: 218). A despeito de possuírem economias agroexportadoras similares, Uruguai e Argentina apresentam trajetórias distintas de construção institucional, em termos de grau de centralização e de seus protagonistas.
Evidentemente, o importante aqui não é validar ou descartar a dependência como conceito; trata-se de sublinhar como, em López-Alves, a variação abre caminho para a pesquisa comparativa, resolvendo também o paradoxo, antes apontado, em que o fenômeno estudado era ao mesmo tempo negado.
Há, pois, um aparente conflito que nos conduz a outro ponto esclarecedor. Em ambos os autores, a raiz da formação estatal está situada na guerra e na violência organizada. Contudo, em Centeno, tem-se a impressão de que a formação estatal simplesmente não ocorreu; em López-Alves, ela claramente não só ocorreu, como fê-lo em ritmos e formas distintas conforme o contexto. Há por trás desse conflito uma diferença conceitual importante, que permite que as duas coisas sejam verdadeiras ao mesmo tempo: na definição minimalista de López-Alves, a formação do estado é identificada com a concentração dos meios de coerção, o que implica o triunfo militar contra a resistência armada. Já em Centeno, a formação estatal é entendida de forma muito mais ampla, englobando a construção de nacionalidade, o desenvolvimento de cidadania e a acumulação de “poder infraestrutural” para a integração socioespacial e as políticas públicas. Enquanto este – por seu conceito demasiado exigente – frustra-se, diagnostica o “fracasso” e elabora tese sobre o que deveria ter acontecido e não aconteceu, aquele, por seu conceito minimalista, é capaz de delimitar e narrar o processo. Há na segunda perspectiva um ganho metodológico evidente, mas resta, do ponto de vista teórico, a questão: em que medida ela oferece uma explicação?
Como foi apresentado acima, a originalidade das proposições teóricas de López- Alves reside na possibilidade de explicar a democracia (regimes políticos), as relações civis-militares e o sucesso relativo da centralização política através de um estudo comparativo das guerras de formação do estado, cuja variação é assimilada descritivamente. O fenômeno a ser explicado não é propriamente a formação do estado, mas a heterogeneidade político-institucional. A rigor, por sua definição minimalista, López-Alves “enxuga” tanto o processo que não sobra muito de interessante a se
explicar: por que ocorre a centralização da coerção? Porque, derrotados os contendores, resta uma autoridade sobrevivente. Ora, afirmar que um processo como este é violento ou tem raiz na guerra é antes uma tautologia que uma interpretação propriamente bélico-extrativa.
O traço verdadeiramente criativo da tese de Tilly foi argumentar que, ao fazer a guerra, os estados europeus não só eliminaram uns aos outros, mas que desenvolveram capacidades materiais e ideológicas que acabaram por extrapolar a situação de conflito.
Dessa forma, a explicação baseada na guerra teria validade conjuntamente para uma definição minimalista (como a de López-Alves) e para uma acepção maximalista (como a de Centeno). Ao derrotar os concorrentes (mini), as organizações seriam compelidas no longo prazo a tributar regularmente, a reconhecer determinados direitos, a vigiar e controlar a população, a conceder políticas públicas, a dirigir a economia, etc.
(maxi). A debilidade de mecanismos causais como estes na história latino-americana sugere certos limites à agenda bélico-extrativa, tal qual eles foram expostos na crítica ao argumento tipificado no binômio “sangue e dívida”. Precisamente porque o desenvolvimento das capacidades estatais e a negociação por direitos ocorreu frequentemente em contextos críticos que não a mobilização militar convencional é que a possibilidade de um “outro lugar” permanece fundamental, mas em certo sentido inexplorada.