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AMBIENTE INFORMACIONAL E AMBIENTE DE INOVAÇÃO

A aplicação das regras nas empresas é considerada um processo de interação social, conforme já mencionado. Nesta interação ocorre a transferência da informação, que pode ou não resultar na geração e na absorção de conhecimentos pelas empresas, propiciando ou não a geração de inovação.

Segundo Barreto (1992), o processo de inovação nas empresas só se realiza se houver um processo de absorção de conhecimento que permita sua adoção. A absorção do conhecimento está relacionada à capacidade de assimilação e aprendizagem e não depende somente do estoque de tecnologia disponível, mas é também condicionada por fatores sociais, políticos, econômicos e culturais.

Existe então uma relação direta entre os conceitos e operacionalização prática da tecnologia, informação, transferência da informação e produção do conhecimento gerando uma inovação na empresa. Barreto (1992, p. 2) observa que “tecnologia, portanto, não é a máquina ou o processo de produção com suas plantas, manuais, instruções e especificações mas sim os conhecimentos que geraram a máquina, o processo, a planta industrial e que permitem a sua absorção, adaptação, transferência e difusão”.

O acesso ao conhecimento e à tecnologia depende em grande parte das interações da empresa com outras organizações e instituições públicas. Sendo assim, para melhorar a atividade inovativa dessas empresas faz-se necessária a criação de ambientes que valorizem o fluxo da informação e conhecimento entre os diferentes atores que participam deste processo.

Albagli e Maciel (2004) esclarecem que um ambiente propício à troca de informações e conhecimentos não implica automaticamente na sua absorção pelos atores que ali estão, pois isto vai depender das qualificações a capacitações internas de cada indivíduo e organização.

Neste contexto, Gomes (2000) identifica dois ambientes adequados para a produção e uso da informação, com base em práticas comunicativas: o individual e o público.

O ambiente individual diz respeito às nossas lembranças, experiências, valores e comportamentos e está ligada a nossa subjetividade. O ambiente público relaciona-se aos acervos compostos dos conhecimentos comunicados e materializados pela informação, correspondendo ao ambiente da objetividade. Neste ambiente o conhecimento encontra-se materializado em determinado suporte, o que assegura a sua transmissão para outros espaços informacionais (GOMES, 2000).

A autora complementa que, no ambiente público, a informação pode ser acessada e utilizada em um contexto diferente daquele em que foi produzida, podendo ser recontextualizada, e este ponto é uma particularidade da informação que pode ser utilizada fora do seu contexto de criação.

Por outro lado, a distância estabelecida em termos de espaço e tempo entre o emissor e seu receptor pode acarretar em dificuldades de interpretação e compreensão dessa informação, considerando que o receptor tem suas próprias competências e experiências (GOMES, 2000).

Neste sentido, segundo ainda Gomes (2000, p. 68), “pode-se concluir que a compreensão e mesmo os processos de transferência da informação sempre serão incompletos. Nenhum conteúdo poderá ser plenamente dissociado de seus contextos de geração e de interpretação, que carregam os sentidos de impressões singulares”.

Assim é que, embora relacionados, o ambiente informacional na aplicação das regras não é o mesmo ambiente que produziu esta regulamentação. As certificadoras na aplicação das regras utilizam uma informação estruturada e/ou codificada que, por meio da interpretação, pode ser reconstruída pelo receptor, sem a intervenção direta do produtor da regra.

Neste contexto, verifico a importância de caracterizar um ambiente informacional adequado que facilite a interpretação e absorção desta informação pelas empresas que desejam obter a avaliação da conformidade de seus produtos. Esse ambiente informacional vai depender do ambiente organizacional e informacional de cada empresa participante do processo, com as suas respectivas culturas e comportamentos informacionais.

Sendo assim, para caracterizar este ambiente informacional, é necessário identificar os principais atores, suas atribuições e relações, bem como as suas necessidades e usos da informação no processo de aplicação das regras. Esse ambiente informacional, eventualmente, pode incluir também outros atores que, embora não estejam diretamente envolvidos na aplicação das regras, colaboram para a geração do conhecimento neste processo e atuam como fontes externas de geração do conhecimento para as empresas. É importante destacar que os ambientes informacionais são afetados por questões externas, políticas e administrativas que não serão foco de análise neste projeto.

Ambiente de inovação

A inovação tem um importante papel no desenvolvimento econômico das empresas. Lemos (1999, p. 123) elabora um breve histórico sobre o tema, assinalando que:

no âmbito da economia, ao longo do século XX, muito se vem discutindo sobre a inovação, sua natureza, características e fontes, com o objetivo de buscar uma maior compreensão de seu papel frente ao desenvolvimento econômico, ressaltando como marco fundamental a contribuição de Joseph Schumpeter, que enfocou a importância das inovações e dos avanços tecnológicos no desenvolvimento de empresas e da economia.

No cenário atual, as novas tendências da inovação pretendem ir além dos parâmetros econômicos valorizando o intangível, onde a produção do conhecimento, tácito ou codificado, passa a ser considerado um elemento essencial para a efetivação da inovação tecnológica.

(ANDRADE, 2006). Tigre (2006) também considera o conhecimento tácito e codificado como importantes fontes de conhecimento e inovação nas empresas, junto com as fontes de desenvolvimento tecnológico próprio, contratos de transferência de tecnologia, tecnologia incorporada e aprendizado coletivo.

Neste sentido surgem diferentes conceitos de inovação. O Manual de Oslo por exemplo define inovação como: “a implementação de um produto (bem ou serviço) novo ou significativamente melhorado, ou um processo, ou um novo método de marketing, ou um novo método organizacional nas práticas de negócios, na organização do local de trabalho ou nas relações externas” (ORGANIZAÇÃO PARA COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, 1997, p. 55).

Albagli e Maciel (2004) ressaltam que, por outro lado, um conceito mais amplo de inovação vai além da inovação tecnológica, e valoriza o conhecimento formalizado (codificado), como também o conhecimento não formalizado, aquele que é construído nas práticas econômicas e socioculturais.

Para essas autoras, a aplicação de um novo conhecimento é importante para o desenvolvimento de uma organização, porém a capacidade de processar e recriar este conhecimento e transformá-lo em ação, ou, mais especificamente em inovação, é um ponto

importante nesta discussão. A circulação do conhecimento codificado e sua transformação para tácito e vice-versa entre contextos diferenciados inclui capacidade de aprendizado e os ambientes informacionais podem colaborar na assimilação destes conhecimentos, sendo parte integrante do ambiente de inovação das empresas (ALBAGLI; MACIEL, 2004). Segundo Maciel o ambiente de inovação:

[...] procura dar conta do conjunto de condições - limites, obstáculos, possibilidades, estímulos da inovação em uma determinada formação social.

Ambiente de inovação refere-se, portanto, ao conjunto de fatores políticos, econômicos, sociais e culturais que estimulam ou dificultam a inovação (MACIEL3 apud ANDRADE, 2006, p. 5).

Andrade (2006, p.5) observa que o ambiente de inovação “consiste em um ambiente institucional e de relações de forças abertas e intangíveis que um grupo disponibiliza para implementar práticas que sejam inovadoras” e Albagli (2006) assinala que o ambiente de inovação:

reúne um conjunto de elementos materiais (empresas, instituições de ensino e pesquisa, organizações de suporte, infra-estrutura), imateriais (informação, conhecimento, capacidade de aprendizado) e institucionais (atitudes e regras sociais, políticas públicas e arcabouço legal), que compõe uma complexa rede de relações favoráveis ou não à inovação (ALBAGLI, 2006, p. 6).

É importante esclarecer que, neste projeto, estou me referindo à inovação tecnológica e também a outros tipos de inovação. Sendo assim, estou me baseando na premissa que a empresa, para alcançar uma inovação tecnológica de produto ou processo, muitas vezes precisa adotar novos métodos de trabalho, como por exemplo de gestão organizacional, resultando em outro tipo de inovação para a empresa.

Diversos atores destacam a importância dos ambientes interativos, como Cohen (2002), argumentando que nos dias de hoje as empresas que conseguem interagir com outros atores econômicos, políticos e sociais levam vantagens, tirando proveito desta interconectividade e sincronização das suas operações. Andrade (2006) observa que a pré-condição para qualquer inovação é a construção de novos formatos organizacionais e a ênfase em atividades de parceria envolvendo empresas, governos, universidades, incubadoras e centros de pesquisa.

Albagli (2006) observa que, embora a empresa seja considerada pelos “neo-

3 MACIEL, Maria Lúcia. Inovação e conhecimento. In: SOBRAL, Fernanda et al. (Org.) A alavanca de Arquimedes:

ciência e tecnologia na virada do século. Brasília: Paralelo 15, 1997.

schumpeterianos”, o locus da atividade inovadora, esta é compreendida como um processo social, pois nenhum agente econômico inova sozinho. Segundo Albagli (2006, p. 6) “a inovação não se constitui em um ato isolado, mas sim um processo não linear e interativo, de múltiplas fontes, derivado da dinâmica de interações entre os atores”.

Desta forma, constato que o ambiente informacional e o ambiente de inovação são ambientes de interação social e se complementam nas questões referentes à valorização do fluxo da informação e conhecimento entre os parceiros. A caracterização de ambientes informacionais voltados para atender as necessidades específicas dos vários segmentos participantes da atividade de avaliação da conformidade pode servir de base para promover o relacionamento entre informação e inovação, em um determinado setor econômico e social.

Para caracterizar o ambiente informacional no processo de aplicação e de adoção dos regulamentos de avaliação da conformidade e sua relação com o ambiente de inovação, vou levar em conta os seguintes aspectos:

- principais atores, seus papéis e suas relações;

- suas necessidades de informação e conhecimento, nesse processo, e seus possíveis usos em inovações nas empresas consideradas;

- fontes de conhecimento codificado (informação) e tácito, suas formas e obstáculos de acesso;

- fluxos de informação e conhecimentos entre os principais atores considerados;

- formas de capacitação e aprendizagem para aplicação da regulamentação e para inovações associadas.

Este ambiente informacional inter organizacional vai depender do ambiente organizacional intra organizacional e informacional de cada participante do processo, com os seus respectivos comportamentos e culturas informacionais, conforme discutido a seguir.

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