Vanderbeck e Nagy (2003, p.414) alertam para importância do lucro líquido de uma empresa como indicador de sua “saúde” financeira e de sucesso no alcance de suas metas. Dessa forma, no momento do planejamento de mudança nos níveis de atividade da organização, a antecipação da influência dos preços de venda, custos e volume de produção, são essenciais para a visualização dos efeitos dessas mudanças nos lucros da empresa. Podendo, assim, a administração tomar decisões baseadas em informações mais seguras e que não prejudiquem a lucratividade da organização.
Nesse contexto, Vanderbeck e Nagy (2003, p.414) revelam que “a análise de custo-volume-lucro (CVL) é uma técnica que usa os graus de variabilidade para medir o efeito de mudanças no volume sobre os lucros resultantes”. Em outras palavras, esse instrumento é utilizado para se estimar os lucros que podem ser
obtidos em diferentes níveis de produção e vendas. Além de auxiliar na visualização dos impactos das modificações nos preços de venda, nos custos ou nos dois elementos juntos, frente ao lucro líquido da empresa (VICECONTI e NEVES, 2000, p.153).
Para tanto, a análise CVL parte do pressuposto que os ativos da empresa, suas máquinas, instalações, estoques de matéria-prima, mão-de-obra, entre outros, permanecerão estáveis em curto ou médio prazo e que seu volume de atividade se mantenha dentro de um determinado limite normal de variação. Possibilitando então se inferir que os custos e despesas fixas e variáveis também se manterão inalterados durante o período que está sendo submetido à análise (MARTINS, 2000, p.271; VANDERBECK e NAGY, 2003, p.414-415). Dessa forma, torna-se possível a utilização, por parte da administração, de indicadores como, por exemplo, o ponto de equilíbrio, facilitando a gestão da empresa e o processo de tomada de decisão.
2.6.1 Ponto de Equilíbrio
A determinação do ponto de equilíbrio é o objetivo principal da análise de custo-volume-lucro. Por conceito, o ponto de equilíbrio é o ponto onde as receitas de vendas são iguais ao total dos custos e despesas da empresa, sendo que o lucro, por sua vez, é nulo (BERNARDI, 2007, p.65; HOJI, 2006, p.337; VANDERBECK e NAGY, 2003, p. 415). O ponto de equilíbrio em unidades de produto pode ser calculado através da divisão dos custos e despesas fixos pela margem de contribuição unitária do produto (BERNARDI, 2007, p.65-66; HOJI, 2006, p.341).
A margem de contribuição, por sua vez, é essencial para que se evidencie qual é a participação de um produto vendido no pagamento dos custos e despesas fixas da empresa. Bernardi (2007, p.64) apresenta um conceito bastante claro do que seria a margem de contribuição:
Margem de Contribuição de um produto, mercadoria ou serviço é a diferença entre o valor das vendas, os custos variáveis e as despesas variáveis da venda. Isto significa que se pode avaliar o quanto cada venda contribui para pagar os custos fixos e despesas fixas.
Na mesma linha de pensamento, mas de forma complementar, Hoji (2006, p.340) salienta que após ser apurada a margem de contribuição unitária (MCU) de
cada produto, pode-se multiplicá-la pela quantidade total de unidades vendidas, conhecendo assim, de forma mais simplificada, a margem de contribuição total (MCT) das vendas. Isso é possível pois a MCT varia de forma proporcional ao volume de vendas do produto.
Pode-se calcular, basicamente, três diferentes tipos de ponto de equilíbrio (BERNARDI, 2007, p.72-73; HOJI, 2006, p.343; VICECONTI e NEVES, 2000, p.159), são eles:
• Ponto de Equilíbrio Contábil (PEC) – é o montante de vendas que equilibra a receita com a soma dos custos e despesas da empresa;
• Ponto de Equilíbrio Econômico (PEE) – é basicamente igual ao ponto de equilíbrio contábil, exceto pelo fato de que se acrescenta ao cálculo o custo de oportunidade sobre o capital investido na empresa. Seria então o ponto onde os custos, despesas e o custo de oportunidade, somados, se igualam às receitas de vendas da organização;
• Ponto de Equilíbrio Financeiro (PEF) – é o total da receita de vendas que se iguala à soma dos custos e despesas que não representam saídas de caixa da empresa. Nesse caso, por exemplo, a depreciação não seria computada nos custos fixos para efeito de cálculo do ponto de equilíbrio, pois não implica em desembolso para a organização.
Independentemente do tipo de ponto de equilíbrio utilizado para se realizar a análise CVL, percebe-se o elevado grau de utilidade que esse indicador oferece para a gestão da organização. Através dele a administração pode controlar e gerir sua área comercial, produtiva e financeira de forma mais transparente e com metas mais bem definidas. Na figura 2 é possível visualizar a representação gráfica do ponto de equilíbrio.
0 2 4 6 8 10 12
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Receita total
Custos Fixos e Despesas Fixas
Custos e Despesas Totais
Figura 2 – Gráfico do ponto de equilíbrio.
Fonte: adaptado de Bernardi (2007, p.66).
Por outro lado, Hoji (2006, p.337) salienta que o método do ponto de equilíbrio possui limitações que devem ser consideradas no momento de sua utilização. Para empresas que produzem somente um produto, o que geralmente não ocorre na prática, a análise de custo-volume-lucro e o ponto de equilíbrio podem ser utilizados sem problemas. Porém, para organizações que industrializam dois ou mais produtos surgem dificuldades em se determinar seu ponto de equilíbrio geral. Isso devido, principalmente, pela subjetividade na alocação dos custos fixos aos diferentes produtos, bem como pelas diferentes margens de contribuição que eles apresentam.
Nesse caso, existindo uma diversificada linha de produtos, Bernardi (2007, p.69-71) enfatiza que se pode lançar mão de formas alternativas de apuração do ponto de equilíbrio geral da empresa. Uma delas é a determinação de pontos de equilíbrio individuais e posteriormente um PE total. Dessa forma, deve-se calcular o porcentual de participação de cada produto no total das vendas da empresa e então ratear os custos e despesas fixas totais com base nesse índice. Após o rateio dos custos e despesas fixas para cada produto, divide-se esse valor pela margem de contribuição individual, obtendo assim o ponto de equilíbrio para cada produto. O PE geral da organização seria então, por essa proposição, a soma desses PEs individuais.
Outra forma de se calcular o ponto de equilíbrio geral de uma empresa que produz e comercializa mais de um produto é através da apuração de uma margem de contribuição média ponderada desses produtos. Deve-se, nesse caso, ponderar as margens de contribuição individuais dos produtos pelas suas respectivas porcentagens de participação nas vendas da empresa. O resultado da soma dessa ponderação é a margem de contribuição média da empresa. Para se conhecer então
Volume Ponto de
Equilíbrio
Custos e Despesas Variáveis
o ponto de equilíbrio através dessa proposição, basta dividir os custos e despesas fixas totais pela margem de contribuição média obtida, sem a necessidade de efetuar rateios (ASSEF, 2003, 62-66; BERNARDI, 2007, p.71-72).
Conceitualmente, sabe-se que o ponto de equilíbrio de uma empresa pode ser considerado como a igualdade entre as receitas totais de venda e os gastos totais do período (os custos mais as despesas). Entretanto, Assef (2006, p.66) salienta que a receita de vendas que ultrapassa o ponto de equilíbrio não deve ser considerada como lucro em sua totalidade. Isso devido aos custos variáveis serem proporcionais ao nível de atividade da empresa. Dessa forma, quanto mais se vende, mais ocorrerão custos variáveis de venda. Ou seja, as receitas de vendas que superarem o PE da empresa podem ser sim convertidas em lucros, mas proporcionalmente à margem de contribuição apurada.