CAPÍTULO 1: FENOMENOLOGIA DA LEX SPERANDI
1.4 A escatologia moderna
1.4.3 Ao redor da neoescolástica
O tratado escatológico neste período ganhou contornos bem destacados, sendo definido como o tratado das “coisas últimas” (De novissimis) e localizado na conclusão da grande sistematização neoescolástica. Predominava uma tendência localizante e coisificante ao tratar dos temas escatológicos, além da concentração na escatologia individual. Os manuais neoescolásticos não se afastarão dos limites traçados pela escatologia belarminiana.
Todavia, o contexto da modernidade trouxe desafios que reclamariam uma resposta adequada. A difusão do iluminismo na cultura europeia impôs, cada vez mais, uma cosmovisão fundada na razão autônoma. A consolidação de novas instâncias de pensamento
134 Cf. OCCHIPINTI, Giuseppe. Storia dela teologia II. Bologna: Dehoniane, 1996, p. 523-570
135 BELLARMINO, Robertus. Disputationes de controversiis christianae fidei adversus huius temporis haereticos. Napoli: Josephum Giuliano, 1856
136 Isto fica evidente em sua compreensão da Ars moriendi presente na obra L’arte di ben morire.
Casale Monferrato: Piemme, 1998. Nesta mesma linha se apresenta outra obra de imensa popularidade e, por este motivo, tremenda difusora deste modelo de escatologia: AFONSO DE LIGÓRIO.
Preparação para a morte. Petrópolis: Vozes, 1956.
137 Cf. ANCONA. Escatologia, p.212-214
questionou e exigiu um novo posicionamento no âmbito da teologia. Situar-se nesse novo cenário foi uma tarefa que demandou um longo processo de adaptação para a reflexão teológica. As novas perspectivas veiculavam a proposta de uma religião natural e racional, independente de qualquer tutela eclesiástica e alheia aos particularismos confessionais138.
A escatologia recebeu o impacto dessa mudança de cenário. Para os que transitavam neste novo âmbito era diminuto o interesse pela apresentação clássica dos novíssimos. A escatologia passou a ser vinculada com a moral. Os teólogos moralistas da época, visando estimular a conduta moral do homem, não hesitaram em apresentar a escatologia como a doutrina da retribuição final que justifica a realização da conduta moral.
Era uma forma de apresentar uma justificação racional para a doutrina escatológica.
A neoescolástica não logrou assimilar e oferecer uma resposta adequada ao novo contexto. Sua ênfase centrou-se ainda mais na escatologia individual. Se nos séculos XVI e XVII o empenho dos teólogos residia na defesa da doutrina do purgatório, posteriormente surgiram novos questionamentos e desafios. Racionalistas e materialistas negavam a existência de uma alma imortal e, consequentemente, a possibilidade de uma vida eterna. A suspeita ideológica foi levantada contra as “verdades eternas”, rotuladas doravante como discurso alienante frente ao compromisso de transformação da realidade. Os novíssimos foram encarados como doutrina que infantiliza e abrutalha, cuja crença impede o pleno desabrochar do humano. Diante da ampla gama de ataques e questionamentos a reação neoescolástica centrou-se num discurso eminentemente apologético, sem sair dos rígidos limites da escatologia tradicional.
Todavia, neste período não deixaram de existir aqueles teólogos que trilharam caminhos alternativos e, de certa forma, anteciparam com suas intuições muitos dos avanços da escatologia contemporânea. Já na primeira metade do século XIX temos a inovadora contribuição da escola de Tübingen. Os estudiosos de Tübingen assumiram a tarefa de iniciar uma reação diante da confrontação iluminista. Eles possuem o mérito de resgatarem o interesse pela história, ainda que numa perspectiva idealista. A repercussão, no âmbito da teologia, desse interesse pela história se manifestou através da recuperação das categorias de história da salvação e Reino de Deus. Uma recuperação motivada pelo estudo aprofundado das grandes fontes cristãs: Escritura, Padres da Igreja e teólogos clássicos.
Dois teólogos merecem especial destaque. O primeiro é Franz Staudenmaier (+1856) que inovou ao tratar da escatologia no contexto da eclesiologia, integrando aquele
138 Cf. FISICHELLA, Rino. Storia dela teologia III. Bologna: Dehoniane, 1996, p. 15-43
tratado no conjunto mais amplo da doutrina da redenção. Segundo Staudenmaier a redenção é o princípio que modela a história inteira, desde a sua gênese até o seu cumprimento definitivo.
A escatologia não é outra coisa senão a reflexão sobre a vida transfigurada no Reino de Deus.
Ali se dá, de forma definitiva, a vitória sobre o pecado e a morte. Tal vitória já é visível na história, pois o homem experimenta não só a tensão dialética do existir em Adão ou em Cristo, mas também a evidente superioridade do viver em Cristo. Além disso, Staudenmaier conseguiu desenvolver uma reflexão estruturada de forma trinitária, cristocêntrica e pneumatológica: o fundamento da vida transfigurada no Reino é o Pai que a manifesta e realiza por meio do Filho e a dinamiza pelo Espírito. Fiel à uma das linhas mestras de sua escola teológica, a perspectiva histórica, Staudenmaier conseguiu reencontrar a unidade entre a escatologia individual e a coletiva. Infelizmente, a ausência de uma maior projeção desta corrente teológica no século XIX impediu que a riqueza e a inovação deste teólogo tivessem a merecida difusão e aprofundamento139.
Outra tematização da escatologia de notável valor é a de Mathias Joseph Scheeben (+1888). A base da reflexão deste teólogo renano encontra-se em sua singular abordagem da relação entre natureza e graça. Esta relação fundamental perpassa toda a teologia e, evidentemente, a escatologia. Em sua obra intitulada “Os mistérios do cristianismo140”, Scheeben tratou da escatologia sob o significativo título de o mistério da glorificação e dos novíssimos. A proposta de Scheeben é seguramente inovadora em relação ao contexto teológico neoescolástico. Em particular emerge a decidida fundamentação cristológica de todas as questões escatológicas e a superação daquele danoso distanciamento entre a escatologia individual e a escatologia coletiva. É em Cristo e por causa de Cristo que tanto o ser humano quanto a criação inteira receberão a glorificação sobrenatural e a beatitude. Esta será sempre uma realidade misteriosa, compreensível somente sob a ótica da gratuidade do dom. Um dom que o homem já pode usufruir em sua existência terrena como crente, mas que é destinado a consumar-se numa plenitude futura. Concretamente a glorificação pode ser pensada em termos de transformação, ou seja, uma verdadeira e própria deificação do homem mediante a participação na natureza de Deus141. O que determina a glória é a excelsa dignidade e a consagração que a criatura recebeu por meio de sua união com o Homem-Deus.
É da humanidade de Cristo que nos vem a glória, por força da união hipostática142. A reflexão
139 Cf. ANCONA. Escatologia cristiana, p.215-217
140 SCHEEBEN, Mathias Joseph. I misteri del cristianesimo. Brescia: Morcelliana, 1949
141 Cf. SCHEEBEN, I misteri., p. 483-487
142 Cf. SCHEEBEN, I misteri, p. 488-489
prossegue com a mesma originalidade ao apresentar a natureza e os efeitos do estado de glorificação nas criaturas e, principalmente, no ser humano. O primeiro efeito da glorificação é a visão imediata da essência divina, na qual se revela o lumen gloriae em todo o seu esplendor. Em seguida Scheeben considera que a glorificação implica no aperfeiçoamento da natureza, inclusive no seu aspecto corporal. O fundamento deste grande mistério radica-se na mística união do homem com Cristo143.
O ambiente teológico deste período não foi capaz de assimilar mais amplamente o contributo desses teólogos. O paradigma erigido no decorrer de séculos cristalizou-se sob a tremenda pressão da polêmica - e até mesmo da rejeição - ao discurso escatológico. Em geral as abordagens inovadoras eram vistas com suspeita. Temia-se tanto a heresia quanto concessões exageradas ao “espírito moderno”. A teologia teria de esperar ainda várias décadas para testemunhar o irromper de uma profunda revisão do tratado escatológico, sobretudo no ambiente católico.
A escatologia deste período consolidou várias características. A primeira foi a sua inserção num sistema teológico mais amplo. Sua função seria a de operar como conclusão de um longo itinerário especulativo. O que prevalecia era a compreensão da escatologia como a doutrina das “coisas últimas”. Todavia essas “ultimidades”, quando transpostas para os manuais da época, praticamente encarceravam a escatologia nos limites acanhados do esquema dos novíssimos. Portanto, sem desmerecer os valores da sistematização da escatologia alcançada pela teologia clássica, é igualmente necessário reconhecer outras grandes limitações: o problemático distanciamento do mistério pascal de Cristo, a ênfase quase exclusiva na escatologia individual e intermediária em detrimento da escatologia coletiva, antropologia tendente ao dualismo corpo-alma, uso pessimista e moralista do discurso sobre os novíssimos, tendência ao estabelecimento de uma “topografia do além” e uso de uma linguagem inadequada e pouco sóbria no tratamento dos temas escatológicos.
É diante deste quadro que a reflexão teológica terá de se posicionar e, mais que isso, empreender uma volta às fontes da esperança cristã para redizer esta mesma esperança num novo contexto histórico e existencial.