CAPÍTULO 1: FENOMENOLOGIA DA LEX SPERANDI
1.4 A escatologia moderna
1.4.5 O debate protestante
Dialogar com esta modernidade crítica – e até mesmo hostil - foi o desafio com o qual a teologia logo se defrontou. A primeira aproximação e tentativa de diálogo aconteceram no ambiente protestante através da chamada teologia liberal. “O termo ‘theologia liberalis’
[...] tencionava indicar com isso um livre método da investigação histórico-crítica das fontes
144 LA DUE, William J. O guia trinitário para a escatologia. São Paulo: Loyola, 2007, p. 45-55 ; TAMAYO-ACOSTA. Para comprender, p. 243-255
145 Cf. CARVALHO, Maria Manuela. A consumação do homem e do mundo. Lisboa: Universidade Católica Editora, 2002, p. 181-202; TORNOS, Andrés. Escatología I. Madrid: UPCM, 1989, p.22-32
da fé e da teologia que não se sentisse vinculado aos dados posteriores da tradição dogmática”146.
Assumiu-se uma abordagem da fé cristã aberta à crítica histórica. Objeto de especial análise e debate foram a exegese bíblica e a história dos dogmas. Buscou-se aquilo que seria a chamada “essência do cristianismo” e concluiu-se logo que pouca coisa do que temos é realmente autêntica. A helenização da fé agregou ao discurso cristão elementos desconhecidos em sua origem. Os dogmas nada mais seriam que uma forma helenizada de compreensão da fé.
O temível rótulo de helenização foi pejorativamente afixado em vários elementos do discurso cristão. Por este motivo classificou-se como helenização a tradicional ênfase na imortalidade da alma e como dualismo a antropologia fundada no esquema de corpo e alma.
Em termos de cristologia afirmou-se a impossibilidade de um acesso ao Jesus histórico. Em contrapartida os liberais pontuaram como decisivo o acolhimento da proposta ética deixada por Jesus, tido por eles como o mestre de moral por excelência. Numa reflexão assim configurada só o conteúdo ético do cristianismo foi julgado significante para a modernidade147. A esperança escatológica foi rotulada como mitologia ultrapassada. O resultado foi o inevitável esvaziamento escatológico da fé cristã.
Este processo de negação efetiva da escatologia, operado pela teologia liberal, não ocorreu sem ocasionar reações fortíssimas. A réplica à desvalorização da escatologia nasceu no próprio ambiente onde surgiu a teologia liberal: o mundo protestante. Todavia, depois de uma contestação tão violenta, a escatologia nunca mais seria a mesma. Urgia recuperar a legitimidade de sua existência dentro do discurso cristão. O ataque liberal exigia a necessária refutação. O ponto de partida não poderia deixar de ser o amplo campo dos estudos bíblicos.
Foi aí que a polêmica começou e também aí devia ter início a sua resolução.
O contexto polêmico exigiu esse aprofundamento bíblico. A releitura do Novo Testamento, principalmente dos Evangelhos, fez reaparecer a identidade eminentemente escatológica da fé cristã. Redescobriu-se a densidade da experiência da esperança escatológica no cristianismo primitivo e sua influência sobre a formulação e vivência da fé e da práxis cristãs.
146 GIBELLINI, Rosino. A teologia do século XX. São Paulo: Loyola, 1998, p. 19
147 MONDIN, Battista. Os grandes teólogos do século XX. São Paulo: Paulus/Teológica, 2003, p. 24- 29
Em breves traços visitaremos as contribuições teológicas mais significativas para a escatologia, oriundas do ambiente protestante. J. Weiss e Albert Schweitzer recolocaram num posto de centralidade a escatologia tanto na pregação quanto na vida de Jesus. Jesus não pode ser reduzido a um eminente pregador moral e mestre da virtude. O centro da sua pregação é a emergência escatológica do Reino de Deus na história148. Rudolf Bultmann postulou a desmitologização do Novo Testamento e identificou Jesus como o próprio evento escatológico, manifestado no hoje da história. É diante dele que cada pessoa deve decidir em aceitá-lo ou não, mediante o ato de fé. A escatologia de Bultmann é radicalmente presentista, pois – em consonância com o espírito moderno – da escatologia futura nada se pode afirmar.
Sua escatologia se concentra na dimensão contemporânea da decisão por Cristo. Bultmann encara o éschaton como a possibilidade, oferecida pela fé, de transformar cada momento da história em momento escatológico. A escatologia, assimilada como esperança pessoal, termina por absorver a história dentro dos limites da liberdade e da ação do individuo149.
Este individualismo escatológico de Bultmann terminou por isolar a escatologia da totalidade do processo histórico. Como reação apareceu uma corrente teológica com o claro propósito de rearticular a relação escatologia-história. Nesta perspectiva destacam-se teólogos como Oscar Cullmann, Wolfhart Pannenberg e Jürgen Moltmann.
Oscar Cullmann estabeleceu uma bem elaborada reflexão sobre a dimensão histórica da salvação. O referencial é a Escritura como chave de interpretação da totalidade da história humana. Neste sentido o tempo é compreendido de uma forma nova: kairós, tempo da ação salvífica de Deus no mundo. O evento Cristo é o ponto central da história, pois a partir dele inicia-se o tempo final como marcha irreversível rumo à consumação escatológica da história. É de Cullmann o célebre binômio “já” e “ainda não”. Em Cristo ressuscitado já temos a manifestação da plenitude salvífica que abraçará a história como totalidade150.
Karl Barth repropôs toda a teologia a partir da afirmação da transcendência e primazia do Deus que se revela, salva e plenifica a criação. A escatologia tornou-se um dos eixos de sua reflexão, justamente por proporcionar a revelação do absoluto de Deus151.
148 Cf. TAMAYO-ACOSTA, Juan-José. Escatologia Cristã. Dicionário de conceitos fundamentais do cristianismo. São Paulo: Paulus, 1999, p.219-222
149 BULTMANN, Rudolf. History and eschatology: the presence of eternity. New York: Harper &
Row, 1957
150 CULLMANN, Oscar. Salvation in history. New York: Harper & Row, 1967; Cristo e il tempo: la concezione del tempo e della storia nel cristianesimo primitivo. Bologna: Mulino, 1965; Il mistero dela redenzione nella storia. Bologna: Mulino, 1966
151 BARTH, Karl. L’Epistola ai Romani. Milano: Feltrinelli, 1962, p. 124-166; Bosquejo de dogmatica. Buenos Aires: La Aurora, 1954, p. 191-248
Wolfhart Pannenberg reflete sobre a escatologia a partir de uma interessante perspectiva baseada na teologia fundamental. Uma escatologia centrada em Cristo como prolepse152 reveladora da consumação escatológica. A revelação divina acontece na história através dos acontecimentos que nela se dão. Uma compreensão dos acontecimentos não como
“fatos brutos”, mas como portadores de revelação só é possível por causa da ação esclarecedora da Palavra. Cabe à Palavra desvelar o sentido profundo da história diante da razão. Como se vê, visando dialogar com a modernidade, Pannenberg valoriza a racionalidade humana. Ele postula que a fé não se constitui à margem da razão ou contradizendo-a. A fé assume e pressupõe a razão ao interpretar a história mediante a significação oferecida pela Palavra. Por sua vez o sentido da história está contido na sua consumação. Há um acontecimento que antecipa essa consumação para qual a história caminha: Jesus Cristo ressuscitado. Cristo, enquanto prolepse, é a mais radical instância hermenêutica do homem e da história. Compreender como o caráter proléptico da revelação em Cristo desvela à razão o sentido decisivo da história é o propósito assumido por Pannenberg153.
Jürgen Moltmann elaborou uma abordagem da escatologia dotada de notável originalidade. Seu mérito reside, antes de tudo, no aprofundamento histórico-existencial da escatologia cristã ao erigir a esperança como princípio teológico central154. Nesta perspectiva a essência do cristianismo é claramente compreensível como escatologia. O cristianismo é escatologia do princípio ao fim, e não somente no seu apêndice. Ele é esperança, orientação, movimento que avança rumo ao futuro e, simultaneamente, revoluciona e transforma o presente. A esperança, como princípio operativo, já encontra sua causa remota na experiência salvífica da promessa e do êxodo e alcança sua plenitude em Jesus Cristo. Moltmann compreende a esperança não como uma simples virtude moral a ser cultivada, mas como o fundamento radical, o horizonte definitivo e o princípio operante da teologia e de toda a vida cristã155.
152 Prolepse entendida como aquilo que se refere à realidade futura e, de certa forma, já é antecipação dela. O Ressuscitado, por sua condição de primícias da nova criação, antecipa em si a plenitude escatológica.
153 PANNENBERG, Wolfhart. Revelazione come storia. Bologna: Dehoniane, 1969; The Apostle’s Creed. Philadelfia: Westminter, 1972; BRENA, G. La teologia di Pannenberg: cristianesimo e modernitá. Casale Monferrato: Marietti, 1993
154 Em teólogos como J. Moltmann notamos a fecundidade do diálogo da teologia cristã com pensadores modernos, sobretudo os de origem judaica (E. Bloch, G. Scholem, J. Taubes e W.
Benjamin) que repropuseram o tema da esperança a partir da experiência judaica da esperança messiânica.
155Cf. MOLTMANN, Jürgen. Teologia da esperança: estudos sobre os fundamentos e consequências de uma escatologia cristã. São Paulo: Herder, 1971, p. 10-12
O maior contributo de todo este debate encontra-se no resgate da escatologia como um dos eixos centrais da fé cristã. Se fosse omitida a dimensão o cristianismo perderia um elemento central da sua identidade, bem como muito de força de atração e terminaria rebaixado a um balbucio de palavras piedosas que só os ingênuos aceitariam como substituição da realidade156.