CAPÍTULO 2: CAMINHOS PARA RECOMPOSIÇÃO DO DISCURSO ESCATOLÓGICO
2.1 Primeiro caminho: a escatologia centrada no mistério pascal de Cristo
2.1.2 Mistério Pascal: a centralidade recuperada
2.1.2 Mistério Pascal: a centralidade recuperada
exemplo, da experiência mística às grandes religiões institucionalizadas, da arte à reflexão filosófica mais elaborada. Todavia, foi na história do povo de Israel – em sua pobreza e limitação – que este anseio pelo conhecimento do mistério encontrou-se com a revelação de Deus. Israel experimentou, como nenhum outro povo até então, a proximidade com Deus e seu mistério.
Esta proximidade, ofertada a Israel gratuitamente como um dom, conheceu sua máxima concretização na encarnação do Verbo. Cristo é o mistério encarnado. Em sua humanidade visível revela-se a divindade invisível. Em suas palavras e ações o mistério se dá a conhecer de uma forma inaudita. Seu aniquilamento até a morte de cruz e sua exaltação pelo Pai mediante a ressurreição são manifestações eminentes do único mistério de Deus.
A encarnação é o ponto de partida para a revelação do mistério de Deus em Cristo. Uma revelação que se dá dentro da economia da salvação, isto é, na realização efetiva da salvação querida por Deus na história da humanidade e do cosmos. A própria ação divina, enquanto ação salvífica, é mistério. O conhecimento de sua existência e eficácia não é logo sabida por todo o mundo, mas, como ensina a Escritura, há uma gradação: primeiro conhecem-na aqueles aos quais foi concedido o dom da profecia ou confiada a missão do apostolado, depois todos os que acolheram a revelação e se congregam na Igreja. Tudo isso num movimento crescente até que toda a humanidade seja alcançada (cf. Ef 1,9; 3,3-6).
No Novo Testamento, e mais especificamente no Corpus Paulinum, a categoria mistério ocupa um lugar central. Por meio dela indica-se a ação salvífica de Deus em Cristo (por exemplo:1Cor 2,1.7; Cl 1,27;2,2 )194. O mistério de Cristo é o conteúdo fundante da pregação apostólica.
Odo Casel vinculou o uso da categoria mistério não só à Bíblia, mas ao contexto religioso e cultural do cristianismo nascente195. No império romano proliferavam as chamadas religiões mistéricas. Seus cultos eram cuidadosamente elaborados e sua mística articulava-se a partir da revelação dos mistérios aos iniciados. Este estudioso concluiu que tal Sitz im Leben foi decisivo para que os primeiros cristãos acolhessem esse termo em seu vocabulário teológico.
A crítica posterior avaliou como exagerada essa afirmação tão enfática da dependência das religiões mistéricas. Afinal é sobejamente conhecida a notória ruptura dos
194 Cf. O’BRIEN, Peter T. Mistério. In HAWTHORNE, Gerald; MARTIN, Ralph e REID, Daniel.
Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Loyola, Paulus/Vida Nova, 2008, p. 841-843
195 Cf. CASEL. O mistério do culto, p.69-83
cristãos daquela época em relação ao paganismo. Portanto, ao empregarem esse termo, não haveriam de retirar a sua significação do mundo pagão. Este sentido fundante foi haurido da própria Escritura. Ali também estava presente o termo “mistério”. Na Septuaginta (sobretudo na terminologia oriunda da apocalíptica) e no judaísmo da época já ocorre o uso do termo
“mistério”. Nessas fontes “mistério” significa principalmente um desígnio oculto de Deus, só conhecido mediante a revelação e destinado a cumprir-se plenamente no futuro (Cf. por exemplo: Dn 2, 28.47). A releitura cristã desses textos afirmou que o mistério de Deus é Jesus manifestado como Cristo, Salvador e Senhor (cf. Ef 1,9). É sobre esta base que o Novo Testamento e a Patrística ergueram sua reflexão e consolidaram o uso do “mistério” como categoria teológica.
Por sua vez, a teologia patrística assimilou a categoria “mistério” a partir da já mencionada perspectiva paulina. A teologia de Paulo compreendeu o “mistério” como a própria ação salvífica de Deus em Cristo. Ação manifestada numa tríplice gradação: Antigo Testamento-Cristo-Igreja. A interpretação patrística desse tríptico possui uma forte ênfase cristológica. A partir dela emergiu, como consequência lógica, um viés litúrgico-sacramental.
Assim temos em primeiro lugar o Antigo Testamento com as suas figuras (typoi) que podem ser tanto pessoas quanto eventos que realizam a salvação divina. Em seguida se dá a realização ou cumprimento pleno dessas figuras em Cristo. E, por fim, a Igreja onde a ação salvífica de Cristo se torna atual mediante sua liturgia. Desta forma “no ‘hodie’ do culto divino o memorial das ações salvíficas passadas nos faz participar exatamente delas” 196.
A compreensão da categoria “mistério”, mediante o processo de volta às fontes bíblicas e patrísticas, revelará que o plano salvífico de Deus foi realizado plenamente em Cristo e torna-se atual no decorrer da história através da Igreja, o seu corpo. E isso se dá principalmente mediante sua liturgia que, com toda propriedade, pode ser chamada de mistério. Por meio da liturgia o desígnio de salvação é anunciado e celebrado. Por meio dela este desígnio atinge o seu destino que é a humanidade e, através dela, a criação inteira.
Encontramos também na teologia e na espiritualidade cristãs o uso do plural mistérios de Cristo. Estes mistérios são a realização do plano de salvação mediante as diversas manifestações do único mistério de Cristo. Pelo fato de serem expressões que realizam a salvação divina são chamadas de mistérios a encarnação, o nascimento, a vida
196 NEUNHEUSER, Burkhard. Mistério. In SARTORE, Domenico e TRIACCA, Achille. DL. São Paulo: Paulus, 2004, p. 759
oculta, a missão, a paixão, morte e ressurreição de Jesus, a ascensão, o pentecostes e a sua parusia.
Os diversos momentos, episódios e atos da vida de Cristo são chamados de
‘mistérios’, porque acontecem no ‘mistério’, na própria humanidade de Cristo, e também porque cada um deles tem a sua própria fisionomia e um valor salvífico próprio ao manifestar o ‘mistério’. Os ‘mistérios’ são orientações determinadas e determinantes da vida e missão redentora de Cristo.197
A eficácia salvífica dos atos da vida de Cristo tem sua fonte no mistério pascal. E o mistério pascal (em seu núcleo central) depende dos mistérios precedentes pois a morte e ressurreição não ocorreriam sem a encarnação, a vida oculta em Nazaré, a escolha messiânica de servo sofredor. Tudo isso recebe a sua plenitude de luz e de significado no mistério pascal.
O mistério é realidade. A liturgia é por excelência o lugar dessa experiência. Na liturgia os vários mistérios de Cristo encarnam-se na vida concreta da comunidade cristã. A ação salvífica de Cristo e a sua própria pessoa encontram-se agora nos mistérios celebrados.
Mediante a liturgia a comunhão entre Deus e a humanidade avança pela história rumo à sua consumação plena.
Diante da ação litúrgica a comunidade cristã não pode ser uma expectadora inerte.
O Senhor realiza nela a obra de sua graça, mas isso não se dá passivamente.. Os membros de Cristo agem com Cristo. Por Cristo são agregados à oferta que ele fez de si, uma vez por todas, em sua páscoa. Assim a Páscoa de Cristo é necessariamente Páscoa da Igreja. O sacrifício em sua plenitude é aquele que realiza o Cristo-cabeça unido aos membros do seu corpo eclesial.
A causa do dinamismo do mistério que se expande de Cristo para a sua Igreja só pode ser encontrada na ação eficaz da graça de Deus. Sua origem radica-se na fé que conduz ao batismo que, por sua vez, incorpora eficazmente o batizado ao Corpo de Cristo, fazendo-o assim participante de seu mistério.
Estas considerações nos levam a concluir que o termo mistério não é algo que possa ser reduzido à simples categoria funcional no interior de um esquema didático. O mistério se relaciona com fé cristã vivida. É uma eminente categoria existencial e não somente um vocábulo de conotação teórico-ontológica.
197 BERGAMINI, Augusto. Cristo, Festa da Igreja: o ano litúrgico. São Paulo: Paulinas, 1994, p. 69
b) Mistério pascal de Cristo: centro e fundamento da escatologia
O mistério pascal desempenha um papel fundamental na constituição e na articulação da esperança cristã. Ele é o eixo da identidade e o ponto de partida da escatologia.
Em si mesma a Páscoa é um princípio teológico, pois ajuda a compreender não só a totalidade da vida e da missão de Jesus, mas o próprio sentido da existência humana bem como o de toda a criação. No núcleo do mistério pascal está o evento escatológico por antonomásia: a ressurreição de Jesus. Na ressurreição, a vida humana de Jesus de Nazaré foi introduzida na plenitude da vida em Deus. Quando o Ressuscitado ingressa nessa plenitude emerge um dinamismo de atração que convoca irresistivelmente os membros do seu corpo eclesial – e por meio deles a humanidade inteira e todo o cosmos - a participar dessa mesma plenitude.
A eucologia da solenidade da Ascensão expressa admiravelmente essa realidade:
Ó Deus todo poderoso, a ascensão do vosso Filho já é nossa vitória. Fazei- nos exultar de alegria e fervorosa ação de graças, pois, membros de seu corpo, somos chamados na esperança a participar da sua glória. (coleta) Ele, nossa cabeça e princípio, subiu aos céus não para afastar-se de nossa humildade, mas para dar-nos a certeza de que nos conduzirá à glória da imortalidade”. (Prefácio da Ascensão I)
Ele [...] subiu aos céus a fim de nos tornar participantes de sua divindade.
(Prefácio da Ascensão II)
Desta forma Jesus Ressuscitado é um sinal incontestável de que novos céus e nova terra são uma realidade que já começou. Ele é a prolepse da plenitude escatológica. Em seu mistério pascal temos uma verdadeira antecipação da plenitude para a qual caminha a totalidade do cosmos. A ressurreição de Jesus inaugura o éschaton, a realidade nova e definitiva. Daí a jubilosa afirmação contida no prefácio da Páscoa IV: “Vencendo a corrupção do pecado, realizou uma nova criação. E, destruindo a morte, garantiu-nos a vida em plenitude”.
A liturgia não celebra a ressurreição simplesmente como fato extraordinário, ocorrido num passado remoto e conservado na lembrança da comunidade cristã por ser o milagre por excelência. A sua compreensão vai muito além dessa abordagem redutiva e apologética. A ressurreição é uma autêntica boa nova que o culto divino proclama diante da humanidade e de toda a criação.
O memorial celebrado na eucaristia não é mera lembrança de um glorioso evento ancestral. Na celebração eucarística a comunidade cristã tem acesso ao evento fundante de sua salvação: o mistério pascal de Cristo. Este acesso se dá sob a forma sacramental e gera uma configuração histórico-existencial do corpo eclesial de Cristo, direcionada e aberta à plenitude escatológica.
Com isso, o mistério pascal transpõe os limites da liturgia para se tornar o fundamento e o critério inspirador de toda a vida moral das opções do crente em qualquer nível, bem como de toda a espiritualidade cristã198.
Esta dimensão acima aludida impede que o mistério pascal seja reduzido a uma triunfal consumação futura de todo o criado. A páscoa de Cristo ilumina e dinamiza também o momento presente e fecunda uma vivência comprometida da fé cristã. O conceito de mistério pascal recapitula toda a economia da salvação realizada em Cristo e comunicada à Igreja mediante a celebração da liturgia. O Vaticano II afirmou que a obra da redenção humana foi realizada pelo Cristo Senhor especialmente através de seu mistério pascal (cf. SC 5).
A vida cristã manifesta o acolhimento da salvação em Cristo. Por vocação ela é chamada a se realizar como sacrifício espiritual oferecido em Cristo (cf. Rm 12,1; 1Pd 2,5). O seu fundamento é o mistério pascal participado na liturgia, onde cada cristão é chamado a realizar em sua vida cotidiana o mistério da morte e ressurreição do Senhor. Por esta razão reconhecemos que a recuperação da categoria mistério pascal é uma das mais felizes iniciativas do movimento litúrgico. Assimilada amplamente pelos documentos do Concílio Vaticano II, aparece repetidas vezes, principalmente na sua Constituição sobre a Sagrada Liturgia (cf. SC 5,6,47,61,104,109; GS 22,38). Destinada a fecundar criativamente a reflexão teológica que se seguiu, a recuperação de sua centralidade proporcionou não só uma compreensão mais plena da liturgia, mas impactou positivamente o conjunto de toda a reflexão teológica.
2.2 Segundo caminho: linguagem que transmita a esperança de forma significativa para a contemporaneidade
Compreender e interpretar a realidade são tarefas que o ser humano concretiza através de uma imensa variedade de iniciativas. Entretanto, por maior que seja essa diversidade, todas elas terão de se expressar sob a forma de linguagem. Por linguagem entendemos não só aquela manifestação externa da comunicação mediante o uso da palavra articulada e de outros sinais, mas todo o processo interior e exterior que expressa o fato humano como comunicação.
Um novo anúncio da esperança escatológica na contemporaneidade e a necessária superação da distância que ainda persiste entre discurso teológico e cotidiano eclesial devem necessariamente passar pelo âmbito da linguagem. Afinal toda aproximação humana ou se dá
198 NEUNHEUSER. DL, p.772
a partir da linguagem ou não se dá. Por sua vez, cada temática exige uma linguagem própria.
A linguagem teológica se caracteriza como uma linguagem analógica, fundada na revelação, vinculada ao existencial e também expressa como liturgia, narrativa e simbólica.