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As notícias como ação e interação

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 38-43)

Baseando-nos em Fairclough (2003), tomamos os diferentes gêneros discursivos como produtos das diversas práticas sociais existentes. Essas regularidades de ação e interação que constituem cada tipo de prática social resultam na estruturação dos variados gêneros discursivos. Blommaert, citado por Resende (2009), explica essa configuração dos eventos discursivos:

Usuários/as da linguagem têm repertórios que contêm diferentes conjuntos de variedades, e esses repertórios são o material por meio do qual eles/as se engajam na comunicação [...] Como consequência, as pessoas não são inteiramente ‘livres’ quando comunicam, elas são constrangidas pelo conjunto e pela estrutura de seu repertório, e a distribuição de elementos de repertórios é desigual. (BLOMMAERT apud RESENDE, 2009, p. 37)

Meurer (2005) chama-nos a atenção para o fato de que, para Fairclough, o estudo dos gêneros deve estar associado às estruturas sociais. Isso se justifica devido ao escopo da ACD, qual seja, a relação linguagem-poder, já que a produção, a distribuição e o consumo dos textos22 que integram os variados gêneros discursivos podem estar a serviço da ideologia propagada pelas elites simbólicas.

As atividades específicas, que modelam as práticas particulares, possuem propósitos específicos. Com base em Fairclough (2003), Resende e Ramalho (2011, p. 164) ressaltam que “um aspecto importante na análise de gêneros diz respeito a

‘o que as pessoas estão fazendo discursivamente’, e com quais propósitos”. Em

“Twitter do Nordeste”, artigo noticioso publicado no jornal “Extra”, o gênero assume       

22 Resende e Ramalho (2011, p. 65) chamam a atenção para a diferença, na ACD, entre gêneros discursivos e textos, a saber: “Gêneros referem-se sempre a um potencial abstrato, mesmo quando se fala em gêneros situados. A materialização desse potencial só acontece em textos concretos”.

função de protesto, como se pode atestar pelo lide “Extra protesta contra o preconceito...”. Posteriormente, o artigo justifica o protesto: “Esta página foi idealizada porque o Nordeste é, antes de tudo, Brasil. [...] Você também fica retado com gente preconceituosa? Então siga com a gente.”

Com vistas a analisar esse fazer-discursivo, tomamos o gênero notícia como representante de uma prática discursiva particular em que é possível depreender certas inter(ações), representações e identificações no que tange à construção da nordestinidade.

Se dependêssemos apenas do imediatismo que nos cerca, nosso conhecimento de mundo seria, certamente, mais restrito. Assim, uma das justificativas para a escolha das notícias como corpus deste trabalho é seu poder de contribuir, a sua maneira, para nosso acervo cultural. Lage (2006), a seguir, ilustra essa função das notícias.

Do primeiro grito ao último suspiro, a vida nos coloca em muitos ambientes e nos permite testemunhar muitas situações. A descoberta da luz, da forma, do seio materno, da própria identidade; os jogos da infância, o espaço da casa, da rua, da escola; o amor, o trabalho, a vivência particular dos fatos políticos e sociais de nosso tempo: os soldados que desfilam, os poderosos que passam, algumas pessoas notáveis, o povo nas ruas, o efêmero gesto de vitória. Por mais fortes que sejam estes quadros, por quanto determinem de nosso comportamento, de nossas angústias e esperanças, são apenas parte daquilo que sabemos. A parte menor. Muito mais nos chega por notícias, testemunhos, em palavras ou representações icônicas. (LAGE, 2006, p. 5)

Assim, só soubemos do assunto que mais foi comentado na Feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, no dia 04 de novembro de 2010, mesmo sem estarmos lá, porque o artigo “Twitter do Nordeste” tratou de compartilhar conosco. Essa pequeno fato ilustra o poder de rompimento das limitações espaciais que as notícias possuem.

Do ponto de vista organizacional, Lage (2006, p. 17) define notícia como “o relato [no jornalismo moderno] de uma série de fatos, a partir do fato mais importante ou interessante; e, de cada fato, a partir do aspecto mais importante ou interessante”.

As notícias, por se tratarem também de uma prática discursiva, são produzidas, distribuídas, por uma determinada esfera institucional; e consumidas, isto é, são lidas e interpretadas por aqueles sujeitos que se tornam seus interlocutores. No entanto, elas diferem das conversas de telefone, entrevistas de

emprego e comunicados internos institucionais por extrapolarem a esfera local e poderem atingir a esfera global. Isso faz com que as notícias sejam uma das formas de concretizar a comunicação de massa. Esse tipo de comunicação é conceituado por Thompson (2002, p. 288) como “a produção institucionalizada e a difusão generalizada de bens simbólicos através da transmissão e do armazenamento da informação/comunicação”.

A partir desse conceito, fica evidente o status de elite simbólica à instituição jornalística, já que propagar bens simbólicos representa poder e acesso privilegiado ao processo de produção e disseminação de ideologias23.

Em virtude disso, ao se observar a ação e interação por meio das notícias pode-se constatar a abrangência do discurso noticioso e seu poder na “construção social da realidade”, conforme Berger & Luckmann citados por Ikeda (2005, p. 48).

Sumarizando os apontamentos de Ikeda (2005), podemos concluir que as notícias podem ser consideradas como geradoras de realidade, podendo manter ou não realidades subjetivas. Essas realidades subjetivas são a maior preocupação dos analistas críticos do discurso, pois elas podem estar a serviço das representações ideológicas das minorias sociais. Isso é ressaltado por Chouliaraki & Fairclough, citados por Resende e Ramalho (2011):

Gêneros- maneiras particulares de ação e reação- podem legitimar discursos ideológicos, ou seja, maneiras particulares de representar práticas

‘a partir de perspectivas posicionadas que suprimem contradições, antagonismos, dilemas, em favor de seus interesses e projetos de dominação. (CHOULIARAKI; FAIRCLOUGH apud RESENDE; RAMALHO, 2011, p. 61)

Em “Twitter do Nordeste”, detectamos um posicionamento explícito de contrariedade às enunciações preconceituosas e violentas disparadas por Mayara Petruso, no Twitter, contra os nordestinos. Aliás, o próprio artigo intitula as postagens da então acadêmica de Direito como “preconceituosa” e “ignorante”, uma vez que para o jornal, o Brasil não tolera mais bairrismo e “preconceito é um troço que deixa todo mundo revoltado, do Oiapoque ao Chuí”.

Frente ao que foi apresentado, tomar as notícias como concretizações de formas discursivas ritualizadas não representa uma escolha arbitrária, mas, sim, com

      

23 De acordo com Thompson (2002), a ideologia reside nas formas simbólicas da linguagem.

vistas a compreender a relação linguagem-ideologia que se dá em práticas discursivas particulares trazidas para seu interior.

Analisar, pois, o significado acional que perpassa as notícias é uma forma de compreender o processo de ação e interação que se dá nesse jogo dialógico entre os parceiros envolvidos (produção, primeiramente; e recepção, posteriormente). Por ser de caráter dinâmico, acreditamos, juntamente com Thompson (2002) que

os meios técnicos de comunicação de massa são de interesse fundamental, não apenas como canais de difusão e circulação das formas simbólicas, mas, também, como mecanismos que criam novos tipos de ação e interação, novos tipos de relações sociais que se difundem no tempo e no espaço. (THOMPSON, 2002, p. 342)

Em face disso, levando em consideração o poder inerente das notícias no processo de difusão discursivo, é válido investigar o papel deste gênero discursivo no acionamento de novas ações, novas representações, novas relações sociais no que se refere à construção da igualdade das minorias sociais dentro das práticas sociodiscursivas. Se ao discurso compete, conforme Meurer (2005, p. 82) criar, reforçar ou desafiar “formas de conhecimentos ou crenças, relações sociais e identidades ou posições sociais”, e se as notícias são gêneros constituídos pelos discursos, podemos atribuir a essa determinada prática discursiva um engajamento no processo de mudança social e cultural (Fairclough, 2001). “Twitter do Nordeste”

pode exemplificar uma tentativa do discurso jornalístico em abrir espaço para que vozes representantes de minorias sociais tenham acesso a esse local privilegiado dentro da sociedade. Nesse movimento, discursos preconceituosos e violentos, como o de Mayara Petruso, podem ser contestados e ressignificados por aqueles que não se deixam ser assujeitados por discursos estigmatizadores.

Se partimos do princípio de que o raio de alcance das notícias é de grande escala, podemos concluir que seu potencial no processo de semiotização do mundo é de relevante peso. Thompson (2002, p. 343) evidencia isso ao asseverar que “...

as formas simbólicas transmitidas via comunicação de massa são, muitas vezes, recebidas em contextos da vida cotidiana e incorporadas ao conteúdo simbólico da interação verbal”. Esta citação possibilita-nos deduzir duas coisas: a primeira refere- se ao que Fairclough (2003) chama de relação entre poder e gêneros. Neste caso específico, as notícias, além de moldarem o discurso para atender as especificidades de seu processo interativo, controlam e interferem em práticas

sociais como um todo. Segundo, esse controle se dá por meio das formas simbólicas, que são materializadas pela língua para a geração de realidade ou produção do mundo, segundo Ikeda (2005).

Em virtude disso, podemos perceber que gêneros, no nosso caso, as notícias, possuem alto potencial na propagação/desarticulação de ideologias, tanto no que tange às práticas de representação, quanto aos modos de identificação. Assim, como analistas críticos do discurso, cumpre-nos averiguar como as notícias recortadas para esta pesquisa mantêm ou rompem com os discursos ideológicos que visam, consciente ou inconscientemente, veicular representações e identificações estereotipadas, contribuindo para a manutenção do consenso negativo em torno das pessoas que residem ou provêm do nordeste brasileiro.

Ao analista crítico do discurso, então, cumpre a função de explicitar os estereótipos24, sensos comuns veiculados nos variados discursos produzidos socialmente com vistas a alterar o status de inferioridade, no plano do discurso, a priori, atribuído às minorias sociais. Tecnicamente, este trabalho é nomeado por Fowler, conforme menção de Balocco (2005) de intervencionismo.

O sentido de ‘intervencionismo’ proposto para a linguística crítica por Fowler, assim, remete à atitude de permanente disposição para inspecionar os valores sociais investidos em representações hegemônicas em vários tipos de discursos públicos (o discurso da mídia, da propaganda política, da academia, entre outros), de forma a alterar as práticas discursivas de determinados grupos sociais. (BALOCCO, 2005, p. 68)

É mister ressaltar que, embora, muitas vezes, a estrutura genérica possa contribuir para a circulação de discursos ideológicos em relação às minorias sociais, nem sempre essa apropriação será automática por parte de sua audiência. Anular a possibilidade contestadora, por parte dos receptores, dos discursos produzidos pelos variados gêneros é cometer o que Thompson (2002) nomeia de falácia do internalismo. Com isso, a propagação da ideologia não pode ser totalmente previsível, pois conta, em grande parte, com o potencial interpretativo e crítico de sua audiência.

Retomando Fairclough (2003), o significado acional vai focalizar o discurso como um modo de ação e interação nos variados eventos sociais. No nosso caso, observamos o comportamento estrutural das notícias aliado às possíveis mudanças       

24 Fowler, parafraseado por Ikeda (2005, p. 50), toma estereótipo como “um escaninho mental socialmente construído no qual os eventos e as pessoas são classificados para fazer sentido”.

nas práticas sociodiscursivas em relação à representação e à identificação dos nordestinos, uma vez que acreditamos que há um discurso ideológico hegemônico em torno deste grupo social.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 38-43)