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As notícias no processo de identificação

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 48-64)

Essa recorrência ao discurso legal dá-se devido ao seu poder legítimo de condenar práticas consideradas preconceituosas dentro de nossa construção cultural. Bourdieu (1996, p. 91) explica o que determina essa linguagem autorizada e o que promove a felicidade dos rituais veiculados por meio dela: “A linguagem de autoridade governa sob a condição de contar com a colaboração daqueles a quem governa, ou seja, graças à assistência dos mecanismos sociais capazes de produzir tal cumplicidade...” Já para a felicidade dos rituais, o professor e pesquisador francês constata que

para que o ritual funcione e opere, primeiro é preciso que ele se apresente e seja percebido como legítimo, pois o simbolismo estereotipado contribui exatamente para evidenciar que o agente age na qualidade de depositário provido de um mandato e não em seu próprio nome ou de sua própria autoridade. (BOURDIEU, 1996, p. 93)

Isso visto, analisar o significado representacional que percorre as notícias é ter em mãos a perspectiva de mundo, de pessoas e/ou de coisas que diferentes sujeitos sociais projetam ao se relacionar com o mundo, com as pessoas e/ou com as coisas. Por se tratar de textos de ampla circulação, as notícias tornam-se alvo de análise dado o seu potencial de disseminar diferentes discursos que promovem representações. Por acreditarmos, juntamente com Fairclough (2003), que transformações sociais são parcialmente discursivas, desvelar representações assimétricas em artigos noticiosos auxilia na construção de uma subjetividade mais coerente e menos reducionista das minorias sociais.

“Nordestino não é gente” (Mayara Petruso)

“O povo nordestino já provou que é igual a qualquer povo de outra região do país”

(Júnior do Flamengo)

Embora as asserções acima tenham o mesmo referente, elas divergem na forma de identificá-lo no mundo. Esse processo de identificação, como outros programas de percepção32, são construídos por meio do discurso. Isso é explicado por Resende e Ramalho (2011, p. 67) quando asseveram que “linguagem como discurso também é um modo de identificar a si mesmo/a e a outrem. Contribui para a constituição de ‘modos particulares de ser’, ou seja, para a formação de identidades sociais ou pessoais particulares”.

Porém, essa formação de identidades não provém do nada. Essas formas de expressão ou estilos (com base em Fairclough, 2003) são acionados pelos sujeitos sociais, nos processos de identificação, sempre ancorados em alguns determinantes. Estes, segundo Ikeda (2005), provêm, além de circunstâncias socioeconômicas, características de situação de fala, dentre outros, de significados construídos culturalmente. Em virtude disso, quando tomamos ciência da proposta de mudança social e cultural proposta por Fairclough, entendemos que alguns significados que determinadas culturas atribuem a algumas minorias sociais, como os nordestinos, requerem ser ressemiotizados, sob o preço de ainda ouvirmos/lermos atos violentos como o ocasionado por Petruso.

Os estilos, como resultados de processos vários de identificação, atravessam várias ordens discursivas, dentre elas, a jornalística. Ikeda, a seguir, elucida a relação de estilo e jornalismo.

O estilo codifica uma ideologia já incorporada na língua, implantada aí por práticas sociais e discursivas existentes. A familiaridade de um estilo habitual tem consequências ideológicas: ela permite a expressão imperceptível de pensamentos familiares. O estabelecimento do estilo

“normal” é fundamental na construção do consenso e tem sido identificado pelos analistas da mídia como central na prática ideológica de jornais.

(IKEDA, 2005, p. 53)

      

32 “... a palavra, ou a fortiori, o ditado, o provérbio e todas as formas estereotipadas ou rituais de expressão, são programas de percepção”. (BOURDIEU, 1996, p. 82) (destaque do autor)

O que podemos observar dessa afirmação de Ikeda em relação ao artigo noticioso “Twitter do Nordeste” é um movimento de rejeição dessa prática ideológica que pode ser detectada tanto em textos jornalísticos como em outras esferas institucionais. Nesse caso, a violência cometida por Petruso, originalmente propagada no Twitter, é contestada no texto jornalístico. O consenso representacional em relação aos nordestinos é identificado enquanto prática discriminatória, na enunciação de Petruso, e desarticulado enquanto “normalidade”

por diferentes vozes, dentre elas a da justiça, no espaço aberto pelo “Extra”.

Observar, pois, os processos de identificação dos nordestinos, por meio das notícias, possibilita-nos acessar as representações mentais que constituem o acervo simbólico da maioria das pessoas que integra determinada esfera cultural. Em decorrência disso, fica evidente que a separação entre significado representacional e identificacional é meramente analítica. Conforme Fairclough (2003), os significados identificacionais levam em consideração significados representacionais já construídos pelos sujeitos sociais. Jodelet (2001, p. 22) conceitua representação social como “forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, com um objetivo prático, e que contribui para a construção de uma realidade comum a um conjunto social”. Em virtude disso, no processo de identificação, esse discurso interiorizado e partilhado será acionado pelos sujeitos com vistas a posicioná-los social e discursivamente sobre aquilo a que se referem.

Pelas enunciações recortadas acima sobre os nordestinos, percebemos que o processo de identificação é construído, ou seja, não é dado a priori, tanto é que elas divergem entre si conceitualmente. Estilos habituais na maneira de cartografar determinadas identidades não devem ser tomados como imutáveis33, mas, sim, como passíveis de alteração, conforme vemos na ação engendrada pelo jornal

“Extra”, a partir do momento em que foram detectados vestígios ideológicos na violência simbólica cometida por Petruso. Com base em Castells, Resende sumariza isso ao afirmar que

as identificações alheias [...] são construções discursivas de identificação para outras pessoas em textos e interações – usamos o potencial discursivo não só para nos identificarmos, mas também para construir identificações       

33 Wodak et al, citados por Meurer (2004, p. 141) (nota de rodapé) acreditam que “identidades não deveriam sem percebidas como estáticas, mas sim como entidades dinâmicas, vulneráveis e ambivalentes”.

das pessoas com quem/de quem falamos. [...] toda e qualquer identidade é construída. (RESENDE, 2009, p. 42)

A identificação34é, pois, uma categoria discursiva e não biológica ou geográfica.

Dessa forma, as estratégias mobilizadas para construí-la variam em virtude do efeito que se pretende criar na cadeia das práticas discursivas. Tomando as enunciações retiradas de “Twitter do nordeste”, fica evidente o projeto de identificação criado pelo primeiro enunciador em comparação com o segundo.

Baseando-se em Castells, Resende (2009) esclarece que essas duas construções de identidade podem ser diferenciadas por meio da oposição entre “Identidade legitimadora” e “Identidade de resistência”. Embora a primeira enunciação não seja proveniente de uma instituição dominante da sociedade, podemos, com base na pesquisa de Silva (2012), julgá-la como uma forma explícita da representação dos nordestinos parcialmente semelhante às representações mitigadas expressas por grandes veículos de comunicação do país. Assim, segundo Castells, parafraseado por Resende (2009, p. 42), a identidade legitimadora é aquela “introduzida pelas instituições dominantes da sociedade no intuito de expandir e racionalizar sua dominação em relação aos atores sociais...”. Já aquela série de excertos colhidos de famosos sobre a violência cometida por Petruso contra os nordestinos visa a desmantelar a identificação atribuída a eles, qual seja, de não ser gente. A essa construção de identidade, Castells, mencionado por Resende (2009, p. 42), atribui o rótulo de identidade de resistência, em decorrência de ser “criada por atores que se encontram em posições/condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica da dominação, construindo, assim, trincheiras de violência”.

Ao nascer nordestinos, essas pessoas já recebem uma identificação construída. É o que Fairclough chama de agentes primários, por não haver como operar escolhas no lugar social em que estão, involuntariamente, posicionados35. No       

34 Hall (2011, p.39) (destaques do autor) propõe que “... em vez de falar da identidade com uma coisa acabada, deveríamos falar de identificação, e vê-la como um processo em andamento. A identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é ‘preenchida’ a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros”.

35 Bauman discorda desse posicionamento. De acordo com o sociólogo, as pessoas não herdam identidades. Estas devem ser criadas e redefinidas durante todo o percurso da vida. Zygmunt Bauman – fronteiras do pensamento. Disponível em:

<http://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A>. Acesso em: 03 abr. 2013.

entanto, esse posicionamento primário pode ser revertido, mormente se for detectado um fracionamento negativo nessa identificação. Essa nova construção de identidade é nomeada por Fairclough (2003) como agentes incorporados. Pensando nessa linha, os famosos nordestinos trazidos pelo jornal “Extra” assumem uma posição de agentes incorporados, na medida em que não aceitam o status de

“menos gente”, como Petruso disparou, reconfigurando o ser-nordestino. Sobre esse movimento em torno da identificação, Fairclough elucida sobre.

As pessoas são involuntariamente posicionadas como Agentes Primários em razão do que são ao nascerem e que, inicialmente, não têm como escolher – nobres ou camponeses, classe trabalhadora ou classe média, sexo masculino ou feminino, suas posições dentro dos limites desses posicionamentos, mas a sua capacidade de transformá-los depende da sua reflexividade e da sua capacidade de se tornarem agentes corporativos capazes de ação coletiva e mudança social. Alcançar uma identidade social em um sentido pleno é uma questão de ser capaz de assumir papéis sociais, mas personificando-os, investindo-os com a própria personalidade (ou identidade pessoal), promulgando-os de uma forma distinta36. (FAIRCLOUGH, 2003, p. 161)

Essa organização coletiva e formação de movimentos em busca de mudanças no processo de identificação a que se refere Fairclough é resultado, de acordo com Hall, da reflexividade da vida, processo presente na modernidade37. Baseando-se em Ernest Laclau, Hall (2011, p. 18) acredita que

as sociedades da modernidade tardia [...] são caracterizadas pela

“diferença”; elas são atravessadas por diferentes divisões e antagonismos sociais que produzem uma variedade de diferentes “posições de sujeito” - isto é, identidades- para os indivíduos. (HALL, 2011, p. 18)

Essas rupturas e fragmentações advindas da modernidade respingaram no processo de identificação, tornando a estrutura da identidade sempre aberta,       

36 Nossa tradução de: “People are involuntary positioned as Primary Agents because of what they are born into and initially have no choice about – peasantry or gentry, working-class or middle-class, male or female, their positions within the limits of these positionings, but their capacity to transform them depends upon their reflexivity and their capacity to become Corporate Agents capable of collective action and shaping social change. Achieving social identity in a full sense is a matter of being capable of assuming social roles but personifying them, investing them with one´s own personality (or personal identity), enacting them in a distinctive way.”

37 Modernidade “é o permanente revolucionar da produção, o abalar ininterrupto de todas as condições sociais, a incerteza e o movimento eternos... Todas as relações fixas e congeladas, com seu cortejo de vetustas representações e concepções, são dissolvidas, todas as relações recém- formadas envelhecem antes de poderem ossificar-se. Tudo que é sólido se desmancha no ar...”

(MARX; ENGELS apud HALL, 2011, p.14)

flexível, em contraposição a períodos anteriores, em que o sujeito possuía uma identidade fixa ou permanente, segundo Hall (2011). Como analistas críticos do discurso, essa liquidez na identificação é vista como positiva, a partir do momento em que vemos os sujeitos sempre em processo de identificação, prontos a identificarem-se em diferentes momentos históricos e nunca como eternamente determinados por distorções ou fragmentações identitárias. Esse caráter provisório da identificação é visto como positivo também por Hall, já que

ele desarticula as identidades estáveis do passado, mas também abre a possibilidade de novas articulações: a criação de novas identidades, a produção de novos sujeitos e o que ele [Laclau] chama de “recomposição da estrutura em torno de pontos nodais particulares de articulação”. (HALL, 2011, p.18)

Ao falar de “recomposição da estrutura em torno de pontos nodais particulares de articulação”, associamos isto aos processos de identificação dos nordestinos no interior das notícias posteriormente apresentadas. Por julgarmos eficiente o poder acional das notícias, é válido observar como este gênero lida com as construções identitárias preconceituosas dos nordestinos, uma vez que, enquanto pesquisadores e cidadãos, lutamos contra a estabilização identitária deste grupo, principalmente se elas apresentam fragmentações ou reducionismos que visam à exclusão social.

Já que o discurso jornalístico é provido de poder simbólico e ampla acessibilidade, utilizá-lo como veículo de reconstruções identitárias é poder vislumbrar mudanças sociais e culturais no que tange à representação dos nordestinos. Ancorada em Castells e Archer, Resende explicita a articulação dos significados em produções discursivas.

Tanto Castells quanto Archer identificam relações entre a construção de identidades e a ação social, e ambos localizam nos movimentos sociais possibilidades estratégicas de ação coletiva potencialmente transformadora.

Isso sugere a relação dialética entre representação, identificação e ação, já que discursos são inculcados em identidades, e identidades podem estar relacionadas à ação estratégica. (RESENDE, 2009, p. 44)

Nesta pesquisa, vamos nos deter nos discursos que subjazem as identificações construídas para os nordestinos, no interior das notícias recortadas, e se este gênero se mobiliza para transformá-las, uma vez que todas apresentam vestígios ideológicos.

3 ANÁLISE DA CONJUNTURA

Dentro da proposta metodológica de Chouliaraki e Fairclough, apresentada por Resende e Ramalho (2011, p. 106), faz-se necessário realizar a análise da conjuntura na qual o problema recortado para este trabalho reside. Seguindo a concepção de Souza (2011), uma análise de conjuntura sempre intenta para alguma necessidade. Assim, esse tipo de análise terá sempre uma envergadura política, dado o seu interesse no acontecimento em que se debruça. Seu conceito é de que

a análise de conjuntura de modo geral é uma análise interessada em produzir um tipo de intervenção na política; é um elemento fundamental na organização da política, na definição das estratégias e táticas das diversas forças sociais em luta. [...] A ação política é em si mesma um elemento da realidade política: é a base da possibilidade de transformações, de mudança, do surgimento do novo. (SOUZA, 2012, p. 16)

Betinho 38alerta-nos que os acontecimentos não se dão por meio de geração espontânea, mas, sim, por meio de uma teia de fatores que, articulados, criam o que apenas salta a nossos olhos, o visível. Nas palavras do sociólogo,

é fundamental perceber o conjunto de forças e problemas que estão por detrás dos acontecimentos. Tão importante quanto apreender o sentido de um acontecimento é perceber quais as forças, os movimentos, as contradições, as condições que o geraram. (SOUZA, 2012, p. 15)

Pensando assim, fica evidenciada, no momento, a proposta desta seção. Não poderíamos proceder à análise das notícias sem antes procurar apresentar, mesmo em linhas gerais, “as forças, os movimentos, as contradições, as condições” que gestaram o Nordeste e os nordestinos no imaginário sociodiscursivo do Brasil. Desta forma, ficará explícito que, por trás das violências contra os nordestinos relatadas nas notícias, há esse conjunto de forças e problemas a que se refere Betinho. Essa etapa de análise, dentro do escopo da ACD, é sumarizada por Resende e Ramalho da seguinte forma:

As análises da conjuntura e da prática particular garantem a contextualização da análise discursiva, ou seja, garantem que os textos analisados sejam relacionados a suas causas mais amplas e a seu contexto particular, o que está de acordo com o princípio da profundidade ontológica.

(RESENDE; RAMALHO, 2011, p. 107)       

38 Alcunha de Herbert de Souza.  

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Encontramos eco do fator ‘repetibilidade discursiva’ nos relatos da pesquisa do professor Daniel Silva (2012), que analisou o nordeste na mídia brasileira. Sobre a construção identitária a partir da repetição, Silva (2012, p.89) citando Butler (1999) problematiza que a “aparência de uma identidade estável e circunscrita deriva da

‘repetição estilizada de atos ao longo do tempo’”, o que nos faz concluir que a identidade não é fruto da casualidade, como acriticamente podemos acreditar.

Silva também remete a esses diferentes espaços materiais e imateriais em que a definição da região é referenciada. Mencionando Blackledge, e olhando sobre a ótica da discriminação e produção discursiva, afirma que

essa circulação é uma cara instanciação da dissimuladora e acumuladora historicidade da força do ato de fala. [...] o discurso discriminatório, ao ser

‘recontextualizado e transformado em contextos de legitimidade crescente’, ganha autoridade à medida que viaja. (SILVA, 2012, p. 116)

Cruzando os resultados dos trabalhos de Albuquerque Jr. (2007, 2011) e Silva (2012), concluímos que as narrativas de construção da nordestinidade lançam mão dos seguintes temas recorrentes: seca, retirante, cangaço, messianismo, sobreviventes, sofrimento, sertão. Esta recorrência, chama a atenção Albuquerque Jr. (2011, p. 61-62), não é aleatória. “Ela é dirigida pelos interesses em jogo, tanto no interior da região que se forma, como na sua relação com outras regiões.”

Albuquerque Jr. (2011), em seu premiado trabalho, discorre como cada área do conhecimento, como a literatura, a história, as artes plásticas e a música, representa a nordestinidade, tanto em um momento de gênese, quanto, posteriormente, em atitudes de desconstrução.

De acordo com este pesquisador, foi na década de 10 do século XX que a designação Nordeste surgiu, trazendo consigo, posteriormente, toda a bagagem representativa e peculiar que fará (faz) parte da memória discursiva de grande parte da sociedade brasileira. Interessante ressaltar que essa concepção de Nordeste foi cunhada na própria região, de acordo com o historiador, por membros das elites políticas e por letrados da época, muitos deles ligados à produção de açúcar, algodão e/ou pecuária.

No campo político, lá pelos meados do final do século XIX, um discurso político de caráter regionalista será recorrentemente produzido, tendo em vista que a elite da área açucareira, e todos os demais que dela dependiam, não se

conformavam com a pouca assistência financeira recebida por parte da União. Nesta época, os principais produtos de exportação dessa região, a saber, açúcar e algodão, perderam espaço no mercado internacional e tiveram, consequentemente, seus preços radicalmente reduzidos. Neste período, a produção cafeeira despontava no país, acarretando, com isso, uma atenção mais especial por parte da União para este produto que alavancava a economia da época.

Em face disso, os produtores localizados no Nordeste ligados a outras atividades econômicas viam-se desamparados e começaram buscar meios para que decisões políticas fossem canalizadas para essa região, já que o café vinha recebendo uma atenção mais que especial.

De acordo com Albuquerque Júnior (2007), será a chamada “Grande Seca”, ocorrida entre 1877 e 1879, a marcar o início da formação dessa identidade regional.

Esta seca, que em momentos passados nunca havia sido vista como problema, por ocorrer em um período de declínio político e econômico dos grupos dominantes, será utilizada como recurso para chamar a atenção da União. Nesta época, podia-se contar com o avanço da imprensa, que, assim, tornava mais acessível para toda a nação os estragos causados por este fenômeno natural. Dava início, neste momento, o discurso da seca. Esse discurso será recorrentemente utilizado por parte das elites para a obtenção de recursos para os “vitimados” por este fenômeno natural. Segundo o pesquisador, a partir do discurso da seca vai se formar a indústria da seca, fomentada e sustentada sempre por esse discurso. Com isso, a imagem da região nordestina começará a receber os primeiros traços aos olhos das outras regiões, conforme nos conta o próprio pesquisador:

O discurso da seca e a indústria da seca já nascem associados a uma prática que acompanhará por todo o século seguinte, a prática da corrupção generalizada, que é responsável pela criação de uma outra marca negativa com a qual são marcados os nordestinos, a de viverem às custas dos recursos vindos dos cofres públicos e da corrupção, como se este fosse um privilégio de uma determinada região ou elite no país. A elite paulista, para a qual era canalizada também uma boa parte dos recursos públicos, legalmente ou não, vai usar permanentemente este argumento para se opor ao envio de recursos e à realização de obras nesta parte do país.

(ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2007, p. 95)

Neste entremeio, em 1876, o Império convoca um Congresso Agrícola, na capital Rio de Janeiro, deixando de fora da pauta as atividades agrícolas produzidas no Norte do país, tendo em vista que as questões ligadas à economia cafeeira

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 48-64)