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modalidade subjetivamente marcada, evidenciado por meio do processo mental

“gostar” e de sua flexão na 1ª pessoa do singular, deixando oculto o pronome a que se refere, a saber, “Eu”. A escolha da modalidade subjetiva revela o posicionamento de uma determinada prática discursiva particular. Sua importância analítica reside no fato de que práticas particulares, na maioria das vezes, reiteram práticas discursivas sociais ideológicas que, devido à recorrência nos processos interativos, possuem status de verdade.

Logo após à publicação do comentário preconceituoso, na noite de domingo, o assunto "Xenofobia Não" apareceu entre os trending topics do Twitter - que são os temas mais discutidos no microblog.

Restringindo nosso olhar para o significado acional que se constrói nesse artigo noticioso, podemos depreender, pela estruturação do texto e das categorias de que o jornalista lança mão para construí-lo, uma forte ênfase nas consequências do ato de violência cometido pela então estudante de Direito, Mayara Petruso.

Vejamos a esquematização da notícia, conforme modelo de van Dijk (2011):

Figura 12 – As categorias semânticas presentes na notícia 4

Fonte: SILVA, 2013.

Iniciando nossa observação pela manchete, depreendemos que a ênfase, no corpo do texto, recairá na consequência do ato de violência. Isso se comprova pela primeira sentença da notícia, enquadrada, de acordo com van Dijk (2011), na categoria Consequência. À exceção da reação verbal da própria criminosa, as demais reações, provenientes de seu ex-ambiente de trabalho, constituem-se como avessas à ação da estudante. Além disso, as consequências apresentadas por meio da revolta dos outros internautas e da possibilidade de abertura de ação penal endossam a repreensão ao ato cometido por Mayara.

Exposto isso, e articulando essa estruturação da notícia à luta contra o preconceito sofrido pelos nordestinos, podemos afirmar que esta notícia é a que

realça com maior intensidade os efeitos deste tipo de ato discriminatório. Desde a voz da justiça até a da assessoria de comunicação onde Mayara trabalhava, informando que ela não mais tem vínculo com a corporação citada, contribuem, implicitamente, para evidenciar os efeitos desse tipo de atitude em relação às minorias sociais.

Além da violência simbólica disparada, Mayara Petruso ainda sugere um ato de violência física contra os nordestinos. Ao colocar a cidade de São Paulo como beneficiária de tal violência, Mayara retoma uma invenção discursiva cristalizada de que os nordestinos são o obstáculo para o desenvolvimento da região Sudeste e/ou nacional, conforme já explanado em capítulo anterior. Na concepção de Mayara, a vitória indesejada de Dilma Rousseff também deve ser atribuída aos nordestinos.

Conforme notícias posteriores à eleição, Dilma teria vencido nas urnas mesmo não tendo levado a maioria dos votos do Nordeste46.

A sugestão de violência física contra os nordestinos proposta pela então acadêmica de Direito chama a atenção também pela comprovação da natureza destrutiva do ato violento. Relacionando a vulnerabilidade e a interrupção cometidos pela violência, com base em Butler, Silva explana essa interação entre o agressor e seu objeto alvo.

...a violência é “um modo em que uma vulnerabilidade humana primária a outros humanos é exposta do modo mais terrível, um modo em que somos submetidos, sem controle, à vontade do outro, um modo em que a vida mesma pode ser eliminada pela ação intencional do outro”. (BUTLER apud SILVA, 2012, p. 149)

Observando o significado representacional que é construído para essa interação, detecta-se, da mesma forma como foi depreendido anteriormente, um duelo entre o discurso da violência e o contra discurso, acionado pelo discurso jornalístico. Esse contra discurso pode ser percebido a partir do momento em que vozes contrárias à ação violenta de Mayara são trazidas ao texto. A notícia, ao abrir espaço para a voz do antigo local de trabalho de Mayara e para a voz da lei, permite deduzir que práticas violentas, sejam simbólicas ou físicas, não são respaldadas em nenhuma esfera social. Além disso, a menção ao fato de que a postagem de Mayara Petruso ocasionou com que o assunto “Xenofobia não” ocupasse o Trending Topics,       

46 De acordo com: <http://portal-do-maranhao.jusbrasil.com.br/politica/6183600/dilma-teria-vencido- mesmo-sem-os-votos-do-norte-e-nordeste.> Acesso em: 23 maio 2013.

endossa o caráter do politicamente correto que, pelo menos, deveria reger as regras sociais no que tange ao convívio com o outro e, principalmente, com as minorias sociais.

Dentro da perspectiva teórica de van Leeuwen, apresentada aqui para discorrer sobre a representação dos nordestinos, depreendemos que, a partir da enunciação “Nordestino não é gente”, além da agressora promover uma generalização dos atores sociais nordestinos, ela os categoriza por meio da avaliação.

Para van Leeuwen (1997, p. 207), a referenciação por avaliação se dá nos casos em que “os actores sociais são avaliados quando são referidos em termos que os qualificam, como bons ou maus, amados ou odiados, admirados ou lamentados.”

Essa avaliação negativa dos nordestinos produzida por Petruso é uma tentativa de culpá-los pela vitória de Dilma Rousseff, já que, no imaginário da agressora, os nordestinos ainda devem ser referidos como pessoas menos letradas e analfabetas. Em virtude dessa imagem, todas as ações agenciadas por este grupo social são prejudiciais à sociedade. Albuquerque Jr., em sua pesquisa, constata essa forma de preconceito e conclui que

o nordestino também será vítima de preconceito dirigido aos menos letrados e analfabetos, já que uma boa parcela dos migrantes nordestinos dos anos 30, 40 e 50, possuía baixa taxa de escolaridade. Temos que entender que o preconceito nasce das tensões sociais, geradas pelos mais diversos fatores, e deve ser visto também como uma arma nas lutas que opõem grupos sociais e de origem geográfica diversos. (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2007, p. 126)

O entexto trazido para a notícia possibilita compreender o que Fairclough rotula como a relação do enunciador com a representação do que enuncia, a saber, a modalidade.

A modalidade epistêmica “Nordestino não é gente” é proferida por meio de uma negação, configurando uma troca de conhecimento. O enunciado seguinte

“Faça um favor a SP: mate um nordestino afogado”, enquadra-se dentro da modalidade deôntica, denotando uma possível troca de atividade entre a locutora e o possível interlocutor do entexto. Isso é deduzido por meio dos processos imperativos

“faça” e “mate”, podendo ser compreendidos como uma prescrição proposta pela locutora.

A circulação de “Nordestinos não é gente” comprova o que Silva (2012) detectou em sua pesquisa sobre o Nordeste na mídia brasileira, a saber, o espaço da abjeção reservado ao Nordeste e aos nordestinos no momento de sua criação discursiva-imagética. Essa necessidade de exclusão, conforme Silva (2012), tem como uma das funções a demarcação da modernidade da região Sudeste. Assim, para que o Sudeste seja visto como região de alto potencial, discípula dos princípios da modernidade, o Nordeste, e automaticamente seus moradores, precisa receber roupagem inversa a esta.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 94-98)