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As regiões no contexto de redes

No documento Rosana Brunetti.pdf - Univali (páginas 45-54)

o ambiente propício à geração da confiança e da cooperação que induza a uma forma de gestão que reduza custos de transações e permita a fluidez de informações entre todos os participantes.

relação homem-natureza é direcionada pela ação transformadora humana sobre a região, podendo utilizar a citação de L. Fébvre (apud Gomes, 1995, p. 56) como expressão máxima: “o meio ambiente propõe, o homem dispõe.” . Os diferentes pesos atribuídos à relação homem-natureza levaram à adoção de critérios diversos para a delimitação das regiões, ocasionando uma multiplicidade conceitual, de acordo com conveniências ideológicas. Esse fato é explicado em parte pelo período relativo ao desenvolvimento da Geografia Tradicional, quando os estudos ideográficos eram predominantes, prevalecendo as observações de fatos únicos às generalizações, que poderiam conduzir à formulação de leis e teorias. Ainda assim, a Geografia Tradicional traduziu-se em importante contribuição à ciência geográfica, ao preservar a abordagem da relação homem-natureza, pois um recorte espacial sempre deverá expressar as características do trabalho humano. Sobre os créditos atribuídos à Geografia Tradicional, Bezzi (2004, p.246) afirma:

No conceito de região ou em sua manifestação, há o pleno encontro do homem, da cultura com o meio ambiente, a natureza; a região é a materialidade dessa inter-relação, é também a forma localizada das diferentes maneiras pelas quais essa inter-relação se realiza.

Seguiu-se à Geografia Tradicional, a Geografia Teorético-Quantitativa ou Nova Geografia (décadas de 1950 a início da década de 1970), que, calcada no positivismo lógico, utilizou principalmente a Física para suas teorizações e a Matemática para o desenvolvimento de modelos, aproximando-se consideravelmente do método das ciências naturais. O conceito de região passou a ser o “resultado de um processo de classificação de unidades espaciais segundo procedimentos de agrupamento e divisão lógica com base em técnicas estatísticas.”

(CORREA, 1995, p. 20). O que se buscava, na verdade, eram generalizações capazes de atribuir um caráter científico ao estudo de regiões, a fim de que estas se constituíssem em categorias de análise. Surgiu assim dois tipos fundamentais de região: a homogênea e a funcional ou polarizada.

As regiões homogêneas são relacionadas à uniformidade de características físicas, econômicas, políticas, sociais, culturais, ou outras, de determinada área contígua no espaço. Nas palavras de Gomes (1995, P.63), regiões homogêneas:

... partem da idéia de que ao selecionarmos variáveis verdadeiramente estruturantes do espaço, os intervalos nas freqüências e na magnitude destas variáveis, estatisticamente mensurados, definem espaços mais ou menos homogêneos – regiões isonômicas, isto é, divisões do espaço que correspondem a verdadeiros níveis hierárquicos e significativos da diferenciação espacial.

As regiões funcionais ou polarizadas são fruto das relações do capital sobre o espaço, assim a uniformidade espacial não é mais determinante da estruturação do espaço, mas sim as múltiplas relações que nele acontecem. O advento desta concepção é atribuído principalmente à valorização das cidades como centros de organização espacial, que agregam ainda outros centros urbanos menores sob suas áreas de influência, surgindo então o esquema centro-periferia, válido tanto para o âmbito municipal, regional, nacional ou mundial. Nessa concepção não é possível deixar de salientar a valorização da vida econômica na determinação dos espaços, através do sistema de trocas e fluxos que acontecem na área de influência de cada centro polarizador, tendo os preceitos da Economia Neoclássica como base: a eficiência econômica baseada na livre iniciativa, sem interferências prejudiciais do Estado e o conceito de utilidade marginal decrescente, proposto por Alfred Marshall.

(ROSSETTTI, 1987, p.101; LAGE; MILONE, 2001, p. 27)

Para Correa (1995), se a Geografia Teorético-Quantitativa pode ser criticada pela sua ênfase na questão da distância em detrimento da questão social, ela apresenta méritos que permitem extrair um conhecimento sobre localizações e fluxos, hierarquias e especializações funcionais, desde que não se considere os pressupostos originalmente adotados por essa escola, como a racionalidade econômica, a competição perfeita, a a-historicidade dos fenômenos sociais e a planície isotrópica (superfície uniforme tanto em seus aspectos geomorfológicos, climáticos, vegetais como sócio-econômicos).

A “crise” na Nova Geografia fez surgir a chamada Geografia Crítica, na década de 1970. Essa escola geográfica procurou romper laços tanto com a Geografia Tradicional como com a Geografia Teorético-Quantitativa, e buscou na divisão sócio- espacial do trabalho e no processo de acumulação capitalista a determinante da identificação das diferentes regiões, utilizando-se sobremaneira de análises marxistas. Para Bezzi (2004, p.180), “a Geografia crítica interessa-se pela análise

dos modos de produção e das formações sócio-econômicas como base para explicação ou estruturação das distintas formações socioeconômicas espaciais que devem ser analisadas e compreendidas para o melhor entendimento das regiões.”

Essa escola buscava uma solução para os problemas então vivenciados, como o êxodo rural e a urbanização acelerada, por exemplo.

Gomes argumenta que, embora o discurso marxista tenha sido bastante utilizado pelos seguidores desta Escola, ele, na verdade, apenas serviu como revestimento à idéia evolucionista e mecanicista que continuou a prevalecer, visto os instrumentos teóricos do materialismo histórico-dialético não terem resultado em um conceito de região operacional.

Outras tendências surgidas na Geografia em meados dos anos setenta foram as Geografias Humanista e Cultural, ambas apoiadas na percepção e na fenomenologia. A vertente humanista resgatou a noção de região como referência fundamental na sociedade, contendo um código social comum em determinada base territorial, ou seja, a região é concebida como um espaço que deve ser vivenciado.

A vertente cultural é baseada em estudos da paisagem. Bezzi (2004, p. 206) sintetiza assim essas novas tendências: “ ... a Geografia Humanístico-cultural procura analisar de que modo os fatores culturais e a percepção interferem nas ações de organização e de elaboração do espaço geográfico e também nos recortes regionais.”

Dentro desta escola, Gilbert (apud BEZZI, 2004, p. 249) propõe um direcionamento para o conceito de região, que dever ser vista como: a) uma resposta local aos processos capitalistas; b) um foco de identificação cultural; c) um meio de interação social. Essas três abordagens reforçam a idéia da diferenciação de áreas, embora em tempos de globalização essas diferenciações sejam bastante sutis.

Ainda que o termo globalização remeta à idéia de uma economia unificada, uma dinâmica cultural hegemônica e uma sociedade alicerçada em padrões globais; sob um olhar mais profundo ele pode, na verdade, reforçar a diferenciação das partes.

Os estudos sobre região vêm sofrendo diversas adaptações nesse processo de globalização, tanto pelo lado da escala em que passa a operar, como no sentido do

grau de autonomia regional face aos processos políticos mais abrangentes. Assim, a “economia mundial” proporcionada pelo processo de globalização, não resultou na homogeneidade pretendida, mas talvez em uma acentuação ainda maior das diversidades regionais, quando analisados os locais excluídos desse processo, como afirma Bezzi (2004, p.252):

O desenvolvimento do capitalismo é, sem dúvida, o principal agente modelador do espaço. É ele que corta e recorta a superfície terrestre, ou seja, absorve ou reabsorve os mais diversos espaços, modos de vida e de trabalho, culturas... Simultaneamente, a globalização leva à fragmentação, pois articula e desarticula espaços e regiões.

A autora ainda afirma que:

Não há dúvida de que o mundo é uma “colcha de retalhos”, cujos tecidos (regiões) a serem “costurados” apresentam rugosidades diferentes.

Assim, os “laços e laçadas” que são dados podem ser visíveis ou invisíveis, reais ou imaginários, mas possuem características próprias, que, embora enlaçadas a outras, guardam sua identidade, sua particularidade, sua personalidade.” (BEZZI, 2004, p. 253)

Gomes (1995) e Bezzi (2004) concordam nas dificuldades encontradas para se elaborar um conceito de região condizente com a contemporaneidade, porém indicam alguns conceitos a serem considerados nesta tarefa:

• Os recortes regionais atuais são múltiplos, dinâmicos, complexos e instáveis espacialmente, e sujeitos ainda a um recobrimento entre eles;

• Os recortes regionais possuem diversos aspectos distintos (ambientais, humanos históricos, econômicos, sociais, políticos e culturais), que devem ser analisados sob uma perspectiva sistêmica;

• A dimensão política constitui-se em um dos fatores determinantes do conceito de região, ainda que o papel do Estado tenha se modificado mediante a globalização do capitalismo, que teve como conseqüência tanto a diminuição do papel do Estado como agente planejador, como também a descentralização, que atribui maior autonomia e poder de decisão às regiões junto ao poder central;

• O processo de globalização, além de não destruir a diversidade regional, a reforça, à medida que manifestações de identidade cultural são constatadas cada vez com mais freqüência;

• a delimitação de uma região jamais poderá ser rígida, visto a dinamicidade do espaço não permitir cortes bruscos em sua delimitação;

• regiões são lugares funcionais do todo, ou seja, influencia e é influenciada por ele (poder central).

Ao analisar estas considerações atuais sobre a conceituação de regiões, percebe-se a importância das redes neste contexto. Em meio às diversas alterações advindas com o processo de globalização econômica, destaca-se o “encolhimento” do planeta e a supervalorização do capital sobre as delimitações antes determinadas pelos Estados-Nações. Como afirma Dias (1995) , a característica de conexidade de uma rede, tanto tem o poder de conectar como de excluir e conclui este pensamento com a hipótese de que,

“à escala planetária ou nacional, as redes são portadoras de ordem, ... na escala local, estas mesmas redes são muitas vezes portadoras de desordem – numa velocidade sem precedentes engendram processos de exclusão social, marginalizam centros urbanos que tiravam suas forças dos laços de proximidade geográfica e alteram mercados de trabalho.”

(1995, p. 154).

No mesmo texto, citando Harvey, a autora defende a tese de que a contração das distâncias não fez a localização geográfica perder seu valor estratégico, ao contrário: “quanto menos importante as barreiras espaciais, tanto maior a sensibilidade do capital às variações do lugar dentro do espaço e tanto maior o incentivo para que os lugares se diferenciem de maneiras atrativas para o capital”

(HARVEY, apud DIAS, 1995, p. 157).

Pode-se assim concluir sobre o tema, que a organização em rede permite, tanto a grandes corporações, mas principalmente a pequenos agentes econômicos, como no caso dos empreendedores turísticos no espaço rural participantes do GETER, delimitar uma área de interesse comum, que os capacita agir, decidir, competir e influir dentro de um contexto que privilegia os grandes capitais, e que ao mesmo

tempo transforma o conceito de região, ao unificar interesses e objetivos e não privilegiar apenas a dimensão físico-geográfica.

3 TURISMO NO ESPAÇO RURAL

A diversidade de denominações aplicadas às atividades turísticas desenvolvidas no espaço rural conduz à utilização do termo genérico “turismo no espaço rural”. Roque e Mendonça defendem a utilização deste termo para se referir a “toda maneira turística de visitar e conhecer o ambiente rural, enquanto se resgata e valoriza a cultura regional” (1999, p.145). Oxinalde trata como sinônimos os termos turismo rural e turismo no espaço rural, ao afirmar: “turismo rural engloba modalidades de turismo, que não se excluem e que se complementam, de forma tal que o turismo no espaço rural é a soma do ecoturismo e turismo verde, turismo cultural, turismo espontâneo, agroturismo e turismo de aventura.” (apud SILVA; VILARINHO; DALE, 2000, p.16). Crosby e Moreda (1996), utilizam as terminologias “turismo em áreas rurais” e “turismo rural” como equivalentes, e as definem como qualquer atividade turística implantada no meio rural, considerando como parte integrante deste último, as áreas naturais e litorâneas. Para Zimmerman (2000, p.130),

as atividades turísticas no espaço rural têm recebido uma proliferação de termos, que fazem referências ao turismo rural: turismo de interior, turismo verde, turismo diferente, turismo alternativo, turismo rural e ecológico e por aí afora. Evidentemente, cada atividade possui características próprias, que, dependendo das características geomorfológicas do espaço podem estar juntas, sob a denominação genérica de turismo rural.

No caderno Diretrizes para o Desenvolvimento do Turismo Rural,

entende-se Turismo no Espaço Rural como um recorte geográfico, ..., as muitas práticas turísticas que ocorrem no espaço rural não são, necessariamente, Turismo Rural, e sim atividades de lazer, esportivas, ou ócio de citadinos que ocorrem alheias ao meio em que estão inseridas.”

(BRASIL, 2003, p. 7)

Além da proliferação de termos utilizados, o próprio termo “espaço rural” é analisado sob a ótica da nova conformação mundial. Froehlich e Rodrigues (2000) defendem a falência das interpretações dualistas rural/urbano, cidade/campo, tradicional/moderno, visto ter ocorrido um aparente “transbordamento” do urbano para o rural, fazendo parecer que as singularidades do rural desapareceram ou tendem a desaparecer. Del Grossi & Silva (2002 a, p.5) analisam a crescente

urbanização do meio rural onde, em um processo denominado “Novo Rural”, “um conjunto de atividades não-agrícolas, ligadas à moradia, ao lazer e a várias atividades industriais e de prestação de serviços” são inseridas no espaço antes destinado exclusivamente à produção agrícola. Rodrigues (2000), também questiona a dualidade entre espaço urbano e espaço rural: para exemplificar, cita o caso de loteamentos em áreas rurais, que são decretados urbanos quando o tamanho do lote é menor que o de um módulo rural; outro exemplo refere-se a bairros rurais, que ao serem decretados distritos, devido a um desmembramento municipal, são considerados urbanos, ainda que apresentem características típicas rurais.

Para a autora, mesmo o termo “turismo” pode ser equivocado, visto algumas propriedades oferecerem apenas atividades de lazer, sem a premissa da pernoite que caracteriza a atividade turística; como por exemplo, chácaras que são alugadas para festas, atividades de pesque-pague, restaurantes rurais, entre outros.

Embora não haja dados oficiais, um levantamento realizado no ano de 2000 por membros da ABRATURR – Associação Brasileira de Turismo Rural, indica o número de propriedades rurais brasileiras com atividade turística. Nota-se a predominância da região sul e sudeste, precursoras da atividade no Brasil.

Tabela 1: Dados preliminares das propriedades rurais brasileiras com atividade turística – Ano 2000

REGIÃO NÚMERO DE

PROPRIEDADES

PARTICIPAÇÃO NACIONAL (%)

Norte 176 3,62

Nordeste 436 9,05

Centro-oeste 588 12,12

Sudeste 2.706 55,78

Sul 942 19,41

Total 4.851 100,00

Fonte: ABRATURR, 2000

Segundo o mesmo levantamento, as principais atrações oferecidas nestas propriedades são: gastronomia típica, água (rios, cachoeiras, lagos, piscinas, pesca e navegação), trilhas (caos, matas e montanhas), arquitetura histórica, folclore e música (talentos locais), lidas rurais (cavalgadas, manejo, ordenha, cultivo, colheita, etc.), recreação, jogos e outros esportes, preservação e valorização da fauna e da flora regionais, cantigas de rodas e folguedos típicos, e temas de caráter religioso ou esotérico. Como pode se observar, são atividades que apresentam considerável diferenciação entre si.

Apesar de se incorrer em um reducionismo, ao não explorar detalhadamente a tipologia apresentada por estudiosos do assunto, nesta dissertação, além da utilização do termo turismo no espaço rural para designar o conjunto de atividades turísticas neste espaço, aceita-se a diversidade de atividades nele realizadas, sejam elas rurais ou não, posto não ser o objetivo desta pesquisa investigar o estado da arte deste fenômeno.

É válido, porém, detalhar os conceitos e discorrer acerca de turismo rural, agroturismo e ecoturismo, atividades mais visíveis nas propriedades agrícolas localizadas no norte do Paraná, região de maior abrangência do estudo de caso analisado ( GETER – Grupo de Empreendedores do Turismo no Espaço Rural, um projeto da RETUR – Rede de Turismo Regional).

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