6 O DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO NO GETER
fim de que os discursos produzidos pelos entrevistados resultassem em um material adequado na análise dos objetivos propostos:
• Aspecto organizacional (formalização);
• As dimensões da confiança, cooperação e competição;
• O processo de comunicação entre os integrantes da rede;
• O estabelecimento de objetivos.
A elaboração das entrevistas ocorreu somente após a conclusão da fundamentação teórica sobre o assunto, para que as questões sintetizassem a essência das características de uma rede. Foram elaborados dois roteiros de entrevistas, conforme pode ser visualizado nos apêndices dessa pesquisa: o primeiro roteiro foi direcionado aos coordenadores do GETER, onde foram privilegiadas questões referentes ao conceito de rede inserido no projeto por eles idealizado, aspectos organizacionais adotados, a dinâmica resultante do trabalho conduzido e o pensamento acerca do direcionamento tomado pela rede. O segundo roteiro, direcionado à parcela representativa dos empreendedores rurais, não privilegiou questões conceituais, visto entender que, ao ser coordenado por uma outra esfera, representada pelos coordenadores da RETUR/GETER, cabe a estes a responsabilidade de prover a rede de seus aportes teóricos, ainda que passíveis de serem discutidos pelo grupo; assim, questionou-se primordialmente aspectos referentes à motivação em participar de uma rede, seus aspectos organizacionais e a dinâmica de trabalho resultante desta forma de organização, bem como suas impressões sobre a eficácia da configuração em rede no caso específico do GETER.
Além da preocupação na elaboração do roteiro das entrevistas, é importante ressaltar também a postura a ser adotada pelo entrevistador diante do entrevistado, que não deve interferir de maneira alguma sobre o direcionamento das respostas dadas, correndo o risco de conduzir a um pensamento do pesquisador e não da coletividade.
Faz-se importante informar que, embora os coordenadores tenham sido identificados nas transcrições das entrevistas, optou-se por não informar a identidade dos empreendedores ouvidos, informando apenas que, no seu conjunto há
representantes que participaram de uma, duas ou três edições dos mapas-guia editados pela rede.
O segundo ponto importante na condução da técnica do DSC é a realização de um trabalho exaustivo para somar os discursos individuais para que eles expressem o pensamento de dada coletividade. Segundo Lefèvre & Lefévre (2003), o objetivo da utilização do DSC na análise dos discursos dos depoimentos é:
reconstruir, com pedaços de discursos individuais, como em um quebra- cabeça, tantos discursos-síntese quantos se julgue necessários para expressar uma dada “figura”, ou seja, um dado pensar ou representação social sobre um fenômeno. (2003, p.19)
Os autores ainda afirmam:
Para a elaboração do DSC parte-se dos discursos em estado bruto, que são submetidos a um trabalho analítico inicial de decomposição que consiste, basicamente, na seleção das principais ancoragens e/ou idéias centrais presentes em cada um dos discursos individuais e em todos eles reunidos, e que termina sob uma forma sintética, onde se busca a reconstituição discursiva da representação social. (LEFÈVRE &
LEFÈVRE, 2003, P. 20)
Lefèvre & Lefèvre (2003) apresentam, esquematicamente, os passos necessários para a construção do DSC, porém complementam que a técnica proposta somente é efetivada a partir do uso dos instrumentos em pesquisas concretas.
Após a coleta e transcrição das entrevistas, inicia-se o processo de análise das questões, feita de modo isolado, ou seja, analisa-se a questão 1 de todos os sujeitos entrevistados, a seguir a questão 2, e assim sucessivamente, em um quadro denominado Instrumento de Análise do Discurso – IAD 1. Observa-se neste trabalho, em especial na análise dos discursos dos coordenadores que, por vezes, as respostas, na transcrição das entrevistas, não referem-se diretamente às perguntas feitas anteriormente, devido à fluidez constatada no momento da entrevista e que pode ser visualizada nos apêndices. Assim, buscou-se as respostas às perguntas propostas em trechos distintos das entrevistas, visto entender ser esse o procedimento mais adequado para alcançar os objetivos propostos. No IAD 1 copia-se, de modo integral ou trechos previamente assi-
nalados, o conteúdo de todas as respostas referentes à questão 1, destacando a seguir, de maneira distinta, os trechos correspondentes às expressões-chave das idéias centrais e as expressões-chave das ancoragens.
A idéia central (IC) é um nome ou expressão lingüística que revela e descreve, da maneira mais sintética, precisa e fidedigna possível, o sentido de cada um dos discursos analisados e de cada conjunto homogêneo de ECH, que vai dar nascimento, posteriormente, ao DSC.
(LEFÈVRE & LEFÈVRE, 2003, p.17) Quanto à ancoragem, Lefèvre & Lefèvre esclarecem:
...é a manifestação lingüística explícita de uma dada teoria, ou ideologia, ou crença que o autor do discurso professa e que, na qualidade de afirmação genérica, está sendo usada pelo enunciador para “enquadrar”
uma situação específica. (2003, p.17)
Ainda para deixar clara a função dessas duas figuras metodológicas, os autores afirmam:
A diferença entre a idéia central e a ancoragem é que a mesma expressão-chave remete tanto ao seu sentido mais direto, representado pela idéia central, quanto à teoria, à ideologia ou à crença subjacente, representada pela ancoragem. (LEFÈVRE & LEFÈVRE, 2003, p.52)
Para determinar as idéias centrais, nesta dissertação, foi utilizado o recurso da escrita sublinhada, e para determinar as ancoragens, foi utilizado a escrita em negrito, além do sublinhado, visto toda ancoragem também remeter à uma idéia central.
O passo seguinte consiste em agrupar nas colunas correspondentes do quadro IAD 1, as respectivas idéias centrais e as ancoragens das expressões-chave, procedendo a seguir à identificação e agrupamento das idéias centrais e ancoragens equivalentes, assinalados, nesta pesquisa, por letras: A, B, C,... ou seja, “criar uma idéia central ou ancoragem-síntese, que expresse, da melhor maneira possível, todas as idéias centrais e ancoragens de mesmo sentido.” (LEFÈVRE & LEFÈVRE, 2003, p.54)
Concluído o quadro “Instrumento de Análise de Discurso 1”, é possível a construção do DSC. A técnica utilizada nesta etapa consiste em elaborar um segundo quadro
“Instrumento de Análise de Discurso” – IAD 2, constituído de duas colunas: na
primeira coluna (expressão-chave) agrupa-se todas as expressões-chave pertencentes às mesmas idéias centrais ou ancoragens (assinalados pelas letras A, B, C,...), e na segunda coluna constrói-se enfim, o Discurso do Sujeito Coletivo, através de um trabalho de reconstrução das expressões-chave, obedecendo a uma esquematização que pode partir das idéias mais gerais para as mais particulares, expressas pelos entrevistados, ou que obedeça a uma seqüência lógica de começo, meio e fim no ordenamento dos pensamentos.
A apresentação dos resultados da técnica utilizada nesta pesquisa, ou seja, o próprio Discurso do Sujeito Coletivo, está disposto após a análise de cada questão, a fim de facilitar a visualização e a compreensão de cada discurso, bem como o caminho percorrido para se chegar ao discurso final. O DSC é apresentado através do recurso da escrita em itálico, visto não ser conveniente apresentar o resultado final entre aspas, devido ao fato de não se trata de uma citação, mas sim de uma fala ou depoimento coletivo.
A escolha pela utilização da técnica de análise proposta por Lefèvre & Lefèvre (2003) justifica-se pois, pela necessidade de conhecer o pensamento dos participantes do GETER, dado o objetivo proposto por esta pesquisa. A importância de ouvir e analisar os discursos dos membros desta rede é reforçada ainda pelo ineditismo dessa experiência no campo turístico nacional.