Capítulo II Direitos em disputa
1. As regras do jogo jurídico
divisão que considerava ilegal de um pedaço de terra da fazenda Agostinho Duarte e apontou, com base em documento - “authentico existente em meu poder”-, qual seria o modo correto. 161 Os exemplos podem se multiplicar. Pedro Maciel Fernandes, por sua vez, procurou o mesmo hebdomadário para declarar os limites de sua fazenda que ficava próxima ao arraial de Almas. Descreveu minuciosamente sua propriedade, argumentou que a adquiriu “por titulo legal em 10 de janeiro 1908, retificado por instrumento publico em 25 de julho deste ano” e concluiu que assim procedia para “não surgir duvidas em quantidade, limites e domínio [...] para fins de direito”. 162 Também procuraram o jornal os herdeiros da fazenda Vargem Grande que foi do falecido Antonio Ferreira de Almeida e “protestam, contra uma picada ou rumo que está tirando Manoel Alves de Carvalho nos terrenos da dita fazenda a protexto de estar medindo seus terrenos”. Reclamavam que não haviam sido ouvidos e nem tinham dado consentimento. Por isso: “Declaram nulla tal medição, desde que não ha accordo amigavel nem fomos, por qualquer sentença destituidos do nosso direito”. 163
Observamos ao longo de nosso estudo a grande diversidade de conflitos que envolviam os homens do campo em Feira de Santana, como disputas por terras, espancamento de animais, destruição de lavouras e, sendo um dos mais comuns, a destruição de cercas que muitas vezes estava conectada às disputas em torno da posse e propriedade da terra.
Os sujeitos poderiam utilizar diferentes expedientes, além da força e da ação judicial– ou de alguma combinação de ambos. O recurso da mudança foi utilizado pelo senhor Manoel Correia de Miranda que procurou o jornal para se despedir em virtude da transferência, ou como ele denominou “mudança forçada”, de sua residência para a fazenda “Alto do Umbuzeiro”, no distrito de Serra Preta do município de Camisão.
Manoel residia na freguesia de Bom Despacho desde o seu nascimento, “possuidor da fazenda Matta que, por legitimo título, acquistara, há mais de 40 anos, e onde constituira numerosa família, filhos e neto”. Nos últimos tempos, Miranda afirmava no periódico se ver “numa ‘roda de fogo’ por uns seus vizinhos tão rixosos que o atropelam
161 Folha do Norte, 18 de dez., 1909. MCS/CENEF.
162 Idem, 03 de ag., 1912.
163 Idem, 16 de mai., 1914.
constantemente com questões de cerca, divisas de suas terras e cousas mil, sem que jamais o deixem viver mansa e pacificamente”. 164
Cansado de tantas questões com seus vizinhos, o fazendeiro usa da folha do jornal para um desabafo: “Por essas razões, descrente da Justiça dos Homens e querendo evitar atritos que poderão resultar em consequências funestas, comprar a tal fazenda [...]
e la bem longe de seus perseguidores, em outro município, vivera o resto de seus dias”165. Provavelmente, a opção pela venda só acabou com os problemas de Manoel Miranda, não com as questões em torno da disputa pelos limites e posse da fazenda.
Possivelmente o novo morador teria que se entender com os antigos contendores de Manoel. 166
Certamente não seria pouco usual que esses reclames/denúncias saíssem das páginas dos jornais e se transformassem em processos crimes. O contrário também seria verdadeiro. Ou seja, que as ações judiciais ganhassem repercussão nas páginas dos jornais. 167 Manoel Miranda, entretanto, estava “descrente da justiça dos homens”, talvez por ter enfrentado muitos dos empecilhos que discutiremos a seguir.
No momento em que os sujeitos envoltos nas querelas procuravam resolver seus conflitos através da justiça, passavam a ter que cumprir algumas regras e procedimentos. O processo, como uma peça jurídica, tinha uma montagem, passos que necessariamente deveriam ser seguidos, cumprindo com as suas devidas formalidades.
Eram regidos por trâmites processuais, aos quais Pierre Bourdieu chamou de as “regras do campo”. 168
De modo geral, a primeira peça dos autos era a queixa na delegacia, a partir da qual o delegado de polícia ou seu suplente instaurava inquérito que seguia com o exame de corpo e delito, sendo julgado procedente pelo delegado, partir-se-ia para a inquirição
164 Idem, 24 de fev., 1912. MCS/CENEF.
165 Idem.
166 Alguns problemas que encontramos podiam surgir em virtude de compras recentes de propriedades, em que as tensões entre vizinhos ganhavam destaque. Por exemplo, Joaquim Genesio Vennas procurou as páginas da Folha do Norte para avisar a “qualquer comprador” do sítio que havia sido de Manoel Theodoro “que dentro das bemfeitorias do dito sitio, tem terrenos da Fazenda Areial”. Idem, 24 de abr., 1914. MCS/CENEF.
167 No próximo capítulo, acompanharemos exemplos de processos crimes que ganharam notoriedade na imprensa.
168 Pierre Bourdieu. “A força do direito. Elementos para uma sociologia do campo jurídico”, in: Pierre Bourdieu, O poder simbólico. Rio de Janeiro; Bertrand Russel, 2007.
das testemunhas e em seguida os autos eram remetidos ao juiz de direito. Nas mãos do magistrado, instaurava-se o processo crime judicial propriamente dito e as testemunhas eram chamadas para serem interrogadas novamente, assim como os réus, quando estes compareciam. Os autos eram então enviados ao promotor público para que este desse seu parecer e opinasse sobre a pronúncia, ou não, do réu em conformidade com a lei.
Em seguida partiam para defesa e acusação apresentarem seus arrazoados. Por fim, os autos chegassem às mãos do juiz que, finalmente, dava a sua sentença condenando ou absolvendo. Esta deferida, não necessariamente se encerrava o caso na justiça, pois muitas vezes os sujeitos recorriam à instância superior. Entrava em cena neste momento o Superior Tribunal do Estado e este, por sua vez, examinava todo o processo e expedia nova sentença. Pois bem, paramos por aqui em virtude dos processos que analisamos chegarem ao máximo neste espaço jurídico.
A inobservância ou negligência em relação aos trâmites legais, qualquer parte da montagem do processo, suas regras e procedimentos, ou seja, das regras do campo, poderia resultar na sua nulidade – considerado sem validade para fins legais. Neste momento, independente do mérito da causa, o processo poderia ser encerrado. Cientes disso muitos advogados em suas argumentações tentavam demonstrar que alguma regra ou procedimento não havia sido cumprido com o rigor da lei. 169
No ano de 1918 o senhor Antonio Ferreira de Freitas prestou uma queixa contra o Coronel Manoel Moreira Bastos. Em sua petição narrou minuciosamente o processo em que portando um mandado de despejo, acompanhado de duas praças de polícia os familiares, trabalhadores e jagunços do Coronel o retiraram de casa e efetivaram a sua destruição. José Maria Neves, o advogado de defesa do Coronel Manoel Moreira Bastos, Domingos Moreira Bastos, Benvindo Moreira Bastos, Bernardino de Oliveira Bastos e Ambrosio Martins, pediu a nulidade do processo, alegando que: a procuração passada por Antonio Ferreira de Freitas constituindo o advogado Agnello Ribeiro de Macedo, não daria poderes para que fossem processados os seus clientes e consubstanciou sua afirmação com citações de artigos e revistas de direito. 170 Além de
169 Seguiremos apresentando alguns episódios cotejados que são ilustrativos da nossa argumentação. Eles são uma parte das possibilidades disponíveis de apresentação que encontramos pelos processos examinados. Vez ou outra, retomaremos alguns aspectos dessas questões na exposição ao longo de todo o capítulo.
170 Queixa crime. Autor, Antonio Ferreira de Freitas; Réu, Manoel Moreira Bastos, 1918-1925.
CEDOC/UEFS, Processos crime, E: 04; Cx: 94; Doc: 1950.
revistas, referências a casos da jurisprudência e a jurisconsultos também estavam presentes nas linhas argumentativas – independente de estarem apontando nulidades e improcedências nos processos – de muitos advogados.
Nem todo mundo jogava o jogo seguindo severamente as regras. Eram utilizados também outros dispositivos que não necessariamente estavam dentro das diretrizes estabelecidas no campo. As testemunhas Luis Teixeira, Felippe Teixeira e Luiz de Asterio não compareceram para depor no processo que moveu Antonio Ferreira de Freitas contra o Coronel Manoel Moreira Bastos. Antonio Ferreira de Freitas, através de petição assinada com letra desenhada e diferente da escrita do conteúdo do texto, apontou a motivação das ausências:
Diz o infra firmado que a conselho do advogado José Maria Neves, acham-se escondidas as testemunhas Luiz Teixeira, Felippe Teixeira e Jose de Austeria arroladas na petição de queixa na destruição da casa de residência do supplicante, solicito de V.S. mandar entimar João de Oliveira Mello, Antonio Ferreira de Oliveira Mello Inspector de quarteirão, como testemunhas de vista da mesma, marcando V.S. o dia que julgar convinnente. 171
Segundo a petição, o advogado do Coronel Bastos usava do expediente de burlar a lei aconselhando testemunhas chaves no processo a se manterem escondidas. As novas testemunhas apontadas para as substituírem eram todas da mesma família, sendo uma delas inspetor de quarteirão. É provável que essas pudessem ter, ao menos, alguma autonomia diante da ocasião que lhes possibilitariam ir depor sem maiores consequências. Essa situação evidencia como as relações de força, reciprocidade e negociação, que discutiremos no próximo capítulo, estavam entrelaçadas às questões jurídicas e podiam influenciar seu funcionamento.
Vários expedientes protelatórios estavam disponíveis e foram usados ao longo do processo sem necessariamente causar sua nulidade. O Coronel Manoel Moreira Bastos, por exemplo, havido sido intimado para depor e informou que seu estado de saúde não o permitia viajar - provou sua condição através de atestado médico.
A forma como caminhava os procedimentos necessários do transcorrer do processo, sua rapidez ou lentidão, por exemplo, influíam diretamente nos resultados exigindo atenção constante dos interessados. Assim, inquirir as testemunhas parecia
171 Queixa crime. Autor, Antonio Ferreira de Freitas; Réu, Manoel Moreira Bastos, 1918-1925.
mais um calvário para o autor da ação Antonio Ferreira de Freitas. Sendo intimados os réus, estes por sua vez não compareceram, impossibilitando a indagação de outras testemunhas. Em resposta, seu advogado solicitou expedição de um segundo mandado para intimação dos réus “com hora certa - caso não sejam ainda desta vez encontrados para serem intimadas pessoalmente; intimando-se também novamente as testemunhas, estas sob pena de desobediência e aquelles sob pena de revelia – e dando-se de tudo ciência” para o promotor. 172
O advogado de Antonio Ferreira de Freitas parecia que não desgrudava os olhos desses procedimentos – pelo que pudemos observar ele tinha razão em suas preocupações. Estava tão atento que reclamou do horário em que foi entregue as intimações para depoimento das testemunhas, dizendo ser injustificável só ter chegado
“hontem as quize horas” no arraial do Bonfim o Oficial de Justiça incumbido de fazer a diligência para intimar as testemunhas que deveriam depor “hoje as noves horas” na ação que movia contra Manoel Moreira Bastos e outros. E concluía: “Pela hora adiantada, as intimações não foram feitas conforme se vê no telegrama, prejudicando muito a causa” e “ vae vendo o seu direito puigar em face das diligencias que tem requerido e que tem sido frustradas, talvez, para que os réus possam, com fundamento, allegar a prescrição da acção”. 173 Logo à frente veremos alguns exemplos de prescrição, mas o advogado de defesa de Antonio Ferreira de Freitas estava atento a todos os detalhes e protestava em juízo na tentativa de inibir chicanas legais que pudessem prejudicar os direitos de seu cliente.
Em outro processo, envolvendo alguns conhecidos nossos, Joaquim Bento Ferreira acusou Firmino Marques de Cerqueira, junto com outros indivíduos, de terem destruído a sua lavoura, e cerca que servia para garantir os limites da propriedade. A defesa de Firmino Marques pediu a nulidade do processo apontando, dentre várias minúcias levantadas, que: o exame de corpo de delito não foi lido perante os peritos e testemunhas antes de ser assinado; ainda sobre o corpo de delito informou que fora marcado para o dia 11 e realizado no dia 12, nada existindo nos autos que explicasse essa irregularidade; a procuração outorgada ao procurador era nula, pois faltava no livro o termo de encerramento e nunca fora selada; que não teria problema em arrolar testemunhas que não estavam na petição de queixa, desde que não excedesse o número
172 Queixa crime. Autor, Antonio Ferreira de Freitas; Réu, Manoel Moreira Bastos, 1918-1925.
173 Queixa crime. Autor, Antonio Ferreira de Freitas; Réu, Manoel Moreira Bastos, 1918-1925.
legal, no entanto o promotor precisaria ser previamente ouvido sobre qualquer alteração e sua falta invalidaria o depoimento da testemunha. 174
Diante de uma sentença negativa, muito de nossos sujeitos procuraram recorrer a uma instância superior. Ao fazerem isso redobravam sua atenção para com os procedimentos, pois um erro teria sérias implicações. Poderia provocar desde a inviabilização do processo a mais tempo de trâmites, em caso de correção, para resolução de seus interesses.
Ao Superior Tribunal Regional não escapava atenção aos procedimentos jurídicos. O juiz do caso de Joaquim Bento contra Firmino Marques julgou nulo o processo e, portanto, improcedente a queixa. Então, Joaquim recorreu fazendo chegar ao Superior Tribunal Regional o seu apelo. Neste espaço observa-se que não fora ouvida a parte contrária, isto é, os querelados, tampouco o promotor. Mandou-se que o julgamento fosse convertido em diligência para serem sanadas as omissões apontadas.175 E mais, quando chegou às mãos do procurador geral do estado, ele encontrou dentro do processo uma parte que não fora dado “vista” ao promotor, “o que é manifestamente contrario ao preceito do artº 408 do Codigo Penal.”. 176
174 Acompanharemos, mais a frente, os meandros desse processo. Por hora, cabe destacar que duas questões principais vão nortear o debate: a existência ou não de título para comprovar a propriedade da terra e a exigência de um julgamento especial pela presença de autoridades policiais como réus. Quanto a este último, a argumentação da defesa de Firmino Marques vai indicar que pela presença da autoridade policial o processo deveria ser por abuso ou excesso de poder, que tem forma especial e nunca esta que não seria legal. Sua argumentação avança para apontar a existência de dois crimes e por isso seria necessário dois sumários de culpa e não um, como ocorreu. Outro elemento é a qualidade da fala de uma autoridade policial, esta teria maior valor que as demais. O procurador contestou. Segundo este, para a alegação de nulidade do corpo de delito, a defesa de Firmino procurou suporte na obra “nulledades de actos jurídicos” de Martinho Garcez. O procurador vai assinalar má fé ao mostrar que ocorreu uma leitura enviesada do autor “Chamo a attenção do Illustre julgador para a obra citada e pagina 32, Emq~ o/ em 90 illustre escriptor, se refere a solennidades de instrumentos de contractos e não sobre corpo de delictos.”.
Quanto a procuração, sugere que seja lido Martinho Garzcez: “Leiam, porque, appenas demas e não ensinemos ao mestre que bem sabe, que as faltas, erros do serventuários, não prejudicam os direitos das partes, e que outrem, que não o queixoso, por meios outros, podem tomar conhecimento daquellas faltas, com as quaes, nada atem que ver o autor, sem que seja pelos meios determina dos por lei, que não são estes”. Segue sua contestação afirmando que não foi olhado o processo com atenção, pois foi dada ciência ao promotor e mais: “Do Cod. Do Processo Criminal se vê ser permettido, nas queixas, arrolar se testemunhas, que não exceda ao numero legal, uma vez que isto não seja posterior a inquirição da ultima, primeiramente arrolada a, c para isto, não determina, ~q haja previa sciencia da Promotoria”. Ainda vai argumentar que não existem dois crimes e sim um. E mais, que a autoridade estava “como capitaniador do grupo que commethia o crime, debaixo do seu prestigio pessoal, ou como representante do prestigio pessoal de alguém”. Sumário. Autor, Joaquim Bento Ferreira; Réu, Firmino Marques de Cerqueira, 1913- 1923. CEDOC/UEFS, Processos crime, E: 01; Cx: 13; Doc: 250.
175 Sumário. Autor, Joaquim Bento Ferreira; Réu, Firmino Marques de Cerqueira, 1913-1923.
176 Sumário. Autor, Joaquim Bento Ferreira; Réu, Firmino Marques de Cerqueira, 1913-1923.
A morosidade no cumprimento de procedimentos e sentenças proferidas possibilitava aos réus alguma chance para escapar devido às regras do campo. É essa a preocupação expressa pelo advogado de Antonio Ferreira de Freitas, que vimos anteriormente, quanto ao caso de prescrição - este por sua vez se configura como um bom exemplo. Tal recurso foi utilizado também por André Pereira Victoria e Thomé Paulo Ferreira. Vamos seguir sumariamente alguns passos de seu processo.
Os dois foram acusados por Firmino Marques de Cerqueira de destruição de cerca e abertura de uma roça dentro de suas terras e de ter incendiado a colheita de fumo. A promotoria opinou pela pronúncia em virtude dos depoimentos das testemunhas serem unânimes em atribuir a autoria do crime aos denunciados. O Juiz de Direito da Comarca, Jacintho Ferreira da Silva, julgou procedente a denúncia somente acerca do dano feito nas cercas, pois quanto a autoria do incêndio, considerou que não havia provas suficientes ainda que por “vestígios” da “responsabilidade criminal” dos acusados. O mandado de prisão foi expedido, o advogado Thiers de Abreu Chagas solicitou fiança para André, arbitrada em cem mil reis e multa de vinte mil reis. Thomé chegou a ser preso, mas também pediu fiança e o mandado de soltura foi expedido. A promotoria ofereceu o Libelo em 11 de outubro de 1913. 177 Em 16 de janeiro de 1914 André e Thomé entraram com uma petição solicitando a prescrição e o levantamento das fianças, argumentando que tendo sido pronunciados por sentença em 31 de outubro de 1912 já havia decorrido “mais que o tempo bastante para a prescrição”. O promotor foi favorável à petição e o juiz concordou: “mando que lhes dê baixa na culpa pelo crime de que trata este processo, pagas por elles, na forma da lei, as custas”. 178
Certamente nem todos que procuravam a justiça tinham em mente que o cumprimento de seus procedimentos era um elemento de muito valor para a resolução de suas contendas. Quando optassem por essa via logo descobririam que era necessário ter recursos para custear o processo com bons advogados e a montagem da peça – que
177 Além da acusação quanto à autoria do crime a promotoria acrescenta elementos agravantes:
premeditação e que os réus teriam ajustado-se entre si. Pediu a condenação no grau máximo.
178 Queixa crime. Autor, Firmino Marques de Cerqueira; Réu, André Pereira Victoria, 1912-1914.
CEDOC/UEFS, Processos crime, E: 4; Cx: 94; Doc: 1961. Em outros processos encontramos também casos de prescrição. Alguns fogem desse nosso recorte, mas resolvemos mantê-los por evidenciarem essa situação: Queixa crime. Autor, Zeferina Cundes Ferreira; Réus, Agemiro e Manuel Cundes Ferreira, 1918-1924. CEDO/UEFS, Processo crime, E: 4; Cx: 94; Doc: 1966; Queixa crime. Autor, Firmino Marques de Cerqueira; Réu, André Pereira Victoria, 1912-1914. CEDOC/UEFS, Ação civil, E: 4; Cx: 94;
Doc: 1961; Queixa crime. Autor, Crispim José de Freitas; Réu, Tarcilio José de Carvalho, 1944-1965.
CEDOC/UEFS, Processos crime, E: 1; Cx: 16; Doc: 299.
era custeada pelos sujeitos, uma vez que estava embutido na sentença dos que perdiam o processo o pagamento das “custas”. Portanto, entrar com uma ação judicial era algo que demandava gastos e nem todo mundo que a desejava tinha condições de pagar.
Esse era o caso de Antonio de Oliveira Santos, analfabeto, morador de Riachão do Jacuipe, que se utilizou das páginas do periódico local para protestar contra Jose Cordeiro d’Oliveira. Ele alegava que era “senhor e possuidor” a mais de trinta anos de
[...] uma parte de terra nas Sobras da fazenda “Água-Doce” neste termo, nas quaes não tem absolutamente direito nenhum o cidadão Jose Cordeiro d’Oliveira, e, acontecendo que este senhor, abusando de minha falta de recursos pecuniarios para intentar qualquer acção judiciária, tentar esbulhar de minha posse, creando para si uma posse, embora viciosa, como se provará em ocasião oportuna, venho pelo presente protestar contra seus actos agressivos aos meus direitos, fazendo-os respeitar judicialmente, por mim ou por meus herdeiros, logo que me seja possível. 179
Quem assinou, a rogo por ser analfabeto, foi o bacharel Antonio de Oliveira de Araujo. Junto ao reclame ele incluiu o nome de algumas testemunhas. Sem recursos financeiros para intentar de imediato ação judiciária para defender seus direitos, e provavelmente aconselhado pelo advogado, Antonio procura tornar pública a disputa através do jornal, mecanismo que também colocava em alerta Cordeiro d´Oliveira, que ficava desde então avisado sobre as possíveis consequências jurídicas de seus atos. É possível que com auxílio deste advogado Antonio realmente tenha conseguido entrar com a ação judicial, mesmo diante de sua realidade financeira.
Procuramos demonstrar que ao escolherem a justiça como um dos mecanismos para a resolução de seus conflitos os sujeitos tinham que seguir seus procedimentos e regras. Seu descumprimento teria serias implicações. Por isso, era acompanhada de perto pelos advogados e acabava sendo mais uma arma na disputa. Por fim, uma ação judicial demandava custos e nem todos poderiam pagar.
2. DA POSSE MANSA E PACÍFICA AO TÍTULO LEGAL DA PROPRIEDADE