Capítulo I Fragmentos na vida do campo em Feira de Santana
2. Cotidiano, usos e tensões
2.3 Caminhos e porteiras
Madeira era um item de muito valor, sua retirada sem previa autorização poderia ser geradora de conflito, como vimos, ou até mesmo servir de alegação de uma conduta ruim junto à comunidade. Perguntado sobre fatos que pudessem desabonar Candido Militão da Silva, a testemunha Manuel Silvrestre informou que “é useiro e veseiro em tirar [ilegível] e madeiras em terras alheias, e isto por ouvir dizer”. Epiphanio Ribeiro disse que ele já havia pego madeira dele e de Sergio Trabuco Lasaro, sendo preciso a intervenção do delegado para reavê-las. Pedro Ventura Alves informou que Candido não tinha um bom procedimento, pois tinha pegado madeiras do seu tio. 147
Acreditamos que as matas eram mais um recurso utilizado de diversas maneiras pelos moradores do campo, que tinham na caça e na coleta mais um elemento para o lazer, alimentação e até mesmo para comércio na feira semanal. 148 Os cipós poderiam ser utilizados na construção de cercas, assim como as madeiras eram essenciais para tal, bem como outras benfeitorias nas fazendas e sítios. Não sabemos quando começa a destruição das matas nem tão pouco quando termina, nem as razões que levaram a tal.
Sabemos que hoje sua quantidade é reduzida em Feira de Santana. Ou seja, com o passar do tempo esse acesso foi sendo limitado e com ele mais uma elemento que compunha a vida desses sujeitos. O acesso a seus recursos já era restrito, tendo em vista que muitas matas faziam parte das propriedades e seu acesso sem autorização poderia gerar conflitos.
de uma légua”. Como resposta o intendente mandou o fiscal geral comparecer ao lugar e, se confirmado a denúncia, que aplicasse a postura em vigor. 149
Da narrativa depreende-se que pelo campo existiam caminhos que cortavam propriedades particulares, mas que eram costumeiramente usados pelos moradores das comunidades próximas. O fato de tal passagem ter sido obstruída, talvez com uma cerca, foi o motivador da reclamação. Os lavradores teriam que percorrer um caminho diferente e bem mais longo. Ainda podemos notar que a garantia de trânsito por estas estradas em terras particulares estava assegurada através de leis municipais.
Essa foi uma questão que nos chamou atenção durante a pesquisa nos jornais por termos encontrado em mais de uma oportunidade reclamações com esse teor. Vejamos:
Estrada obstruida. Moradores no lugar denominado Amarella, districto da Gamelleira solicitam, por nosso intermedio, providencias dos poderes competentes no sentido de ser reposta a estrada que da Gamalleira segue para Cachoeira pois, um tal Patricio fez ha 4 annos, passados uma casa na beira da estrada e nella deitou uma vendola.
Ultimamente tendo acabado com o negocio abrio uma roça na frente da dita casa estendeu uma cerca fechando a estrada e a seu gosto abrio uma outra que faz grande volta. Ahi fica a reclamação que merece ser tomada em consideração pois o facto está previsto pelo art. 26 do Cod.
de Post. 150
Ao que parece Patrício fez uso privado e indevido de uma estrada pública.
Espertamente instalou sua venda em uma área de trânsito, próximo a uma estrada, favorecendo assim o seu comércio. 151 Talvez a terra em que instalou a “vendola” seja uma ocupação e ao que parece não foi contestada ao longo dos quatro anos em que funcionou. Tal fato indica que ela tinha legitimidade junto à comunidade. Com o fim de seu negócio, investiu em uma roça e, certamente para proteger a plantação, ele a cercou.
Ao fazer isso, entretanto, ocupou um caminho público tradicionalmente usado pelos moradores e, embora o tenha mudado de lugar, estes não estavam dispostos a percorrer uma distância maior, era preciso agora dar uma “grande volta” para chegar ao seu destino. Não parece que os moradores tenham questionado a ocupação - a roça aberta-, mas sim o fato de Patrício estar obstruindo a estrada costumeiramente usada. Por fim,
149 Tal postura não é citada. O Progresso, 08 de set., 1907. MCS/CENEF.
150 Folha do Norte, 08 de jun., 1913. MCS/CENEF.
151 Mayara Silva faz também faz uso desta fonte para ilustrar a possibilidade de ocupação de terras por pequenos posseiros. MayaraP. Silva, Experiências de Trabalhadores/as pobres ..., p.135.
fica evidente que o código de postura era utilizado como argumento legal para impedir ocupações.
Os conflitos gerados pelo uso indevido ou obstrução de estradas e caminhos gerou uma interferência direta da Intendência Municipal. Em 8 de maio de 1920 publicou edital que, dentre outros temas, informava:
Pela Intendencia Municipal e de ordem desta, se faz publico que de conformidade com o artigo 16 do Cod. de Post. e Lei n. 142, de 24 de abril de 1915, a ninguem permittido diminuir a largura das estradas ou caminhos, e fazer nos mesmos ou mattas forçadas que diffultem ou augmentem o transito e fechar as referidas estradas ou caminhos sem lincença do poder competente, embora abra outra para melhoral-as, sob pena de 15$000 de multa ou 5 dias de prisão, além de ser obrigado a desobstrucção ou concerto [...]. 152
Alguns meses antes da publicação deste edital, o jornal veiculou outro reclame dirigido ao intendente municipal.
[...] Dizemos nós assignados, residentes na Freguesia de Tanquinho, districto deste municipio, que tendo o Snr. Francisco Moreira de Freitas, residente neste mesmo districto, comprado ao Snr. Coronel João Paulo Carneiro um pedaço de terra que este possuia, sita n’este arraial, onde existe desde muitos annos, uma estrada frequentada pelo publico, a qual da caminho para o Riachão, as Almas e outros lugares, acontece que o dito Snr. Francisco Moreira está no propósito de fechal-a; e como seja isso prejudicados aos requerentes e ao povo que se utilisa do dito caminho, estes vem perante V. Exa. requerer no sentido de mandar embargar o fechamento do dito caminho. N'este sentido. Pedem a V. Exa. Deferimento. Joviniano Gomes dos Santos, Jovino Ferreira de Oliveira, Victoriano José da Silva, Manoel Garrido de Oliveira, Sergio Trabuco de Lazaro. 153
Perceberemos que o momento em que uma determinada propriedade era vendida poderia ser deflagrador de conflitos, caso o novo possuidor resolvesse obstruir um caminho de uso público. Observemos, a partir da publicação da intendência e dos reclames das pessoas, que existia uma legislação que regulava o uso das estradas rurais que, inevitavelmente, cortavam as propriedades privadas. Seu uso para outro fim que não fosse o de trânsito, assim como a restrição de seu acesso público implicava em multa e prisão.
152 Folha do Norte, 08 de mai., 1920. MCS/CENEF.
153 Folha do Norte, 27 de mar., 1920. MCS/CENEF.
Encontramos um processo crime que evidencia essa situação. 154 Fiquemos atentos à forma como as pessoas referem-se ao caminho e apontam a condição dele ser
“público”. Examinemos. Sinfronio Martins, casado, lavrador, morador de Coração de Maria, em 14 de dezembro de 1945 entrou com uma queixa crime contra autor
“ignorado”. Na petição alegou “que tendo cercado uma estrada pouco transitada aconteceu que por diversas veses foram cortar as arames do aludido logar”. Pediu que fosse nomeado perito para fazer a vistoria e indicou o senhor Coriolano de Pinho Barros. O delegado, entretanto, nomeou outro, Jeremias Mendes Rodrigues. 155
A vistoria apontou para uma restrição da mobilidade no campo e talvez por isso a reação dos que faziam uso desse caminho terem cortado os arames. O relatório também chama a atenção para a presença de um tanque e para a possibilidade de que poderia estar sendo restringido também o acesso à água.
[...] que da cancela a partir do Souza e propriedade de Mamedi Martins Gomes, não existe vestígios de penetração de caminho que vá sahir no caminho do Moraes para Souza. Necessario se torna que Sinfronio Martins, coloque para entrada do tanque do “veo” um cancela que dê passagem livre a animaes ao em vez de um passadesso, tornando-se necessário ainda a retirada da cancela da porta de sua casa de morada no “Moraes” para o antigo logar, [ilegível] é onde dava passagem livre na estrada real [...]. 156
Ainda soubemos pelo documento produzido pela vistoria que não existiria
“vestígio de penetração” no caminho a partir do “Moraes” que vai até o “Souza e Neto”.
Existiria um caminho que era transitado livremente do “Moraes” para o “Souza e Neto”
a pé, cavalo, por animais com carga e que “a estrada real e o caminho que passa na trincheira do Tanque que vai ter ao [ilegível] armado, “Souza Neto”, são milhores”. Ao que tudo indica, existia um caminho costumeiramente utilizado pelos moradores e que com os “arames” estava sendo obstruído.
O processo foi curto. Logo após o depoimento das testemunhas foi remetido ao juiz, depois disso, passado vinte anos, foi arquivado. Acompanhemos o depoimento das testemunhas. Manoel dos Santos Coutinho, com 38 anos, solteiro, lavrador, residente no
“Moraes”, informou que residia desde 1920 e já tendo naquela época conhecido um
154 Porém, está fora de nosso recorte temporal, mas como é exemplar desse debate, resolvermos utilizá-lo, contando ainda com o fato de ele evidenciar a continuidade deste tipo de conflito por alguns anos à frente.
155 Queixa crime. Autor, Sinfronio Martins Cerqueira; Réu, Ignorado, 1945-1965. CEDOC/UEFS, Processos crime, E: 04; Cx: 108; Doc: 976.
156 Tivemos dificuldade em compreender o nome do tanque. Ora pensamos ser “veo” ora “neo”. Optamos por “veo”. Queixa crime. Autor, Sinfronio Martins Cerqueira; Réu, Ignorado, 1945-1965.
caminho que ia até a fonte de propriedade de Felmito Alves. A estrada do caminho que vai para a fonte havia sido fechada por Arnaldo de Almeida em principio daquele ano, quando botou no local um roçado de capim. Disse ainda que a partir da cancela do Souza, onde morava Mamedi, existiam dois moradores, Arnaldo Bispo de Almeida e Raimundo Borges, e em princípio daquele ano fecharam a estrada por onde transitavam pessoas a pé e animais. A passagem do “Souza” fora fechada por Sinfronio Martins, o qual deixou um passadisso que dava acesso ao tanque. Este tanque serviria de logradouro público e Sinfronio Martins não proibia o abastecimento de água em sua propriedade. Por fim, diz não saber quem cortou as cercas.
Outra testemunha, o senhor Mamedi Martins Gomes, residente do “Souza”, contou que desde mil novecentos e trinta o caminho a partir da estrada geral que entroncava no “Souza” era transitada por pessoas a pé e a cavalo. O qual foi fechado por Arnaldo Bispo de Almeida, mais adiante pelo sr. Raimundo Borges e por último o senhor Sinfronio Martins.
Narcizo Martins Gomes nos ajuda a compreender o início dessa questão.
[...] existia do Moraes para o Souza um caminho por onde se transitava a pé dando passagem no lugar onde era cercado um passadisso; que cahidas as cercas deram de logo passagem livre aos transeuntes; que a uns des anos mais ou menos vem sendo transitada por pessoas á pé; e que do ano passado para ca o caminho foi fechado por Arnaldo, logo que comprou a posse onde mora; que o caminho era de utilidade publica; que não sabe quem cortou a cerca de Sinfronio Martins [...]. 157
Laurentino Alves Rocha, com vinte e cinco anos, solteiro, lavrador, residente no
“Moraes”, informou que residia neste local há dezoito anos e já conhecia um
“caminhosinho” por onde os moradores vinham apanhar água no tanque do “veo”, como até aquela época faziam. Disse que, viajando do “Moraes” para o “Souza” era melhor pela estrada geral, “que é limpa e sem ladeira; e o caminho não é bem limpo”. O caminho não era transitado, com a morte do senhor Felmito, proprietário das terras, as cercas caíram e o povo “pegou a transitar”. No lugar onde passava o caminho tinha, há cerca de meses, um plantio de mandioca feito por Arnaldo, filho de João Pedro.
Estamos percebendo que existia um caminho costumeiramente usado pelos moradores da região. Ao referir-se ao caminho Narcizo Martins Gomes diz que era de
157 Queixa crime. Autor, Sinfronio Martins Cerqueira; Réu, Ignorado, 1945-1965.
“utilidade publica”. O trânsito teve início logo após a morte do senhor Felmito, quando as cercas de sua propriedade caíram. Observamos também que outros proprietários, além de Sifronio Martins, levantaram cercas no local como forma de coibir o livre acesso do público. Vejamos a última testemunha. Mauricio Alves Barreto de vinte e quatro anos, solteiro, lavrador, residente no lugar “Moraes”, declarou o seguinte sobre a petição:
[...] mora no Moraes já dezoito anos mais ou menos, e que o caminho que dava passagem do Moraes para o Souza, era um caminho particular por onde os rendeiros do finado Felmito transitavam para apanhar água no Tanque do “veo”; que com a morte do Sr. Felmito as, cercas chairam e pegou a trasitar pessoas a pé; que vendidas pelos herdeiros de Felmito posses de terras, os novos posseiros trataram de novamente cercarem as suas posses; que viajando pela estrada real é milhor, mesmo porque não tem ladeiras e a estrada é limpa, e pelo caminho que da acesso ao tanque é pior porque tem ladeiras e sujo e chovendo é instrasitavel porque escorrega muito é um caminho sem utilidade, e não prejudica a ninguém que a cerca de Arnaldo foi cortada uma vez, e de Simfronio duas vezes, e que tem uma estrada que a partir do corredor do Moraes vai sair no Souza, sem ser necessário a passar no caminho a que alude [...]. 158
Temos uma situação em que existia um “caminho particular” por onde os trabalhadores do proprietário, Sr. Felmito Alves, transitavam para o tanque e ao que aparenta demais pessoas da região também. Com a morte desse proprietário as cercas caíram, possivelmente em virtude da falta de manutenção. Os antigos rendeiros e demais pessoas permaneceram pelo menos por uns dez anos transitando nesta área, possivelmente ampliando a mobilidade em virtude de já se existir um caminho e de as cercas terem caído. Os herdeiros venderam a propriedade e os novos proprietários resolveram levantar novamente as cercas. O problema reside em que naquela comunidade existiam pessoas acostumadas a transitar por aquele local e que não aceitaram essa restrição, pois consideravam o caminho “público”. Sinfronio Martins pelo menos duas vezes e Arnaldo uma, tiveram arames destruídos. Se levarmos em conta a vistoria dos peritos, o passadisso posto por Sinfronio não impedia a entrada de pessoas, mas restringia o acesso de animais ao tanque, interferindo diretamente na vida das pessoas. As últimas testemunhas ainda informaram negativamente sobre a qualidade do caminho, o que pode ser verdade. Só que, para as pessoas que cortavam a cerca o que estava em jogo era seu direito de transitar por aquele espaço da forma como vinha fazendo há muito tempo. As cercas estavam a restringir a sua mobilidade, talvez
158 Queixa crime. Autor, Sinfronio Martins Cerqueira; Réu, Ignorado, 1945-1965.
aumentando a distância que deveria ser percorrida para ter acesso à água e demais lugares. Seja como for, o “ignorado” parecia ter bem claro que não desejava ter seu costume restringido e contra isso cortava as cercas.
***
A partir desses fragmentos diversificados sobre os moradores do campo na Feira de Santana das primeiras décadas do século XX, suas atividades produtivas e comerciais, as relações de trabalho e família, seu perfil étnico e algumas de suas tensões cotidianas, pudemos nos aproximar desse universo que pouco aparece nos trabalhos sobre o período. Se na cidade as coisas estavam agitadas com as pretensões modernizadoras da classe dominante local, no campo ainda existiam relações e costumes que permaneciam com ritmo próprio, uma vez que a maioria das pessoas nasciam e viviam no mesmo local por anos, tecendo laços familiares e de comunidade, isso gerava noções comuns que quando ameaçadas motivavam insatisfações. Apesar dessa característica, o campo não iria passar incólume às transformações que insidiam sobre o perímetro urbano. Acompanharemos na parte final deste trabalho que existiram propostas de intervenção para este cenário: manejo de raças; novas técnicas para o plantio; utilização de maquinário para superar a “falta de braço”; tentativas de controle sobre os trabalhadores do campo. Tais propostas se sustentavam em uma análise que caracterizava o campo como o local do atraso, e no homem legado pela escravidão, a responsabilidade por isso.