Capítulo I Fragmentos na vida do campo em Feira de Santana
2. Cotidiano, usos e tensões
2.2 O uso das matas
menos inocentes das matas: informou que Izidio a convidou para procurar “oricuri e chegando no mato descobriu um vulto parecido com um veado, o qual era o chapéu de Francolino [...]”. Aureliano de Jesus, por sua vez, informou que encontrou Francelino Roza ferido e perguntando o que tinha causado, respondeu que estava no mato caçando teiús e recebeu um tiro dado por Izidio. Perguntado se Izidio era caçador, respondeu afirmativamente. Silviriano Ribeiro também confirma que Izidio era caçador. As falas das testemunhas apontam que a caça e a coleta (ou ainda o uso da coleta no mato como desculpa para um rápido namoro) faziam parte do cotidiano desses sujeitos.
Para além disso, a mata também fornecia outro item importante, a madeira. Era das matas que se coletava a madeira usada, entre outras coisas, na construção das cercas que delimitavam as propriedades. Mais uma vez recorremos aos anúncios de venda de fazendas. Neles percebemos que a existência de matas e boas madeiras eram um dos qualitativos noticiados. Em 25 de setembro de 1910 foi posta à venda a “boa fazenda de lavoura e criação, denominada Passagem” na freguesia de Bom Despacho, dentre as qualidades mencionadas, “de mattas de boas madeiras”. 138 Não só as madeiras, mas a existência de árvores frutíferas era uma das qualidades mais ressaltada nesses anúncios.
Assim foi divulgada a venda da chácara no subúrbio da cidade com “muitos arvoredos, como sejão, jaqueiras, coqueiros, cajueiros, sapotys”. 139 Vejamos um anúncio completo.
Vende-se uma boa fazenda, propria para lavoura e criação de gado, toda cercada de madeiras de lei, possuindo pastos com toda a qualidade de capim de planta, divididos em mangas. E’ situada a dita fazenda em terrenos massapé, a 4 leguas desta cidade da Feira de Sant’Anna, e contem bons tanques e um execellente manancial, mattas de madeiras de qualidade [...]. 140
Seu valor comercial e seu uso sem autorização também eram fatores de conflitos entre vizinhos, ou mesmo entre proprietários e seus trabalhadores. O processo analisado a seguir, embora fuja de nosso recorte temporal, é interessante por revelar possíveis conflitos em torno da questão do uso indiscriminado de áreas de reserva dentro das propriedades agrícolas. Inocencio Rodrigues, lavrador, com 55 anos, solteiro, cor parda, analfabeto, declarou ser lavrador e que no processo foi reconhecido pelas testemunhas
138 Folha do Norte, 25 de set., 1910. MCS/CENEF.
139 Folha do Norte, 25 de abr., 1914. MCS/CENEF.
140 Folha do Norte, 10 de fev., 1912. MCS/CENEF.
como administrador da fazenda, 141 foi acusado por seu patrão, Polycarpo Pedreira Daltro, de aproveitar-se de sua demorada ausência na capital do Estado e ter devastado as matas da sua propriedade denominada “Junco”, retirando grande quantidade de madeiras que teria vendido criminosamente, sem nada dar ciência, nem a ele nem a seu procurador, de nome Targino Machado Pedreira. Do auto de vistoria e do depoimento das testemunhas tivemos acesso aos tipos e qualidades das madeiras retiradas. Foram encontrados no interior da fazenda cento e quatorze tocos já tratados de madeiras com grossura suficiente para “caibros” e de boa qualidade, como pau d’darco, angico, estalador, goiabeira, claraiba, peroba, catinga de porco, itapicurú, quixaba. 142
No auto de qualificação e interrogatório, Inocencio afirmou que eram verdadeiras as acusações. Disse que Nemezio Pereira, dono de uma loja, havia lhe chamado e pediu o consentimento para tirar madeiras na mata de seu patrão, e dias depois recebeu uma gratificação de cinco cruzeiros. 143 E mais, que foram retirados
“caibros” e “esteios” contando com a ajuda de Catulino de tal, Manoel da Cruz, Antonio Pereira e João de Nemezio. A madeira foi transportada para a fazenda Oiteiro, de propriedade de Nemezio Pereira de Souza. 144 O conflito no processo vai girar em torno da legitimidade ou não de Inocencio, administrador da fazenda, autorizar a retirada da madeira. Como justificativa para tal decisão há os argumentos dos declarantes que sugerem a necessidade da retirada da madeira para consertar uma cerca que dividia a propriedade de Nemezio e a de Polycarpo, o proprietário da mata. Polycarpo, entretanto, questiona a autoridade de Inocencio para dispor sobre a madeira sem a sua prévia autorização . No centro da questão está o debate de quem poderia fazer o uso das matas.
João de Deus, declarante, argumenta que Nemezio solicitou ao administrador 150 “fava” para consertar a cerca que cabia ao zelador da fazenda “Junco” fazer, e dias depois pediu para retirar madeira para reformar uma casa, o que foi feito pelos empregados de Nemezio. Ele, João de Deus, iria ajudar, mas ficou doente. Manoel da Cruz afirmou que retirou a madeira e que foi autorizado pelo administrador Inocencio, informou que antes retirara umas madeiras na fazenda do senhor Nemezio para concertar uma cerca divisória nas fazendas, e depois de falar da quantidade e qualidade
141 No auto de qualificação ele declarou ser administrador da fazenda.
142 Inquérito. Autor, Polycarpo Preira Daltro; Réu, Inocêncio Rodrigues, 1943-1965. CEDOC/UEFS, Processos crime, E: 04; Cx: 91; Doc: 1771.
143 Foi perguntado se tinha ordem de seu patrão para vender ou dar madeiras. Respondeu negativamente.
144 Inquérito. Autor, Polycarpo Preira Daltro; Réu, Inocêncio Rodrigues, 1943-1965.
da madeira informou que aconteceram alguns estragos nas matas. Essa última informação é sempre perguntada pela autoridade policial, demonstrando o valor que as matas possuíam. Catulino Francisco disse que Inocencio tinha dado ordem para a retirada da madeira em questão porque havia precisado de cento e cincoenta estacas da mata do mesmo para consertar a cerca de seu patrão. Por fim, a terceira testemunha do processo, senhor Domingos Moreira de Santana, disse que indo tirar um “cipóes”
passou pela mata do senhor Polycarpo e encontrou pilhas de madeiras (caibros), não sabendo, porém a quantidade, que extraindo os seus “cipóes” regressou à casa. Foi-lhe perguntado se as referidas madeiras foram vendidas, dadas ou emprestadas. Em resposta disse que foram dadas, sabendo, entretanto, que Inocencio havia recibo um quantia de cinco cruzeiros como gratificação das mãos do senhor Nemezio. 145
Percebemos os diferes recursos existentes nas matas que eram explorados pelos moradores. Podemos ir além, ao que parece o próprio direito de usar a mata estava em disputa, ou mesmo os limites desse uso, tendo em vista que a retirada da madeira foi feita mediante a autorização de Inocêncio. O proprietário reivindicava o direito sobre as madeiras da mata por esta situar-se em suas terras. Inocêncio, por sua vez, permitiu o uso da mata, independente da vontade do patrão.
Domingos Moreira passou pelas matas em busca dos cipós que precisava. No primeiro processo que nos referimos, a respeito do tiro que Francolino recebeu, encontramos sujeitos caçando e coletando. A caça poderia ser tanto para o consumo e comércio, como para o lazer, assim como a coleta poderia ser uma boa desculpa para um discreto encontro amoroso. Deste modo, além da subsistência material as matas aparecem como parte constitutiva do lazer destes sujeitos. A delimitação da propriedade através do uso de cercas incidia também sobre a mata virgem e, por conseguinte, restringia o acesso a seus diversos recursos e usos. 146 Ao que parece existiam diferentes noções sobre o acesso as matas.
145 Inquérito. Autor, Polycarpo Preira Daltro; Réu, Inocêncio Rodrigues, 1943-1965.
146 Um indício desse processo de restrição é a publicação da Folha do Norte de 1º de outubro 1909 que refere-se a lei que obrigava a construção de cercas entre as propriedades rurais: “Sendo desconhecida no interior deste estado a lei federal de numero 1787de 28 de novembro de 1907 que regula a construcao de cercas ou tapume divisorias entre as propriedades ruraes, resolvemos publicar em tres edições sucessivas deste Diario a pedido de varios nosso assignantes do interior, os dispositivos da mesma lei, que sao os que segue [...]”. O jornal novamente divulgou essa lei em 30 de março de 1912. Outro elemento é a própria política de demarcação das terras evidenciada pelas seguidas leis de terras publicadas na Bahia que tentam regularizar a questão fundiária. Folha do Norte, 01 de out., 1909. MCS/CENEF; 30 de mar., 1912.
MCS/CENEF.
Madeira era um item de muito valor, sua retirada sem previa autorização poderia ser geradora de conflito, como vimos, ou até mesmo servir de alegação de uma conduta ruim junto à comunidade. Perguntado sobre fatos que pudessem desabonar Candido Militão da Silva, a testemunha Manuel Silvrestre informou que “é useiro e veseiro em tirar [ilegível] e madeiras em terras alheias, e isto por ouvir dizer”. Epiphanio Ribeiro disse que ele já havia pego madeira dele e de Sergio Trabuco Lasaro, sendo preciso a intervenção do delegado para reavê-las. Pedro Ventura Alves informou que Candido não tinha um bom procedimento, pois tinha pegado madeiras do seu tio. 147
Acreditamos que as matas eram mais um recurso utilizado de diversas maneiras pelos moradores do campo, que tinham na caça e na coleta mais um elemento para o lazer, alimentação e até mesmo para comércio na feira semanal. 148 Os cipós poderiam ser utilizados na construção de cercas, assim como as madeiras eram essenciais para tal, bem como outras benfeitorias nas fazendas e sítios. Não sabemos quando começa a destruição das matas nem tão pouco quando termina, nem as razões que levaram a tal.
Sabemos que hoje sua quantidade é reduzida em Feira de Santana. Ou seja, com o passar do tempo esse acesso foi sendo limitado e com ele mais uma elemento que compunha a vida desses sujeitos. O acesso a seus recursos já era restrito, tendo em vista que muitas matas faziam parte das propriedades e seu acesso sem autorização poderia gerar conflitos.