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Esquema 1. Blending para ‘fake gun’ (COULSON E FAUCONNIER, 1999) CENA: assalto com arma de plástico

4. Análise dos dados

4.2. Aspectos semânticos da CCC e seus usos avaliativos

Nesta seção, apresentamos uma série de levantamentos acerca da CCC, de acordo com a análise dos dados. Após análise preliminar, algumas considerações emergem, a saber:

a) Alta frequência de itens enfáticos

Itens de caráter enfático ocorrem com extrema frequência na construção. Este pode ser um indício de que, de fato, a noção de ênfase para contrastar situações/entidades é fortemente atrelada à construção, como pode ser visto nos exemplos:

(1) Você está muito convencido para alguém que acabou de começar (Corpus LF)

(2) Para uma empregada, um quarto tão bonito... (Corpus DP)

(3) [...] foi uma responsabilidade muito grande para um zagueiro de 24 anos?

(Corpus Nilc)

Essa característica sinaliza que a CCC também atua como modalizadora, e reforça seu uso argumentativo. Em (1), por exemplo, se for retirada a partícula intensificadora “muito”, a própria depreensão de sentido concessivo da construção fica comprometida.

b) Relação com o frame Comparação_avaliativa

Entendemos que os casos de correspondência entre os elementos em X e Y permitem que seja feita uma relação desta construção com o frame Comparação_avaliativa, tendo em vista que o ATRIBUTO comparado é relacionado tanto ao elemento em Y como em X. Trata-se de uma correspondência entre o valor (o item expresso no comentário Y) e um papel (o elemento de comparação, em X). O exemplo (4) ilustra nossa tentativa de aproximação entre instâncias da CCC e a descrição de Elementos do frame Comparação_avaliativa:

(4) [Para uma Nerd de computadores ITEM_PADRÃO], [você ITEM_PERFILADO] é [bem GRAU]

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[esperta ATRIBUTO]8. (Corpus LF)

No caso como o exemplo (4), o ITEM_PERFILADO (você) é um membro da classe descrita como ITEM_PADRÃO (nerds de computadores). O ATRIBUTO “esperta”

(intensificado com o marcador de GRAU– “bem”) é relacionado aos dois itens. Assim, há uma comparação direta entre “você” e o grupo de “Nerd de computadores”. Essa comparação é também avaliativa, tanto porque evidencia uma quebra de expectativas em relação aos chamados nerds (no sentido de que não seriam espertos), como porque pode servir para desqualificar a esperteza do indivíduo em questão.

c) Atenuação em uma escala pragmática

Outra aplicação da CCC é ser um elemento relativizador, que estabelece uma perspectiva. Há casos que operam situações que, se não inteiramente incompatíveis, são conflitantes sob um determinado ponto de vista. O exemplo (5) ilustra esse argumento, em que parece haver uma alteração na escala pragmática:

(5) Você é bem atraente para uma bancária. (Corpus LF)

Em (5), interpretamos que o elemento avaliado (você) tem o atributo (atraente) relativizado a um determinado grupo de expectativas (bancárias). A inferência que se torna acessível é a de que o falante assume que o atributo “ser atraente” não é próprio do que se espera de uma bancária. Sendo assim, a pessoa avaliada (você) estaria sendo posicionada acima das expectativas – o que se apresenta como elogio. No entanto, a desqualificação do elogio se dá exatamente por sua relativização, que é vista como uma necessidade de relocação do atributo dentro de uma escala de expectativas.

d) Usos argumentativos

Outro recurso usado pela construção é servir como instrumento de desaprovação, como em (6); de ironia e deboche, como em (7); de machismo, em (8); e de incredulidade, como em (9):

(6) Está muito zangada para quem me deu o bolo. (Corpus LF)

(7) Para quem carregava um enorme tufo de neve na cabeça, Mavlii tinha muito bom humor. (Corpus DP)

(8) Você gasta bem pouco pra uma garota de luto. (Corpus LF)

(9) Olha, aí vem o César. - E andando bem rápido... para alguém que acabou de ganhar uma indenização por invalidez. (Corpus LF)

Em (6), juntamente à noção de concessividade envolvida na incongruência de faltar a um compromisso e sentir-se zangado, é feito um julgamento, deslegitimando a manifestação de raiva. Em (7), devido a um entendimento compartilhado de que determinadas situações levam a mau humor e estresse, é possível depreender o tom irônico, sinalizado pela construção, acerca do “bom humor” mencionado no enunciado.

Já em (8), a CCC evidencia um frame culturalmente compartilhado em muitas comunidades ocidentais sobre a visão de mulheres como consumistas, e reforça um posicionamento de preconceito.

8 Essa descrição não segue os padrões de anotação lexicográfica usados na FrameNet e é utilizada exclusivamente para demonstração da relação existente entre a CCC e o frame Comparação_avaliativa.

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Tomando o exemplo (9) de forma mais detalhada, é possível dizer, num primeiro momento, que (i) a CCC descreve uma quebra de expectativa em relação à situação descrita para César (que anda relativamente rápido), se comparado às pessoas que recebem indenização por invalidez (que poderiam se locomover com dificuldades).

Neste caso, há uma correspondência entre “alguém que acabou de ganhar uma indenização por invalidez” e “César”.

Além dessa sinalização de concessividade, que é traço constitutivo da CCC, percebemos que, de acordo com as pistas contextuais e de conhecimento compartilhado, (ii) é possível inferir que a construção permita, no plano discursivo, questionar a veracidade da afirmação da invalidez. Em (i), é possível que a construção estabeleça uma escala em que a rapidez de César seja relativizada ao fato de ter problemas para andar, tornando-se atenuada. Já em (ii), mantém-se a afirmação sobre a rapidez de César e coloca-se em xeque a vinculação entre “César” e “alguém que acabou de ganhar uma indenização por invalidez”.

5. Considerações finais

Retomando as considerações de ordem analítico-metodológicas, já antecipadas na seção 4.1, a investigação em corpora teve papel central em nossas discussões sobre as características da CCC, que demonstra ser bastante produtiva. Essas questões reafirmam essa abordagem como centrada no uso, visto que são os falantes – e não a gramática – quem gera novas construções (GOLDBERG, 2006).

A análise preliminar dos dados feita neste trabalho já sinaliza a riqueza e complexidade de aspectos que podem ser investigados nesta construção. Conforme pretendemos demonstrar, há um forte traço argumentativo da construção, reforçado tanto pela constante presença de itens linguísticos de ênfase como também pelos diversos usos avaliativos a ela vinculados.

A atenuação e consequente alteração ad hoc de escala pragmática promovidas na Construção Concessiva Comparativa são também entendidas como um diferencial entre esta e as construções concessivas canônicas. Nosso objeto de estudo mostra-se bastante interessante e desafiador, seja por suas características sintático-semânticas particulares, ou por constituir um recurso linguístico (tipicamente informal) de julgamento, com possibilidade de depreciação sutil.

Referências

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GOLDBERG, Adele. Construction: A construction grammar approach to argument structure. Chicago: The University of Chicago Press, 1995.

___________. Constructions at work: the nature of generalization in language. Oxford:

The Oxford University Press, 2006.

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LAKOFF, George. Women, fire and dangerous things: what categories reveal about the mind. Chicago: The University Chicago Press, 1987.

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RUPPENHOFER, Josef et al. FrameNet II: Extended theory and practice. Disponível em:

<<http://framenet.icsi.berkeley.edu/index.php?option=com_wrapper&Itemid=126>>

Acesso em 20 jan. 2010.

TOMASELLO, Michael. [1999]. Origens culturais da aquisição do conhecimento humano. Trad. Claudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

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A CONSTRUÇÃO DA (DES)CORTESIA NA INTERAÇÃO CRIANÇA-ADULTO EM PERSPECTIVA FUNCIONALISTA E CONVERSACIONAL

Karoline Santiago de MACEDO (USP1) Resumo: O presente estudo busca examinar os aspectos interacionais de um diálogo entre um adulto e uma criança em contexto familiar. Para tanto, utilizar-se-ão os pressupostos da Linguística Sistêmico-Funcional (Martin & White, 2005), da Análise da Conversação (Barros, 2010; Hilgert, 2010) e da Cortesia Verbal (Brown & Levinson, 1987). Trata-se de descrever as especificidades linguístico-discursivas nesse tipo de interação, utilizando a convergência de teorias de perspectivas funcionalista e pragmático-conversacional.

Palavras-chave: Cortesia verbal. Discurso infantil. Função interpessoal.

Abstract: This study aimed to investigate the interactional aspects of a conversation between an adult and a child in family context. For this purpose, the Systemic Functional Linguistics (Martin & White, 2005), Conversation Analysis (Barros, 2010; Hilgert, 2010) and Politeness Theory (Brown & Levinson, 1987) will be used. It is to describe the linguistic-discursive specificities in this interaction using a convergence of the functionalist theory and a pragmatic- conversational perspective.

Keywords: Verbal courtesy. Children’s speech. Interpersonal function.

1. Introdução

O presente estudo mostra o recorte de uma pesquisa em Iniciação Científica cujo objetivo é analisar a interação adulto-criança em contextos privados de maneira a depreender suas especificidades interacionais. Para tanto, será analisado um segmento de uma conversação entre uma criança de nove anos com um familiar (uma irmã de 20 anos), enquanto a primeira faz uma atividade escolar sendo auxiliada pela segunda. As gravações foram feitas em âmbito familiar, sem documentadores presentes ou tema pré- definido, caracterizando-se como uma conversação espontânea. Trata-se, portanto, de um estudo de caso em que hipóteses de particularidades referentes a esse tipo de interação são levantadas, procurando-se explicá-las a partir de uma convergência de teorias, como será mostrado a seguir.

De modo geral, o estudo dos procedimentos de reformulação, como se depreende em Hilgert (2010) e Barros (2010), enfatizam aspectos formais, como quem produziu a correção ou a paráfrase, e apenas tangenciam questões pragmático- discursivas, ressaltando, de forma mais detida, a relação entre reformulação e compreensão, mas relegando a segundo plano aspectos interpessoais, como o grau de solidariedade entre os participantes da conversação.

Nesse sentido, propõe-se analisar os procedimentos de reformulação correlacionados aos fenômenos de polidez de modo a verificar o processo pelo qual a reformulação se faz necessária para sanar não apenas problemas de compreensão, mas também o grau de aceitabilidade de alternativas dialógicas.

Dessa forma, tais fenômenos – de reformulação e cortesia – serão examinados em face da Avaliatividade (Martin & White, 2005), pois tal teoria permite depreender o posicionamento intersubjetivo dos interlocutores e as estratégias de inserção de outros pontos de vista no discurso, mostrando-se relevante ao se considerar que a reformulação será estudada a partir de uma perspectiva diferenciada – que valoriza identificar os

1 Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil, [email protected].

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elementos semântico-discursivos que se revelam como “gatilhos” para motivar o uso de reformulações.

O desenvolvimento dessa análise baseado na convergência de teorias que envolvam a perspectiva funcionalista e a abordagem pragmático-conversacional se mostra relevante para dar conta do objeto aqui estudado – a interação adulto-criança em contexto familiar, pois tais teorias articuladas em conjunto permitem verificar o estabelecimento de relações sociais e a negociação de perspectivas por parte dos falantes.