48 não se pode pensar que a contemplação se faça exclusivamente no retiro, abandonando as pessoas que sofrem, que lutam. Com a graça do Senhor pode-se fazer uma experiência singular de oração, que continua na experiência da solidariedade com quem se encontra doente, com quem sofre nos cárceres, nas favelas, nos cortiços [...]. É importante entender que o Senhor se faz presente como alguém se faz presente ao seu irmão. Assim como Cristo, está presente e unido a nós, quer que também nós estejamos presentes na vida dos outros, levando o alívio da solidariedade, a alegria da partilha de vida e a possibilidade de crescer na amizade165.
O palavreado de Dom Luciano não era abstrato. Nascia da vivência pessoal, na qual, direcionando toda sua ação para a “maior glória de Deus”, experimentava que a solidariedade não subtraía tempo à oração, antes a qualificava, oferecendo-lhe novas circunstâncias para que se adequasse à situação concreta na qual se encontrava166. Além disso, vivia o que, para Inácio, constitui a meta da busca de Deus em todas as coisas, isto é, o amor imbuído de discernimento e traduzido em serviço167. Por isso, ciente de que não existe dicotomia entre ação e contemplação, Dom Luciano sustentava que
contemplar é ver o Senhor presente, quer na meditação pessoal quando se faz luz e nos comunica sua vida, quer na convivência com estes irmãos que se encontram em condições desumanas. A unidade é dada pelo amor que prolonga a comunhão com Deus e com os irmãos. [...]. O Senhor está sempre presente. Somos nós que devemos aprender a nos tornarmos presentes ao Senhor, na experiência do seu amor168.
Tal experiência verificou-se, constantemente, na vida do bispo jesuíta que, buscando a Deus em todas as coisas, permaneceu sempre de atalaia para servir aos irmãos necessitados.
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“apaixonamento por Jesus Cristo”169, constituía a fonte de sua postura serviçal. Tal
“apaixonamento”, porém, não se confunde com um fútil estado sentimental. Remete à experiência espiritual pessoal, alicerçada no ensinamento do fundador de sua ordem. Santo Inácio, de fato, convida a pedir, na oração, o “conhecimento interno do Senhor”170, visto que o ser humano, apenas com suas forças, não conseguiria decidir-se pelo seguimento de Cristo (cf. Jo 15,4-5)171.
O “conhecimento interno” é um processo de interiorização da Pessoa de Jesus Cristo, que abrange a esfera relacional, fugindo de uma abstração teórica e de uma aproximação, apenas, intelectual ou psicológica. É um aprofundamento existencial até que as posturas, as escolhas e as ações de Jesus Cristo, se reflitam na vida de quem quer segui-lo, não por mera imitação, mas pela comunicação da mesma graça que acompanhou o Cristo e que os Sacramentos nos transmitem (cf. Fl 2,5)172.
Dentro do patrimônio espiritual inaciano, o “conhecimento interno” de Jesus Cristo não é uma dimensão estática. É dinâmica! Tem como meta o amor explicitado no serviço. De fato, conduz a palmilhar os caminhos de Cristo, para chegar a amar e a servir a Deus e aos irmãos, abandonando-se, de vez, uma visão egocêntrica da existência173. Por isso, Dom Luciano, fundamentando sua vida na pessoa de Jesus Cristo, conseguiu descentrar-se de si mesmo, como fez Jesus, e viver, inteiramente, orientado ao serviço dos outros174. Atraiu-o, sobretudo, a relação de Jesus com o Pai (cf. Jo 10,30). Contemplava, nela, a efetivação plena da existência humana que foge da armadilha do egoísmo, endereçando-se, totalmente, a Deus.
Com efeito, as horas de solidão de Cristo eram preenchidas pela presença do Pai (cf. Mc 1,35;
Lc 6,12), da qual recebia força para continuar sua missão (cf. Jo 4,34; 5,30; 6,38),
169 ALMEIDA, Palavras de agradecimento, p. 51.
170 Cf. EE 104; 130; 195; 221.
171 O jesuíta Charles Bernard salienta que: «Durante o caminho dos Exercícios, a adesão ao mistério de Cristo não tem a ver apenas com a iluminação da inteligência e nem com a adesão da vontade, mas chega à decisão prática de se colocar no seguimento de Cristo para participar, no plano apostólico, da realização do desígnio de Deus e da instauração do reino de Cristo quer em si mesmo quer no mundo inteiro» (BERNARD, La spiritualità cristocentrica di San’Ignazio, p. 187. Tradução nossa).
172 Cf. PALAORO, A experiência espiritual de santo Inácio, p. 97-99; BARREIRO, O “Conhecimento interno” de Jesus Cristo, p. 31; BERNARD, La spiritualità cristocentrica di San’Ignazio, p. 186-189. O amor de Dom Luciano pela Eucaristia não era mero devocionalismo, mas meio para receber a graça da conformação a Cristo. De seu motorista, sabemos que mesmo quando tinha uma viagem nas primeiras horas do dia, ele celebrava de madrugada (cf. EDD 53).
173 Cf. BARREIRO, O “Conhecimento interno” de Jesus Cristo, p. 31-34.
174 Cf. MIRANDA, Dom Luciano: o cristão, o jesuíta, o pastor, p. 76-77.
50 compadecendo-se da situação desfavorável dos outros (cf. Lc 13,12; Mt 19,13). À luz dessa experiência, Dom Luciano concluía que Jesus Cristo, tendo uma realização afetiva tão integral, entregou-se, conscientemente, por amor ao Pai e aos irmãos (cf. Jo 14,3; 15,13)175.
Da mesma forma, o pastor jesuíta deixou um testemunho marcado pela entrega ilimitada de si mesmo, comparável a uma fonte que não guarda nada para si, apenas vive em função de beneficiar quem passa por ela176. Fundamentava-se na seguinte convicção:
quem entra em comunhão com Cristo tem que servir o seu irmão, tem que partilhar do seu pão, tem que dedicar sua vida ao seu irmão. [...] É sempre necessário que estejamos em sintonia com Aquele que veio para servir:
como Jesus viveu, como Jesus-gratidão ao Pai escolheu seu jeito de vida, o jeito simples do povo humilde. Ele teve uma vida muito pobre, muito simples, pois Jesus não quis privilégios177.
A “vida escondida” de Jesus Cristo (cf. Lc 2,39) influenciou, fortemente, a existência de Dom Luciano. A experiência quenótica do Filho de Deus (cf. Fl 2,6-7), que passou pelo anonimato e pela identificação com quem vive nas situações mais desfavoráveis da existência humana, era considerada pelo bispo jesuíta a luz do seu cotidiano e o eixo hermenêutico da história da humanidade178.
Talvez aí esteja a maior luz teológica: perceber que Deus nos faz uma grande graça não fazendo milagres e nos deixando, como ele, viver o cotidiano da vida humana, na doença, na pobreza, na incompreensão, na deficiência, porque é assim que se salva o mundo, assim é que Jesus salvou o mundo179.
Como se disse, o “conhecimento interno” de Jesus Cristo se desdobra no amor- serviço. Na vida de Dom Luciano, tal desdobramento ficou, permanentemente, patente,
175 Cf. JCL 13-14.
176 Cf. SANTIA, Dom Luciano, p. 212.
177 ENJ 94. A expressão de Dom Luciano: “Jesus-gratidão” deve ser entendida no sentido de que o Filho responde à gratuidade do Pai que lhe confia tudo, através da própria doação, vivendo a alegria do amor por nós (cf. ibid., p. 86-87).
178 Cf. ALMEIDA, Palavras de agradecimento, p. 50-52.
179 Ibid., p. 53.
51 porque para ele, o ser humano sofredor tinha sempre prioridade180. No livro-entrevista de Ernesto Olivero, narrou:
Após um dia de trabalho, é claro que estou cansado; porém, mesmo prevendo que no dia seguinte terei muitas coisas a fazer, se encontro uma alma que sofre, sinto-me chamado a ir visitá-la de noite. Nem todos compreendem quanto seja importante para mim a vontade de conhecer a grandeza de certas situações que, talvez, segundo outras categorias humanas, apareçam pequenas. Nem todos entendem que estas coisas me dão uma força nova para os compromissos do dia seguinte181.
Contudo, a aproximação de Dom Luciano dos sofredores, para servi-los, não era apenas consequência do “conhecimento interno” de Jesus Cristo, mas também seu pressuposto. Com efeito, a vocação cristã exige que a pessoa se coloque no contexto mais favorável ao conhecimento de Cristo, para segui-lo. Nada melhor, portanto, do que optar por aqueles que o próprio Jesus privilegiou: pecadores, pobres, marginalizados, junto aos quais ele mesmo fez a experiência do amor do Pai (cf. Mt 11,25-27)182. Nesse sentido, “os pobres se tornam, então, mediação necessária para desvelar a figura de Jesus. Nos rostos sofredores dos pobres, podemos descobrir ‘o rosto do Senhor’”183 (cf. Mt 25,31-45).
Dom Luciano se “matriculou”, desde a temporada romana, na escola dos pobres, para conhecer Jesus Cristo. Servindo aos jovens detidos no Instituto Gabelli de Porta Portese, conforme vimos ao analisar a árvore do testemunho, aprendeu a valorizar a partilha generosa e gratuita184, que é, afinal, a dinâmica do Reino de Deus, trazido por Jesus Cristo (cf. Mc 6,37-44).
Tal experiência, de serviço-aprendizagem, continuou também em épocas sucessivas e reforçou nele a ideia de que
180 Dom Luciano ficou conhecido pelo atraso com que chegava aos compromissos. Contudo, na nossa pesquisa, detectamos que tal atraso, geralmente, era gerado pelo atendimento aos pobres que encontrava pelo caminho e que, como se disse, tinham sempre prioridade.
181 UPP 54. Tradução nossa.
182 Cf. LIBANIO, A petição da Segunda Semana dos Exercícios, p. 45.
183 JCL 88.
184 Entre as recordações de Dom Luciano, emerge a de uma Noite de Natal. Circundado por cerca de sessenta jovens ali detidos, foi obrigado a consumir um pedaço de torrone (doce europeu) que eles faziam questão de compartilhar com ele. Nesse gesto ele via uma lição de generosidade e gratuidade provinda, justamente, daqueles jovens marginalizados (cf. UPP 26-27).
52 os pobres nos ensinam a valorizar as pessoas. Nós os olhamos como se fossem miseráveis, e ao invés se tornam nossos mestres: ensinam-nos a colocar em segundo lugar a civilização dos consumos, do haver, do possuir.
Eles têm a vida, porque são capazes de compartilhar com os outros os sofrimentos e as alegrias. [...] Eles, com a solidariedade, conseguem sobreviver em condições desesperadas: juntam o pouco que possuem. [...]
São bem-aventurados os pobres, porque em seu sofrimento, na carência de coisas materiais, souberam ver o que é mais profundo: o amor que vem do Senhor e que se comunica em cada momento da vida dos que sabem amar os irmãos com quem compartilham a alegria de viver185.
Na jornada espiritual do bispo jesuíta, então, os pobres se tornaram “lugar” de discernimento, para melhor conhecer, amar e seguir Jesus Cristo. Com eles experimentou, realmente, quem é Jesus e, portanto, entrou em profundidade no mistério de Deus, na perspectiva da dinâmica da “indiferença” proposta pelo seu fundador.