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44 humano se coloca através do imprescindível serviço ao próximo (cf. 1Jo 4,20)144.

45 pequenos sinais, percebe o amor do amigo, da mesma forma o contemplativo aos poucos descobre a presença de Deus nas coisas criadas por Ele. Contudo, haverá um momento de graça, no qual não apenas descobre Deus presente nas coisas criadas por Ele, mas se abandona ao seu amor de Pai, infinito e gratuito, acredita no amor para sempre; então tudo quanto lhe acontece não é apenas estrada e caminho para Ele, mas é esplendor, glória, raio que vem do Sol, expressão que vem da aurora. É isto que S. Inácio, creio eu, queria expressar quando dizia que é bonito “ver todas as coisas, as pessoas, os acontecimentos em Deus”148.

A busca de Deus em todas as coisas acontece pela mediação de Jesus Cristo149, cujo mistério situa-se entre a Trindade e a Criação (cf. 1Tm 2,5-6). Portanto, a procura de Deus em todas as coisas, implica o encontro de toda criatura em Cristo e a descoberta de Cristo em todas as criaturas150.

Dom Luciano, à luz de sua experiência espiritual, explicou em que consiste tal perspectiva de fé, tendo como eixo a Pessoa de Jesus Cristo. Com linguagem simples afirmou:

Nós pensamos, às vezes, em Cristo de um modo assim muito difuso, um pouco até difícil de perceber. Mas hoje é tão fácil perceber a presença de Jesus Cristo em cada pessoa. [...] É um olhar de fé. Eu creio que nós todos temos isso, olhar de fé. Cada pessoa humana reflete a presença de Jesus Cristo. Ele dizia isto: “Tudo o que você fizer a ele, a mim você faz”. É essa presença de Cristo, não só entre nós, mas em cada pessoa, na situação existencial de cada pessoa151.

Tal olhar de fé, cristocêntrico, predispôs Dom Luciano a ser, inacianamente, contemplativo em ação, através do serviço aos irmãos.

Quem conviveu com ele, na CNBB e nas múltiplas atividades de seu ministério episcopal, tinha a clara impressão de estar diante de alguém totalmente impregnado de Deus, vivendo continuamente em sua presença.

Um místico em meio aos cuidados cotidianos, um contemplativo na ação152.

148 ALMEIDA, Esperienza di gratuità, p. 39. Tradução nossa.

149 O jesuíta Charles Bernard explica: «Ao invés de descer do alto para encontrar os homens ou partir de baixo para subir a Deus mediante Cristo, a mente e o coração se colocam no centro do Mistério, isto é, em Cristo, onde tudo se recapitula e tudo é levado a cumprimento» (BERNARD, La spiritualitá cristocentrica di Sant’Ignazio, p. 184. Tradução nossa).

150 Cf. STIERLI, Buscar a Deus em todas as coisas, p. 121-127.

151 ALMEIDA, Palavras de agradecimento, p. 50-51.

152 AGNELO, Um servidor da Igreja e do povo, p. 109.

46 A Ernesto Olivero (1940)153, o bispo jesuíta confidenciou que divisava em seu cotidiano a presença misteriosa do Senhor, mesmo não tendo sempre consciência imediata dela. Contudo, duas dimensões a confirmavam: a certeza do amor providencial do Senhor (cf.

Mt 6,25-34) e o anseio de cumprir a vontade divina, por meio das tarefas a serem desempenhadas (cf. Mt 7,21.24)154.

A fórmula inaciana “buscar a Deus em todas as coisas” não designa uma contemplação imobilizada em si mesma. Ela, dinamicamente, obriga a descobrir a vontade de Deus, para cumpri-la em todas as circunstâncias da vida, mesmo naquelas inesperadas. A Pessoa de Jesus Cristo é assumida como critério de discernimento155. Com efeito, na espiritualidade inaciana,

Jesus Cristo se acha no centro desta procura da vontade de Deus; e isto de duas maneiras. Primeiro, como exemplo de liberdade total “para o puro serviço do Pai eterno”. [...]. Jesus, cujo “alimento” consistia em “fazer a vontade do Pai”, desde a Encarnação até a cruz, torna-se, assim, o arquétipo e o modelo daquele que cumpre a vontade de Deus em todas as coisas. Em segundo lugar, por sua pessoa, sua vida e seu ensinamento, Cristo revela a vontade divina; ele a encarna para os homens: “Escutai-o”. [...] Todo dom de si acaba então em “sofrer com ele”, visto que ele é a medida e expressão de todo serviço156.

Dom Luciano, norteado por estes princípios espirituais inacianos, procurava corresponder ao querer de Deus em seu cotidiano corriqueiro, cujos imprevistos interpretava como “articulações previstas pelo Senhor”157, portadoras de vantagens para vida158. Até na trágica experiência do acidente automobilístico, desvendou a vontade de Deus, que, conforme sua percepção interior, ao lhe devolver a vida, lhe pediu uma entrega maior para o bem dos irmãos159.

153 Ernesto Olivero, italiano, é fundador do Serviço Missionário Juvenil e do Arsenal da Paz. Foi amigo de Dom Luciano e autor do livro-entrevista “Uniti per la pace: dialoghi con Dom Luciano Mendes de Almeida” (traduzido em português: “Unidos em favor da paz: diálogos com Dom Luciano Mendes de Almeida), texto fundamental para nossa pesquisa.

154 Cf. UPP 47.

155 Cf. STIERLI, Buscar a Deus em todas as coisas, p. 127-132.

156 STIERLI, Buscar a Deus em todas as coisas, p. 130.

157 UPP 45. Tradução nossa.

158 Cf. ibid., p. 45.

159 Cf. QUEIROZ, “Dom Luciano foi uma pessoa diferente...”, p. 150.

47 Ressaltamos que, para Santo Inácio, a busca de Deus em todas as coisas não é apenas uma atividade externa, mas pressupõe uma postura interna, isto é, uma “intenção reta”

que disponha a se colocar ao serviço da divina Majestade, em cada momento, até o mais insignificante. Tal procedimento comporta a orientação de toda ação humana para Deus, tomando consciência de que as ocupações da vida, tanto quanto a prática da oração, permitem servi-lo160.

Dom Luciano, ao retratar a si mesmo como “homem apaixonado pelo presente”161, mostrava manter viva tal postura interior162, vendo, em cada instante, uma oportunidade para se encontrar com Deus. Merece destaque sua concepção do presente:

É aquele instante de transparência da consciência em que alguém é chamado a entrar em comunhão com Deus no evento, a dividir o sofrimento e a alegria na presença de Deus. Alguém é consciente quando se faz presente, se sente chamado a compartilhar, consigo mesmo, a plenitude do momento presente, da amizade, do trabalho, do desafio, do sofrimento. Isso me parece ser lindo, por um lado, porque se tem sempre algo a fazer, sendo chamado a viver o desafio do momento presente, por outro, tem um pouco de paz, porque todo momento traz consigo uma beleza especial, um pouco da graça de Deus163.

À luz de tal perspectiva inaciana, as viagens e as reuniões, os inúmeros atendimentos e os problemas a serem resolvidos, não constituíam um empecilho à contemplação do bispo jesuíta. De fato, conforme ele mesmo revelou, vivenciava a sua oração, não pela meditação de textos profundos de espiritualidade, e sim pelo simples e profundo fato de sentir a presença do Senhor, no meio das atividades ordinárias164. Formado pelos ensinamentos de Santo Inácio, intuía que

160 Cf. STIERLI, Buscar a Deus em todas as coisas, p. 132–137.

161 UPP 53. Tradução nossa.

162 Como se disse, a espiritualidade inaciana chama-a de “intenção reta”.

163 UPP 53. Tradução nossa.

164 Cf. ibid., p. 46–47. Enganar-se-iam os que, ao interpretar estas observações, concluíssem que Dom Luciano rejeitasse a oração. Em nossa pesquisa encontramos inúmeros testemunhos que relatam, desde o tempo vivido em Roma, que Dom Luciano era um homem de oração. Ele mesmo fala da Eucaristia como a oração mais necessária da sua vida, unida à Liturgia das Horas e à oração mariana do Terço.

Eram estes, de fato, os três momentos cotidianos e imprescindíveis da sua vida de oração (cf. ibid, p.

47-48). Além disso, recordamos que Inácio de Loyola, norteado pela “busca de Deus em todas as coisas”, não quis que os membros da Companhia de Jesus dedicassem tempo excessivo a oração, mas que fruíssem da presença do Senhor no apostolado.

48 não se pode pensar que a contemplação se faça exclusivamente no retiro, abandonando as pessoas que sofrem, que lutam. Com a graça do Senhor pode-se fazer uma experiência singular de oração, que continua na experiência da solidariedade com quem se encontra doente, com quem sofre nos cárceres, nas favelas, nos cortiços [...]. É importante entender que o Senhor se faz presente como alguém se faz presente ao seu irmão. Assim como Cristo, está presente e unido a nós, quer que também nós estejamos presentes na vida dos outros, levando o alívio da solidariedade, a alegria da partilha de vida e a possibilidade de crescer na amizade165.

O palavreado de Dom Luciano não era abstrato. Nascia da vivência pessoal, na qual, direcionando toda sua ação para a “maior glória de Deus”, experimentava que a solidariedade não subtraía tempo à oração, antes a qualificava, oferecendo-lhe novas circunstâncias para que se adequasse à situação concreta na qual se encontrava166. Além disso, vivia o que, para Inácio, constitui a meta da busca de Deus em todas as coisas, isto é, o amor imbuído de discernimento e traduzido em serviço167. Por isso, ciente de que não existe dicotomia entre ação e contemplação, Dom Luciano sustentava que

contemplar é ver o Senhor presente, quer na meditação pessoal quando se faz luz e nos comunica sua vida, quer na convivência com estes irmãos que se encontram em condições desumanas. A unidade é dada pelo amor que prolonga a comunhão com Deus e com os irmãos. [...]. O Senhor está sempre presente. Somos nós que devemos aprender a nos tornarmos presentes ao Senhor, na experiência do seu amor168.

Tal experiência verificou-se, constantemente, na vida do bispo jesuíta que, buscando a Deus em todas as coisas, permaneceu sempre de atalaia para servir aos irmãos necessitados.