5.4 A Capacidade de carga ambiental de Bombinhas
5.4.2 Balneabilidade
A pesquisa de balneabilidade analisa as águas de cada balneário e determina se estão Próprias ou Impróprias para o banho. Isto é, se estão contaminadas ou não por esgotos domésticos. A existência de esgoto é verificada através da contagem da bactéria Escherichia coli presente nas fezes de animais de sangue quente, que podem colocar em risco a saúde dos turistas e da população local (FATMA, 2015).
Durante o período de dezembro de 2014 a julho de 2015 os valores de número mais provável de Escherichia coli atingiram 24.196 unidades formadoras de colônia. Conforme a Figura 38 os pontos 4 e 6 apresentaram os maiores valores de UFC.
Figura 38: Resultados de Balneabilidade no município de Bombinhas durante o período de análise.
A partir do dia 16 de dezembro de 2014 houve um aumento na presença de Escherichia Coli o qual multiplicou-se por 20 pelo valor permitido pela Resolução do CONAMA nº274, período em que foi registrado o maior fluxo de veículos e consequentemente o maior aporte de turistas, segundo residentes e excursionistas em Bombinhas.
0 5000 10000 15000 20000 25000
2/12/2014 16/12/2014 30/12/2014 13/1/2015 27/1/2015 10/2/2015 24/2/2015 10/3/2015 24/3/2015 7/4/2015 21/4/2015 5/5/2015 19/5/2015 2/6/2015 16/6/2015 30/6/2015 14/7/2015 28/7/2015
Ponto 1 Ponto 2 Ponto 4 Ponto 3 Ponto 5 Ponto 6 Ponto 7
Res. CONAMA 274
Logo após o período de festas de natal e ano novo, nos dias 21 e 28 de janeiro, os valores de balneabilidade tiveram uma brusca redução na ordem de 249 UFC, porém voltaram a apresentar valores de 24.196 UFC.
Cabe destacar que o ponto 4, localizado na rua Tiriba (Figura 39), se configura como a foz de um ribeirão o qual ao longo do tempo pela falta de saneamento pelos sucessivos tomadores de decisão tornou-se uma vala a céu aberto. Durante o período de verão este ponto foi analisado por meio de 12 amostras e apresentou condições impróprias para o banho em 60% das amostras levantadas. Já no inverno o mesmo local recebeu 7 coletas para amostra e destas apenas 22% estavam impróprias para banho.
Figura 39: Antigo e provável recurso hídrico próximo ao ponto de coleta nº 4.
O ponto de análise 6 (Figura 40) também se trata da foz de um pequeno recurso hídrico, este já na praia de Bombinhas. O local possui áreas antropizadas em seus arredores, bem como a construção de uma pousada por cima e uma provável canalização há menos de 100 metros de sua foz. Este ponto apresentou em 50% das análises condições impróprias para o banho durante o verão, já no inverno apenas 12% das análises realizadas ficaram com condição imprópria.
Figura 40: Recurso hídrico localizado próximo ao ponto 6.
O ponto 5 também apresentou um valor de acima dos limites estabelecidos pela resolução do CONAMA nº 274 em uma única análise, porém é de suma importância destacar que se trata de outro recurso hídrico que tem sua foz no mar e também possui áreas ocupadas e muros em suas encostas (Figura 41). O contato primário, através dos banhistas, é inevitável assim que o corpo hídrico chega na praia e encontra-se com o oceano.
Figura 41: Ponto de análise 6, próximo a foz deste recurso hídrico que tem suas margens ocupadas. Nota-se uma coloração negra na superfície do curso d’água.
Beaumord & Diehl (2004) apontam que grande maioria dos municípios do litoral catarinense que recebem turistas não fornece a apropriada estrutura básica, como abastecimento de água, tratamento de esgoto e coleta do lixo, implicando em uma grande pressão sobre os sistemas naturais. Florianópolis e Balneário Camboriú, por exemplo, oferecem uma razoável estrutura de coleta de esgotos domésticos, entretanto nos dias em que recebem mais turistas (natal, ano novo e carnaval) as estações não suportam as vazões afluentes de esgotos diminuindo o seu tempo de detenção nos reatores refletindo em menores qualidades dos efluentes em suas descargas que por sua vez se dão em recursos hídricos que drenam ao oceano.
Bombinhas não possui rede coletora de esgoto e segundo IBGE (2010), 90% das residências possuem fossas sépticas como tratamento de efluentes e sumidouros como tratamento complementar. Fossas sépticas não se apresentam como sendo eficientes para o tratamento de efluentes, sendo que os sumidouros são responsáveis pela infiltração no solo e no lençol freático, que no litoral está próximo à superfície.
As planícies costeiras, como é o caso do município Bombinhas possui um alto lençol freático (há poucos metros da camada de solo), sendo que quando este aflora em condições de muitas chuvas e/ou contribuições domésticas reflete nos resultados apresentados pela FATMA em seus testes de Balneabilidade. Assim, com a presença de milhares de turistas, segundo-residentes, moradores e excursionistas, e com a ausência de uma rede coletora os rasos lençóis freáticos podem estar sobrecarregados no período de verão refletindo assim o comprometimento dos recursos hídricos nas planícies e praias da região, elementos estes centrais como atrativo turístico para o município.
Bonilha e Borges (2002) realizaram análises de águas subterrâneas dos bairros de Canto Grande, Mariscal e uma parte de Morrinhos em Bombinhas encontraram valores de nitrogênio amoniacal de até 3,95 mg/L em distância de aproximadamente 300 metros da praia do Mariscal e valores de 1,5 a 2,0 mg/L a poucos metros da praia.
Segundo o Sistema de Avaliação da Vulnerabilidade Natural de Aquíferos proposto por Foster et al., (1988), o aquífero do Mariscal - Canto Grande é classificado como sendo de alta vulnerabilidade. O tempo de descarga da água do manancial é elevado, cerca de 120 anos, e corresponde ao tempo mínimo de depuração dos poluentes de maior mobilidade da água, apenas por processos de renovação (BONILHA E BORGES, 1999).
Bonilha e Borges (1999) em seus estudos fizeram uma previsão a evolução prevista do comprometimento qualitativo do aquífero e concluíram que será rápida, atingindo quase 50% do volume do aquífero no ano de 2010, com uma população média de verão de 60.000 pessoas. Cerca de 100 % do aquífero estaria comprometido pela recarga artificial no ano de 2025, significando que nesta data o aquífero estará totalmente inadequado ao uso para abastecimento público.
As análises de Bonilha e Borges em 1999 já demostravam que em 2025, a concentração média teórica de nitratos dissolvidos na água subterrânea poderia estar superior ao limite de 50 mg/L que corresponde ao limite de potabilidade indicado pela portaria do Ministério da Saúde nº 2.914 de 14 de dezembro de 2011. Os autores ainda expõem que com a execução do Plano Diretor da época para a localidade, com cerca de 61.000 pessoas em uma temporada de verão, a concentração final de nitratos seria de 505 mg/L, um índice muitas vezes superior aos limites de potabilidade, e capaz de causar muitos prejuízos diretos à saúde pública, como: aumento da probabilidade de câncer no trato digestivo (FRASER et al., 1980), Metaemoglobinemia Infantil em crianças na faixa etária de 0 a 6 meses (LEWIS et al., 1982), outras doenças epidêmicas causadas por bactérias, vírus e protozoários (infecção intestinal, diarreias, hepatite,etc.).
Coliformes fecais encontrados em grande parte das amostras analisadas, e elevadas concentrações de nitrato e nitrito, principalmente no bairro do Canto Grande são responsáveis pela baixa qualidade global do aquífero. Todavia, caso receba tratamento simplificado antes do consumo a água do aquífero ainda pode ser considerada potável pelos padrões vigentes. O processo intenso de salinização no aquífero é perceptível principalmente no bairro de Canto Grande. Caso seja intensificado o bombeamento neste local poderá vir a ser produzida uma intensificação quase irreversível deste processo, com perda da potabilidade da água (BONILHA e BORGES, 2000). Por outro lado, as praias de Bombinhas e Bombas também estão em locais com aquífero muito próximo a superfície podendo estar com as mesmas condições, ou piores, que as apresentadas por Bonilha e Borges (2002).