3.6 Capacidade de carga
3.6.1 Capacidade de carga social
A capacidade de carga social é definida como o limite máximo de uso, ou utilização, de um determinado ambiente sem que haja perda da qualidade ambiental, do ponto de vista
do usuario daquele ambiente. Silva (2001), Peccatiello (2007), Ribeiro (2011), Ruschmann (2008), Silva (2012a), Silva (2012b) e Venson (2009) afirmam que o conceito de capacidade de carga leva em consideração a percepção do usuário, uma vez que depende inteiramente de juízos de valor dos utilizadores do espaço, cujas características, atividades praticadas ou grupos sociais possam ser distintos, sem nenhuma influência de quem está analisando e por este motivo sugere-se atenção ao propor esse tipo de capacidade de carga.
Os mesmos autores explicitam que a avaliação é feita através de questionários, inquéritos e/ou entrevistas públicas, nos quais possibilitam obter informações bem construtivas acerca da percepção dos usuários de determinado ambiente e o grau de superlotação que o visitante irá admitir e opinar antes de encontrar outro local para seus passeios turísticos.
RUICK et al (1997), analisa a capacidade de suporte social para praias arenosas na África do Sul durante dois dias dos meses de verão de 1992 e 1993 utilizando também questionários em faixas de 10 metros e conclui que a capacidade de suporte em praias depende de fatores externos tais como facilidades recreacionais, atividades que levam ao adensamento nestes ambientes e do tamanho do grupo de visitantes (Quadro 2Erro! Fonte de referência não encontrada.).
Quadro 2: Padrões médios de capacidade de suporte recreacional sugerido para praias. Fonte: Ruick et al (1997).
Densidade média
Referências Área de superfície
(m2 por pessoa)
Pessoas por m2
5 20 ANDRIC et al 1962 apud Ruyck et al (1997)
9,2 11 ORRC, 1963 apud Ruyck et al (1997)
9,2 11 Florida Recreation and Parks Association,
1975 apud Ruyck et al (1997)
8 13 Baud & Bovy & Lawson, 1977 apud Ruyck et al (1997)
14 7 Urban Land Institute, 1981 apud Ruyck et al
(1997)
10 10 Foras Forbatha, 1973 apud Ruyck et al
(1997)
15 7 Sowman, 1987 apud Ruyck et al (1997)
6,3 16 Ruyck et al (1997)
25 4 Ruyck et al (1997)
LEATHERMAN (1997) categoriza 10 praias nos Estados Unidos de acordo com a percepção dos turistas. Segundo o autor as praias estão em constante mudança devido aos impactos que são causados nas mesmas, pelo processo de alargamento de faixas de areia, poluição e etc., fazendo com que a percepção dos usuários mude em função das mudanças que ocorrem nestes ambientes.
O projeto TURIS (1975), apresenta uma análise da densidade ocupacional das localidades consideradas de interesse turístico notadamente as praias, traçando normas para ocupação do solo. Sua peculiaridade também está no mérito da sua simplicidade. A metodologia adotada conduziu ao estabelecimento de parâmetros de ocupação em função da vocação turística de cada localidade traduzindo o binômio sol/praia. Segundo o mesmo Projeto, ocupar adequadamente uma região não significa instalar, em suma, o contingente máximo de pessoas que ela comporta. Significa equilibrar número de residentes e número de visitantes, de modo que o total dessa justaposição não venha nunca comprometer em definitivo as condições naturais e ecológicas de uma determinada região. No mesmo projeto é sugerido também padrões de capacidade de suporte recreacional para as praias brasileiras (Figura 1).
Figura 1: Superfície de praia, banhistas e densidades médias em quatro situações de conforto (A, B, C e D) e seus respectivos m² por usuário. Fonte: Projeto TURIS, 1975.
Yepes (1999) ao estudar praias sujeitas a intenso uso turístico no Mediterrâneo espanhol chega a valores significativamente mais baixos (considerando que até 4-5 m² / utilizador é um valor confortável), defendendo o zoneamento da praia como um fator importante de análise. Com efeito, o fato da área de praia passível de utilização de balneário não ser sujeita a uma utilização uniforme em toda a sua extensão, começou a despertar mais atenções com este contributo de Yepes, que considerou a existência de áreas distintas dentro de uma praia: uma zona ativa de 10 metros acima da linha de água (sujeita a uma utilização mais intensa) e uma zona de repouso que podia ir até aos 35 metros de profundidade (considerada de utilização menos intensiva) (Silva, 2002).
Entretanto, é sabido que a validade dos valores apurados através deste ou de outros procedimentos, é relativa, devendo esses mesmos valores ser considerados como indicativos, num contexto mais alargado de planejamento e gestão dos espaços em causa.
Na verdade, se valores de 4m² /utilizador podem ser considerados como indicadores de um grande congestionamento, algumas situações de praias de intensa utilização poderão mesmo ficar sem classificação possível. Yepes defende que
“estos valores son cambiantes en funcion de las circunstancias particulares de cada playa e usuario” (Yepes, 1999: 19)
Mostrando que o cálculo de capacidades de carga deverá ser adaptado a cada situação, já que a aplicação direta de modelos importados pode revelar algum erro. Nesse formato Silva (2001) afirma que os estudos de capacidade de carga das praias não podem ser simplesmente, a divisão de uma área de areia passível de utilização de balneário por um valor de X m²/pessoa, uma vez que envolve três fatores, são eles:
Envolvente – acessibilidade, capacidade de alojamento da área onde se insere estacionamento, estruturas de apoio;
Praia - acessos, profundidade, frente de mar, variação de marés, limpeza, segurança, condições do mar;
Fatores exteriores - clima, altura do ano, dia, hora, expectativas dos utilizadores;
A capacidade de carga social é dependente do juízo de valor dos utilizadores de um determinado espaço, cujas características, atividades praticadas pelos diferentes grupos sociais possam avaliar o limite mínimo de conforto desejável para determinado local.
Da integração das diferentes capacidades de carga analisadas em uma determinada área, poderá ainda resultar a capacidade de carga recreativa. Silva (2001) entende que o uso do conceito de capacidade de carga para as praias, por exemplo, envolve a realização de diferentes cálculos da capacidade de carga para cada espaço costeiro: dunas, praias, mar e retro-terra.