8.1 As propriedades de um instrumento de medida
8.1.1 Base conceitual
Ao estudar escalas e questionários de avaliação da saúde, pode parecer óbvio que uma medida de saúde deva estar baseada em uma abordagem conceitual específica: se medida da capacidade funcional (7; 16; 17; 326). Ainda assim tais instrumentos podem ter propósitos distintos (19):
- avaliar apenas as lesões ou danos ou ter um escopo mais abrangente que investigue tanto a(s) incapacidade(s) quanto a(s) desvantagem(ns) e/ou o suporte social;
- servir para o rastreio, o diagnóstico, a avaliação clínica ou monitoramento;
- pesquisar as respostas terapêuticas, em uma abordagem individual ou coletiva;
- ser aplicáveis globalmente ou em caso de doenças ou condições específicas ou conforme o nível de assistência; como por exemplo, alguns são desenhados para pacientes internados e gravemente enfermos, outros para pacientes ambulatoriais e com baixo nível de incapacidade; além de
- viabilizar a definição de estratégias que visam estimar, a partir das informações coletadas, a prevalência da incapacidade e as demandas de cuidado (327; 328).
se está medindo a saúde, o que significa este termo nesta escala (19)? Um instrumento de avaliação tem o seu conteúdo relacionado a uma base conceitual e, portanto, os resultados obtidos devem ser interpretados à luz da teoria subjacente (19). Da mesma forma, a primeira fase de construção de um instrumento de medida funcional para uso em idosos
ncional (19). Muitos instrumentos foram elaborados com base em c
comp
ito tempo
às lesões orgânicas com as suas conseqüências e não p
es mais u menos elaboradas, próprias do ser humano. Pode ser avaliada por meio de testes adronizados, independentemente de motivação, desejo, vontade ou finalidade da função
essita da integridade dos efetores comotores implicados nesta função;
- o desempenho propriamente dito: é a realização de uma função em situação ordiná
escolhas na vida. Termo muito utilizado em Gerontologia e difícil de ser aplicado na prática por se tratar de uma noção muito complexa e global, como a liberdade. Da mesma
a ausência de doença, a autonomia não é apenas a ausência de ependência física;
- a dependência: a pessoa que não consegue mais realizar as tarefas torna-se depen
consiste em nomear a realidade da incapacidade, apoiando-se em conceitos para identificar como os problemas de saúde, sociais e ambientais afetam a vida cotidiana destas pessoas (16).
Em razão da importância da funcionalidade para a saúde, houve uma proliferação de escalas de avaliação fu
onceitos como invalidez, aptidão, desempenho, autonomia, dependência e incapacidade. Estes são alguns dos termos que permeiam as escalas de avaliação e a
reensão das pessoas. Portanto, é necessário examiná-los (16):
- a invalidez: é o de uso mais antigo, inclusive no âmbito administrativo, e por mu foi o único a figurar nos textos legais. Embora sua utilização ainda aconteça, ela não se justifica, pela sua insuficiência em descrever os processos de readaptação, reabilitação e de reinserção dos indivíduos. Seus maiores limites residem no sincretismo:
a invalidez confunde o que está ligado ermite medir a incapacidade;
- a aptidão: é a capacidade do indivíduo para realizar um conjunto de funçõ o
p
considerada. Por exemplo, a aptidão para marcha nec lo
ria no contexto da vida cotidiana. Isto é, considerar o que a pessoa realmente faz na sua vida habitual;
- a autonomia: entendida como a capacidade de governar a si mesmo, de fazer
forma que a saúde não é d
dente de um terceiro para fazê-lo. Na avaliação funcional, considera-se apenas a dependência física ou instrumental, excluídas as dependências afetiva ou econômica;
- a incapacidade: relaciona-se com o fato de as pessoas idosas não estarem em condições de se manter em um modo de vida satisfatório, no seu contexto e de acordo com sua escolha, independentemente do diagnóstico e de sua etiologia. Pode ser quantificada, o que permite identificar diferentes graus de incapacidade funcional aos quais correspondem diferentes densidades de cuidados.
Para cada indivíduo, a maneira de viver a incapacidade é a resultante das alterações do estado de saúde (física ou mental), dos recursos pessoais (rede de
ossíveis para um questio
ários que exploram a capacidade funcional da pessoa idosa.
que todo sujeito "normal", independentemente do nível s
trumentos de medida nas diferentes situações e para as diferentes popula
a uma delas pode, ela mesma, ser explorada por uma ou múltiplas rubrica
se relações, apoio social, local de moradia, recursos econômicos) e do ambiente coletivo (habitat, serviços de saúde e sociais) (10; 16; 47).
Porém, os diferentes quadros conceituais possuem zonas de interface e a forma de abordá-las interfere na medida do evento. Por exemplo, para Robine et al (329): “Você cozinha ?” ou “Você pode cozinhar ?” são duas formulações p
nário sobre as tarefas domésticas, mas não são equivalentes. Se uma pessoa declara não cozinhar, isso pode significar que ela não tenha vontade ou que ela seja desobrigada de fazê-lo por outra razão (mora em instituição, é um homem casado que não tem este papel). Uma resposta positiva à segunda questão, por sua vez, não implica que a pessoa faça esta atividade na situação atual. Estas duas abordagens encontram-se em um grande número de question
Como lembram Colvez & Gardent (16), as medidas dependem das finalidades das medidas. Esta escolha fundamental define as qualidades metrológicas de um instrumento.
Além disso, ao medir a incapacidade (16), via de regra:
- abstrai-se qual era o nível anterior de desempenho (ou de capacidade) do indivíduo, partindo-se da hipótese de
ociocultural, deva ser capaz de realizar de uma certa maneira (por exemplo, sem ajuda) as atividades cotidianas indispensáveis para a sobrevivência. Isto pode ser um problema para os ins
ções idosas, pois eles deveriam ser capazes de apreciar a partir de qual grau um desvio da norma é sinônimo de incapacidade;
- é possível investigar a condição funcional em três níveis de profundidade. Por exemplo: a mobilidade, a comunicação, o auto-cuidado, são ditas dimensões ou primeira escala nominal. Cad
s: a incapacidade para subir escadas, ou para usar o telefone, que constituem as rubricas ou segunda escala nominal. Fala-se de terceira escala nominal quando a ferramenta explora os múltiplos pontos de vista para aquela ação; ou seja, ao
investi
ência de incapacidade até a incapa
ente”; “sim, muito dificilmente”; “não, é imposs
decisõ construído, ele precisa ser
aplicáv
válido, ou seja, se ele mede o que deve medir
gar a função vestir, pode-se avaliar o desempenho, a elegância, a adequação.
Essas três escalas estão imbricadas umas nas outras.
A partir de um dado ponto de vista, cada rubrica pode ser explorada de uma maneira hierarquizada, constituindo uma escala ordinal, isto é, que se organiza em uma determinada ordem e que se estende desde a aus
cidade grave: vestir-se sem dificuldade, com alguma dificuldade, muito dificilmente.
Para a mesma rubrica, outra escala ordinal poderia ser: “veste-se sozinho”, “com ajuda parcial”, “com ajuda total”. Para cada uma delas, o ponto de vista se exprime em termos de dificuldade: “sim, sem dificuldade”; “sim, dificilm
ível” (16).
A etapa seguinte seria a construção do indicador propriamente dito, em que ocorre a passagem do conjunto dos conceitos ao conjunto de números (escalas ordinais, cardinais, grandezas mensuráveis), isto é, transformar a rubrica “faz sozinho” em “faz sozinho=0”, e assim, sucessivamente: “com dificuldade=1”; “não consegue fazer=2” (16).
Todas estas preocupações visam favorecer a aceitação, bem como reduzir o tempo de aplicação e o custo da investigação. Por isso as questões de uma ferramenta de avaliação devem ser claras, sem ambigüidade, adaptadas às condições de utilização e redigidas de um modo compreensível para a população a ser avaliada (16).
Uma vez construído o instrumento, ele deve ser validado. Um dos objetivos da validação é julgar até que ponto o instrumento é confiável para orientar a tomada de
es: afinal, não basta que ele seja tecnicamente bem el e confiável (16).