3.4 Do fechamento à (possível) abertura de oportunidades
3.4.1. Brechas e a construção do horizonte do possível
da força armada do regime de exceção, mas aquela investida na articulação entre o poder transformador da palavra e a força da organização autônoma dos sujeitos sociais; quer dizer, propriamente aquela que se condensava no conjunto de discursos e práticas que foram então constrangidos a sair do âmbito da visibilidade pública.
Assim, o horizonte de possibilidade de ação dos sujeitos se baseia, sobretudo, na confluência de três elementos: em primeiro lugar, um diagnóstico relativamente preciso da conjuntura, do cenário político e das forças sociais que os rodeiam; em segundo lugar, a identificação de possíveis brechas de atuação, diante do cenário adverso; finalmente, a construção dos horizontes do possível.
Com a perda de poder dos sindicatos e das associações de moradores locais, sobretudo nos anos 1990, o monopólio associativo na Zona Oeste parece ter se dissolvido. Nesse momento, os movimentos sociais poderiam ganhar força, o que não aconteceu nos bairros pesquisados, como evidencia o seu contexto atual. Se até a Constituinte de 1988, no Brasil, os movimentos de base se articulavam principalmente através dos sindicatos, dos partidos ou das associações de moradores e de bairros, há uma mudança importante no início dos anos 2000, sobretudo a partir do controle territorial exercido pelas milícias, modificando a semântica dos movimentos.
Na tentativa de entender o grau de abertura ou fechamento do acesso político a novos atores e a diminuição da capacidade estatal de reprimir (ou controlar) a dissidência, dois dos parâmetros das OP mais relevantes para este trabalho, cabe uma observação sobre um sistema político razoavelmente fechado aos seus desafiantes. Na Zona Oeste, os militantes buscam o diálogo com os – escassos, vale dizer – quadros políticos à esquerda, para melhoramentos concretos em sua vida, ou agem no extremo oposto, ou seja, trabalham a partir de um rechaço à toda institucionalidade. Nesse sentido, a política possível, observada na região, ignora o quão abertas estejam as estruturas, buscando construir formas de militância razoavelmente autônomas e fora dos canais existentes, como os partidos políticos e as associações de moradores.
Outro elemento importante se associa às fronteiras entre o público e o privado. Tendo em vista que as oportunidades são reduzidas e as estruturas repressivas mais ostensivas, a possibilidade de participação em atos políticos públicos na Zona Oeste também é limitada. A presença restringida no espaço público é, muitas vezes, lida como ausência de movimento.
Contudo, como bem mostram as teorias feministas, o privado também é político e aí residem uma brecha e um espaço importantes, embora menos visíveis, de ação política nos bairros da região.
Outra consequência da limitação das possibilidades de ação no espaço público se relaciona com o engajamento de militantes em redes mais amplas, principalmente aquelas dotadas de alguma institucionalidade. Nas duas gestões do governador do Rio de Janeiro Leonel Brizola, do Partido Democrático Brasileiro (PDT)100, de 1983 a 1986 e de 1991 a 1994, houve uma interrupção do (sempre atual) modelo remocionista das favelas para zonas mais afastadas, estabelecendo-se um diálogo mais profícuo entre as lideranças comunitárias e o governo, que teria aberto as portas para o recebimento de demandas históricas da população, abrindo também uma maior possibilidade de engajamento em causas coletivas e públicas sem um risco tão alto para os militantes locais.
Dentro da mesma perspectiva político-institucional, o prefeito Cesar Maia, em seu primeiro mandato, entre os anos de 1993 e 1996 101, iniciou um programa de obras denominado “Rio Cidade”102, que incluiu Campo Grande, além de implementar o Programa de Urbanização de Assentamentos Populares (PROAP). O PROAP teve como desdobramentos o programa Favela Bairro103 e a intervenção e regularização de loteamentos de grande porte, cujos impactos foram sentidos intensamente na Zona Oeste da cidade (ANDRADE, 1998). Embora menos fluida que no período anterior, a associação com a política institucional local, aberta por esse conjunto de iniciativas, também foi entendida como uma brecha por parte dos militantes.
O fenômeno da alta concentração de votos na região não é exclusivo apenas para prefeitos e governadores, mas também para deputados estaduais, como o deputado estadual Jorge Babú, por exemplo. Com uma votação expressiva nos bairros de Santa Cruz, Sepetiba, Guaratiba e Pedra de Guaratiba, em 2008, Babú foi denunciado pelo Ministério Público por formação de quadrilha e concussão, em função dos indícios da sua participação em uma
100 Os outros governadores, desde a Nova República, de 1985 até o presente, foram Marcello Alencar (1995- 1999), do PSDB; Anthony Garotinho (1999-2002), do PSB; Benedita da Silva (2002-2003), do PT; Rosinha Garotinho (2003 – 2007), do PSB; Sergio Cabral Filho (2007-2011 e 2011-2014), do PMDB, e o atual governador Luiz Fernando de Souza Pezão (2014-2018), também do PMDB. Em função de uma licença por problemas de saúde, o vice Francisco Dornelles, do PP, assumiu o governo interino em 2016.
101 Os outros prefeitos do Rio de Janeiro, desde a Nova República, foram Roberto Saturnino Braga – PDT – 1986, Jó Antonio Rezende, PDT – 1988; Marcello Alencar – PDT – 1989; Cesar Maia – PMDB-PFL, 1993 – 1996, Luiz Paulo Conde – PFL, 1997; Cesar Maia – PTB-DEM (2001 e 2004) e Eduardo Paes, PMDB (2009 e 2014-2018). [Sugiro padronizar a apresentação da info – datas e partido – como na nota anterior]
102 O Rio Cidade foi um programa de urbanização controverso, que consistiu em diversas intervenções urbanas pontuais, nas vias mais importantes dos principais bairros cariocas.
103 O Favela Bairro foi um programa de urbanização, implementado entre 1994 e 2008, cujas obras de infraestrutura, nas favelas cariocas, criaram um total 200.000 metros de novas redes de esgoto, além da implementação de 31 programas de saúde comunitária em diferentes bairros.
milícia na Zona Oeste, sendo expulso de seu partido, o Partido dos Trabalhadores (PT), no ano seguinte, e preso em 2010.
Essa presença ostensiva de vereadores, deputados estaduais e federais ativamente envolvidos com os grupos milicianos é notória na Zona Oeste, embora seja praticamente um tabu nas conversas com a população104. A justaposição entre políticos e milicianos, no cotidiano, encontra sua síntese em personagens como o Coronel Jairo, de Campo Grande, coronel da Polícia Militar105 e deputado estadual pelo Partido Social Cristão (PSC). Em seu primeiro mandato como deputado estadual, em 2002, envaideceu-se da construção da UEZO, inaugurada em 2005. Segundo o seu site, a universidade teria sido criada para formar trabalhadores para as indústrias que estão se instalando na região e para o Polo Gás-Químico de Duque de Caxias (Siqueira, 2013).
Assim, Corrêa (2011) chama a atenção para o expressivo número de candidatos, oriundos da Zona Oeste, cuja votação foi classificada como concentrada e que, além de concentrarem seus eleitores nesta região, apresentam algum grau de dominância sobre as áreas onde atuam. Além de Jorge Babú, o deputado estadual Natalino, do Partido Democratas (DEM), também foi preso por seu envolvimento com as milícias, em 2008. Outros deputados estaduais foram denunciados pelo envolvimento ativo em atividades ilícitas em Centros Sociais, como o Coronel Jairo, Marcelino D'Almeida, Dionisio Lins, Domingos Brazão e Pedro Fernandes Neto.
Essa ligação intrínseca de políticos locais com a milícia tem na figura da deputada estadual mais votada em 2010 (com 67.034 votos)106, Lúcia Helena Pinto de Barros, conhecida como Lucinha, o seu maior símbolo. Com seu reduto eleitoral em Santa Cruz e Campo Grande, Lucinha cumpriu quatro mandatos como vereadora, desde 1992. O dado alarmante é que tanto a deputada quanto seu filho, Junior da Lucinha, eleito vereador em 2012, possuem relação comprovada com as milícias locais. Thiago Pampolha, deputado
104 Se, em um primeiro momento, a milícia lançava candidaturas próprias aos cargos públicos, como no ano de 2008, quando conseguiu eleger os irmãos Jerominho (João Guimarães Filho) e Natalino José Guimarães a vereador e a deputado estadual, respectivamente, atualmente a milícia não se arrisca a lançar mais candidatos.
Ao invés disso, apenas apoia outros candidatos, para que seus negócios se mantenham e a sua exposição seja menor.
105 O Coronel Jairo é, atualmente, deputado estadual pelo PMDB e autor de leis cujo público alvo são os policiais militares, em sua maioria. Em seu website, ele destaca ter ajudado a trazer, para a Zona Oeste, as UPAs – Unidades de Pronto Atendimento, nos bairros de Bangu, Realengo, Vila Kennedy, Padre Miguel, Santa Cruz, Campo Grande, Senador Camará e Jardim Novo.
106 Fonte: ALERJ. Perfil dos Deputados. Disponível em:
http://www.alerj.rj.gov.br/common/deputado.asp?codigo=356#sthash.8Dwher3u.dpuf. Acesso em 14 julho 2015.
estadual pelo Partido Republicano Progressista (PRP), autodeclarado empresário e que, em seu primeiro mandato, recebeu 19.329 votos107, tem sua base de atuação política em Bangu e Santa Cruz e ligações investigadas com o grupo miliciano Liga da Justiça.
Contudo, é importante observar que as jornadas de junho de 2013 parecem ter permitido, como um de seus desdobramentos, uma abertura de novas oportunidades políticas, que implicaram, entre outras coisas, no rechaço do voto local às milícias. Com o espraiamento das mobilizações do centro para a Zona Oeste da cidade, talvez a possibilidade de questionar o que antes era inquestionável tenha se apresentado para os moradores. Assim, nas eleições de 2014, os candidatos apoiados por milicianos sofreram revezes importantes com o decréscimo substantivo dos seus quadros políticos, incluindo a não eleição do candidato Alex Beraldo, citado na CPI das milícias, no sub-bairro de Urucânia, em Santa Cruz, anteriormente seu reduto eleitoral108.
A relação entre a emergência de formatos associativos e a existência de condições político-institucionais relativamente favoráveis é essencial nesse sentido, uma vez que o clientelismo, que atravessa a região, implica em relações verticais que contrastam com as dinâmicas estabelecidas pelos movimentos sociais, relativamente horizontais. As oportunidades políticas, portanto, embora profundamente restringidas nesse contexto, requerem a identificação de brechas e a tessitura de associações político-institucionais. Essas não são, no entanto, as únicas alternativas encontradas pela militância em ambientes de alto risco. Vejamos.