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O coronelismo e as zonas cinzentas

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 114-117)

2.3 O Estado nas margens: atores, dinâmicas e representações

2.3.2 O coronelismo e as zonas cinzentas

iniciativa do capital e, para Das e Poole (2004), em locais nos quais o Estado redefine, continuamente, suas formas de governar.

A redefinição das formas de governar, nesses espaços, pode ser lida em uma chave que admite a violência como um instrumento de poder eficaz e como um traço distintivo do entendimento da população acerca da presença e da atuação do Estado nessas áreas. Os militantes entrevistados não parecem fugir à regra. Daniel, de Santa Cruz, a respeito de seu bairro, comenta: “é um lugar com muita falta de Estado, com questões de insegurança, dado as favelas serem consideradas perigosas. A educação também é precária, com as escolas sofrendo com as invasões do tráfico de drogas e da polícia”.

Nessa direção, a próxima seção aborda o coronelismo como uma categoria possível para o entendimento das relações estabelecidas em territórios às margens, como os examinados nesse trabalho.

O coronelismo, tal como apresentado por Carone (1971), está intimamente ligado ao fator geográfico e à formação de grandes propriedades, facilitada pelo processo histórico de expansão da coroa portuguesa através da concessão de sesmarias aos nobres, comerciantes ricos e militares. Um dos efeitos desse processo é a expansão dos latifúndios brasileiros concomitantemente à mínima ação estatal, facilitando a conformação de uma espécie de poder privado, arvorado no usufruto de atributos legais.

Importa sublinhar que, a despeito das profundas mudanças sociais, demográficas e econômicas, essa forma de relação permanece vigente em alguns contextos, alimentando-se dos efeitos da distribuição desigual de renda e do subsequente desamparo de quem necessita recorrer ao coronel, apresentado como o defensor dos sem direitos. O entendimento da esfera pública como extensão do domínio familiar é característico dessa organização, persistindo à medida que o poder estatal aumenta e entra em conflito com algumas de suas prerrogativas particularistas. Ilustrando esse argumento, Daniel, de Santa Cruz, na Zona Oeste carioca, um bairro caracterizado como uma transição entre o urbano e o rural, menciona: “a tradição é muito coronelista e personalista; lá é um lugar onde as pessoas se importam com os sobrenomes, com quem você é e o que você faz”.

Nesse sentido, a importância de quem você é manifesta a peculiaridade de uma estrutura do poder privado, ou seja, uma estrutura cooptada um poder residual que coexiste com um regime político de base representativa. Segundo Leal (2012), o coronelismo consiste em uma troca entre o poder público, progressivamente fortalecido, e a influência decadente de chefes locais, notadamente dos senhores de terras, dada sua relação direta com a estrutura agrária brasileira, sustentáculo dessas manifestações de poder privado que permanecem tão visíveis nas periferias e no interior do país. Assim, essa “rarefação do poder público” (LEAL, op.cit., p. 62) seria essencial para a ascensão dos coronéis, que fazem um uso instrumental do aparelho de Estado, apropriando-se de um grande número de suas funções, efetivando e legitimando a atuação de poderes privados.

Ademais, o coronelismo é entendido como um fenômeno de base local, embora também se projete nacionalmente, como afirma Leal (2012), ocorrendo, sobretudo, em municípios predominantemente rurais, dado que “o isolamento é fator importante na formação e manutenção do fenômeno” (ibid., p.230). No entanto, apesar de suas origens em territórios essencialmente rurais, as periferias urbanas também são ideais para a observação de situações análogas às práticas coronelistas.

Como relata Fernanda, de Guaratiba: “o coronel a gente sabe quem é. O cara te fala

‘olha eu trabalho pro coronel Tal’, agora a milícia você não sabe quem é, quem é o dono”.

Por sua vez, Fabio, de Realengo, fala da “privatização” das academias públicas da terceira idade por políticos locais: “é o feudo do vereador local, ali não privatizou ou terceirizou, mas politizou, fez a máquina ali dentro. Depois da eleição, uma vereadora foi feudalizando até as academias da terceira idade, e aí cada uma é de um vereador”.

Nesse sentido, Cleber, de Santa Cruz, menciona o desafio político, representado pelo coronelismo, para a militância: “pra toda essa região existe um desafio de se organizar politicamente que não seja pela via eleitoral e que não seja relacionada com o coronelismo, com as milícias”. Além disso, é flagrante a semelhança entre as práticas dos coronéis da Zona Oeste do Rio de Janeiro com os caciques locais em Guerrero, no México, como indica a fala de Inés, de San Luis Acátlan (tradução nossa): “aqui, pra tudo, você precisa saber com os interesses de que poderosos vai mexer, quem vai incomodar, eles são muito influentes”.

Em um lugar onde a tranquilidade e o medo se confundem, uma chave analítica possível para pensar a polissemia da violência local é a noção de zona cinza ou cinzenta, de Auyero (2007), na qual ocorrem uma série de relações clandestinas entre os atores políticos.

Inspirado por Guillermo O’Donnell, Javier Auyero observa regiões, no interior de Estados democráticos, onde a falta de capacidade estatal cria situações autoritárias, de forma que, embora a lei seja democrática, ela não alcançaria determinadas regiões. Configurar-se-ia uma área imprecisa e saturada de significações heterogêneas, incluindo, por exemplo, as forças policiais que não somente reprimem, mas que também são, muitas vezes, parte da organização criminal, como observado em Guerrero.

A noção de zona cinzenta, portanto, busca corrigir uma série de indistinções analíticas no entendimento da violência, derivadas do uso excessivo de categorias empíricas formuladas em/para contextos europeus e norte-americanos, que pressupõem os atores em posições absolutamente distintas no campo, malgrado a interação entre as elites políticas, os agentes de controle social e os militantes. Em vez de localizar espaços de exterioridade, a indistinção entre insurgentes e autoridades, dissidentes e atores estatais, posicionados em locais distintos do espectro social e político, como o “lado do protesto” e o “lado da repressão” (AUYERO, 2007), torna o cenário mais complexo.

Nessas zonas, as relações entre o legal e o ilegal e a emergência da violência como uma moeda de troca devem ser compreendidas de forma coextensiva, isto é, integrando a violência - considerada extraordinária, mas na realidade ordinária, por constituir o ambiente de determinadas regiões - ao estudo da normalidade política. Nessa fronteira analítica, os limites normativos se dissolvem e os atores estatais e as elites políticas promovem ou participam ativamente em produções de dano.

A violência e o vazio estatal, ou a zona cinzenta de O’Donnell e Auyero, estão diretamente relacionadas, na medida em que há atores que se aproveitam dessa seletividade estatal, que permite a exploração violenta de serviços públicos. A necessidade do uso da violência é abordada por Leal (2012, p.66), ao explicitar a justificativa do uso da força nas relações e práticas coronelistas:

Em certas circunstâncias, as ameaças e violências desempenham função primordial, porque semelhantes processos podem, por vezes, garantir o governo municipal à corrente local menos prestigiada. Mas a regra não é esta: a regra é o recurso simultâneo ao favor e ao porrete. Compreende-se isso perfeitamente, quando se considera que à situação dominante no Estado o que interessa é consolidar-se com o mínimo de violência.

A necessidade das mortes e de outras brutalidades em territórios às margens é justificada, principalmente, pela afirmação de um possível envolvimento dos sujeitos com o uso e/ou o tráfico de drogas. A violência admitida como um “mal necessário” (SIQUEIRA, 2013) mascara a reflexão sobre uma justificativa moral que tem, como pano de fundo, uma visão autoritária e violenta da ordem social. Assim, o silêncio consentido sobre os eventos violentos – reais ou potenciais –, tem a função de garantir a “segurança ontológica” dos moradores e a sua confiança na continuidade da rotina e na normalidade do fluxo de suas vidas (ROCHA, 2009).

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 114-117)