Ao imergir na literatura para melhor compreensão dos sujeitos vulneráveis em questão, a necessidade de refletir sobre o nomadismo se faz presente. Sobretudo, ao adentrar acerca de acontecimentos históricos sobre os processos migratórios de pessoas, esbarrando-se, por conseguinte, na questão da moradia. Conforme abordado no item 2, em breve incursão por alguns dos períodos como a Antiguidade, Idade Média, Moderna e Contemporânea, constata-se sobre a importância dos povos nômades na formação da Europa Oriental.
As invasões nômades vindas da Ásia Central varrem a Europa por sucessivas vezes, exercendo uma importante influência na História da Europa Oriental, sendo uma delas, a de que o impacto de tais invasões retardou de maneira significativa, a evolução interna das sociedades agrícolas (sedentárias). O chamado nomadismo pastoril representou um modo de produção distinto da agricultura feudal. Foi em diversos aspectos, uma exploração mais especializada e experiente do mundo natural do que a agricultura feudal, havendo registros históricos de formações sociais nômades12 politicamente superiores13 às sociedades sedentárias, na organização e no exercício do poder (ANDERSON, 1991).
A origem dos povos nômades pastoris está relacionada com a utilização de um determinado espaço (terra, solo), para fins de alimentação do gado. Em lugares como o deserto, a distribuição das chuvas é o que impulsiona a mobilidade do gado e do pasto. Geograficamente, o território precisa ser amplo e animais capazes de adaptação às condições climáticas (TERÁN, 1952). Todos os povos pastoris são em sua origem migratórios, e a sua subsistência vem dos rebanhos, sendo que “o que é apropriado e reproduzido aqui é apenas o rebanho e não o solo, que é sempre usado em comunhão temporária onde quer que a tribo divida suas andanças”.
(MARX, 1965, p. 89, tradução nossa)14. Dos animais, o homem nômade retira o que precisa para sobreviver:
O animal, com efeito, fornece ao nômade os recursos básicos de sua vida material. Você pode contar com ele para sua alimentação e para o
12 “As formações sociais nômades eram definidas pelo caráter móvel de seus meios básicos de produção: eram os rebanhos – e não a terra – que sempre haviam constituído a riqueza fundamental do pastoreio transumante e que articulavam a natureza de seu sistema de propriedade.
Assim, as sociedades nômades tipicamente combinavam a propriedade individual dos animais com a apropriação coletiva da terra. Os rebanhos pertenciam a famílias, e suas pastagens eram usufruto de clãs ou de tribos nômades. Além do mais, não é o caso de uma propriedade coletiva da terra: ela não era uma possessão fixa, ao contrário do que ocorre em uma sociedade agrícola, em que o solo é objeto de ocupação e cultivo permanentes.” (ANDERSON, 1991, p. 211-212).
13 O Império Mongol (1206 – 1368) é um caso extremo de “um território imperial maior que qualquer outro sistema de Estado singular – jamais havido antes ou depois.” (ANDERSON, 1991, p.
215). Única superpotência do mundo no século XIII, Chinggis Khan e seus herdeiros criaram o maior império contíguo do mundo, que no auge se estendeu da Coréia à Hungria. Os Chinggisids não apenas conquistaram toda a estepe da Eurásia, lar dos nômades, como uniram sob seu domínio três outras civilizações: a chinesa, islâmica e os cristãos ortodoxos (BIRAN, 2013).
14 Texto original: “What is appropriated and reproduced is here only the herd and not the soil, which is always used in temporary commonalty wherever the tribe breaks its wanderings.” (MARX, 1965, p. 89).
suprimento de matéria-prima necessária para a confecção de suas roupas, calçados e quarto. É o instrumento de transporte e combate. A dieta do nômade, mais do que a carne, só consumida nas grandes solenidades, consiste em leite, fresco, coalhado, fermentado, em forma de manteiga ou queijo.
Na Ásia, em comparação com os chineses e outros povos da civilização chinesa que, embora criem gado para trabalhar, não consomem seu leite, os nômades se distinguem por sua dieta eminentemente láctea. O nômade depende também do animal para o seu quarto, a tenda de pele, que nas suas muitas variantes é o tipo de casa perfeitamente adequado pela sua simplicidade e mobilidade para uma vida em perpétua mudança. É a mesma adaptação que revela seu mobiliário, constituído por alguns cestos e potes de metal, madeira ou barro e a tapeçaria como objeto de luxo, no qual o nômade expressa sua fantasia artística. (TERÁN, 1952, p. 10, tradução nossa)15.
Durante a Idade Média, constata-se que de razões diversas, como econômicas, políticas, religiosas, e de sobrevivência, o nomadismo incessante envolveu diversas camadas da sociedade. Cita-se o exemplo das cruzadas, que além das motivações religiosas, os historiadores apontam “[...] uma inegável sede de outro lugar [...] E sabe-se que se os sucessos militares foram mais do que fracos, o contato com outras civilizações fascinou boa parte da nobreza europeia.”
(MAFFESOLI, 1999, p.132)16. No extremo oposto da escalada social, a avidez por outros lugares, por outras terras e destinos, durante a Idade Média, também é encontrada em camadas mais pobres. Assim é descrita a vida cotidiana de uma
15 Texto original: “El animal, en efecto, proporciona al nómada los recursos básicos de su vida material. Con él cuenta para su alimentación y para el aprovisionamiento de las materias primas necesarias para la confección de su vestido, calzado y habitación. Es el instrumento de transporte y combate. La alimentación del nómada, más que en la carne, sólo consumida en las grandes solemnidades, consiste en la leche, fresca, cuajada, fermentada, en forma de mantequilla o de queso.
En Asia, frente a los chinos y otros pueblos de civilización china que, aunque crían el ganado para el trabajo, no consumen su leche, los nómadas se distinguen por la alimentación eminentemente láctea. Del animal depende también el nómada para su habitación, la tienda hecha de piel, que en sus muchas variantes es el tipo de casa perfectamente conveniente por su sencillez y movilidad para una vida de perpetua mudanza. Es la misma adaptación que revela su mobiliario, consistente en algunas cestas y vasijas de metal, madera o barro y del tapiz como objeto de lujo, en el cual el nómada da expresión a su fantasía artística.” (TERÁN, 1952, p. 10).
16 Texto original: “[...] una innegable sed por otro lugar [...] Y se sabe que si los éxitos militares fueron más que débiles, el contacto con otras civilizaciones fascinó a buena parte de la nobleza europea.” (MAFFESOLI, 1999, p.132)
aldeia herege nos Pirineus17, reconstituída com base nos interrogatórios inquisitoriais:
Mas já conseguimos formar alguma impressão da vida dessas pessoas.
Aqui, estamos principalmente preocupados com os pastores iterativos que se moviam pelo país. Eles formaram um semiproletariado nômade rural, sem eira nem beira, mas com suas próprias tradições, seu próprio orgulho e suas próprias concepções especiais de liberdade e destino nas montanhas. Eles contribuíram, temporária e permanentemente, para a grande onda de emigração dos Pirineus que gradualmente fluiu para as terras baixas, especialmente para a Espanha. (LE ROY LADURIE, 2013, Não paginado, tradução nossa, grifo nosso)18
O nomadismo medieval, além de ter uma necessidade determinada pela economia, ou mesmo pela simples funcionalidade, tem como motivação, a priori, o desejo de escapar, uma espécie de impulso migratório. Alguns hábitos ou particularidades deste período, apontam para tal sentido, sendo alguns deles: os domicílios abertos diretamente para a rua, os banheiros mistos e coletivos, onde homens e mulheres usam os mesmos espaços, a instabilidade de casais, ou a peregrinação de crianças em idade escolar. Ou seja, há uma prevalência do móvel, do não estabelecido. Assim, não há estabilidade ou delimitação precisa e funcional em temas como sexo, moradia, educação, trabalho, apresentando-se como forte característica o ambíguo polissêmico, abertura à aventura e ao que nela existe de indeciso, arriscado, imprevisível (MAFFESOLI, 1999).
As Grandes Navegações, ocorridas a partir do século XV, período de exploração e navegação pelo Oceano Atlântico, tiveram nos portugueses os seus precursores. O vasto império construído por Portugal é testemunho do espírito aventureiro do povo português, atraído pelo longínquo (MAFFESOLI, 1999), tendo à
17 “A Cordilheira dos Pirinéus, frequentemente designada simplesmente por Pirinéus, é uma cordilheira montanhosa orientada no sentido Oeste-Este, que se localiza no Sudoeste da Europa [...]
fazendo uma fronteira natural entre o Norte da Península Ibérica e o Sul de França. Esta cordilheira abrange três países distintos que são a Espanha, Andorra e França.” (GONÇALVES, MARÇAL, ROMÃO, 2014, p. [1]).
18 Texto original: “But we have already been able to form some impression of the lives of these people. Here we are chiefly concerned with the iterant shepherds who moved about the country. They formed a rural nomad semi-proletariat, without hearth or home but with their own traditions, their own pride and their own special conceptions of mountain liberty and fate. They contributed, both temporarily and permanently, to the great wave of Pyrenean emigration which gradually flowed towards the lowlands, especially towards Spain.” (LE ROY LADURIE, 2013, Não paginado)
sua frente um Oceano a ser percorrido, rotas comerciais a serem exploradas. Freire (2003) discorre sobre a influência portuguesa na formação do povo brasileiro, e da própria influência sofrida pelos portugueses por povos de origem semita19:
[...] um dos quais a presença, entre os elementos que se juntaram para formar a nação portuguesa, dos de origem ou estoque semita gente de uma mobilidade, de uma plasticidade, de uma adaptabilidade tanto social como física que facilmente se surpreendem no português navegador e cosmopolita do século XV. Hereditariamente predisposto à vida nos trópicos por um longo habitat tropical, o elemento semita, móvel e adaptável como nenhum outro, terá dado ao colonizador português do Brasil algumas das suas principais condições físicas e psíquicas de êxito e de resistência. [...]
A mobilidade foi um dos segredos da vitória portuguesa; sem ela não se explicaria ter um Portugal quase sem gente, um pessoalzinho, ralo, insignificante em número - sobejo de quanta epidemia, fome e sobretudo guerra afligiu a Península na Idade Média - conseguido salpicar virilmente do seu resto de sangue e de cultura populações tão diversas e a tão grandes distâncias umas das outras: na Ásia, na África, na América, em numerosas ilhas e arquipélagos. A escassez de capital homem, supriram-na os portugueses com extremos de mobilidade e miscibilidade [...].
(FREIRE, 2003, p. 69-70, grifo nosso).
Na obra Casa Grande & Senzala, Freyre (2003) afirma que os índios, por serem povos que viviam a prática do nomadismo, eram acostumados à vida dispersa. A cultura à época da chegada dos portugueses era a nômade, a das florestas, não sendo ainda agrícola. O autor argumenta que, ao serem incorporados ao sistema econômico do colonizador, os índios sofreram bruscamente com a passagem do nomadismo ao sedentarismo.
Muito embora Freyre (2003) tenha sido criticado20 por apresentar uma visão equivocada e não realista sobre a formação do povo brasileiro, apontado por
19 “Semitas são todos os povos falantes de línguas semíticas como o arábico e o hebraico, e que originalmente se espalharam por vastas áreas do Sudoeste Asiático, Médio Oriente e Norte de África.” (AMORIM, 2003, p. 2). O termo “semita” foi dado pelo historiador alemão August Ludwig von Schloezer, em 1781, aos hebreus, arameus, árabes e abissínios, cujas línguas são aparentadas entre si. Na história bíblica, fundamenta-se em Sem, descendente de Noé, segundo o livro Gênese (GUÉRIOS, 1987). Para Samu (2011), o termo que melhor se adequa, em português, para designar árabes e hebreus é semitas. Já o termo “árabe” surge na história com o rei da Assíria, Shalmaneser III (reinado entre 859 a. C a 824 a. C), e cujo provável significado, na visão do rei, estaria em relacionar os árabes à atividade nômade.
20 Cunha Junior (2013) menciona alguns críticos de Casa Grande & Senzala, como os acadêmicos: Kabengele Munanga (2006), em “Repensando a mestiçagem”; Dante Moreira Leite (1969) com “O caráter nacional brasileiro. História de uma ideologia”; Carlos Guilherme Mota (2008),
“Ideologia da cultura brasileira”; e Silvia Cortez Silva (2010) na obra “Tempos de Casa-Grande (1930-
apresentar ideias eurocêntricas e racistas, colocando o europeu na posição civilizatória e culturalmente superior (CUNHA JUNIOR, 2013), interessa a esta pesquisa, a abordagem freyriana sobre o “índio movediço”. Ou seja, a ideia do nomadismo presente na história. A obra menciona ainda sobre condições de habitação e trabalho forçado à época da colonização do Brasil, temas de relevância para o presente estudo.
Sem a pretensão de esgotar o tema sobre nomadismo, o breve resgate histórico dá uma ideia de que há muito ele se faz presente na história da humanidade. E poder investigar minimamente essa presença na humanidade, ajuda a melhor compreendê-lo em situações na contemporaneidade, e no âmbito desta pesquisa. O nomadismo apresenta nuances, ou dimensionalidades, o que será, também brevemente, tratado na seção 2.2, com tipos de nomadismo identificados durante a realização desta pesquisa. Assim, a compreensão de que a prática nômade não tem uma concepção binária, onde os nômades praticam a mobilidade contínua, sem parar, e os não nômades, devendo parar, sem mobilidades (JAMES, SOUTHERN, 2019), fica facilitada.
É, contudo, cada vez mais urgente voltar o olhar para o nomadismo contemporâneo, segundo Justo (2008), um fenômeno complexo, porque rompe com o sedentarismo vulnerável, e mergulha no nomadismo avassalador, em condições de vida permeadas por incertezas, fragmentadas e de flutuação identitária. Os nômades contemporâneos, como os trecheiros ou andarilhos de estrada, “[...] vivem de maneira rudimentar pelos acostamentos das rodovias e radicalizam ao extremo essa condição de vida intermediada pelo desemprego, por miséria e incertezas que assolam a sociedade.” (NASCIMENTO, 2008, p. 19).
Em todo o mundo ainda é possível se identificar alguns povos nômades, como os Beduínos (desertos do Oriente Médio e do Norte da África), os Tuaregues (região saariana do norte da África), os Sámi (norte da Noruega, Suécia e Finlândia), dentre outros (IMAGENS..., 2021), que representam o nomadismo como uma
1940)”. Moura (1988, p. 20) critica Gilberto Freyre por colocar a escravidão no Brasil com o sentido de senhores bondosos e escravos submissos, em uma relação de harmonia, o que aponta “[...] tentativa sistemática e deliberadamente bem montada e inteligentemente arquitetada para interpretar as contradições estruturais do escravismo como simples episódio epidérmico, sem importância [...]”.
cultura, um modo de vida de um povo21. Contudo, a realidade que se vê pelas cidades do Brasil – como Campo Grande, MS - e do mundo, são massas de pessoas vagando a esmo, tentando fugir, alcançar algo; se em tempos passados os nômades eram impelidos a encontrar um melhor lugar para o seu gado se alimentar, ou cruzando mares e oceanos, atualmente, o nomadismo parece ser guiado por uma bússola: a da exclusão e a do medo. Medo da fome, medo do frio, medo de uma noite mal dormida nas calçadas de uma rua, como é o caso das pessoas em situação de rua, invisibilizadas, afetadas em seus direitos e desprovidos de cidadania, comumente sem acesso às informações que podem diminuir, ao menos um pouco, a distância entre a invisibilidade e a condição de cidadão a que todos têm direito. Assim, procurando avançar um pouco sobre o nomadismo, é possível nomear alguns tipos de nomadismos apresentados na seção 2.2.