cultura, um modo de vida de um povo21. Contudo, a realidade que se vê pelas cidades do Brasil – como Campo Grande, MS - e do mundo, são massas de pessoas vagando a esmo, tentando fugir, alcançar algo; se em tempos passados os nômades eram impelidos a encontrar um melhor lugar para o seu gado se alimentar, ou cruzando mares e oceanos, atualmente, o nomadismo parece ser guiado por uma bússola: a da exclusão e a do medo. Medo da fome, medo do frio, medo de uma noite mal dormida nas calçadas de uma rua, como é o caso das pessoas em situação de rua, invisibilizadas, afetadas em seus direitos e desprovidos de cidadania, comumente sem acesso às informações que podem diminuir, ao menos um pouco, a distância entre a invisibilidade e a condição de cidadão a que todos têm direito. Assim, procurando avançar um pouco sobre o nomadismo, é possível nomear alguns tipos de nomadismos apresentados na seção 2.2.
O termo 'nomadismo' [...] indica um estilo de vida ligado à criação de animais, que, ao mesmo tempo, implica um movimento no espaço. Esta última nuance de significado tomou conta da primeira, de modo que o termo nomadismo hoje significa, por extensão, qualquer forma de existência social que envolva movimentos periódicos necessários à sobrevivência e reprodução do grupo humano. Portanto, se se trata de grupos que vivem da coleta de plantas silvestres e / ou da captura de caça; que praticam a reprodução movendo periodicamente rebanhos de animais domesticados;
ou quem, finalmente, leva uma vida 'móvel' apenas parcialmente voltada para a reconstrução das bases materiais da existência, estamos em todos os casos na presença do fenômeno do nomadismo. Nesse sentido, tanto as formas quanto os papéis estruturais assumidos pelo nomadismo na história humana são múltiplos e dizem respeito a grupos muito diversos do ponto de vista da organização econômica, política e social em geral. Hoje em dia, o termo nomadismo se refere tanto ao estilo de vida dos últimos caçadores- coletores das florestas tropicais e áreas desérticas do planeta, quanto ao das comunidades de pastores norte-africanos e asiáticos, mas também a grupos geralmente chamados de 'peripatéticos', ' grupos de desabrigados, como ciganos asiáticos e europeus, e 'errantes' e 'vagabundos' presentes em quase todo o mundo. (NOMADISMO, 1996, on-line, tradução nossa22).
As aproximações distorcidas entre a figura do nômade com a do vagabundo, como já anteriormente colocado, tem uma dimensão histórica, pois ainda hoje, grupos como os andarilhos, trecheiros, em situação de rua são vistos como desocupados, incapazes, fracassados, perigosos, dentre outros adjetivos carregados de julgamentos, e que além de não colaborar para a melhoria da realidade dessas pessoas, parece criar um abismo entre tais vulneráveis e o restante da sociedade. Compreende-se que entre os diversos grupos e tipos de nomadismo o elemento errância está presente, seja ela compulsória, seja ela
22 Texto original: “Il termine 'nomadismo', come si desume dalla sua etimologia (dal greco νέμειν, pascolare), indica uno stile di vita legato all'allevamento degli animali, che, al tempo stesso, comporta un movimento nello spazio. Quest'ultima sfumatura di significato ha preso il sopravvento sulla prima, sicché con il termine nomadismo si intende oggi, per estensione, qualunque forma di esistenza sociale che implichi spostamenti periodici necessari alla sopravvivenza e alla riproduzione del gruppo umano. Che si tratti pertanto di gruppi che vivono della raccolta di vegetali selvatici e/o della cattura di selvaggina; che praticano l'allevamento mediante lo spostamento periodico delle greggi di animali addomesticati; o che, infine, conducono una vita 'mobile' solo parzialmente finalizzata alla ricostruzione delle basi materiali dell'esistenza, ci troviamo in tutti i casi in presenza del fenomeno del nomadismo. In questo senso, tanto le forme quanto i ruoli strutturali assunti dal nomadismo all'interno della storia umana sono molteplici e riguardano gruppi molto diversi dal punto di vista dell'organizzazione economica, politica e sociale in genere. Al giorno d'oggi il termine nomadismo è riferibile tanto allo stile di vita degli ultimi cacciatori-raccoglitori delle foreste pluviali e delle aree desertiche del pianeta, quanto a quello delle comunità di pastori nordafricani e asiatici, ma anche dei gruppi generalmente chiamati 'peripatetici', gruppi 'senza fissa dimora' come gli Zingari asiatici ed europei, e i 'girovaghi' e 'vagabondi' presenti un po' ovunque nel mondo.” (FABIETTI, 1996, on-line).
espontânea23. Assim, tem-se a compreensão de errância ou práticas nômades em sentido abrangente ou numa visão holística, sendo:
A errância, entendida como deslocamentos constantes de espaços fixos e estáveis, é um fenômeno bastante antigo incrustado na história do ser humano. Tomada em sua radicalidade, a errância significa uma movimentação constante, sem parada, sem rumo certo, sem destino e objetivo definidos. Pode referir-se ao plano intelectual – vagar pelas ideias ou delírios; a espaços geográficos e socioculturais – viajar pelo mundo; ao plano afetivo – transitar pelo mundo das paixões; ao mundo informatizado da comunicação – navegar pela Internet. (JUSTO, 2011, p. 19)
Na perspectiva de Justo (2011), a errância pode alcançar diferentes dimensões, passando pelo plano intelectual, afetivo, transitando por espaços geográficos e socioculturais, e pela comunicação informatizada. Neste sentido, abre- se um parêntese trazendo à memória e associando o mundo informatizado da comunicação às ideias inspiradoras do matemático e físico Vannevar Bush, que de acordo com Araújo (2014), no artigo As we may think (1945) identificou o problema da explosão informacional, e propôs a automatização dos processos de recuperação, imaginando o MEMEX (memory extension), um dispositivo de recuperação hipotético, como uma extensão automatizada para a memória do indivíduo (ELLIS, 1991). De acordo com o mesmo autor, o filósofo e sociólogo Ted Nelson cunhou o termo ‘hipertexto’ inspirado na descrição de MEMEX de Bush, como uma série de trilhas de conexões e associações entre itens, numa referência ao texto não linear que seria inconveniente de ser produzido ou representado no papel. Contudo, Douglas Engelbart24 foi quem desenvolveu o primeiro sistema operacional de hipertexto no início da década de 1960.
23 No entendimento desta pesquisadora, a errância compulsória tem origem ou é motivada por alguma situação de ordem sociopolítico-econômica, e a errância espontânea tem motivação pessoal, baseada em um estilo de vida, em que a liberdade parece ser a mola propulsora.
24 Engenheiro, inventor, um dos pioneiros da computação e da internet (1905-2013). De acordo com Bardini (2000), pouco conhecido fora da indústria de informática, e embora figura central do projeto Augmentation of Human Intelect, é lembrado por alguns apenas como o criador do mouse ou por inovações tecnológicas como o processador de contorno, o sistema de correio eletrônico, e às vezes, a interface do usuário em janelas. Apesar de serem inovações importantes e difundidas em ambientes de trabalho ou em espaço de diversão das pessoas, nunca recebeu créditos pela sua maior contribuição, que foi trabalhar para criar uma estrutura integradora e abrangente que une os aspectos tecnológicos e sociais da tecnologia de computação pessoal. Ao lado de outros inovadores ajudou a criar as condições simbólicas e materiais que prescrevem as possibilidades e os limites da tecnologia para os usuários de tecnologia de computador pessoal hoje.
Assim, sob a ótica de um mundo informatizado, o tecno-nomadismo é um conceito trabalhado por Howard e Küpers (2015), levando em conta que na era global dos sistemas de comunicação em rede, e em virtude das tecnologias móveis que promove um mundo cada vez mais interconectado, as pessoas podem se mover por muitos lugares e horários, simultaneamente. O estar no mundo é um evento nômade que ocorre aqui, ali e em vários lugares. São formas de vida tecnológicas móveis e interlocalizadas. Os autores afirmam que:
Emolduradas pelo ambiente móvel e tecnológico da era da informação, as práticas contemporâneas de mídia revelam novas maneiras de viajar, habitar e, em última análise, estar no mundo. Ao examinar certas práticas tecnológicas, narrativas e dinâmicas relacionais de viajantes hipermóveis, exploramos as reconfigurações de lugar, espaço e tempo e como os sujeitos estão situados na era da tecnologia móvel e da mobilização.
(HOWARD; KÜPERS, 2015, p. 3, tradução nossa)25.
O ciberespaço, mais do que um lugar, configura-se como um conjunto de relações sociais mediadas por fluxos tecnológicos de informação. A circulação do dinheiro no ciberespaço, como exemplo, mostra uma face da modernidade que está intimamente relacionada com tal configuração, mas que “[...] é desigualmente distribuída através do mundo, em termos de acesso e participação.” (BRAIDOTTI, 2002, p.1). Como exemplo dessa desigualdade, aqui no Brasil, no primeiro ano da pandemia, as pessoas em situação de rua tiveram dificuldades para receber o auxílio emergencial, já que lhes foi exigido a posse de um celular e conexão com a internet para solicitar tal recurso federal, conforme descrito por Brito e Lopes (2021), a saber:
Impor condições, como a necessidade de celular para baixar aplicativo de banco, para dar prosseguimento ao processo não é algo razoável. A grande maioria dessas pessoas não possui o aparelho ou acesso a uma rede de internet. Há também a vergonha e constrangimento de enfrentar uma fila de banco por medo da rejeição e descaso com que são tratadas. Ademais, muitas delas, sequer terão acesso a tal informação. Como saída, proposta pelo governo federal, fez-se uma parceria com os Correios para auxiliar quem não tem acesso ou familiaridade com as novas tecnologias. Acontece que tal ação teve início apenas em junho de 2020, três meses após o início da pandemia no Brasil. Como forma de amenizar o problema, os deputados
25 Texto original: “Enmarcadas por el entorno móvil y tecnológico de la era de la información, las prácticas de los medios de comunicación contemporáneos revelan nuevos modos de viajar-en , habitaren y finalmente estar-en-el-mundo. Al examinar ciertas prácticas tecnológicas, narrativas y dinámicas relacionales de los viajeros hiper-móviles, exploramos las reconfiguraciones del lugar, espacio y tiempo y cómo se sitúan los sujetos en la era de la tecnología móvil y la movilización.”
HOWARD; KÜPERS, 2015, p. 3).
aprovaram o Projeto de Lei 3930/20 que ampliou o prazo para o trabalhador em situação de rua requerer o auxílio emergencial de que trata a Lei n°
13.982, de 2020, até 30 de setembro de 2020. (BRITO; LOPES, 2021, p.228).
Ao abordar sobre a experiência tecno-nômade, Grimaldos e Trachana (2020) apresentam a figura do neo-urbanista, caracterizando-o pela alta mobilidade e conversão digital. O neo-urbano, chamado de tecno-nômade, pode ser representado pelo viajante, turista, migrante, nômade global que está aqui hoje e amanhã pode estar em outro lugar, ou nômade urbano que constantemente cruza a cidade de um lugar para outro, ocupando provisoriamente os espaços. A figura do pedestre nativo urbano, por sua vez, tem sido afastada da realidade territorial e sequestrado pelo crescente e sedutor mundo virtual. Assim o neo-urbano configura-se como uma junção e mistura do turista, do nativo e do migrante que trocam costumes e difundem modus vivendi, conforme ilustrado pela Figura 1. Para os autores, todos são tecno-nômades, inclusive o imigrante e o asilado ou refugiado, o trabalhador precário e itinerante.
A grande dificuldade que se percebe de imediato, da tão grande mobilidade humana de grupos como os refugiados, subempregados, itinerantes, dentre outros grupos em situação de vulnerabilidade social, são as fileiras de grandes massas humanas com dificuldades de moradia26, de elevado valor, e crescentes no mundo inteiro, sobretudo no Brasil, o país de interesse desta pesquisa. Para Grimaldos e Trachana (2020, p. 25, tradução nossa) “ Somos, de fato, a população mais móvel de toda a história da humanidade [...] tão extremamente móvel, tecnologicamente avançada e interligada [...]27.”
26 A falta de moradia e a família ausente, como em casos de jovens refugiados e outras situações de vulnerabilidade social e habitacional, estão dando lugar e promovendo o surgimento de espaços novos de produção e troca social como o co-working, o co-living e o crowdfunding (GRIMALDOS; TRACHANA, 2020). O co-living, por exemplo, configura-se como tipo de moradia compartilhada, muitas vezes emergindo em resposta a condições econômicas cada vez mais precárias. É um artefato de mudanças nas condições econômicas, um exemplo de como a precariedade deixa marcas espaciais nas paisagens urbanas (BERGAN; GORMAN-MURRAY;
POWER, 2020).
27 Texto original: “Somos, de hecho, la población más móvil de toda la historia de la humanidade [...] tan extremadamente móvil, tecnológicamente avanzada e interconectada [...].”
(GRIMALDOS; TRACHANA, 2020, p. 25).
Figura 1 - Neo-urbanismo
Fonte: iStock (2021)
Ainda na esfera tecnológica, Attali (1993) menciona o nomadismo high-tech, pela possibilidade de as pessoas estarem cada vez mais cercadas por objetos portáteis. Em seu artigo28, o autor apresenta a sua compreensão dos seres humanos como nômades potenciais, e convida o leitor a pensar no nomadismo e na liberdade como aposta do futuro. Para o mesmo, o tempo não deve ser entendido como algo unidimensional, e o compartilhamento do universo, deve ser multiforme, propiciando às pessoas:
[...] exercer sua cidadania em diversos momentos em diferentes lugares e ter regalias múltiplas; um futuro no qual o fato de pertencer a uma comunidade não se chocará com o dever em relação a outra e não a ameaçará em nada; antes será fonte de riqueza e de desenvolvimento, em que a duração se fará no movimento e não no enraizamento. (ATTALI, 1993, p. 181).
28 À época em que o artigo foi publicado, se falava em “uma nova cidade” - artefatos desenvolvidos sempre em relação às redes técnicas (ciberespaço) e sociais (as diversas formas de sociabilidade on-line). “Vários exemplos dessa nova cidade estão a nossa volta: home banking, celulares, pagers, palms, votação eletrônica, imposto de renda on-line, shopping on-line, governo eletrônico, telecentros e as diversas redes de satélites, fibra óptica, telefonia fixa e móvel [...]
Participar, ser cidadão hoje, é estar conectado.” (LEMOS, 2004, p.20).
Em relação a nomadismos ancorados em tecnologias, quando se pensa em pessoas que possuem acessos limitantes ou inexistentes a elas, o que se observa é um abismo cada vez maior entre tal parcela da sociedade e o acesso à informação, para a construção ou fortalecimento de sua cidadania. Enquanto alguns podem escolher de onde querem trabalhar remotamente, outros só precisam de um emprego para sobreviver. A afirmação de que “sem-teto, são nômades que não viajam” (BRAIDOTTI, 2002, p.14) pode ser pensada no sentido de que por mais
“mobilidade urbana” que precisam vivenciar para poder sobreviver, por algumas horas, a ideia positiva de viagem não lhes é oportunizada. Seja fisicamente por falta de recursos econômicos, seja virtualmente, na impossibilidade do acesso às tecnologias. A afirmação da autora refere-se ao aparente paradoxo de sem tetos vivendo em aeroportos como os de Nova York29, locais comumente associados a status.
Na seara do campo científico, especialistas debatem acerca da “fuga dos cérebros” (talentos), do nomadismo científico e das “diásporas científicas”, expressões usadas para designar o mesmo fenômeno. A Investigação sobre migração internacional de intelectuais e tecnólogos levanta questionamentos sobre os que definem as políticas de gestão da pesquisa e desenvolvimento, e que acabam por repelir mão de obra especializada e qualificada. Assim, caracteriza-se uma desvalorização dessas pessoas, assim como dos conhecimentos que geram. A
"fuga de cérebros" baseia-se em noções macroeconômicas, visto haver a perda de capital econômico, social e humano, gerando impacto no futuro dos países, visto não haver o aproveitamento do conhecimento gerado por esses cientistas e tecnólogos altamente qualificados. Tal mobilidade é consequência da precariedade das condições de trabalho para inovar em ciência e tecnologia, do desejo desses cientistas e estudiosos em optar por locais na qual o trabalho intelectual seja melhor
29 Os aeroportos são mini cidades, em que as pessoas em sem ter onde morar, encontram comida, água, banheiros e abrigo. Nos Estados Unidos e na Europa há tempos funcionam como abrigo para desabrigados. A partir da década de 1980, aparecem as primeiras histórias de pessoas sem-teto vivendo em aeroportos dos Estados Unidos, tendo como pano de fundo, cortes no orçamento federal, a desinstitucionalização dos doentes mentais e a gentrificação, o que levou a um grande aumento de pessoas sem ter onde morar (BEDNAREK, 2021). No Brasil, também há relatos de pessoas vivendo há anos em aeroportos, como o caso de um rapaz de 32 anos, há 15 no Aeroporto de Guarulhos (MARTÍN, 2015).
reconhecido, bem como a consciência de que os meios eletrônicos proporcionam a conexão entre comunidades virtuais. O termo “fuga de cérebros” (brain drain) foi usado pela primeira vez pela Academia Britânica de Ciências (British Royal Society) para descrever o fluxo de cientistas britânicos para os Estados Unidos nas décadas de 50 e 60 (TIGAU, 2010).
A crise sanitária ocasionada pela pandemia da COVID-19 tem impactado vidas e carreiras de cientistas no mundo inteiro30. No Brasil, a situação é ainda agravada pela falta de investimentos em pesquisas já desde antes da pandemia. Em 2019, por exemplo, pesquisas apontam uma realidade de subocupação entre os recém-saídos da universidade, bem como a superação do número de desempregados com mestrado, em comparação com o desemprego geral da população brasileira. A instabilidade política e a falta de recursos levam à fuga de cientistas para fora do Brasil (DIEGUEZ, 2021).
Há que se considerar ainda a distinção entre o nômade, o migrante e o exilado, figurações comumente comparadas. O migrante tem um itinerário clássico que inclui lugares fixos, e o movimento da “casa” (ou seja, do seu país) para os
“países anfitriões”. O exilado tem a marca da separação radical, assim como a impossibilidade de retorno ao ponto de partida, que é o seu país de origem. Não conhece as idas e voltas de dois lugares comparativamente fixados. O nômade, por sua vez, renuncia e desconstrói qualquer senso de identidade fixa. O estilo nômade tem relação com transições e passagens, sem destinos pré-determinados ou terras natais perdidas, tem um senso aguçado de território, mas não de sua posse (BRAIDOTTI, 2000, 2002).
Por sua vez, a diferença entre trecheiros e pessoas em situação de rua reside no grau de deambulação ou de vaguear. Os trecheiros, em geral, permanecem por um período em determinada cidade, mas após, são compelidos a continuarem a
30 Um estudo divulgado pela Nature (2021a, 2021b) aborda acerca da repercussão da pandemia na carreira de cientistas ao redor do mundo. Os resultados apontam que a COVID-19 tem interrompido carreiras científicas em todo o mundo, e que, enquanto gerações anteriores a 2020 enfrentaram consequências da crise financeira global e um impulso das economias emergentes, atualmente a pandemia e as preocupações com a diversidade dominam.
caminhada, seja a pé, seja de ônibus, com passagens concedidas por programas de assistência. As pessoas em situação de rua costumam permanecer por longo tempo em determinados lugares ou pontos da cidade, normalmente sendo de lá retiradas mediante situações de pressão ou repressão (FREITAS, 2014). Concordando com Justo et al. (2013), os trecheiros são considerados pessoas em situação de rua, contudo, com práticas distintas de outros nomadismos.
Levando em consideração que o nomadismo tem relação com subjetividades nômades, a literatura apresentada aponta que algumas delas são conscientes, outras no entanto, por questões múltiplas de vulnerabilidades, são levadas a ele.
Constata-se que entre as pessoas em situação de rua - seja pelo agravamento da crise sanitária, razões econômicas ou de naturezas diversas – existem refugiados, migrantes, andarilhos, pessoas com problemas de alcoolismo, transtornos mentais, escolarizadas, sem histórico de passagens pela escola, adultos, crianças, velhos e jovens, homens e mulheres, dentre outras, caracterizando-se como heterogênea.
Por serem os sujeitos foco desta pesquisa, na seção 2.3 é apresentado um panorama dessa população no Brasil.