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As implicações voltadas à questão das necessidades informacionais da população em situação de rua, voltam-se para como percebem a necessidade de informação, quais as formas de acesso e uso que fazem da informação sob a ótica da competência em informação e suas inter-relações. Nesse sentido, acredita-se ser importante corroborar com a melhor compreensão desse contexto a fim de construir conhecimentos individuais que se transformem, por conseguinte, em conhecimentos coletivos em torno da necessidade de busca e uso inteligente da informação para a utilização estratégica dessa população como forma de inclusão e de aprendizado

contínuo, reduzindo os níveis de vulnerabilidade na sociedade contemporânea. Tal cenário descreve a problemática da pesquisa em foco.

Destarte, tem-se, portanto, como questão central desta pesquisa: Quais são as necessidades informacionais das pessoas em situação de rua e sua relação com o acesso e uso da informação?

1.3.1 Objetivo geral

A presente pesquisa científica estabelece como objetivo geral: Identificar e analisar a relação de acesso e uso da informação voltado à população em situação de rua da cidade de Campo Grande - MS, contribuindo com diretrizes à elaboração e desenvolvimento de um projeto de Competência em Informação aplicável às bibliotecas públicas.

1.3.2 Objetivos específicos

a) Analisar os preceitos da Competência em Informação na literatura nacional e internacional existente;

b) Identificar o perfil sociodemográfico/ econômico das pessoas em situação de rua;

c) Identificar as percepções das pessoas em situação de rua de Campo Grande, MS e as práticas decorrentes quando frequentam as bibliotecas públicas para o acesso e uso da informação, sob a ótica das suas necessidades informacionais em inter-relação com as dimensões, padrões e indicadores de Competência em Informação;

d) Elaborar diretrizes para o desenvolvimento de um projeto de Competência em Informação para a população em situação de rua, baseado em Aprendizagem e Serviço (ApS), aplicável às bibliotecas públicas.

Para uma melhor compreensão desta tese, descreve-se como se encontra estruturada, além desta seção de introdução:

• A seção 2 - e subdivisões - aborda sobre as pessoas em situação de rua, desde uma percepção legal no Brasil, ou seja, a definição instituída pela Política Nacional para a População em Situação de Rua, fazendo uma reflexão acerca dos estigmas que os permeiam, e a violação de direitos vivenciada diariamente por elas.

Apresenta a conotação marginal dada a essa população, e encontrada em alguns períodos históricos do Brasil, buscando também em processos migratórios, como o nomadismo, e alguns de seus tipos, lampejos de compreensão sobre aqueles que vivem em condições de vulnerabilidade social e desfiliação social.

Ainda nesta seção é traçado um panorama da situação de rua, vivida por pessoas no Brasil e em Mato Grosso do Sul, tendo em vista que a pesquisa se realiza na cidade de Campo Grande, capital do referido Estado. Explora a invisibilidade social dessas pessoas, assim como a fragmentação de dados oficiais acerca das mesmas, o que dificulta o estabelecimento de políticas públicas exitosas, para o enfrentamento do grave problema social. Expõe o agravamento da situação durante a pandemia da COVID-19, em que, além das dificuldades já enfrentadas há décadas, outras de ordem sanitária foram somadas. Com a realidade pandêmica, o número de pessoas que perderam emprego e renda subiu, levando outros milhares a esta situação de extrema fragilidade social. O acesso informacional dessas pessoas nunca foi tão necessário, contudo, ainda mais fragilizado perante a ausência de meios necessários para obtê-lo.

As violências em massa sofridas por parte desta população também são encontradas na história, em forma de chacinas e massacres. Com elas, a formação de movimentos com a finalidade de fortalecer e proteger os direitos e a dignidade dessas pessoas também pode ser encontrado neste capítulo, onde se aborda sobre o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua (MNMMR) e a construção de garantias legais, algumas previstas em políticas públicas. Assim, finalizando a seção 2, são explorados alguns aspectos sobre a constituição de políticas públicas e a sua conexão com a política nacional, sobretudo quando os profissionais bibliotecários são chamados à contribuição para com a legislação e à luta para a difusão e mobilidade junto à sociedade para a construção de políticas públicas voltadas à competência em informação, como requer o Manifesto de Florianópolis em 2013.

Encerra com considerações sobre a Política Nacional das Pessoas em Situação de Rua, traçando correlações entre a questão habitacional e o direito constitucional à moradia, com uma abordagem sobre o modelo Housing First.

• A seção 3 - e subdivisões - traz a competência em informação como um direito humano, e com potencial poder de transformação em contextos de vulnerabilidade social. Começa traçando considerações acerca da noção e conceitos de “competência”, sobretudo em contextos de aprendizagem ao longo da vida exigidos na sociedade atual, também estabelecendo um breve paralelo com a noção de habilidade.

Discorre sobre estudos, abordagens e conceitos da competência em informação ao longo dos anos, e aspectos envolvendo a consolidação da temática no Brasil e no mundo, recuperando estudos de pesquisadores e organismos/instituições internacionais com abordagem histórica do desenvolvimento da temática. Perpassa pela Competência em informação e Midiática, tendo em vista competências exigidas pelo mundo virtual e midiático.

A seção 3 ressalta ainda a importância de estudos envolvendo a competência em informação e sua conexão com a vulnerabilidade social, tendo em vista que esta pesquisa envolve sujeitos em situação de rua, portanto, vulneráveis. Ao trazer as dimensões da competência em informação a partir de múltiplas abordagens, ressalta aquelas que podem contribuir para a melhoria de contextos vulneráveis, uma vez que não são contextos, a priori, ideais, mas sim de realidades que precisam ser compreendidas a partir de uma visão holística. Por isso, envolve abordagens da competência em informação sob o viés de algumas dimensões, tais como a técnica, socioemocional, cultural, incluindo a afetiva e ecológica, estética, ética e política, dentre outras. Além disso, apresenta diretrizes, padrões e indicadores da competência em informação, a partir de referências nacionais e internacionais, sobretudo estudos que possam contribuir com subsídios para o alcance do objetivo geral desta pesquisa.

Ao evidenciar a função social da competência em informação, traz reflexões no sentido de compreendê-la como um processo que permite combater o racismo (observando-se questões de interseccionalidade), bem como a aporofobia. Encerra-

se a seção 3 com uma abordagem acerca da mediação acolhedora de bibliotecas e dos centros de apoio, às pessoas em situação de rua, envolvendo o processo de mediação da informação em prol da competência em informação.

• A seção 4 contempla a fundamentação teórico-metodológica, apresentando e caracterizando a pesquisa como um estudo de caso, empregando as técnicas de revisão bibliográfica, a observação direta extensiva por meio do questionário, e a escala social e de atitude (Escala de Lickert), aplicado às pessoas em situação de rua, além da observação direta intensiva realizada por meio da entrevista com os gestores das bibliotecas públicas e do centro de acolhimento, que atendem as pessoas em situação de rua. Para o tratamento dos dados coletados informa, ainda, que foi utilizada a análise de conteúdo de Lawrence Bardin.

A seção 4 aborda também o universo da pesquisa, que envolve duas bibliotecas públicas da cidade de Campo Grande, MS, além de um centro de acolhimento. Apresenta como sujeitos da pesquisa os frequentadores de ambas as bibliotecas, assim como os gestores das unidades citadas.

• A seção 5 - e subdivisões - traz a análise e discussão de dados para uma melhor compreensão das percepções e práticas informacionais das pessoas em situação de rua. Identifica o retrato da situação não só do perfil sócio demográfico/

econômico das pessoas em situação de rua, como de suas necessidades e práticas informacionais, estabelecendo considerações acerca do acesso e uso da informação por parte dessa população que frequenta as bibliotecas públicas de Campo Grande (MS), bem como do Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP), entidade municipal de acolhimento e encaminhamento, voltado à população em tal situação de vulnerabilidade. Identifica que as privações materiais, tais como ausência de moradia, afetam o acesso dessas pessoas à informação que em geral contam somente com a biblioteca pública e informações obtidas por meio do Centro Pop para conseguir acesso a documentos, alimentação, banhos, dentre outras necessidades básicas. Mostra que o acesso desigual à informação recrudesce ainda mais a forma degradante e humilhante como vivem.

• A seção 6 - e subdivisões - traz as diretrizes elaboradas, tomando como base os dados obtidos por meio do questionário aplicado com as pessoas em situação de rua e entrevistas com gestores de bibliotecas públicas e centro de acolhimento, e posteriormente tratados com a análise de conteúdo. Também baseou-se na literatura envolvendo a competência em informação, a população em situação de rua, e os princípios básicos da Aprendizagem em Serviço (Aps) apresentando um modelo de projeto para competência em informação, baseado em tal metodologia, trazendo considerações acerca de dimensões identificadas a serem levadas em conta, como a dimensão humana, a dimensão física e material, dimensão política, dimensão informacional e a dimensão metodológica, observadas na elaboração das diretrizes.

• A seção 7 - e subdivisões - apresenta as considerações finais da tese, trazendo reflexões sobre como se espera que as diretrizes sejam aproveitadas por bibliotecas públicas e profissionais e como parcerias entre bibliotecas públicas e universidades e seus cursos, podem fazer parte de um projeto de competência em informação, tendo em vista que as diretrizes elaboradas foram baseadas na aprendizagem e serviço (ApS). E por fim, traz o potencial das diretrizes no sentido de contribuir com políticas públicas voltadas à competência em informação e população em situação de rua.

2 PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA IMPORTAM: REFLEXÕES E ENLACES

Ao longo da realização desta tese, iniciada em 2019, diversos termos têm sido encontrados em textos científicos, artigos de jornais, podcasts, vídeos, conversas com outras pessoas, como referência à população que, no Brasil, o Decreto nº 7.053 de 2009, que institui a Política Nacional para a População em Situação de Rua, define como:

[…] população em situação de rua o grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário ou como moradia provisória. (BRASIL, 2009, Não paginado)

O decreto, além de prever a democratização do acesso e utilização dos espaços e serviços públicos, visa assegurar o acesso amplo, simplificado e seguro aos serviços e programas que integram as políticas da educação, cultura, trabalho e outras que, se disponíveis, podem garantir as condições mínimas para uma pessoa exercer a sua cidadania. Contudo, na coleta dos termos encontrados para mencionar essas pessoas em situação de rua, muitos deles trazem estigmas, preconceitos, que indicam ou até mesmo comprovam, que tais políticas não têm sido executadas a contento, pois tais pessoas vivem à margem da sociedade.

Segundo Rodrigues e Fernandes (2020), de recorrente confusão categórica, os termos de chamamento às pessoas em situação de rua, acabam reduzindo os indivíduos de tal agrupamento, aos mendigos. No entanto, segundo os autores, nem todos que estão em situação de rua praticam a atividade de mendicância5. No Quadro 2 são apresentados alguns dos termos identificados no decorrer desta

5 “No Brasil, a associação das pessoas que viviam nas ruas com a mendicância, construiu e fortaleceu a imagem desse segmento com indivíduos que “perambulavam” pelas cidades, sendo classificados como “mendigos”, “andarilhos” e “maloqueiros”. Tal associação gerou e sustentou concepções quanto à compreensão dessa questão no campo da segurança pública, materializadas em ações repressivas nas ruas, confinamento em instituições ou deportação para outras cidades. Só a partir da década de 1970 relacionou-se a existência desse fenômeno com as transformações econômicas e sociais, destacando a migração e o desemprego como principais fatores.” (OLIVEIRA, 2016, p. 207).

pesquisa, em que essas pessoas são tomadas por várias designações, o que pode apontar um desconhecimento ou mesmo preconceito em relação a elas.

Quadro 2 - Terminologia encontrada na literatura especializada para pessoas em situação de rua

Albergado Acolhido Andarilho Bandido

Camelô Coletores de materiais recicláveis

Cracudo Desabrigado

Desgraçado Esmoleiro Esmoler Fedorento

Indigente Itinerante Louca Malandro

Maloqueiro Mangueador Marginal Mendicante

Mendigo Migrante Morador de rua Negro

Nômade Pedinte Pessoa de rua Preguiçoso

Profissional do sexo Rueiro Sem-abrigo Sem-teto

Situação de calçada Sujo Trabalhador itinerante Usuário de droga

Vadia Vadio Vagabundo Vagante

Fonte: Elaborado pela pesquisadora (2022).

Os termos comumente aplicados a essas pessoas distorcem a realidade, pois esse fenômeno não raramente tenta ser compreendido por meio da definição desses indivíduos como “livres”, sem um passado, sem um histórico familiar, classe social, e ou como se a experiência da rua fosse algo exclusivamente traumático e repentino.

Neste sentido, o homem, a mulher e mesmo a criança que se encontram em tal condição, costumam estar associados à ociosidade, taxados como vagabundos e vagabundas. A situação de rua quase sempre marcada a partir da diferença e da exclusão não é produzida, nem está em dimensão oposta à ordem social estabelecida, devendo-se levar em conta as assimetrias de capitais, as divisões de riquezas e o poder de consumo das pessoas, ou seja, são indivíduos que se encontram em condição desprivilegiada em relação ao restante da sociedade (RODRIGUES; FERNANDES, 2020).

Em estudo apresentado por Rodrigues et al. (2020), a referência identitária “de rua” é apresentada como construção simbólica e narrativa política (categoria temporal) e não como uma questão física, comportamental ou de localização geográfica (categorial espacial). Segundo o autor, no Brasil Colônia e Império, o primeiro agrupamento de conotação marginal no contexto urbano era ligado à vadiagem e à mendicância, pois eram pobres não localizáveis na estrutura escravocrata, visto não serem nem proprietários e nem trabalhadores. Como não existiam relações de dependência pessoal com os proprietários, não estavam integrados à produção mercantil da monocultura. Neste cenário é que surge em 1830 a figura dos vadios e mendigos, cujo “Código Criminal do Império do Brazil”

institui a vadiagem e a mendicância como delitos públicos e urbanos.

Uma distinção básica entre vadio e o mendigo pode ser encontrada até o final do século XIX. O primeiro era considerado indisciplinado, uma força de trabalho desperdiçada, e que por escolha própria, assim decide viver. Já o mendigo era considerado um miserável, infeliz, inabilitado para o trabalho, sendo encontrado subcategorias, dentre elas, os “pobres da paróquia”, “pedinte com freguesia certa” e o “pedinte de porta em porta” ou “devoto.”6 Os mendigos contavam com uma maneira mais tolerante de tratamento, havendo uma lista de enfermidades ou deformidades que a justificavam. “A visibilidade dos sinais inabilitadores, a publicidade, era um dos fatores determinantes à isenção ao crime.” (RODRIGUES et al., 2020, p. 26-27).

O Código Penal da República Velha de 1890 previa a punição da vadiagem sob um tipo denominado “desordem”. Tratava-se de exemplo típico de criminalização de um comportamento que reprimia uma camada social específica, discriminada pela cor. A prática da “capoeiragem”, mesmo sendo objeto de censura, não figurou como delito no Código Criminal do Império de 1830. Mas, no Código Penal de 1890 foi inserido no Capítulo XIII – Dos vadios e capoeiras. “A

6 “Pobres da paróquia” eram os miseráveis amparados pelas esmolas dos fiéis das igrejas, da própria igreja e vizinhança. “Pedinte com freguesia certa” agia de maneira mais refinada, havendo um cuidado com a forma de se vestir, portando-se com mais refinamento e discrição, com contribuintes certos. “Pedinte de porta em porta” ou “devoto” não tinha destino certo ou específico para a mendicância, sendo todas as formas de pedidos e súplicas, vinculadas ao contexto urbano (RODRIGUES et al., 2020).

preocupação com a ‘capoeiragem’ está ligada a uma conjuntura histórica7 e em particular a uma cidade – o Rio de Janeiro do período imediatamente posterior à Abolição” (FAUSTO, 1984, p. 35). Para este autor, a massa de vadios era constituída por uma população destituída, onde era encontrado um número substancial de “pretos e mulatos”, marginalizados das atividades econômicas atraentes nos períodos pré e pós-Abolição.

Analisando o artigo 399 do Código Penal de 1890, identifica-se que além da condição de subsistência já prevista no Código Criminal de 1830, o mesmo menciona “domicilio certo em que habite”, em que “[...] a moradia certa passa a ser um dos elementos para excluir a tipicidade de conduta, fato que engendra os primeiros interstícios de marginalidade jurídica aos desabrigados no Brasil”

(RODRIGUES et al., 2020, p. 28). Segundo o texto original, constitui-se em contravenção:

Art. 399. Deixar de exercitar profissão, officio, ou qualquer mister em que ganhe a vida, não possuindo meios de subsistencia e domicilio certo em que habite; prover a subsistencia por meio de occupação prohibida por lei, ou manifestamente offensiva da moral e dos bons costumes:

Pena - de prisão cellular por quinze a trinta dias. (BRASIL, 1890, grifo nosso).

No breve resgate histórico dos institutos penais, sobretudo a partir do Brasil Império (1822-1889) é possível perceber que a situação hoje encontrada, com milhares de pessoas em situação de rua, encontra eco no passado do país. É possível identificar que a vadiagem, a mendicância, a capoeiragem, os escravos,

“libertos”, os paupérrimos livres, marginalizados, e os excluídos da estrutura social vigente de cada época, trazem uma carga histórica, e até moral dentro da sociedade brasileira.

Na Guerra do Paraguai, por exemplo (1864-1870), era comum que as famílias dos soldados acompanhassem as tropas que seguiam para a guerra. Assim, não só

7 “A Cidade do Rio de Janeiro, naquela época, era a capital do Brasil, e como tal, um cartão de visitas, que não poderia se maculado pelo crime e pela delinqüência [sic] dos capoeiristas. Este processo civilizador que se instaurava no país, era na realidade, um projeto de construção de um país branco, ocidental, cristão, de valores europeus, e de grande recusa de sua matriz africana, e no que nos é concernente, de domesticação da Capoeira” (VIEIRA, 2004, p. 13).

de soldados - diga-se, um grupo de homens mal armados, sem sistemas logísticos, sanitários, de inteligência ou de engenharia adequados - era composto o batalhão brasileiro (DOURADO, 2014). A autora afirma:

Também pretende-se resgatar outro grupo que esteve presente nos campos de batalhas, mas que é pouco conhecido e pesquisado, que foi o grupo das mulheres dos soldados, mães, esposas, amantes, prostitutas, viúvas, enfermeiras, prisioneiras, escravas, andarilhas e vivandeiras, entre tantas outras mulheres soldadas, que não tinham suas funções bem definidas e que nunca tiveram seus nomes registrados. (DOURADO, 2014, p. 22-23, grifo nosso).

A Guerra da Tríplice Aliança, Guerra com o Paraguai, Grande Guerra, Guerra Maldita ou Guerra do Paraguai, envolveu o Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, durou 5 anos e deixou na História um rastro de sangue, fome, privações, sofrimentos, doenças, mas também uma marca de invisibilidade de grupos como as mulheres, dentre elas, as escravas e andarilhas. Um grande número dessas mulheres que por motivos diversos8 participaram da guerra, sofreram violências sexuais, e serviram como escravas às tropas paraguaias. As mulheres que acompanhavam as tropas do Exército o faziam por necessidade em conseguir alimentos e proteção. Porém, nem sempre a permanência das mesmas no acampamento era permitida, e por isso, seguiam a uma certa distância a pé ou a cavalo. Assim, “[...] as mulheres, esposas e amantes dos soldados dos quatro países envolvidos sofriam mais, desabrigadas e com poucos alimentos, logo ficando doente, havendo também registros de morte por frio” (DOURADO, 2014, p.

79, grifo nosso).

Grande parcela dos recrutados apesar de inexperientes, pobres e despreparados, foram transformados em guerreiros para lutar. No Brasil, a necessidade de convocação de grandes contingentes para integrar o Exército para lutar contra o Paraguai, em um curto intervalo de tempo, acabou incluindo os grupos socialmente excluídos. Desse modo:

[...] abriu espaços para todos esses segmentos: aos negros, mestiços, aos homens pobres da cidade e do campo, vadios e perigosos, ao presidiário [...] a inclusão nas fileiras das forças militares acenava para o negro escravo

8 As mulheres garantiam parte dos serviços essenciais para o funcionamento de um exército em campanha, como o abastecimento, cuidados médicos e alimentares (DOURADO, 2014).

com a perspectiva de liberdade, e para a legislação que exigia a alforria como condição prévia para o engajamento de escravos. (DOURADO, 2014, p. 189-190).

Assim, os negros que eram libertados partiam para a Guerra confiantes, e na esperança de uma nova vida. Mal sabiam que o pano de fundo, tanto dos recrutamentos voluntários quanto dos recrutamentos forçados, servia a um duplo objetivo: “[...] além de forjar soldados que servissem nas forças de defesa do Estado Imperial, buscavam neutralizar a ação de indivíduos excluídos, entendidos, então, como ameaças ao estabelecimento da ordem urbana e social.” (DOURADO, 2014, p. 191). Ainda de acordo com o autor, menores que vagavam pelas ruas, ébrios, arruaceiros, acometidos pelos vícios da ociosidade e do crime, quando presos, podiam ser conduzidos automaticamente para as Forças Armadas como recrutas.

Observa-se por meio de um breve recorte histórico, como a Guerra do Paraguai, que o fenômeno situação de rua, no Brasil, não é recente, e nem sempre esteve explícito ou transparente para a sociedade. Quando se fala em crianças e jovens que vagam pelas ruas, sobre bêbados, vadios, negros, mulheres andarilhas, desabrigadas é como se o grupo tivesse sido transportado através do tempo aos dias atuais. Essa impressão acontece porque sempre foram grupos cujas vozes não foram ouvidas. São os mesmos grupos, os mesmos estigmas e uma precarização cada vez maior do “modo” de vida dessas pessoas. E modo, com certeza, não é a palavra que melhor traduz as dores, as privações a que essas e outras minorias são submetidas, pelos que governam e pela sociedade.

Os processos migratórios de pessoas, da cidade para o campo ou do campo para a cidade, de uma cidade para outra, ou de um país para outro, encontram registros em diversos períodos da História. Em geral, são grupos em busca de uma vida melhor, fugindo de guerras e da violência, almejando um abrigo e moradias seguras, o que nem sempre se torna realidade. Nem no presente e nem no passado.

No contexto europeu, o modelo social e econômico baseado na terra, o Sistema Feudal, desenvolveu-se em parte pela migração das pessoas que fugiam das invasões bárbaras, abandonando as cidades, e migrando para o campo. O

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