Em 1979, foi criado no Chile o Círculo de Estudios de la Mujer, associado à Academia de Humanismo Cristiano. A última, foi fundada pela Igreja Católica durante a ditadura militar com o objetivo de subsidiar estudos acadêmicos censurados pelos militares e relacionados às ciências sociais. A maioria do Círculo era composto por mulheres acadêmicas que tiveram seus trabalhos perseguidos pelos órgãos de censura.
Um de seus objetivos era produzir a escrita da História das Mulheres do Chile e promover encontros de conscientização feminina (MARQUES, 2011). Na teoria, a Academia de Humanismo Cristiano era responsável por um pluralismo epistêmico que englobava diversos sujeitos históricos. Não é coincidência o fato de que ações entre as duas instituições aqui mencionadas foram articuladas ao longo de suas atuações. Ao descrever as relações entre feminismos e a Igreja Católica em Brasil e Chile com o auxílio da História Oral, Gabriela Marques (2011) ressaltou algumas dessas atividades em comum:
Podemos destacar também um encontro de mulheres convocado pela Pastoral Obrera (operária) do Chile, que contou com a participação de mulheres do Círculo de Estudios de la Mujer para discutir o tema
“mulher e trabalho” sob uma ótica feminista. Outra militante chilena, Lorena Fries, narra que realizava trabalhos sobre violência contra a mulher e outras oficinas de conscientização com mulheres da periferia com o apoio das pastorais ligadas e mantidas pela Igreja chilena (MARQUES, 2011, pp. 80-81).
De acordo com Woitowiczp e Pedro (2009), a segunda onda dos feminismos chilenos não explorou com ênfase questões como a reprodutividade e a sexualidade.
Muito por causa do conservadorismo predominante na sociedade do Chile, a influência da Igreja Católica e o fato dos movimentos manterem forte ligação com instituições de esquerda. Algo que observamos em Mensaje, pois os temas anteriormente citados foram pouco abordados nos exemplares da revista. O que não significa que todos os feminismos chilenos deixaram de incorporar estas temáticas. O Movimiento de Emancipación de la Mujer Chilena, por exemplo, apoiou o controle da natalidade como ferramenta de saúde pública e a distribuição de anticoncepcionais para as camadas mais pobres da população (MARQUES, 2011, p. 88).
Pode-se dizer, diante destes discursos produzidos pelo movimento feminista no Chile, que o principal inimigo a ser combatido, durante e após a ditadura militar, foi o conservadorismo da sociedade, que - em
65 sintonia com a ação da Igreja Católica - pregava uma determinada concepção de família em que não havia espaço para questões como divórcio, aborto, liberdade sexual e direito ao corpo (WOITOWICZP;
PEDRO, 2009, p. 54).
De acordo com Marques (2011), as mulheres da Academia de Humanismo Cristiano não tinham o apoio da Igreja para discutir assuntos como o aborto, o divórcio, a pílula e a sexualidade feminina e quando ousaram questioná-los, a ruptura entre as duas instâncias foi inevitável. A edição número 10 de 1982 do jornal publicado pelo Círculo, o Boletín, trouxe os temas do divórcio e do aborto para debate, o que foi decisivo para que as componentes da organização fossem consideradas subversivas e contra a família cristã. Segundo María Antonieta Saa, militante chilena, tal questão implicava “(...) em tempos de ditadura, muita orfandade porque ficávamos sozinhas, desprotegidas do guarda-chuva da Igreja, era realmente uma questão de sermos lançadas aos leões da ditadura”16.
O Círculo de Estudios de la Mujer foi extinto em 1983, quando Raúl Henríquez não fazia mais parte do comitê da Academia de Humanismo Cristiano (MARQUES, 2011). Ressaltamos que o boletim Nos/Otras17, em sua edição 1 de 1984, publicou um texto em que criticava a expulsão do Círculo e a concepção de humanismo cristão conservadora exercida pela Academia. Além disso, dizia que muitas mulheres da instituição compartilhavam de princípios cristãos diferentes dos da direção que de forma autoritária optou pela punição de suas integrantes.
16 Trecho de entrevista para o documentário Calles Caminadas, transcrito no artigo 50 anos de feminismo no Chile: texto e contexto (LARGO, 2019), p. 106.
17 A edição do boletim se encontra digitalizada no site do Arquivo Nacional do Chile. Disponível em https://www.archivonacional.gob.cl/616/w3-article-93709.html?_noredirect=1. Acesso em 06 de abril de 2022, às 20:34.
66 Imagem 3: Boletim Nos/Otras
Fonte: Arquivo Nacional do Chile
67 Imagem 4: Boletim Nos/Otras
Fonte: Arquivo Nacional do Chile
O artigo foi assinado por Julia Chetry, mas nós não encontramos muitas informações sobre este nome, o que nos leva a pensar que pode ser um pseudônimo utilizado como forma de proteção contra a ditadura, a Igreja Católica e a sociedade chilena que condenava as pautas feministas. Apesar do descontentamento, a autora reforçou os seus ideais cristãos e os de suas companheiras, o que pode ter sido um instrumento de
68 defesa contra as acusações levantadas pelos católicos, mas também de reafirmação de sua fé. Vale lembrar que muitas feministas da época eram católicas e que a primeira atividade do Círculo ocorreu dentro de uma igreja.
Rosalba Todaro em sua entrevista narra que a primeira atividade das feministas ligadas ao Círculo foi dentro da Igreja São Francisco Xavier, encontro no qual compareceram em torno de 800 mulheres e que foi possível graças à colaboração de pessoas ligadas e do grupo oficial da igreja na região. Já na entrevista de Eliana Largo, (idem) que também fez parte do Círculo de Estudios de la Mujer, onde realizou, entre outras coisas, oficinas de teatro, vemos mais um trabalho que contou com o apoio e participação de parte da Igreja (MARQUES, 2011, p. 7).
Apesar do rompimento entre a Academia de Humanismo Cristiano e o Círculo de Estudios de la Mujer, as feministas chilenas continuaram atuando em Mensaje. Os debates intelectuais por elas desenvolvidos englobaram temáticas como a participação feminina em partidos políticos, a criação de centros de conscientização feminina e o processo de redemocratização, porém assuntos como o aborto, o divórcio e a reprodução sexual foram pouquíssimos abordados. Estamos falando de um feminismo tutelado pela Igreja Católica? A revista se colocou como um impresso democrático, mas até qual ponto essa democracia se estendia às pautas levantadas por mulheres? Mensaje tinha como um dos propósitos desenvolver “novas formas de ser Igreja”. Será que essa estrutura a ser construída pelos cristãos estaria disposta a incorporar os debates feministas?
2.6. Não há democracia sem feminismo: institucionalidade e neoliberalismo nas