Em seu artigo “A escrita tem sexo?”, Nelly Richard (2002), analisou o Congresso Internacional de Literatura Feminina Latino-Americana que ocorreu em Santiago, capital chilena, em 1987. O evento, organizado por escritoras e críticas literárias nascidas no Chile, consistiu no acontecimento literário mais importante realizado perante a ditadura militar. As suas participantes discutiram sobre termos como “mulher”, “escrita” e “poder”
e se empenharam em resgatar e elaborar palavras que lhes foram negadas pelo autoritarismo e pela estrutura patriarcal. Para a autora, desconstruir o feminino no texto e sua identidade essência é um exercício necessário para a teoria literária feminista. Assim, seria importante incorporar a escrita como produtividade textual e a identidade como um jogo de representações.
As observações concretizadas pela intelectual podem nos ajudar a refletir sobre a escrita da História das Mulheres do Chile pretendida pelas feministas em Mensaje. Da mesma forma que as escritoras e críticas literárias, elas também encontraram na linguagem instrumento de subversão e questionamento da dupla opressão sofrida pelas mulheres chilenas. Ao inquirir as disputas existentes em espaços de poder como a história e a política, estas sujeitas mostraram que o neutro é o universal-masculino. Portanto, dizer que a linguagem e a escrita não possuem distinções no que tange ao masculino e feminino consiste em homogeneizar a cultura masculina dominante. Implica em assumir que o que
82 tomamos como neutro, na verdade, é o masculino sendo concebido como universal (RICHARD, 2002).
Frente a essas armadilhas, a crítica literária feminista considerou que seus principais objetivos deviam consistir, primeiro, em evidenciar o abuso de autoridade, que obriga as escritoras mulheres a se deixarem reger por catalogações masculinas e, depois, em estimular modelos afirmativos e valorativos do “ser mulher”, como experiência “própria”
(diferencial) que remeta, por sua vez, à necessidade de criar um sistema de referências autonomamente feminino, que não obrigue as obras das mulheres a serem lidas através de um dispositivo alienante de interpretação oficial, que falseia suas características ou marginaliza suas singularidades (RICHARD, 2002, p.131).
As produções feministas expressas em Mensaje assumiram o compromisso de desenvolver e divulgar trabalhos teóricos escritos por e sobre mulheres, resgatando o passado dos movimentos feministas chilenos e inserindo-os na história; concebendo as sujeitas que dele participaram como agentes históricas e relacionando-os com as ações das organizações no presente. Assim como as escritoras e críticas literárias, elas se dedicaram a confeccionar e disseminar um sistema de referências feminino, rompendo com o sujeito universal masculino e escrevendo uma “nova história”.
“Aprendemos”, escreviam três historiadoras feministas, “que inscrever as mulheres na história implica necessariamente a redefinição e o alargamento das noções tradicionais do que é historicamente importante, para incluir tanto a experiência pessoal e subjetiva quanto as atividades públicas e políticas. Não é exagerado dizer que por mais hesitante que sejam os princípios reais de hoje, tal metodologia implica não só em uma nova história das mulheres, mas em uma nova história”
(SCOTT, 1985, p.4).
Um exemplo deste movimento de inserção das mulheres na história e disseminação de um sistema autônomo de referências femininas é o seguinte trecho escrito por Patricia Verdugo para a revista e publicado na seção Sociedad em julho de 1986:
El Centro de Estudios de la Mujer (CEM) y Pehuén Editores presentaron cuatro obras: Oficios y Trabajos de las mujeres de Pomaire, de Ximena Valdés y Paulina Matta; Andar andando, de Kirai de León;
Quinchamalí, reino de mujeres, de Sonia Montecino; y Yo trabajo así ... en casa particular, de Thelma Gálvez y Rosalba Todaro, donde se recogen impactantes testimonios de cuatro empleadas domésticas (VERDUGO, 1986, Mensaje, n◦ 350, jul., p. 250).
83 Mujeres en movimiento, de Patricia Verdugo (1986), exemplifica perfeitamente a segunda fase dos movimentos feministas do Chile. Nota-se a preocupação da autora com a conciliação entre assuntos feministas e políticos, a análise de dados e a citação de nomes de intelectuais envolvidas em organizações e produções acadêmicas que abordam a condição feminina. La otra mitad de Chile, de Angélica Meza, por exemplo, citado pela autora, contou com as entrevistas de várias mulheres, incluindo Isabel Allende, Julieta Kirkwood e Ana Vásquez. A obra discutiu o autoritarismo patriarcal que imperava no Chile e oprimia homens e mulheres, ressaltando como a luta feminina era importante para todo um coletivo. As professoras, sociólogas, filósofas e demais intelectuais envolvidas nesta mobilização atuaram na escrita da Histórias das Mulheres no Chile através da leitura, discussão e divulgação de produções protagonizadas por si e outras mulheres.
84 Imagem 7: Primeira página do texto Mujeres en movimiento
Fonte: Revista Mensaje
Como já mencionado, o próprio Círculo de Estudios de la Mujer tinha como uma das finalidades escrever a História das Mulheres no Chile - começou com um pequeno grupo que se juntava para discutir a situação feminina e alcançou proporções maiores com o decorrer do tempo. Um segundo objetivo era fomentar a consciência de gênero das mulheres, possivelmente inspiradas nas teorias da francesa Simone de Beauvoir (SEPÚLVEDA, 2013). Nelly Richard (2002) também nos chama a atenção sobre a feminização da escrita com a qual estamos trabalhando. Para a autora, a crítica literária feminista se preocupou em enfatizar a dominação masculina característica da escrita para depois construir uma estrutura de referências autonomamente femininas. Identificar o diferencial entre os gêneros, contribuiu para a elaboração do "ser mulher" e o estímulo de modelos que afirmam a condição. Porém, assumir que certo conteúdo é "feminino"
significa colocá-lo como referente a uma identidade-essência, o que torna a relação entre
"as mulheres que escrevem" e o "escrever como mulher" algo não passível de transformação. O ato ignora as maneiras como identidade e representação se unem e separam no decorrer do texto.
Assim, é perigoso confeccionar um universo em contraposição ao dos homens, pois ele impede que o "feminino" tenha contato com diversas redes de cultura onde se inserem os signos "homem" e "mulher". Segundo Richard (2002), feminino e masculino são forças que se intercruzam como "(...) partes de um sistema de identidade e poder, que as conjuga tensionamente."26 Logo, os deslocamentos do "eu" que atravessam a transversalidade textual ultrapassam a realidade biográfica-sexual que define o que é ser
"homem" ou "mulher". O apontamento da intelectual é importante para apresentarmos um contraponto a escrita feminista materializada em Mensaje e salientarmos que ela também apresenta limitações, principalmente no que tange à essencialização do ser feminino, algo muito criticado pelas teorias feministas da atualidade.
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