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2.5 ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DA RESPONSABILIDADE CIVIL

2.5.2 C ULPA

Inicialmente, é de se repetir o que já registrado, desta feita com as palavras do professor Caio Mário da Silva Pereira92, quando afirma que,

“na teoria da responsabilidade subjetiva, ocupa lugar preponderante a noção genérica de culpa, uma vez que é o elemento distintivo em relação à teoria objetiva”.

Aliás, das lucubrações de Caio Mário da Silva Pereira93 acerca do tema, muito há que se aprender, como bem demonstrado nas linhas seguintes:

Não raramente os autores, na procura de uma definição satisfatória de culpa, prendem-se a uma distinção que lhes parece essencial, a saber se o agente incidiu em culpa delitual, também dita grave ou dolo, ou, ao revés, incorreu em culpa quase-delitual.

Esta é a concepção de Sourdat, que define como "delito todo fato danoso e ilícito, ainda que não previsto na lei penal, e cometido com a intenção de prejudicar" (Traité Général de la Responsabilité, vol. 1, nº 412), e conceitua como quase-delito

"todo fato ilícito de omissão ou comissão não prevista pela lei penal, que causa a outrem um prejuízo, mas que aconteceu sem a intenção de causar dano" (nº 462).

Todavia, o mesmo autor chama a atenção para a diferenciação entre dolo e culpa, dizendo que:

Modernamente, o conceito de dolo alargou-se, convergindo a doutrina no sentido de caracterizá-lo na conduta antijurídica, sem que o agente tenha o propósito de prejudicar. Abandonando a noção tradicional do animus nocendi (ânimo de prejudicar), aceitou que a sua tipificação delimita-se no procedimento danoso, com a consciência do resultado. Para a caracterização do dolo não há mister perquirir se o agente teve o propósito de causar o mal. Basta verificar se ele procedeu consciente de que o seu comportamento poderia ser lesivo. Se a prova da intenção implica a pesquisa da vontade de causar o prejuízo, o que normalmente é

92 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Responsabilidade Civil. 9ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 1998, p. 52.

93 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Responsabilidade Civil. 9ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 1998, pp. 54 e 55.

difícil de se conseguir, a verificação da consciência do resultado pode ser averiguada na determinação de elementos externos que envolvem a conduta do agente (Karl Larenz, Obligaciones, vol. 1, nº 38; Agostinho Alvim, Da Inexecução das Obrigações, p. 227).

E para bem definir o que seja culpa, Caio Mário da Silva Pereira utiliza-se de Savatier, para o qual: "a culpa é a inexecução de um dever que o agente podia conhecer e observar. Se o conhecia efetivamente e o violou deliberadamente, há delito civil ou, em matéria de contrato, dolo contratual”.

Entretanto, conforme Savatier, “se a violação do dever foi involuntária, podendo conhecê-la e evitá-la, há culpa simples; fora destas matérias contratuais, denomina-se quase-delito" (Traité de la Responsabilité Civile, vol. i, nº 4).

E ainda sobre a culpa, do mesmo autor colhe-se que94,

“partindo do disposto no art. 159 do Código Civil (de 1916), entende-se que no procedimento culposo está um fato causando dano a outrem, independentemente da vontade ou mesmo da consciência do mal causado”. Neste, diz ele, é a definição de Beviláqua:

ato ilícito é a violação do dever ou o dano causado a outrem por dolo ou culpa. O dolo consiste na intenção de ofender o direito ou prejudicar o patrimônio por ação ou omissão. A culpa é a negligência ou imprudência do agente, que determina violação de direito alheio ou causa prejuízo a outrem. Na culpa há, sempre, a violação de um dever preexistente. Se este dever se funda em um contrato, a culpa é contratual; sem o princípio geral de direito que manda respeitar a pessoa e os bens alheios, a culpa é extracontratual ou aquiliana (Comentários ao Código Civil, Observação 1, ao art. 159).

E por derradeiro, Caio Mário Sérgio Pereira arremata nos seguintes termos:

O conceito de culpa é unitário, embora sua ocorrência possa dar- se de maneiras diversas. São todas elas, entretanto, meras modalidades pelas quais pode caracterizar-se a violação do dever

94 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Responsabilidade Civil. 9ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 1998, p. 57 e 59.

preexistente. Em toda culpa há uma violação do ordenamento jurídico, caracterizando ontologicamente o comportamento ilícito (Oertmann, Introducción al Derecho Civil, § 62; Enneccerus, Kipp y Wolff, Tratado, Parte General, § 195; Andreas Von Thur, Derecho Civil, vol. III, Parte 28, § 88). (...) O que se salienta aqui é o princípio da unidade da culpa, deixando claro que as modalidades em que se desdobra não afloram mais que à sua superfície, deixando incólume o seu conceito ontológico.

Também a respeito da conceituação do elemento culpa, da obra de Carlos Roberto Gonçalves95 colhe-se que “a obrigação de indenizar não existe, em regra, só porque o agente causador do dano procedeu objetivamente mal”. É necessário, essencialmente, que o agente tenha agido com culpa: “por ação ou omissão voluntária, por negligência ou imprudência, como expressamente se exige no art. 186 do Código Civil96”. E referido professor vai além, explicitando que:

Agir com culpa significa atuar o agente em termos de, pessoalmente, merecer a censura ou reprovação do direito. E o agente só pode ser pessoalmente censurado, ou reprovado na sua conduta, quando, em face das circunstâncias concretas da situação, caiba afirmar que ele podia e devia ter agido de outro modo (Antunes Varela, Das obrigações em geral. 4ª ed., v. 1.

Coimbra).

Também explica Roberto Gonçalves que, “se a atuação desastrosa do agente é deliberadamente procurada, voluntariamente alcançada, diz-se que houve culpa lato sensu (dolo)”.

De outro lado, “se, entretanto, o prejuízo da vítima é decorrência de comportamento negligente e imprudente do autor do dano, diz-se que houve culpa stricto sensu”.

E, por último, afirma que:

95 GONÇALVES, Carlos Roberto. Responsabilidade Civil. 9ª ed. São Paulo: Saraiva, 2005, p.

490.

96 C/C 2002. “Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.”

O juízo de reprovação próprio da culpa pode, pois, revestir-se de intensidade variável, correspondendo à clássica divisão da culpa em dolo e negligência, abrangendo esta última, hoje, a imprudência e a imperícia. Em qualquer de suas modalidades, entretanto, a culpa implica a violação de um dever de diligência, ou, em outras palavras, a violação do dever de previsão de certos fatos ilícitos e de adoção das medidas capazes de evitá-los.

O critério para aferição da diligência exigível do agente, e, portanto, para caracterização da culpa, é o da comparação de seu comportamento com o do homo medius, do homem ideal, que diligentemente prevê o mal e precavidamente evita o perigo. A culpa stricto sensu é também denominada culpa aquiliana.

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