2.5 ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DA RESPONSABILIDADE CIVIL
2.5.3 D ANO
2.5.3.2 DANO MORAL
Danos Morais, para Carlos Alberto Bittar, citado em Humberto Theodoro Júnior103, são os de natureza não-econômica e que “se
100 STOCO, Rui. Tratado de Responsabilidade Civil. 6ª ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais Ltda., p. 130.
101 CC/2002. “Art. 944. A indenização mede-se pela extensão do dano. Parágrafo único. Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir, eqüitativamente, a indenização.”
102 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Responsabilidade Civil. 9ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 1998, p. 45.
traduzem em turbações de ânimo, em reações desagradáveis, desconfortáveis, ou constrangedoras, ou outras desse nível, produzidas na esfera do lesado”.
Assim, continua Bittar, “há dano moral quando a vítima suporta, por exemplo, a desonra e a dor provocadas por atitudes injuriosas de terceiro, configurando lesões nas esferas interna e valorativa do ser como entidade individualizada”
De maneira mais ampla, de acordo com Humberto Theodoro Júnior:
Pode-se afirmar que são danos morais os ocorridos na esfera da subjetividade, ou no plano valorativo da pessoa na sociedade, alcançando os aspectos mais íntimos da personalidade humana (“o da intimidade e de consideração pessoal”), ou o da própria valoração da pessoa no meio em que vive e atua (“o da reputação ou da consideração social”) (Carlos Alberto Bittar, Reparação Civil por Danos Morais,... nº 7, p. 41). Derivam, portanto, de “práticas atentórias à personalidade humana” (STJ, 3ª T., voto do Relator EDUARDO RIBEIRO, no REsp 4.236, in BUSSADA, Súmulas do STJ, São Paulo, Jurídica Brasileira, 1995, v. I, p. 680). Traduzem- se em “um sentimento de pesar íntimo da pessoa ofendida” (STF, RE 69.754/SP, RT 485/230) capaz de gerar “alterações psíquicas”
ou “prejuízo à parte social ou afetiva do patrimônio moral” do ofendido (STF, RE 116.381-RJ, BUSSADA, ob. cit., p. 6873).
Na mesma direção caminham as considerações de Sílvio de Salvo Venosa104, ao afirmar que “dano moral é o prejuízo que afeta o ânimo psíquico, moral e intelectual da vítima. Nesse campo, o prejuízo transita pelo imponderável, daí porque aumentaram as dificuldades de se estabelecer a justa recompensa pelo dano”. E emenda o respeitável mestre, sentenciando que “em muitas situações, cuida-se de indenizar o inefável”.
Todavia, ressalva importante faz o mesmo doutrinador quando, logo após conceituar dano moral, ensina que:
103 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Dano Moral. 2ª ed. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira, 1999, p. 2.
104 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: responsabilidade civil. 3ª ed, v.4. São Paulo: Atlas, 2003, p. 33.
Não é também qualquer dissabor comezinho da vida que pode acarretar a indenização. Aqui, também é importante o critério objetivo do homem médio, o bonus pater familias: não se levará em conta o psiquismo do homem excessivamente sensível, que se aborrece com fatos diuturnos da vida, nem o home de pouca ou de nenhuma sensibilidade, capaz de resistir sempre às rudezas do destino. Nesse campo, não há fórmulas seguras para auxiliar o juiz. Cabe ao magistrado sentir em cada caso o pulsar da sociedade que o cerca. O sofrimento como contraposição reflexa da alegria é uma constante do comportamento humano universal.
Sílvio de Salvo Venosa registra que “o dano moral abrange também os direitos da personalidade, direito à imagem, ao nome, à privacidade, ao próprio corpo etc.” E, assim, chega à conclusão de que:
Por essas premissas, não há que se identificar o dano moral exclusivamente com a dor física ou psíquica. Será moral o dano que ocasiona um distúrbio anormal na vida do indivíduo; uma inconveniência de comportamento ou, como definimos, um desconforto comportamental a ser examinado em cada caso. Ao se analisar o dano moral, o juiz se volta para a sintomatologia do sofrimento, a qual se não pode ser valorada por terceiro, deve, no caso, ser quantificada economicamente.
De outro lado, Sílvio de Salvo Venosa105 leciona que o dano moral, do ponto de vista estrito, “é irreparável, insusceptível de avaliação pecuniária, porque é incomensurável. A condenação em dinheiro é mero lenitivo para a dor, sendo mais uma satisfação do que uma reparação (Cavalieri Filho, 2000:75)”. E acrescenta que “existe também cunho punitivo marcante nessa modalidade de indenização, mas que não constitui o aspecto mais importante da indenização, embora seja altamente relevante”.
Destaque-se que, também em conformidade com Sílvio de Salvo Venosa, “o dano psíquico é modalidade inserida na categoria de danos morais, para efeitos de indenização. O dano psicológico pressupõe modificação de personalidade, com sintomas palpáveis, inibições, depressões, bloqueios etc”.
105 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: responsabilidade civil. 3ª ed, v.4. São Paulo: Atlas, 2003, p. 35.
E, ainda, “que esses danos podem decorrer de conduta praticada por terceiro, por dolo ou culpa”.
Referido jurista106 esclarece ainda que, em sentido lato, o dano moral:
Abrange não somente os danos psicológicos; não se traduz unicamente por uma variação psíquica, mas também pela dor ou padecimento moral, que não aflora perceptivelmente em outro sintoma. A dor moral insere-se no amplo campo da teoria dos valores. Desse modo, o dano moral é indenizável, ainda que não resulte em alterações psíquicas. Como enfatizamos, o desconforto anormal decorrente de conduta do ofensor é indenizável.
Por derradeiro, salutar é transcrever reflexão de Caio Mário da Silva Pereira107, conforme a seguir, consistente na controvérsia doutrinária em torno da discussão se é ou não possível mensurar a dor moral:
A Constituição Federal de 1988 veio pôr uma pá de cal na resistência à reparação do dano moral. O art. 5º, nº X, dispôs:
"são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurando o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação". Destarte, o argumento baseado na ausência de um princípio geral desaparece. E assim, a reparação do dano moral integra-se definitivamente em nosso direito positivo. É de acrescer que a enumeração é meramente exemplificativa, sendo lícito à jurisprudência e à lei ordinária aditar outros casos. Com efeito:
Aludindo a determinados direitos, a Constituição estabeleceu o mínimo. Não se trata, obviamente de "numerus clausus", ou enumeração taxativa. Esses, mencionados nas alíneas constitucionais, não são os únicos direitos cuja violação sujeita o agente a reparar. Não podem ser reduzidos, por via legislativa, porque inscritos na Constituição. Podem, contudo, ser ampliados pela legislatura ordinária, como podem ainda receber extensão por via de interpretação, que neste teor recebe, na técnica do Direito Norte-Americano, a designação de "construction".
106 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: responsabilidade civil. 3ª ed, v.4. São Paulo: Atlas, 2003, p. 35.
107 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Responsabilidade Civil. 9ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 1998, p. 48.