apenas para a sociedade como para esse grupo étnico, proporcionando representatividade que por sua vez afetaria positivamente a autoestima do grupo. “Neste sentido, a adoção de políticas públicas racializadas permite entrever a atribuição de um valor positivo à classificação social do negro, por exemplo. A partir daí surge a oportunidade inédita - para além da militância negra stricto sensu - de um autoreconhecimento positivo, em ser negro no Brasil, isto é, cria-se a oportunidade de construir identidades negras no Brasil para além dos militantes” (BERNARDINO, 2002, p. 263).
A seguir, apresenta-se uma seleção de algumas das principais (enquanto geradoras de público) personagens negras de desenho animado, ainda em evidência, sendo elas: Diana, de
“A Caverna do Dragão” (Figura 1); Sharon Hawkins, irmã mais velha do personal principal de “Super Choque” (Figura 2); Tempestade (Figura 3), de “X-Men”; e Tiana, a primeira e, até então, única princesa negra da Disney (Figura 4), de “A princesa e o sapo”. Contudo, nessa breve observação, identifica-se que para além da cor da pele, todas têm algo em comum: o fato de aparecem com seus cabelos lisos.
Figura 1 - Diana, de A Caverna do Dragão
a) b)
Fonte: GOOGLE, 2016.
Figura 2 - Sharon Hawkins, de Super Choque
a) b)
Fonte: GOOGLE, 2016.
Figura 3 - Tempestade, em X-Men
a) b)
Fonte: CONFRARIA, 2010; LAM, 2007.
Figura 4 - Tiana, em A Princesa e o Sapo
a) b)
Fonte: FARINACI, 2011.
Através desses desenhos animados, a menina ou mulher negra ter o cabelo liso é algo naturalizado pela mídia, ou seja, é o normal, o padrão (SCHUMAN, 2012), como se fosse o natural, a primeira escolha a ser seguida como forma de viver. Como aponta Carneiro (2003, p. 125), “se partirmos de que os meios de comunicação não apenas repassam as representações sociais sedimentadas no imaginário social, mas também se instituem como agentes que operam, constroem e reconstroem no interior da sua lógica de produção os sistemas de representação, levamos em conta que eles ocupam posição central na cristalização de imagens e sentidos sobre a mulher negra.”.
Deste modo, compreende-se que as crianças negras, mais especificamente as meninas, não são ensinadas a admirarem como beleza os seus fenótipos característicos (COUTINHO, 2010). Na verdade são ensinadas que seus traços nada têm a ver com o “belo”. E é do ser humano ver através do olhar do outro, como forma de estar incluída nos padrões daquele grupo (PRESTES, 2013).
Quando eu era pequena (pequena, assim, eu tinha uns 5, 6 anos), eu queria beber água do poço, quando a água tava embaçada, que eu tenho um poço na minha casa, porque eu achava que aquela água ia me fazer virar uma princesa, ficar branca, de cabelo liso, escorrido, pra eu poder me casar com o menino que eu gostava. Mas, assim, era uma coisa que na minha cabeça era inocente [...] Mas pra mim era uma coisa normal, porque eu não tinha referência, então, eu precisava me transformar numa menina branca”. E hoje eu já olho, hoje eu admiro muito o trabalho da Thaís Araújo, a presença da Thaís Araújo, daquela outra menina também que é muito linda, esqueci o nome dela, mas enfim, dessas artistas negras que estão na televisão, porque eu sei que quando eu tiver uma filha ela não vai precisar passar por esse processo todo. Ela vai poder ter uma referência tanto em mim quanto em outras pessoas também. Isso vai ser uma coisa importante. (Entrevistada nº4).
Figura 5 - Sátira da princesa
Imagem satirizando uma princesa utilizando “ferro quente”.
Fonte: MOURA, 2014.
Quando ela não se vê de acordo com determinados padrões, vem o grande desejo de adequação. O que não precisa ser um problema, quando essa adequação não se dá através da negação de suas raízes, da sua árvore genealógica, que insistem em aparecer em traços e lembrá-la da sua negritude (BERNARDINO, 2002), que de alguma forma a sua beleza é diferente.
Ser uma princesa está altamente relacionado à beleza. E o cabelo crespo não está nessa configuração (COUTINHO, 2010), como visto através dos desenhos animados. As meninas negras são ensinadas a não aceitar seu cabelo natural, na verdade ele sequer é considerado como possível alternativa legítima de beleza; “as mulheres negras são socializadas para terem
o cabelo alisado” (FIGUEIREDO, 2012, p. 293), são educadas pela sociedade, desde a infância, a se anular para ser aceita pelos demais, “travestir-se nesse outro não é fácil e suas consequências são nefastas à constituição da identidade racial” (GOMES, 2000, p.8) e, cruelmente, esse esforço geralmente é insuficiente (PRESTES, 2013).
Dessa forma, o cabelo crespo é uma das principais questões para essa mulher (FIGUEIREDO, 2004; GOMES, 2003; COUTINHO, 2010) nascida num mundo onde as informações veiculadas dizem a todo o momento: o seu cabelo natural é feio ou inaceitável.
Como explica Figueiredo (2004, p. 225), “em se tratando das mulheres, o cabelo crespo ocupa um lugar central na memória e na reconstrução da exclusão de que foram vítimas na infância, seja na escola ou na própria família, talvez, por isso, para o ativismo negro, o cabelo natural é um símbolo de afirmação da identidade, ao passo que para a maioria das mulheres que incorporam as representações negativas sobre o cabelo crespo, o cabelo é, dentre os fenótipos negros, aquele que pode e deve ser manipulado”.
Então, eu acho que o cabelo é o carro chefe de toda mulher, especialmente da mulher negra que não tem qualquer cabelo né (Entrevistada nº4).
O meu problema em termos de... era mais o cabelo. Minha questão foi sempre o cabelo. Sempre a questão do cabelo. (Entrevistada nº3).
Essa dinâmica exige da mãe negra todo um cuidado diferenciado no sentido de atenção, já que sua filha, desde criança, vivencia a diferença e a falta de representatividade. E vai dessa mulher tornar essa diferença saudável ou que esbarre num sofrimento psicossocial frente a situações de preconceitos por se pautar numa beleza que não correspondente à sua.
Por questões de pertença e tentativa de identificação e aprovação, essa criança/indivíduo tem a tendência de tentar se aproximar desse padrão.
Minha filha tem o cabelo enrolado, mas é um enrolado que nem tem... É enrolado, assim, cacheado. Então, ela não passa nenhum produto, enfim, mas tá numa escola em que tem pouquíssimas meninas negras também, deve ter uma. E falam que o cabelo dela tá embolado. E eu tenho feito esse dia da beleza lá em casa né, eu faço hidratação, pinto a unha, pra valorizar: “Olha como o seu cabelo é lindo. Seu cabelo é igual dessa menina, não sei o que”. E assim vai. (Entrevistada nº12).
Porém, alisar o cabelo muitas vezes é uma cultura fortemente difundida pela muitas famílias negras como cuidado, como carinho para com aquela criança, como se fosse um dos cuidados essenciais, enquanto para a mulher adulta, esse ato revelaria um traço de vaidade. E, assim, desde a infância inicial, a preocupação de domar o cabelo crespo surge como uma grande questão.
Olha, em casa, na família era muito comum essa coisa - desde criança - de que eu tinha que alisar o cabelo. Tinha que alisar o cabelo porque o cabelo liso é mais fácil de tratar, além de dar uma aparência melhor. (Entrevistada nº18).
Sempre, a vida toda. Assim, isso é até uma questão de família, assim, eu aliso o meu cabelo desde que eu me entendo por gente, desde os 18 anos, que minha tia me pegou pelo braço... Porque ela alisava. Ela sempre observou ali uma vaidade:
“vamos alisar o cabelo?” Então, a vida toda... (Entrevistada nº5).
Fato esse que traz consequências não apenas na mudança de comportamento dessas mulheres, quando ascendem economicamente, pois tentam se aproximar da estética branca (PRESTES, 2013) como tentativa de efetivamente se inserir na classe média (FIGUEIREDO, 2004), como também na sua percepção sobre si e seus traços (BERNARDINO, 2002).
Não gosto do meu cabelo natural. [...] Não gosto. Não consigo. Não acho que fica legal. Mas tem muito a ver com essa coisa de estar perto de muitas pessoas brancas e com o cabelo mais arrumado, enfim. (Entrevistada nº2).
É, acho que você acaba fazendo coisas pra ter uma aceitação maior do grupo. Então, eu vejo hoje amiga que eu sei que ela diz que é mais fácil cuidar do cabelo dela sendo de escova e alisado, eu sei, e deve ser mais fácil às vezes. Ou não, que ela todo dia passa chapinha. [...] Então, acho que isso também é uma outra, você mudar né, é você se moldar. Não é nem mudar, acho que é se moldar pra atender o que é mais bonito pra aquele grupo né. Eu acho que tem uma coisa do moldar, não é mudar não. Porque mudar, eu posso mudar. Mas é você se moldar. E aí você reconhece uma porção de coisa, inclusive, qual é o tipo do teu cabelo, qual é o tipo da tua pele, que cor fica mais bonita do que outra em você. Acho que é um pouco isso. (Entrevistada nº12).
Traços esses vivenciados, e não conhecidos, por muitas mulheres. Para além do fato do desconhecimento, há algo de extrema perversidade, pois mesmo sem conhecer por inteiro sua combinação de traços étnicos elas aprendem e têm cultivada uma relação de ojeriza, um afeto negativo pelo desconhecido.
Então, assim, sempre foi um cabelo tratado quimicamente. Então, talvez a minha relação com ele não era uma relação de amor, mas... Acho que tem um desconhecido muito grande, assim, tem algo de querer que ele se pareça com algo que, pra mim, a imagem era mais bonita. Ele pode tá enrolado, mas ele poderia tá mais maleável...
Passar creme, secar rapidamente... Eu acho que é isso um pouco. Mas eu nunca deixei meu cabelo natural, então, é como se eu não... Acho que eu não conheço. Eu conheço ele tratado quimicamente. (Entrevistada nº12).
[...] E aí eu comecei a me descobrir. Meu cabelo foi um divisor de águas na minha vida né, assim, acho que com relação à questão da cor, me apropriar mais e de não poder mais esconder, né? [...]
O meu cabelo, assim, até os, sei lá, 22 anos, eu sempre alisei. Eu não aceitava o meu cabelo. Na verdade, eu não conhecia o meu cabelo. Desde que... Eu lembro quando eu era pequena, muito pequena mesmo, eu entrava na piscina e o cabelo das pessoas molhavam e o meu ficava só aquelas gotinhas. Eu ficava muito frustrada. Então, assim, com muita pouca idade, eu não sei precisar quanto, mas muito mesmo
pequena, minha tia tinha salão, então, eu já comecei passar muita coisa no meu cabelo. (Entrevistada nº 9).
Muitas vezes não se trata de uma opção, já que não há oferta de escolhas. Cabe esclarecer que entende-se que a possibilidade de escolha em como lidar com os cabelos deva ser sempre respeitada e valorizada. O destacado aqui é: boa parte dessas mulheres não consegue sequer identificar a ideia de não alisar os cabelos como uma alternativa, haja vista estar com o cabelo alisado significar uma maior aceitação ou, ao menos, uma forma de evitar a sua rejeição pelo grupo no qual quer se inserir.
Muito preconceito na escola na época da oitava série. Eu era minoria, mas não era nem tanto. Essa coisa de bullying, sabe? Então, por conta do cabelo, eu tinha cabelo Black Power e tal e aí as crianças: “Ah cabelo Bombril!”. Assim, foi bem chato, bem sofrido. Aí eu cresci, mudei o cabelo [...] (Entrevistada nº20).
Depois, quando eu me formei, eu demorei pra entender isso, quando eu me formei, acho que talvez por uma coisa de inserção no mercado de trabalho, foi que eu comecei a usar ele escovado. Mas eu não tinha muita noção que era por isso. Pra mim era uma experimentação, porque eu nunca tinha usado ele assim antes. E fiquei até hoje com ele assim. [...] Porque eu acho que a aceitação né do cabelo escovado numa entrevista de emprego é diferente. Embora eu não tenha feito isso conscientemente, mas eu acho que interferiu, essa coisa de você ter um padrão mais normativo né, no cabelo... (Entrevistada nº19).
Eu não gostava do meu cabelo antes (alisado), nunca estava suficientemente bom.
(Entrevistada nº13).
E quando o questionamento não vem de sua percepção e desejo de se “adaptar” a esse meio e ser bem-vista, necessidade dos seres sociais (PRESTES, 2013), ele aparece objetivamente por quem as cerca e também está imerso nessa cultura do padrão de beleza europeia (COUTINHO, 2010; SCHUMAN, 2012).
Meu ex-chefe: “Ai alisa, que aí liso ele fica tão mais arrumadinho”. Né? Eu acho que eu sofri uma influência aí sim. (Entrevistada nº1).
Então, assim, teoricamente tem que tá com o cabelo alisado porque esse é o padrão.
As pessoas caminham pro padrão branco, de cabelo alisado e tal. Então, qualquer outro cabelo é horrível, tá feio, tá esquisito. (Entrevistada nº4).
É notável que a discussão em torno do cabelo crespo é “extremamente presente no cotidiano das mulheres negras: muitas delas despendem quantias significativas dos seus salários para ter um „cabelo bonito‟ aos seus olhos e aos olhos dos outros” (FIGUEIREDO, 2012, p. 295).
Eu fui de acordo com a moda um pouco. Na época que se usava alisamento, eu usava alisamento. Na época que se começou a usar cacheado, eu usava cacheado.
Depois voltou o alisamento, eu passei a usar o alisamento. Depois, megahair e depois alisamento, escova progressiva... Fui acompanhando a moda. (Entrevistada nº8).
Então, há anos que eu faço. Já mudei de profissional várias vezes, de produto várias vezes, mas sempre nessa linha de alisar. [...] Hoje em dia eu gosto dele assim, eu gosto de alisar. Mas, assim, eu admito que isso dá um trabalho que é chato e é um dinheiro (risos). (Entrevistada nº20).
Dessa forma, identifica-se que é extremamente compartilhada, não apenas por essas mulheres, mas pela toda sociedade brasileira, a ideia de que o cabelo escovado, alisado seria um cabelo mais bem arrumado, que corresponderia a uma “aparência melhor” (SCHUMAN, 2012), constituindo assim uma representação social negativa sobre seus fenótipos característicos, “vistos como marca de inferioridade” (GOMES, 2003, p. 173; FIGUEIREDO, 2012; COUTINHO, 2010).
Meu cabelo era tipo crespo. A minha mãe passava henê, eu sou da época do henê.
[...] Mas não alisava, não sei se ela não fazia muito, mas não alisava. Então, ficava cheio. E aí isso fazia com que as pessoas falassem, brincassem, as crianças né, algumas ficassem fazendo brincadeiras. E aí na minha adolescência... Certamente hoje olhando influenciada por isso né, que claro que eu não tinha essa noção Aí eu [?] de ficar alisando o cabelo, virou modinha, aí eu fui lá e fiz também. Então, há anos que eu faço. Já mudei de profissional várias vezes, de produto várias vezes, mas sempre nessa linha de alisar. (Entrevistada nº20).
É tão impregnada essa “marca de inferioridade”, fundada pelas três faces de estagnação da mobilidade social da mulher negra, que por mais que esse processo de tentativa de adaptação ao padrão branco represente algum nível de “tortura psicológica”, um trauma de ordem psíquico, muitas vezes elas apresentam dificuldade de sair desse padrão de comportamento (BERNARDINO, 2002) e forma de ver o mundo na qual foram imersas desde muito cedo.
[...] Até que eu comecei a namorar com 18 anos o meu marido né, 17 pra 18 anos, e ele é negro também, e aí ele virou pra mim e falou assim: “Mas por que que você fica com essa tortura, essa coisa de alisar cabelo, de enrolar e tal? Por que que você não deixa o teu cabelo como ele é? Não vai te dar muito menos trabalho? Não vai ficar muito mais bonito?”. E foi aí que eu comecei. Eu só lavava, não enrolei mais.
E aí eu me libertei. (Entrevistada nº18).
Frente ao exposto, de fato não é fácil fugir desse padrão de beleza estabelecido (PRESTES, 2013), principalmente no que diz respeito a assumir um cabelo Black, pois como indica Coutinho (2010, p. 73), no Brasil, todos somos miscigenados e o cabelo é um dos principais determinantes raciais. O cabelo crespo seria um movimento de ostentação da
negritude, e a sociedade ainda não está efetivamente acostumada com isso, ainda mais por ser
“o maior símbolo estético de estigma, sofrendo uma desvalorização evidente”.
De alguma forma o cabelo crespo tem o efeito de uma exibição enquanto ostentação da negritude. E às vezes choca, porque evidencia um “estranho” orgulho de fazer parte daquele grupo que sempre foi estigmatizado, pois é a característica negróide mais fácil de ser manipulada como forma de tentativa de aproximação do padrão de beleza branco (BERNARDINO, 2002), e quando, de propósito, essa aproximação não é realizada, isso também sai do padrão.
Até no meu ambiente de trabalho, uma colega minha branca quando eu assumi o Black ela falou assim: “Ah, mas o seu cabelo era tão mais bonito quando ele crescia pra baixo”. Eu falei assim: “Mas ele desde que eu me entendo por gente, ele cresce pra cima. Só que eu não entendia que era importante ele crescer pra cima porque é o formato dele, eu não tenho que ficar passando relaxamento no cabelo”. Mas... Até a fala de familiares né (risos). “Você regrediu com esse cabelo”. Então, eu percebo sim no ambiente que frequento alguns olhares. Falas nem tanto porque acho que as pessoas não têm coragem de falar, mas olha... (Entrevistada nº16).
Teve uma ocasião muito preconceituosa no meu trabalho em Bangu, uma mulher virou pra mim – eu tava com uma trança rasta – e falou assim: “Ah, isso parece que é sujo. Você consegue lavar isso?” Isso foi a única. A única experiência. Bem ruim.
(Entrevistada nº13).
E uma pessoa levanta, chega perto de mim e diz assim: “Eu gosto de você mais quando você está com outro tipo de cabelo”. Aquilo já me ressaltou os olhos. E eu faço questão de ir na igreja do jeito que eu gosto né, ressaltando bem a cultura afro.
Aí ela disse assim: “Eu não gosto de você com esse cabelo assim não”. (Entrevistada nº11).
Mas, teve um caso dos casamentos que eu fui, que eu fui com uma trança, metade do cabelo trançado, outra metade dele solta né, e isso realmente causou um impacto.
Causa impacto, as pessoas elas olham, elas estranham porque às vezes não tá no padrão delas. Já vi comentários de amigas minhas dessa coisa do liso: “Ah, deixa alisar”, “Ah, não. Escova”. E eu falei assim: “Não, eu quero usar ele Black. Eu quero usar ele frizadinho. Eu quero usar ele natural. Então, assim, isso causa” Tem diferença. (Entrevistada nº3).
Porém, cabe ressaltar transformações de ordem psicossocial; “esse novo significado associado ao negro brasileiro diz respeito, sobretudo, a uma moda ou onda Black: um estilo próprio de roupas, penteados, cosméticos, música, lazer, comportamento etc., que tem sido associado pela mídia a um „estilo negro de ser‟, apontando que a „negritude está na moda‟”
(MARTINS FILHO, 2012, p. 193).
Mas engraçado que hoje as pessoas me questionam de eu usar ele escovado, então, hoje é mais frequente isso. Mas quando eu não usava escovado, eu acho que tinha piadas de cabelo impermeável. Na própria faculdade eu ouvi isso, uma coisa de desqualificar mesmo o meu cabelo né. Perguntavam por que que eu não alisava. Isso era frequente. (Entrevistada nº19).
Contudo, essa valorização progressiva que está havendo do “estilo negro de ser”, não necessariamente se trata de enquadramento num padrão de beleza vigente (COUTINHO, 2010), e sim se aproximaria de um aspecto exótico da negritude, de forma positiva, que pode se consolidar em função de mudanças de hábitos (MARTINS FILHO, 2012), decorrentes das práticas sociais, do cotidiano (WAGNER, 2000).
Eu sou olhada como exótica de um jeito bom, assim, tipo: “Nossa, como você é bonita”; “Nossa, como você é diferente”; “Ah eu ia adorar ter esse cabelo”; “Ah eu ia adorar saber usar esse tipo de colar”. Um pouco nesse sentido, assim, de admiração. Eu acho que as pessoas não falam, mas eu acho que é um pouco: “Que coragem!”. Assim, né: “Como você tem coragem de sair assim na rua e mesma assim ser legal?”. Eu acho que as pessoas não falam bem esses termos, mas eu sinto que é um pouco isso, assim, uma admiração nesse sentido: “Nossa, ousada”.
(Entrevistada nº7).
É, por causa do cabelo. Aí teve um dia que eu fui trabalhar com um batom efeito mate lilás e um turbante de chita coral, fundo coral, com umas flores, e nesse dia tinha audiência, e fui assim. Mas aí, o profissional falou: “Nossa, eu acho você uma pessoa muito ousada” (Entrevistada nº16).
Assim, enfatiza-se que a discussão em torno do cabelo crespo traz interpretações distintas, “algumas reforçando a importância do cabelo no fortalecimento da autoestima e da identidade, enquanto outros rejeitando e negando qualquer possibilidade do cabelo crespo ser considerado belo” (FIGUEIREDO, 2012, p. 311).
3.5 A minimização das faces de estagnação social e o empoderamento da mulher negra
O processo de familiarização da sociedade para com essa mulher negra, que se encontra nesse “novo lugar”, se trata dos meios que a sociedade e as próprias mulheres negras de classe média, através da interação, encontraram para minimizar as forças atuantes das faces de estagnação da mobilidade social desses indivíduos.
A mobilidade da mulher negra na pirâmide social propicia uma dinâmica de visibilidade que, para ser atingida, se configura em requisitos que vão para além do status financeiro dessa mulher; ela se dá principalmente em função do seu processo de empoderamento.
Chamamos de processo, pois para uma figura que sempre esteve marginalizada e ligada a uma posição social negativa (PEREIRA, 2008) – que a todo o momento ainda se vê à prova de pré-requisitos de aceitação (FIGUEIREDO, 2004), que por sua vez acertam em