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Chamado a ser irmão

No documento “IRMÃOS, SIMPLESMENTE IRMÃOS” (páginas 99-103)

2. HOMENS FRATERNOS

2.2 Chamado a ser irmão

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Espírito Santo. Aqui, já se vê como o conceito judaico de Pai se transforma em sentido cristão, tornando-se mais intenso, mais rico‖283.

Apesar de jovem, a irmandade cristã, que a princípio romperia todas as barreiras da comunidade judaica, pouco a pouco, conforme vai se consolidando, cria suas próprias barreiras. Contudo, internamente, se produz um movimento de supressão de todas as diferenças. Elas não destroem a ordem social existente, mas a carta a Filêmon, e, analogamente, a primeira carta a Timóteo, apresentam comunidades nas quais as diferenças de classe perdem seu sentido. A primeira mostra que o senhor cristão deverá ver no escravo cristão um irmão (cf. Fil 16). A segunda, na direção oposta, pede aos escravos que não menosprezem os seus senhores por serem irmãos (cf. Tm 6,2)284.

Todavia, a paulatina consolidação da fraternidade cristã alcançará seu cume nos escritos de São João. Refere-se a uma fraternidade entre os irmãos na fé, isto é, amor mútuo entre os cristãos e não para com os homens em geral. Tende-se, portanto, a certa exclusividade (cf. 2Jo 13; 3Jo 5-8). Isso mostra que, se de um lado, se superou aquele momento de indeterminação sobre quem são os cristãos, agora, se coloca como desafio manter a abertura fraterna que caracteriza a mensagem de Jesus285.

Assim se faz salutar o pedido do Papa Francisco de que as comunidades cristãs deem testemunho de comunhão fraterna e que ele se torne fascinante e resplandecente. Aqui, a afirmação de Jesus: ―nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos se tiverdes amor uns pelos outros‖ (13,35) torna-se um projeto de seguimento dirigido a todo cristão: ―...que todos sejam um [...] para que o mundo creia que tu me enviaste‖ (cf. Evangelii Gaudium 99).

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judaíco-cristã não se refere a uma visão de Deus cósmico, mas pessoal. Este modo de revelação da Bíblia tem valor somente aos olhos da fé. O pressuposto da fé é essencial para compreensão da autêntica fraternidade cristã287.

Somente a fé ―nos dá a certeza de que somos realmente filhos do Pai celestial e irmãos de todos que comungam conosco na mesma fé‖. A fé que proclama ―Pai nosso‖ deve se traduzir numa nova atitude para com Deus e diante do próximo reconhecido como irmão. Esta nova ética que se estabelece tem duas facetas. De um lado, reconhece a grandeza de Deus, que é poder e fidelidade. Por isso, o homem colocará sua confiança nele. Por outro, o unir-se a Cristo implica, necessariamente, a ―renúncia ao próprio eu e a união fraterna com todos os que estão em Cristo‖288.

Por detrás da palavra ―Pai‖ se encontra o núcleo da verdadeira filiação em Jesus Cristo (cf. Gl 4,6; Rm 8,15ss). O valor e a profundidade dessa real incorporação a Cristo implica uma nova significação. Nesse sentido, a paternidade de Deus, bem como a fraternidade entre os cristãos, transcende o âmbito das ideias.

Por isso, Cristo, pela fraternidade cristã, faz-se presente na história permanentemente.

Ademais, a própria fraternidade cristã se mostra como forma concreta de verificação da incorporação a Cristo. O batismo é o ato que efetua, primeiramente, esta incorporação. A eucaristia atesta o constante fortalecimento da unidade com o Senhor e com os irmãos. Estas bases dogmáticas são decisivas para determinar o ethos de uma autêntica fraternidade289.

Essa fraternidade cristã, contudo, ―não se apoia nos laços naturais, mas na força do Espírito Santo, princípio vivo do amor entre os seres humanos‖ (Cong.IMI 21). O atestado de que somos filhos de Deus é oriundo do Espírito mesmo (cf. Rm 8, 16). Nesse sentido ―a paternidade de Deus se refere em primeira linha ao Filho, a Cristo, e através dele a nós, toda vez que o Espírito está em nós e de nosso interior exclama: Pai!‖ 290. Aqui está contida uma estreita relação entre Cristo e o Espírito. A paternidade, portanto, é comunicada por Cristo no Espírito. Deus é o Pai de Cristo. Nós, por nossa vez, somos filhos ―em Cristo‖ mediante o Espírito Santo291.

287 Cf. Ibid, p. 63-65.

288 Ibid, P. 71-76.

289 Cf. Ibid, p. 69-70.

290 Ibid, p. 50

291 Cf. Ibid, p. 49.

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Constata-se, portanto, que, para o cristão, a experiência fraterna do ser humano, como imagem de Deus e aberto às relações, tem sua gênese na compreensão trinitária de Deus. Ela mostra que a fraternidade não se fundamenta nem numa absolutização das diferenças das pessoas e das comunidade de pessoas, nem a partir de uma comunhão e unidade que as destrua. Habita no mistério trinitário uma diferença que é capaz de se harmonizar na igualdade292.

Nesse sentido, podemos dizer que a fraternidade formada pelos consagrados espelha a família de Deus, congregada de todas as partes pela força de sua palavra e de seu nome, reunida no poder do Espírito Santo em torno do Senhor, à sombra de sua presença; o esforço mais completo da Igreja por mostrar, já nesse mundo, verdadeira sociedade dos santos na caridade293.

Na Igreja, o ideal da fraternidade irá passar por alguns percalços e transformações durante sua história. Na Patrística, era comum o uso do termo ―irmão‖. Inácio de Antioquia, em tempos de perseguição, insistiu na fraternidade inclusive em relação aos opressores294. Tertuliano identifica o batismo como o momento no qual o crente é acolhido na irmandade cristã295. Para ele há duas formas de fraternidade. Uma é a que se funda na comunidade de estirpe, compreendendo a todos os irmãos. A outra parte do comum reconhecimento de Deus296.

Ainda nos primeiros séculos da Igreja entra em desuso o termo ―irmão‖ como denominação recíproca entre os cristãos. Ele ficará reduzido, sobretudo, aos monges e monjas. Essa concepção de irmão que se restringe aos ascetas foi sendo assumido pela Igreja e assim permanece, praticamente, até nosso tempo297. Como já vimos, até mesmo no interior da VRC essa noção sofrerá grandes prejuízos.

No século XIII, porém, o ideal de relações fraternas ressurgiu, a exemplo das primeiras comunidades cristãs, como elemento profético da Igreja. A tradição monástica

292 Cf. MACCISE, Fraternidade, p. 478.

293 AGUILAR, Renovación de la Vida Religiosa, p. 361.

294 Cf. INÁCIO DE ANTIOQUIA. Carta aos Efésios X, 3. In: RUIZ BUENO, Daniel (ed.). Padres Apostólicos. Madrid: BAC, 1965. (Biblioteca de Autores Cristãos, 65). P. 453.

295 Cf. TERTULIANO. De Batismo, XX,5. In: TERTULIANO. El Bautismo; La Oración. Madrid:

Ciudad Nueva, 2006. Fuentes Patrísticas 18. P. 195. Apol 39. In: TERTULLIAN. Apology. Disponível em: < http://www.earlychristianwritings.com/text/tertullian01.html >. Acesso em: 14 dez. 2017.

296 Cf. RATZINGER, La fraternidad, p. 58-59.

297 Cf. Ibid, p. 59-60; Cf. STEGGINK, Fraternità apostólica, p. 44.

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punha ênfase na vida fraterna. Todavia, a fraternidade tinha sua gênese na figura do abade.

Esse pai comum é quem coordena e organiza a vida dos monges. Por isso, a aparição dos frades revolucionou o conceito de vida religiosa, adaptando-a às novas circunstâncias sociais298. Essa referência à fraternidade perpassa a vida comunitária.

A vida fraterna não pode ser reduzida à vida comum. A fraternidade é maior do que esse modo de vivê-la. Entretanto, ela é um caminho fecundo. A vida comum favorece intensamente a comunhão fraterna, mas ―ela não será automaticamente realizada pela observância das normas que regulam a vida em comum com a observância das regras que regem a vida em comum‖ (A vida fraterna em comunidade, 3; cf. Cong.IMI 24).

Muitas vezes, no período pré-conciliar, se compreendia a vida fraterna e comum meramente como cumprimento da regra ou rotina estabelecida. Tal visão favoreceu uma rigidez excessiva que privilegiava a homogeneidade e estabilidade dos horários quase como valor supremo. A situação agravava-se com o conflito entre vida comum e apostolado, vocação regular e vocação pessoal. Por isso, fazia-se necessário deixar clara a verdadeira natureza da vida comum. Em decorrência se considerou como imprescindível uma abordagem mais espiritual e teológica da vida comum299.

A vida comunitária deve ―ser e aparecer como uma célula de intensa comunhão fraterna que seja sinal e estímulo para todos os batizados‖ (A vida fraterna em comunidade 2b; cf. PC 15; LG 44). Essacomunidade organiza sua vida para ver passar a ação de Deus através de sua agenda diária e descobrir em suas páginas a história da salvação que vai se realizando a cada dia‖. O cume de sua realização está centrada na celebração da Eucaristia (Cong.IMI 22).

Assim, a comunidade religiosa de irmãos assume uma missão diante do mundo, como

―uma embaixadora do amor de Deus no mundo, instrumento de salvação entre os que sofrem, entre os marginalizados, entre os pequenos e os fracos‖ (Cong.IMI 23). Portanto, a comunidade é, para os irmãos, uma experiência, mais que um lugar. Eles vivem em comum para poderem vivenciar mais profundamente essa experiência. Na escola da fraternidade, perseguem o desejo de ser peritos em comunhão (cf. Cong.IMI 24; cf. VC 46).

298 Segundo Maccise, uma dupla fraternidade impulsiona os mendicantes: a interior ao grupo, que os faz demonstrar que é possível viver os valores do evangelho num mundo burguês e materializado, e a de projeção apostólica que os conduz a atender fraternalmente aos cristãos em um período de abandono pastoral‖ (MACCISE, Fraternidade, p. 477).

299 Cf. AGUILAR, Renovación de la Vida Religiosa, p. 358.

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