2. HOMENS FRATERNOS
3.2 Serviço comum
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aparece como posse reservada a Deus (1Pd 2,9). Isto é, não pertence mais a si mesmo, pois foi comprado por um alto preço (1Cor 6,19), isto é, pelo sangue de Cristo (cf. 1Pd 1,19)335.
Os batizados, assim, surgem como participantes da natureza de Deus (2Pd 1,4). Por isso, eles têm a obrigação de não ―viverem para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou (2Cor 5,15)‖. Devido a essa transformação radical, ―os apóstolos chamam a si mesmos e os cristãos de servos de Deus e de Jesus Cristo (2Pd 1,1; At 4,29;
1Cor 7,21; Ef 6,6; Cl 4,12; 2Tm 2,24), e definem a vida cristã como serviço a Deus e a Cristo (1Ts 1,9; Rm 7,6; 12,11; 14,18)‖336.
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tarefas nas mãos de poucos, tornará toda a comunidade mais ativa e mais responsável pela missão da Igreja‖339.
Lamentavelmente, por vezes, o monopólio exercido pelos ministros ordenados da ministerialidade da Igreja e a compreensão desse ponto em chave cultual e sagrada ainda dificulta o florescimento dos ministérios laicais. A reivindicação da ministerialidade laical, porém, não implica numa negação de uma dimensão estrutural e básica do ministério ordenado. Implica, sim, a afirmação de que tal ministério não esgota toda a ministerialidade dentro do Povo de Deus e de que, por vontade de Cristo e pela ação do Espírito Santo, há multiplicidade de carismas. Esses podem e devem ser ministerializados para a edificação da Igreja e a realização de sua missão. Mesmo não sendo conferidos por meio de um rito de ordenação, gozam de reconhecimento oficial e atendem serviços variados dentro da comunidade cristã340.
O serviço na Igreja não é um elemento secundário ou opcional. Todo cristão é sujeito da missão da Igreja. Entretanto, cada um participará nela a partir de um ministério peculiar.
Por isso, também a diversidade de ministérios, e não só o ministério ordenado, é um elemento constitutivo da Igreja. Assim como o ministério ordenado, o laical também pressupõe um carisma e nasce como doação peculiar do Espírito Santo (cf. LG 12)341.
O princípio da unidade da Igreja está no próprio Espirito Santo (cf. 1Cor 12,4s). Para Antoniazzi342, no número das diversas atividades exercidas pelos membros da Igreja (1Cor 12,28-30; cf. 12,8-11), há algumas que são ocasionais e espontâneas e, outras, permanentes e, por isso, reguladas por certas normas e tradições. Nesse sentido, podemos classificar o serviço
339 Ibid, p. 35.
340 Cf. GARCÍA PAREDES, José Cristo Rey. La vida religiosa como ministerio. Vida Religiosa. v. 66, n.6, p. 422-433, nov. 1989 [aqui: 422-423].
341 Cf. Ibid, p. 424-425. O documento pós-sinodal Evangelii Nutiandi, de Paulo VI, de 1974, será um marco importante nesse processo, pois superará uma visão meramente litúrgica do que se compreende como ministério. O documento reconhece o lugar e o valor dos ministérios não-ordenados:
―ministérios, novos na aparência mas muito ligados a experiências vividas pela Igreja ao longo da sua existência, por exemplo, os de catequistas, de animadores da oração e do canto, de cristãos devotados ao serviço da Palavra de Deus ou à assistência aos irmãos em necessidade, ou ainda os de chefes de pequenas comunidades, de responsáveis por movimentos apostólicos, ou outros responsáveis, são preciosos para a implantação, para a vida e para o crescimento da Igreja e para a sua capacidade de irradiar a própria mensagem à sua volta e para aqueles que estão distantes‖ (EN 73).
342 Para o que segue, salva as intervenções referentes aos irmãos, cf. ANTONIAZZI, Os ministérios na Igreja, p. 36-37.
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do cristão em três níveis: ministérios em sentido mais amplo, ministérios instituídos e ministérios ordenados. O ministério do irmão estaria nos dois primeiros níveis343.
Ministério, num sentido mais amplo, pode ser compreendido como ―toda atividade a serviço do Evangelho no mundo ou da edificação da comunidade cristã; todos os cristãos, neste sentido, são chamados a exercer um ministério‖ 344. Ele pode ser expresso tanto pela profissão quanto por sua condição. No caso da profissão, esse caminho é utilizado por muitos irmãos num exercício, seja ele simples ou complexo, de atividades cuja repercussão se dá no meio secular. Mas, ainda, a própria condição do religioso já é ministério345. Por isso, mesmo se ele, por quaisquer razões, como saúde ou idade, não puder exercer seu ofício profissional, ainda assim é convidado a viver a dimensão da diaconia enquanto cristão.
Num sentido mais estrito, ministério é entendido como ―aquelas tarefas que uma pessoa assume em nome e por mandato da comunidade ou que, pelo menos, a comunidade cristã reconhece de algum modo como ‗serviços‘ que lhe são prestados‖346. Entre eles, há aqueles que são publicamente instituídos, geralmente recebidos por meio de uma investidura e submetidos a certas regras, e aqueles que são reconhecidos, embora sem formalidades. Os ministérios instituídos são do leitorado e acolitado, mas também outros podem ser instituídos conforme as Conferências Episcopais. Nada impede que os irmãos os recebam.
A perspectiva assumida pelo Concílio, por sua vez, necessita de um grande passo na compreensão eclesiológica dos ministérios e que é capaz de motivar novas configurações ministeriais. Entretanto, tais serviços são apresentados apenas em chave eclesiológica, isto é, ministérios na Igreja e para a Igreja. Por isso, esses, talvez, devessem ser assumidos num
343 O Documento 62, parágrafo 87, da CNBB, enumera quatro grupos de ministérios: a) ministérios simplesmente reconhecidos, variáveis conforme as circunstâncias; b) ministérios confiados, conferido ao seu portador por algum gesto litúrgico ou forma canônica; c) ministérios instituídos, conferidos pela Igreja através de um rito litúrgico; d) ministérios ordenados, ou apostólicos ou pastorais, que se dão por meio do sacramento da Ordem (CONFERÊNCIA Nacional dos Bispos do Brasil. Missão e ministérios dos cristãos leigos e leigas. Paulinas; Paulinas, 1999. P. 69-70.).
344 Ibid, p. 36.
345 A consagração do irmão é eclesial. Foi ratificada publicamente e aceita pela Igreja. O ministério do irmão se situa a partir de um sistema de vida aprovado pela Igreja e com finalidade de serviço na mesma. Seu ministério, então, estará vinculado à natureza do Instituto ao qual pertence. Vislumbramos assim, que ―no religioso leigo existe, por uma parte, uma ‗motivação religiosa‘ que dá sentido ao gênero de vida próprio da consagração, e, por outra, há um ‗trabalho profissional‘ que se realiza. A motivação vocacional toma o ser mais profundo da pessoa e a profissão ou ocupação realizada representa a encarnação concreta da consagração. A vocação, ao proceder do Espírito, é criativa por si mesma e condiciona a modalidade do trabalho que se realiza. Todo trabalho profissional no religioso leigo deveria ser consequência do alento vocacional ou carisma...‖ (PULOL I BARDOLET, El ministerio eclesial, p. 440-441.).
346 ANTONIAZZI, Os ministérios na Igreja, p. 36.
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contexto mais amplo, no qual Igreja aparece como Povo de Deus, enquanto dimensão histórico-cósmica do Reino de Deus. Assim, ―os ministérios, entendidos e instituídos na perspectiva do Reino receberiam novos conteúdos e explicariam muito melhor sua razão de ser na Igreja, Povo de Deus‖347. Ministérios não só para a Igreja, mas também para o mundo.
Nesse sentido,
independentemente das formas que adota, a vida religiosa é carisma que exerce dentro da Igreja função simbólica e representativa sumamente importante. Próprio da vida religiosa é exercer na Igreja um ministerium representationis ou ministerium signo eschatologici. Este é o ministério fundamental dos religiosos; é o ministério a partir do qual adquirem sentido e razão de ser todos os demais ministérios que as diversas formas de vida religiosa realizam.348
Assim, o ministério do irmão tem identidade e características de caráter profético. Não está situado tanto no culto, mas participa dele quando compreendido o caráter sacerdotal dado no batismo. Ele ―se situa no serviço das necessidade e urgências do homem e do mundo que tem que atender. Por isso, cabe dizer com justiça que o lugar teológico do religioso leigo é o mundo que tem que converter para Deus, ou melhor, para que o mundo entre na perspectiva de Deus‖349
Irmãos nos institutos apresenta cinco características do serviço realizado pelos irmãos.
Primeira, o trabalho dos irmãos é radicado em sua consagração batismal e na confirmação, consagração que eles querem vivenciar em toda a sua plenitude. Segunda, tais serviços pertencem à grande ação salvífica. Terceira, tal missão é recebida e aprovada pela Igreja, uma vez que eles a recebem por meio das Constituições de seu Instituto. Quarta, há uma estabilidade e continuidade no exercício desses ministérios. Por fim, quinta, o Instituto garante uma formação adaptada e específica ao ministério350.
Essa oficialização ou ministerialização do carisma, por sua vez, não deve ser vista como uma forma de controle institucional. Afinal, como sujeito eclesial, cada crente batizado tem o direito de ser aceito e reconhecido pela Igreja com sua vida e missão. Essa
347 GARCÍA PAREDES, La vida religiosa, p. 425.
348 GARCÍA PAREDES, José Cristo Rey. Ministério . In. RODRÍGUES; CASAS, Dicionário Teológico da Vida Consagrada, p. 649.
349 PUJOL I BARDOLET, El ministerio eclesial, p. 440.
350 Cf. Irmãos nos institutos, p. 45.
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ministerialização dos carismas acaba por evitar qualquer tentativa de monopólio, por parte do ministério ordenado, de grandes campos de corresponsabilidade na Igreja351.