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Cinema e Vídeo

No documento ANAIS ELETRÔNICOS (páginas 59-64)

7º Seminário de Pesquisa em Artes da Faculdade de Artes do Paraná Anais Eletrônicos

Anais do 7º Seminário de Pesq. em Artes da Faculdade de Artes do Paraná, Curitiba, p. 60-63, jun., 2012.

NOVAS PERSPECTIVAS PARA A HISTORIOGRAFIA DO CINEMA FINLANDÊS

Cássia Lorenza Muginoski32 Universidade Federal do Paraná

RESUMO

O presente artigo busca, através de um diálogo teórico-epistemológico com pespectiva foucaultiana, demonstrar que o cinema finlandês é pouco estudado e possui relativamente pouco reconhecimento internacional porque é culturalmente hermético, contrariando o difundido ponto de vista acadêmico nos campos de História e Teoria do Cinema, de que o cinema finlandês é objeto de poucos estudos científicos por ser estéticamente irrelevante.

Palavras-chave: cinema; Finlândia; história; cultura; teoria.

32 Graduada em Cinema e Vídeo pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP). Mestranda bolsista REUNI do Programa de Pós-Graduação em História – História, Cultura e Sociedade – da Universidade Federal do Paraná (UFPR), atuando na Linha de Pesquisa “Cultura e Poder”. Pesquisa o Cinema Nórdico, com grande ênfase no Cinema Finlandês, sua história e suas relações semióticas, socais e culturais desde a graduação. E-mail para contato:

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Muginoski, C. L. Novas Perspectivas para a Historiografia do Cinema Finlandês.

INTRODUÇÃO

O Cinema Finlandês, ao longo de toda a sua trajetória, nunca foi um grande alvo de investigação científica, nem na própria Finlândia e nem no exterior. As poucas pesquisas existentes sobre a história da cinematografia finlandesa se concentram na Europa e na Escandinávia e, tanto as mais recentes quanto os estudos “clássicos”, têm concordado de que o cinema finlandês é pouco estudado pelo fato de que esta cinematografia sempre teve uma estética comercial e que os cineastas finlandeses nunca se preocuparam muito em inovar através de movimentos vanguardistas, ao contrário, sempre seguiram os padrões da linguagem e narrativa clássica, tornando assim esta cinematografia inexpressiva.

OBJETIVOS

O presente artigo irá questionar tal difundido ponto de vista estabelecido na comunidade científica, argumentando através da perspectiva do discurso foucaultiano, buscando demonstrar que o cinema finlandês é pouco estudado por ser Culturalmente Hermético, explorando obras de destaque local da cinematografia finlandesa, no período contemporâneo.

MÉTODOS E RESULTADOS

O estudo científico do cinema geralmente está ligado ao desenvolvimento da linguagem cinematográfica ao longo da trajetória histórica das cinematografias mundiais e da relevância estética desenvolvida por vertentes artísticas nacionais.

Neste contexto, o Cinema Finlandês não se enquadra, pois ao longo de sua história, o fator estético e inovações de linguagem nunca conseguiram destacar-se significativamente.

A institucionalização do cinema enquanto termo lato, e a institucionalização das cinematografias nacionais, pela acepção foucaultiana, estão engendradas em sistemas de poder que são intensificados pela vontade de verdade dos detentores do discurso, ou seja, dos realizadores e pesquisadores, em relação ao público que consome os produtos oriundos destas instituições.

Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder. Nisto não há nada de espantoso, visto que o discurso – como a psicanálise nos mostrou – não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo; é, também, aquilo que é objeto de desejo; e visto que – isso a história não cessa de ensinar – o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas e sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar (FOCAULT, 2010, p. 10).

Ao longo da História Mundial do Cinema, dois sistemas de poder se estabeleceram: a força comercial do cinema norte-americano e as abordagens

Muginoski, C. L. Novas Perspectivas para a Historiografia do Cinema Finlandês.

paradoxais de cinematografias nacionais ao redor do mundo. O primeiro, sustentado pelo sistema de estúdios, passou a se especializar em técnicas que favorecessem o cinema para fins comerciais. Assim, desenvolveu uma linguagem própria e ênfase no cinema como entretenimento. O sistema de estúdio é firmemente ancorado no tripé cinematográfico: produção-distribuição-exibição. Desde o estabelecimento da indústria cinematográfica em Hollywood, o fator Distribuição passou a atuar decisivamente no acesso do público às obras (Epstein, 2008). Com o agravamento da II Guerra Mundial, o cinema norte-americano se consolidou no mercado europeu. Após o final desde conflito bélico e o continente devastado, o cinema europeu se voltou, no geral, para questionamentos sociais através de abordagens autorais, marcadas por rupturas de linguagem em obras de baixo orçamento, especialmente impulsionado pelo Neo-Realismo Italiano e com o aval crítico-intelectual fortalecido pela Nouvelle Vague. O mesmo se deu em países escandinavos, com grande ênfase na Suécia e na Dinamarca. As cinematografias nacionais passam a se apoiar na estética para criar um status de arte, de cinema crítico e criativo, para diferenciar-se do cinema “comercial”

norte-americano, com o qual não podem competir economicamente. Tal embate contribuiu para o impulso da supervalorização formal entre os realizadores europeus, aliado à expansão de festivais e mostras de cinema com júri crítico-acadêmico no continente, o que paulatinamente passou a permear a comunidade científica.

A soberania do poder pela estética no cinema europeu não obteve adesão na Finlândia, cuja historiografia do cinema entrou em descrédito acadêmico por apresentar constantemente meios de abordagem díspares da “forma de cinema artístico europeu” e especialmente em relação à produção aos seus vizinhos escandinavos. Assim surgiu uma presença-ausente do cinema finlandês na historia do cinema mundial: existe temporalmente por tanto quanto as demais cinematografias, mas a maioria dos pesquisadores não a estuda, como se o cinema finlandês fosse ausente.

Analisando empiricamente grande parte das obras finlandesas de maior expressividade local no século XX - de acordo com o Suomen Elokuvasäätiö (2001- 2011): Pahat Pojat (Os meninos maus, 2002); Äideistä Parhain (A melhor das mães, 2005); Matti: Elämä on ihmisen parasta aikaa (Matti: a vida é o melhor momento de um homem, 2006); Musta Jää (Gelo Negro, 2007); Suden Vuosi (O ano do lobo, 2007);

Kielletty Hedelmä (Fruto proibido, 2009); Napapiirin Sankarit (Heróis do círculo polar ártico, 2010) e Miesten Vuoro (Vez dos homens, 2010) – um padrão se delineia:

embora a estética remeta aos moldes norte-americanos, a temática é estritamente voltada para questões da identidade e da cultura finlandesa na contemporaneidade.

Verifica-se que tais obras exploram fortemente recursos discursivos simbólicos de elementos nacionais, o que torna esta cinematografia culturalmente hermética, sendo necessários conhecimentos da trajetória histórica e cultural da Finlândia, especialmente do pós-guerra, por parte dos pesquisadores, para que uma análise

Muginoski, C. L. Novas Perspectivas para a Historiografia do Cinema Finlandês.

Anais do 7º Seminário de Pesq. em Artes da Faculdade de Artes do Paraná, Curitiba, p. 60-63, jun., 2012.

consistente possa emergir. Simultaneamente, esta abordagem favorece o diálogo com o público local por meio de identificação.

CONCLUSÃO

A pesquisa questiona a desvalorização o cinema finlandês, negligenciado pela comunidade científica pela sua suposta baixa relevância estética e sua abordagem

“comercial”, como se fosse uma “verdade absoluta”. O poder de afirmação legitimado pela titulação cristalizou uma opinião que se expandiu – mas é preciso ressaltar e tornar consciente que o trabalho epistemológico e teórico não é e nem deve ser neutro.

Toda sociedade de produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e distribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade. (...) Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo (FOCAULT, 2010, p. 8-44).

A importância da teoria é evidenciar que diferentes perspectivas variam de acordo com abordagens selecionadas, metodologias, recortes temáticos e documentos. O pensamento pós-moderno busca acabar com “tradições”, busca a ruptura. A academia é um lugar estabelecido pela modernidade que se constitui de saber e poder. Esta pesquisa busca investigar o porquê o sucesso “comercial” do cinema finlandês é visto como “tabu” na academia, como sistema de exclusão que atinge o discurso. A pesquisa encontra elementos que evidenciam que o cinema finlandês é culturalmente hermético: embora a densidade de abordagem restrinja o interesse dos pesquisadores, este cinema não deve ser visto como inferior as demais cinematografias.

REFERÊNCIAS

EPSTEIN, Edward Jay. O Grande Filme. São Paulo: Summus Editorial, 2008.

FOCAULT, Michel. A Ordem do Discurso – aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. São Paulo: Edições Loyola, 2010.

HILLIER, Jim (org), MALMBERG, Tarmo; BAGH, Peter von; et al. Cinema in Finland.

Londres: British Film Institute, 1975.

SUOMALAINEN ELOKUVASÄÄTIÖ (SES). Statistics. Helsinki: 2011.

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