“por ouvir dizer”
A notícia, oficializada no dia 14 de janeiro de 1808 e ampliada de boca em boca pela cidade do Rio de Janeiro, de que a Corte portuguesa “para poupar-se ao furor das hostes napoleônicas” (CRULS, 1965:287), estava a caminho do Brasil, fez com que a administração colonial, no caso a cargo de Dom Marcos de Noronha, Conde dos Arcos, o último dos Vice-Reis, dirigisse seus esforços para receber condignamente a Rainha, o Príncipe de Portugal e sua comitiva, se não com o luxo a que estavam habituados, pelo menos de modo a garantir o conforto condizente com a situação de pessoas tão ilustres.
Enquanto o Vice-Rei ultimava seus preparativos, foi surpreendido com a notícia de um acidente marítimo sofrido pela Frota Real – uma tempestade assolou a frota dos Reis durante a travessia, retardando sua marcha e separando os navios em dois grupos – o que lhe permitiu ter mais tempo para levar a cabo, e com melhor êxito, as medidas planejadas para a real recepção.
Um dos navios, aquele em que viajavam a rainha de Portugal, Dona Maria I, o Príncipe Dom João e sua mulher, a Princesa Dona Carlota Joaquina, aportou na Bahia em 22de janeiro. O outro grupo chegou antes ao Rio de Janeiro, no dia 17, trazendo uma princesa e três infantas que não quiseram desembarcar, preferindo esperar, preocupadas que estavam com o destino do restante de sua família.
Por causa desse incidente foi na cidade “do Salvador” (SCHWARCZ, 2002) que se deu o segundo encontro dos portugueses com essa Outra colônia e com esses Outros do Brasil, que a Metrópole Portuguesa administrava e controlava de longe. Encontro que, como o primeiro, o do Descobrimento, veio a produzir profundas transformações sociais, políticas e econômicas no Brasil e na vida cotidiana de seus habitantes.
Se, em 1500, o primeiro deslumbramento foi produzido pela natureza belíssima e selvagem e por seu exótico povo nativo, desta vez também a natureza chamava a atenção só que, naquele momento, servindo como moldura da própria cidade.
Observando do mar, uma cidade magnífica estava disposta ao longo da cumeeira e na declividade de uma alta e íngreme montanha (...). O solo vermelho combinava com o telhado das casas, bem como com o pitoresco dos fortes e o próprio formato da baía, com suas ilhas e promontórios, tudo completava um panorama tão encantador que até doía ver. (SCHWARCZ, 2002: 226).
Esse olhar embevecido e encantado sofreu um certo abalo quando o príncipe e sua comitiva desembarcaram, pois estavam vestidos com roupas mais apropriadas para o inverno europeu e sofreram muitíssimo com o calor e também com a curiosidade da população local que, igualmente espantada, se acercava daquela gente diferente com vestimentas tão estranhas.
Do mesmo modo, os recém-chegados também não entendiam o que se passava diante de seus olhos: achavam bizarra e repugnante a roupa leve e ligeira daquelas pessoas, com os pescoços descobertas e sem nenhum lenço a cobri-los, os vestidos sem mangas de cores claras e os cabelos das mulheres, um tanto despenteados.
Mas foram sobretudo os negros escravos, a maioria da população da cidade, que mais provocaram estranhamento. Estavam por toda a parte, desempenhando uma grande variedade de atividades: eram barbeiros, carregadores, artífices, amas e babás, dentre outras. Também causava espanto a forma como o regime da escravidão se expunha a eles, pois viam, continuamente, os negros serem açoitados nas ruas e também fazendo as vezes de animais de carga, carregando liteiras e cadeirinhas que transportavam senhoras brancas e levando cargas descomunais em seus ombros nus, o resto do corpo coberto apenas com andrajos do que já fora algum tipo de roupa.
Suas danças, seus instrumentos musicais – a maior parte deles de percussão –, e os alimentos que vendiam, estranhos para o gosto europeu, tais como abarás, acarajés e aluás (aos olhos dos portugueses, estes mais pareciam uma água suja), nas ruas estreitas, sujas e apinhadas, geravam assombro.
Assombro produzido em menor grau pela arquitetura da cidade, na medida em que Lisboa nesse quesito não era muito diferente de Salvador mas, principalmente, pelo conjunto que as gentes, as cores, os hábitos e os cheiros formavam, redundando em um universo bastante particular e desconhecido dos europeus.
Então, entre cerimônias litúrgicas, almoços, jantares, visitas aos notáveis da terra e passeios pelos arredores da cidade, o Príncipe Dom João, em 28 de de janeiro, assinou sua primeira medida régia no novo Império Lusitano: a Carta de Abertura dos Portos às Nações Amigas que permitia a importação de todos os gêneros, fazendas e mercadorias transportadas em navios portugueses ou estrangeiros, desde que pertencessem às potências que estivessem em paz e
harmonia com Portugal e o Brasil. Foi igualmente permitida a exportação de gêneros e produtos coloniais, exceção feita à comercialização do pau-brasil.
Com esse decreto o Príncipe cumpria uma parte importante do tratado inicialmente feito com a Inglaterra que já previa esse acerto pois, em função da guerra com a França, a maioria dos mercados europeus se fechava para o Reino Britânico. Some-se a isso, ainda, o fato de que Portugal, ocupado pela França, não poderia mais receber os bens extraídos da colônia brasileira.
A abertura dos portos às nações amigas, e a Inglaterra sendo a mais amiga, foi o primeiro grande passo para retirar o Brasil de seu isolamento colonial. Daí para frente seria possível receber navios de outros lugares sem o medo e o controle colonial anteriores e também enviar navios do Brasil para outros portos da Europa (com exceção da França e da Espanha).
A liberdade de comércio foi assim conseguida, embora ela deva ser analisada mais como um fato inevitável em função das relações políticas e comerciais estabelecidas anteriormente com a Inglaterra, do que como uma benevolência do Príncipe Regente para com sua Colônia. Com isso a Inglaterra passou a exportar suas mercadorias em quantidades que ultrapassavam a capacidade de absorção do mercado brasileiro, garantindo sua hegemonia sobre ele, o que foi reforçado pelo Tratado de Comércio e Navegação assinado em fevereiro de 1810.
Este tratado privilegiou a taxação tarifária sobre o comércio exportador inglês para o Brasil, colocando-o com preços mais competitivos até mesmo em relação a Portugal, cujos produtos chegaram a pagar mais do que os ingleses para entrar no
Brasil37. Entre os efeitos desse tratado, um foi extremamante funesto para o Brasil:
foi o de retardar o desenvolvimento da indústria nacional, com a consequente dependência econômica da Inglaterra que perdurou por todo o século XIX.
E assim, na primeira leva de exportação inglesa, vieram produtos em total desarmonia com o clima do Brasil: patins de neve, bacias de cobre, cobertores de lã e fogões para calefação interna. Mas assim mesmo eles foram rapidamente consumidos e utilizados para outras finalidades: as lâminas dos patins de neve se transformaram em trincos de portas, as bacias, em escumadeiras para os engenhos de açúcar e os cobertores de lã foram para as zonas de mineração, pois suas malhas grossas serviam para reter as partículas de ouro. Posteriormente os ingleses acertaram a mão e exportaram para cá os já então famosos tecidos ingleses, as porcelanas, fumo, chumbo, cobre, zinco, pólvora, queijos, manteiga e outros. (CRULS, 1965)
A par do domínio mercantil inglês, outro tratado, o da Paz e Amizade, proibia a entrada da Inquisição no Brasil, indicava a abolição gradual do tráfico de escravos e, ainda previa mais vantagens para que o comércio britânico no Brasil se firmasse, no tocante à compra e ao corte de madeira, sem concorrência perigosa com outros países, inclusive com Portugal (SCHWARCZ, 2002). O Príncipe Regente assinou esse tratado sem pestanejar, provavelmente porque, com isso, a Corte Portuguesa poderia amortizar suas dívidas com sua principal fiadora, a Inglaterra38 e colocar o
37 Segundo PRADO JÚNIOR (1998:128) pelo tratado de 1810, a taxa geral de importação que era de 24%, foi reduzida para 16 %, inclusive para Portugal, enquanto a paga pelos produtos ingleses era de 15%, o que mostra o favorecimento do mercado inglês, em detrimento ao de Portugal.
38 Afinal, a vinda de Dom João e da Corte Portuguesa para o Brasil foi escoltada por navios ingleses:
“os oito navios de guerra eram equipados com baterias de canhões que variavam entre 64 e 84 peças, a maioria com calibre 74. As fragatas estavam armadas, cada uma, com 32 ou 44 canhões, os brigues tinham 22 peças cada um, e a charrua, que transportava mantimentos, 26 canhões.”
(SCHWARCZ, 2002:216)
Brasil como um mercado aberto, mesmo que fosse, ainda, prioritariamente para os comerciantes ingleses. Quanto à questão da abolição do tráfico de escravos, sabemos que, naquele momento, foi mais um ato “para inglês ver”.
E nesse vai-e-vem de tratados e acordos o país inicou sua saída da reclusão colonial e se alinhou com a discussão sobre o fim do tráfico escravagista, embora continuasse dependente comercial e economicamente, não mais de Portugal, mas da Inglaterra.
Voltemos, então, à viagem da Corte rumo ao Rio de Janeiro onde chegou em 7 de março, embora seu desembarque só se desse na manhã posterior. No dia da chegada o povo, já avisado, ocupou as praias e morros de onde pudesse avistar a entrada da frota na Baía de Guanabara. No dia seguinte esse mesmo povo correu para o Terreiro do Paço para ver, em carne e osso, a Rainha, o Príncipe e toda a Corte.
O Conde dos Arcos, nosso último Vice-Rei, tinha preparado a cidade para receber a Corte: mudou-se do Paço dos Vice-Reis (na atual Praça XV), que tinha sido caiado, reformado e arrumado com o fausto possível para ser a residência da família real; transferiu o Tribunal da Relação e a Casa da Cadeia, situados no pavimento térreo do Paço e, deste pavimento, retirou as grades e abriu os portões, de modo a permitir o deslocamento de carruagens. Também a Câmara, a Cadeia e o Convento do Carmo foram desocupados para atender a comitiva real e mandou construir vários passadiços para ligar esses prédios entre si, pois era impensável que tão augustas pessoas sujassem seus pés nos buracos e ruas lamacentas.
Outra medida foi a de apelar para a lei das aposentadorias, que já existia desde os tempos coloniais, e era utilizada pelos funcionários reais quando se
deslocavam em viagens oficiais de inspeção ou outro motivo qualquer. Assim, foi decretado que os proprietários dos melhores prédios próximos as Paço seriam obrigados a deixá-los livres para abrigar os fidalgos, militares, negociantes, funcionários e outros que viessem no cortejo real.
Dom Marcos também solicitou o auxílio dos governadores de Minas Gerais e São Paulo, colaboração que veio sob a forma de mantimentos de modo a complementar a alimentação dos que chegavam. Também o Senado da Câmara se fez presente, decretando uma programação de festejos religiosos e civis por oito dias consecutivos, bem como estabelecendo a manutenção da iluminação durante o período em que perdurassem as festividades.
Esta última medida se revestiu de um caráter excepcional e necessário, pois a iluminação pública da cidade era absolutamente precária. Até 1801 eram os setenta e dois oratórios existentes que iluminavam as ruas, quando foram complementados por lampiões alimentados por azeite de peixe mandados instalar pelo Vice-Rei Conde de Rezende, ficando a cargo de negros escravos o trabalho de acendê-los e conservá-los. Esse serviço, considerado da pior qualidade, era caro e nem sempre funcionava a contento e, especialmente nas noites de luar, não era ativado e “O Rio de Janeiro ficava ‘au clair de lune’”. (MORALES DE LOS RIOS, 2000:118).
Entretanto, a chegada da Corte levava a que as escravas costureiras trabalhassem duro no afã de cumprir as exigências de suas senhoras por roupas novas e os comerciantes tinham que responder aos pedidos por veludos, damascos, jóias, galões, cabeleiras, coletes de cetim bordados, chapéus armados, fivelas de ouro e prata e meias de seda. Com tão grande demanda, os preços desses produtos atingiram níveis nunca vistos até então.
De qualquer modo, para a população todo esse esforço valia a pena, pois o importante era não fazer má figura e mostrar que se vivia na colônia da mesma forma que na Corte (SCHWARCZ, 2002).
No dia da chegada a cidade parou para receber os ilustres visitantes. Lojas e repartições públicas fecharam, residências ficaram vazias, sinos repicavam e as fortalezas, enfeitadas com bandeirolas, flâmulas e galhardetes, disparavam tiros de fuzis e salvas de canhões. A festa era geral e o barulho, ensurdecedor. Janelas foram enfeitadas e o povo esperava ansioso pelas touradas, cavalhadas, récitas, músicas e danças. Daí em diante, e por oito dias, a capital do Brasil fervilhou em festas, foguetório, com o soar de clarins e o rufar de seus tambores.
Nas palavras de Luis Gonçalves dos Santos, o padre Perereca:
Eram duas para as três horas da tarde (...) parecia que [o sol] este astro brilhante, apartando a si todo o obstáculo, como se regojizava de presenciar a triunfante entrada do primeiro soberano da Europa na mais afortunada cidade do Novo Mundo, e queria ser participante do júbilo, e aplausos de um povo embriagado no mais veemente prazer (apud SCHWARCZ, 2002:240)
As festas e homenagens prosseguiram nos dias seguintes, finalizando em 15 de março, com a repetição de cerimônias religiosas e profanas e tendo, como ápice, a graça do beija-mão, inaugurando, em nossas terras, esse cerimonial de submissão à realeza que remonta aos rituais da Idade Média: os vassalos, o povo brasileiro39, demonstrando sua fidelidade aos reis, repetindo esse ritual enquanto outros países, como a França e os Estados Unidos da América, já haviam atingido outros patamares políticos.
39 O termo brasileiro aparece em documentos oficiais na última metade do século XVIII e início do XIX de forma esparsa, referindo-se aos naturais da colônia para diferenciá-los dos portugueses que viviam no Brasil. Dom João, após sua vinda para o Brasil, passou a usá-lo com mais frequência como forma de se dirigir aos habitantes do Brasil em geral (CAVALCANTI, 2004:110).
Foi a partir desse momento que a Corte Portuguesa travou conhecimento e inicou sua convivência com os descendentes daqueles que, de acordo com a política colonial dos três séculos anteriores, foram degredados, banidos, expulsos de Portugal: os criminosos, os penitenciados pela Inquisição (cristãos novos, prostitutas, feiticeiras, sodomitas, heréticos), os vadios, os ciganos, alcoviteiros e agressores que aqui se miscigenaram com os índios nativos e os negros importados da África.
Entretanto, a recepção alegre e barulhenta não impediu que, bem depressa, a Comitiva Real fizesse comparações com Lisboa, pois o Rio de Janeiro – apesar dos esforços do Vice-Rei e da população – em tudo diferia de sua terra natal: era uma cidadezinha colonial, exótica, emoldurada por montanhas e uma baía de águas mansas, com monótonas casas e, além dessas, uma arquitetuta religiosa/militar repleta de igrejas, conventos e fortalezas e sem nada da suntuosidade e dos amplos espaços dos palácios portugueses.
Por esse tempo o perímetro urbano totalizava 76 logradouros públicos: 46 ruas, 4 travessas, 6 becos e 19 campos ou largos, onde moravam 60.000 pessoas, dois terços das quais eram negros livres ou escravos.
A essa população vieram se somar os 15.000 componentes da comitiva real40 que, além da Corte propriamente dita, com seus áulios e flâmulos, trouxe também:
mordomos, estribeiros, gentis-homens, esmoleres, confessores, guarda-roupas, veadores, guarda-jóias, fiéis, camareiros, servidores de toalha, damas de honor, açafates, mansuelas, moças de lavar e retretas, figuras da nobreza, do clero,
40 CAVALCANTI (2004) afirma ser esse número exagerado. A partir de suas análises sobre a relação dos passageiros dos navios que, segundo ele, eram 21 e não 40, considerou que o número de pessoas embarcadas, não ultrapassava 1000 (mil) no total.
ministros cirurgiões e funcionários, todas pessoas de posse e de certa categoria social que não se contentariam com pouco.
E Dom João, junto com seu séquito, trouxe também um projeto de construir, no Brasil, a capital do Império Português. Com ele vieram suas carruagens, seus manuais de civilidade européia e seus livros, que aqui só chegariam em 1811 e só foram totalmente organizados como Biblioteca em 181441.
Cada membro de seu séqüito veio com seu mobiliário e suas alfaias; as repartições com seu papelório e a Corte com suas arcas repletas de muitos milhões de cruzados em valores públicos e privados.
Para acomodar todas essas gentes não bastaram somente as aposentadorias dos prédios próximos ao Paço. Foi necessário ampliar a aplicação dessa lei de modo a tornar disponíveis imóveis em outros espaços da cidade, o que passou a ser feito de forma sistemática e inescrupulosa, sem o pagamento das indenizações previstas na lei, gerando sobressaltos e indignação na população. As iniciais P. R. – Príncipe Regente – colocadas nas portas das casa solicitadas logo foram transformadas pelo povo em “ponha-se na rua”, com o morador, de trouxa nas costas, partindo pelas ruas em busca de um novo teto.
Diante da iminência desses despejos a que todos estavam sujeitos, houve quem:
(...) se defendesse simulando ou mesmo realizando obras perfeitamente dispensáveis em suas residências. Obras eternas, como as da Sé, e nas quais andaimes passavam a constituir parte integrante das fachadas, paredes que nunca mais se levantavam ou derrubavam, nos telhados havia sempre um ou outro reparo a fazer. (CRULS, 1965:295)
41 Essa Biblioteca Real foi o núcleo originário da atual Biblioteca Nacional. Em 1822 virou Biblioteca Imperial e, em 1876 (pelo Decreto n. 6141), recebeu a denominação de Biblioteca Nacional que mantém até hoje.
Além disso, em função das simpatias, antipatias e desejos da família Real, foi imperioso proceder à realocação dos prédios disponíveis para seu uso. Para Dona Maria I, Rainha de Portugal, foi destinado o Convento das Carmelitas; Dona Carlota Joaquina estabeleceu-se no Paço Real com suas filhas menores e Dom João instalou-se, com seus filhos Dom Pedro, Dom Miguel e Dona Maria Teresa na
“Chácara do Elias”, imóvel situado em São Cristóvão que Elias Antônio Lopes, rico comerciante português, ofereceu ao príncipe. A separação do casal de príncipes teve duas justificativas: a primeira, oficial, foi que Dona Carlota encontraria mais facilidade para educar as filhas pequenas no ambiente central da cidade. A segunda, não tão oficial, afirma que a primeira seria uma desculpa para esconder os desentendimentos do casal.
Assim, com exceção do Príncipe Dom João, a maior parte da comitiva real ficou instalada na região que formava o núcleo central da cidade desde sua fundação.
Após a fase inicial de acomodação e tendo sido organizada a questão dos alojamentos, era preciso colocar em andamento a máquina administrativa. De acordo com Schwarcz (2002), a intenção de Dom João era instalar um novo império no Brasil de onde as outras colônias portuguesas continuariam a ser governadas.
Para deslanchar esse processo o príncipe tratou de organizar seu primeiro ministério, o de Negócios Estrangeiros e da Guerra, a fim de deixar bem claro para os outros reinos europeus que as ordens da Corte portuguesa partiriam da colonia brasileira.
Daí em diante o Brasil passou a ser o centro dos negócios do reino português, o que viria a dinamizar a vida diplomática do país e potencializar sua retirada do anonimato a que estivera relegado durante o período colonial.
O restante da máquina administrativa, por sua vez, foi transplantado para cá, tendo Lisboa como modelo e com igual espírito de rotina burocrática. Todos os funcionários foram alocados mantendo os postos que exerciam em Portugal e, para aqueles que não pertenciam aos quadros do funcionalismo português, outros cargos foram criados de acordo com suas condições, préstimo e capacidade, como forma de recompensá-los pelos sacrifícios e riscos que correram ao acompanhar o príncipe em tão perigosa viagem.
Para sustentar e manter tal máquina administrativa e suportar os gastos de uma Corte que queria viver com os mesmos padrões e privilégios da Metrópole, os impostos foram aumentados e recaíram sobre a população brasileira.
Organizar o império seria reproduzir a estrutura administrativa portuguesa no Brasil e amparar os desempregados. O eixo da política era o mesmo, secularmente fundido: o reino deveria servir à camada dominante, ao seu desfrute e ao seu gozo. (FAORO, 1984:251)
E assim foi, daí para frente, de acordo com a historiografia sobre essa época.
O primeiro ano de Dom João no Brasil foi extremamente ativo, pois colocou em funcionamento os setores que ele e seus assessores consideravam como principais: segurança e polícia, justiça, fazenda e área militar, os quais, de alguma maneira, já existiam no Brasil desde os tempos coloniais, na medida em que a administração e o controle da Colônia eram orquestrados pelas Ordenações Filipinas.
Naquele momento a implantação desses setores se restringiu a sobrepor, fundir e adequar uma administração burocrática/administrativa sobre outra, deixando bem claro que a lei é um privilégio do Rei (no caso, o príncipe Regente), que pode elaborá-las e revogá-las quando for conveniente que assim seja feito. Dessa forma, a colônia tornava-se cada vez mais uma Metrópole, enquanto esta, na medida em que recebia cada vez menos a renda dos impostos coloniais, se empobrecia e se assemelhava, mais e mais, à colônia.
Apesar da abertura dos portos ter colocado o Brasil em contato com o resto de mundo e, assim, ter se tornado receptivo a trocas com países europeus, nem por isso o governo português abriu uma mínima possibilidade de estabelecer algum contato com as ideologias libertárias e revolucionárias que grassavam na Europa, na América espanhola e nos Estados Unidos. Continuava, claro, em seu firme propósito de manter seu território americano e, principalmente, seu trono, seu reino.
Mas as ameaças à soberania portuguesa não provinham somente do ideário iluminista europeu. Estas idéias já estavam presentes no Brasil, ainda que de forma incipiente, desde o final do século XVIII, e se tornaram claramente explícitas nos processos revolucionários em curso nas colônias da América espanhola. No mesmo ano da chegada da Corte portuguesa no Brasil, Simon Bolívar tomava o poder em Caracas, enquanto estouravam rebeliões no Equador e na Bolívia com vistas à sua independência da Espanha.
Se, até o século XVIII, o Rio de Janeiro e o Brasil forjaram mecanismos defensivos em função do temor de invasões externas, naquele momento o medo se dirigia para as revoltas internas que poderiam colocar em jogo a soberania portuguesa, visto estarem dela mais próximas.